junho 10, 2026

Donas de Brasília

DONAS DE BRASÍLIA
Hayton Rocha


Meu amigo doutor Izaías pertence a uma espécie em extinção: a dos homens que ainda acreditam que uma carta publicada no jornal pode produzir algum constrangimento nas autoridades.

É uma fé respeitável. Há quem acredite em horóscopo,  em jogo de búzios, em saci-pererê. Ele acredita em denúncia ao Correio Braziliense.

Mora na Asa Sul e adquiriu, nas caminhadas matinais pelas superquadras, uma convivência pacífica com as saúvas. Não chega a ser amizade. É mais uma relação entre pagador de impostos e potência ocupante em ascensão.

Dias atrás resolveu escrever àquele jornal denunciando o avanço dos formigueiros sobre Brasília. O texto vinha redigido em tom jurídico. Para ele, tratava-se de um caso típico de esbulho possessório praticado por organizações subterrâneas altamente disciplinadas.






Ele lembra que Brasília foi concebida por Lúcio Costa para os automóveis. Mas basta caminhar hoje pela Asa Sul para perceber que o projeto original sofreu adaptações. As novas urbanistas da cidade não usam pranchetas. Usam mandíbulas.

Onde antes havia trilhas para pedestres, surgiram verdadeiras rodovias de transporte de carga. É um fluxo incessante de folhas e galhos avançando em fila indiana, capaz de humilhar qualquer secretaria de obras.

O Eixão, perto delas, parece um experimento arquitetônico fracassado. Cada saúva carrega sua carga com espírito de equipe, sem greve, sem reunião para discutir a necessidade de novas reuniões. Apenas trabalham.

O resultado aparece ao amanhecer. Árvores inteiras surgem nuas, vítimas de um assalto botânico durante a madrugada. Sob as superquadras, o solo vai adquirindo a consistência de um queijo suíço. Em certos trechos, se um cidadão mais encorpado pisar em falso pode inaugurar involuntariamente uma estação do metrô.

Meu amigo pergunta: onde está o Poder Público? É uma pergunta injusta...

O Poder Público anda ocupado com problemas maiores: crises fiscais, déficits bilionários, hospitais superlotados, transporte precário e outras tragédias expressas numa infinidade de siglas cuja simples pronúncia já provoca gastrite.

Diante dessas encrencas, uma formiga carregando um pedaço de folha parece mais uma cena poética. Ali reside o segredo delas. Compreenderam antes dos homens que os grandes perigos raramente chegam fazendo barulho. O cupim não derruba casa com explosões. Derruba com competência e obstinação.

Mas doutor Izaías, operador experiente do Direito, reconhece que os tempos mudaram. Já não se deve colocar o ser humano no centro do universo. Hoje se discute o direito dos animais, a proteção dos ecossistemas e a dignidade das diversas formas de vida.

Tudo muito justo. As saúvas também têm seus direitos. O problema começa quando o legítimo exercício de uma liberdade evolui para soberania territorial.

Porque uma coisa é coexistência ecológica. Outra é uma colônia anexar uma superquadra inteira, estabelecer corredores logísticos próprios e exercer domínio efetivo sobre árvores, calçadas e jardins. Dessa forma, argumenta ele, a omissão administrativa começa a flertar com a cumplicidade.

No encerramento da carta, faz um alerta à Secretaria do Meio Ambiente. Diz que a invasão já ocorreu. Que houve trânsito em julgado. Que a posse definitiva foi concedida às formigas. E que, mantido o atual estado da arte, não demorará para reivindicarem assento no Conselho Ambiental do Distrito Federal.

Achei a denúncia bastante consistente. Faltou apenas adaptá-la aos tempos modernos com a velha advertência de Auguste de Saint-Hilaire: ou Brasília acaba com a saúva ou a saúva acaba com Brasília.

Porém chego a uma conclusão perturbadora. A conquista já aconteceu.

Nenhuma espécie domina um território apenas pela força. Domina pela organização, pela capacidade de ocupar espaços, distribuir tarefas, explorar recursos e construir estruturas invisíveis para quem vive apenas na superfície.

Nesse aspecto, as formigas exibem desempenho invejável.

Trabalham sem discursos nem comissões especiais encarregadas de avaliar a conveniência de futuras comissões. Não disputam protagonismo, não cultivam vaidades institucionais. Simplesmente avançam.

Quando uma árvore desaparece, não procuram culpados. Carregam as folhas. Quando surge um obstáculo, não convocam audiência pública. Contornam. Quando decidem ampliar território, não apresentam projeto de lei. Escavam.

Foi assim que ninguém percebeu o momento exato da mudança de poder. Impérios raramente caem num único dia. Primeiro mudam os símbolos. Depois mudam os hábitos. Por fim, mudam os donos da terra.

Os homens continuam assinando decretos e concedendo entrevistas. Mas isso já parece mera formalidade administrativa. As verdadeiras proprietárias estão instaladas alguns metros abaixo.

Diante do fato consumado, proponho uma solução conciliatória: que as formigas permaneçam com Brasília.

Em troca, transfiram a antiga população humana para algum endereço tranquilo do litoral nordestino, com sombra de coqueiros, moquecas bem temperadas e vista permanente para o mar. Afinal, há mares (e marés) que vêm para o bem.

E doutor Izaías sabe que será muito bem-vindo. Aliás, olhando para o que construíram debaixo dos pés dos brasilienses, é fácil concluir que Brasília nunca pertenceu aos homens.

Foram apenas os inquilinos provisórios de uma cidade que as saúvas sempre souberam ser delas.

junho 06, 2026

Minta, por favor

MINTA, POR FAVOR
Hayton Rocha


Já houve uma época em que o futebol ocupava no Brasil um espaço situado entre religião e anestesia coletiva. Copa do Mundo não era apenas torneio esportivo. Era uma suspensão provisória da realidade. Durante algumas semanas o país esquecia censura, fila de INSS, inflação, prestações em atraso e até o tamanho da própria insignificância social.

 

Já falei aqui das artes de Dinho, apelido herdado do pai, um cearense fã de Orlando Peçanha, o elegante zagueiro vascaíno campeão do mundo ao lado do capitão Hideraldo Bellini. 

 

Aos quinze anos, Dinho já trabalhava como office-boy num daqueles edifícios emblemáticos do Setor Bancário Sul, em Brasília. Usava uniforme azul, ganhava pouco mais que um salário-mínimo e atravessava corredores carregando documentos e pastas como quem transporta segredos de Estado. 


Outro dia descobri mais um capítulo de sua biografia.






Era abril de 1978. Na véspera do amistoso entre Brasil e Inglaterra, em Wembley, Dinho resolveu pedir ao chefe uma troca de turno. A Seleção de Cláudio Coutinho preparava-se para a Copa da Argentina e ainda tentava convencer o país de que futebol podia ser explicado por palavras como overlapping, polivalência e outras invenções que pareciam saídas de uma reunião entre contadores e economistas.

 

O chefe perguntou por que ele queria mudar o horário. E Dinho, ainda jovem o suficiente para acreditar que sinceridade produzia compreensão, resolveu dizer a verdade: queria assistir ao jogo da Seleção Brasileira.

 

O chefe era um homem tão sistemático que quando falava parecia montar frases em ordem alfabética. Tinha horror ao improviso, à alegria espontânea e provavelmente a crianças correndo atrás de bola. Ouvi-lo era como ler Diário Oficial com sinusite.

 

Negou o pedido. Disse que futebol era motivo fútil. Existe sempre alguém disposto a chamar de fútil justamente aquilo que nos impede de enferrujar por dentro.

 

Dinho ainda tentou argumentar. Disse que tanto faria trabalhar num turno ou no outro. Arriscou explicar que um amistoso em Wembley tinha relevância histórica para alguém como ele, apaixonado por futebol. Mas o chefe encerrou a conversa com aquela indiferença burocrática típica de pequenos poderes que se acreditam eternos.

 

Na manhã seguinte, resignado, Dinho apareceu normalmente no banco. O jogo começaria às onze da manhã no horário de Brasília.

 

E foi então que, por volta das dez e meia, o alarme de incêndio disparou no prédio.

 

Não era um alarmezinho tímido. Era um urro metálico atravessando corredores, escadas e gabinetes como se o Apocalipse estivesse descendo o Eixo Monumental em direção à Praça dos Três Poderes. 

 

Funcionários evacuaram o edifício às pressas. Alguns desciam correndo em velocidade incompatível com a própria barriga. Outros tentavam manter a classe enquanto carregavam pastas inúteis contra o peito, como se papelada pudesse protegê-los do fim dos tempos.

 

Em 1978, qualquer sirene carregava cheiro de bomba, golpe ou conspiração. O Brasil ainda respirava sob a ditadura militar e havia no ar um medo permanente.

 

O prédio permaneceu interditado até o fim da tarde. Ninguém trabalhou. Mas Dinho viu o jogo.

 

Vinte e cinco anos passaram. O mundo mudou de roupa várias vezes. A ditadura acabou, a União Soviética implodiu, Brasília ganhou mais asfalto e radares eletrônicos do que árvores e Dinho virou alto executivo da empresa.

 

Já o antigo chefe envelheceu migrando de sala em sala, entre reuniões improdutivas e cafezinhos mornos. Existem pessoas que vão sendo lentamente arquivadas pela vida.

 

O destino, que possui um senso de humor mais perverso que muito cronista, um dia colocou o antigo chefe subordinado ao antigo office-boy.

 

Na véspera da aposentadoria, o ex-chefe pediu para conversar reservadamente com Dinho. Sentou-se diante dele quase sem voz. Disse que estava indo embora e provavelmente nunca mais voltariam a se ver.

 

Depois de alguns segundos, fez a pergunta que carregou durante quase três décadas como quem esconde um segredo mal enterrado:

— Foi você quem disparou o alarme naquele dia?

 

Dinho contou que levou alguns segundos olhando para ele. Não porque estivesse escolhendo uma resposta. Mas porque finalmente entendeu algo. Durante todo o tempo aquele homem não carregara uma suspeita. Carregara uma necessidade.

 

Precisava acreditar que alguém tinha jogado sujo. Precisava acreditar que o mundo lhe pregara uma peça. Precisava acreditar que a vida não poderia simplesmente favorecer um garoto apaixonado por futebol. A verdade, naquele momento, tinha perdido a utilidade.

 

Então Dinho sorriu. E resolveu oferecer ao velho chefe uma despedida compatível com toda uma carreira dedicada aos controles, às convicções absolutas e aos manuais de instruções.


Ofereceu-lhe exatamente o que ele procurara durante tanto tempo. Uma mentira. E talvez tenha sido a única verdade que aquele homem conseguiu aceitar. 

junho 03, 2026

Nem que o boi espirre

NEM QUE O BOI ESPIRRE
Hayton Rocha


Nunca botei fé na gramática clássica. Não por culpa dela, mas em razão de minha burrice ancestral combinada com a preguiça de estudar. Sempre tive um pé atrás com palavras que circulam como se verbo e advérbio tivessem sangue azul. Gosto mesmo é da língua viva. A que atravessa gerações feito receita de bolo de vó.

A língua portuguesa falada no Brasil não nasceu em biblioteca. Nasceu em arquibancada, beira de rio, boteco, cozinha, feira livre, fila de padaria e terreiro. Foi sendo costurada às gargalhadas e aos gritos. Por isso sobrevive tão bem. Língua muito certinha acaba morrendo de tédio.

Resolvi cascavilhar a origem de certas expressões populares que escuto desde criança. Descobri que a nossa língua é menos um idioma e mais um cemitério animado de metáforas esquecidas. Cada expressão esconde um cadáver histórico enterrado sob as palavras.

É aí que a cobra vai fumar.


Ilustração: Uilson Morais (Umor)



A expressão nasceu quando muitos juravam ser mais fácil uma cobra fumar cachimbo do que o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial. A cobra acabou fumando. E cerca de vinte e cinco mil almas da Força Expedicionária Brasileira atravessaram o oceano para enfrentar a guerra na Europa.

E o famoso arranca-rabo? Sempre achei que fosse apenas sinônimo de confusão de vizinhança, dessas em que alguém ameaça chamar a polícia enquanto o outro já aparece de peixeira na mão. Descobri que a coisa vem de longe. Dos tempos em que decepar o rabo do cavalo inimigo servia como troféu de guerra.

O mais curioso é que a expressão atravessou o Atlântico para renascer no sertão nordestino. Segundo Câmara Cascudo, cangaceiros arrancavam rabos de cavalos e touros para humilhar coronéis. O orgulho alheio era transformado em troféu do esculacho.

Toda vez que descubro uma dessas histórias imagino o sofrimento de algum gramático mais zeloso. Há gente que não consegue ouvir uma expressão popular sem sacar uma régua para medir desvios.

São os famosos cheios de nove horas. A expressão define o sujeito que transforma qualquer reunião simples num congresso internacional de burocracia. O cidadão não toma café; confere a procedência do pó. Não atravessa a rua; abre processo de deslocamento urbano.

A origem viria do século XIX, quando nove da noite marcava o limite da respeitabilidade urbana. Depois disso, quem estivesse vagando pelas ruas corria o risco de ser confundido com bêbado, ladrão ou poeta, categorias que frequentemente se misturavam.

Esse tipo de criatura costuma despertar antipatia ampla, geral e irrestrita por onde passa. E depois não adianta chorar pitangas.

Ah, as pitangas. Existem teorias para todos os gostos. Uma diz que a expressão nasceu da palavra tupi "pitang", associada à infância. Outra sustenta que a fruta vermelha lembrava lágrimas de sangue. Prefiro imaginar que ninguém sabe ao certo. Mistério também é patrimônio cultural.

Mas aí já são outros quinhentos.

Talvez esta seja uma das expressões mais brasileiras já inventadas. Serve para mudar de assunto, como fazem certos maridos quando a conversa começa a ficar perigosa. Os tais quinhentos podem vir de antigas indenizações pagas por ofensas à nobreza. Aristocrata ofendido custava caro. Pobre ofendido seguia ofendido.

Muitas dessas histórias, aliás, podem ser apenas coisa para inglês ver.

Outra maravilha linguística. No Império, dizia-se que o governo fingia combater o tráfico de escravos apenas para satisfazer a pressão britânica. Fazia teatro. Produzia fumaça para impressionar estrangeiro. Como se sabe, certas tradições nacionais atravessam os séculos com admirável vigor.

Já sair à francesa é ainda mais divertido. Significa ir embora sem se despedir. O detalhe é que, na França, dizem sair à inglesa. Ingleses e franceses passaram séculos terceirizando a falta de educação um para o outro, como vizinhos disputando quem deixou o lixo na porta errada.

E pensar que toda essa confusão verbal desembocou aqui, neste país tropical onde até expressão idiomática pega sotaque.

É isso que mais me encanta no português brasileiro: ele não pede passaporte para ninguém. Mistura boteco com palácio, cangaço com gramática normativa, latim com tupi, sertão com Paris. Faz contrabando de palavras sem medo da alfândega.

No fundo, o idioma falado no Brasil parece com sua gente: contraditório, improvisado e irresistivelmente vivo. Não mora apenas nos livros. Mora na conversa de calçada, no grito do feirante, no rádio de pilha, na reza da benzedeira e no palavrão que escapa depois da topada.

A língua brasileira não caminha. Ginga. Tropeça em palavras indígenas, toma banho de África, fuma charuto com Portugal e termina a noite bebendo café coado numa cozinha sertaneja. Desobedece a regras, inventa atalhos e embaralha tudo.

Vai ver é por isso que o brasileiro nunca precisou falar bonito para sobreviver. Bastou aprender a contar histórias, rir da própria tragédia e seguir adiante.

Nem que a vaca tussa. Ou o boi espirre.