agosto 27, 2025

A coleira invisível

A COLEIRA INVISÍVEL 

Hayton Rocha

 

Terça-feira da semana passada, sete e meia da manhã. Ouvi de longe ela conversando com a amiga por videochamada. A voz era trêmula, mas com aquele tom de quem pede socorro e, ao mesmo tempo, espera compaixão:

– Depois do que passei, já dei por encerrados os Halloweens deste e dos próximos anos! Quase infarto ou sofro um AVC...

– O que aconteceu, criatura? – perguntou a amiga, já imaginando luzes e sirenes cortando o ar, ambulância, bombeiro e polícia disputando espaço na rua.

– O “Velho” iria participar de uma reunião. Chamei o neto pra caminhar, ele não quis. Fui sozinha. No meio do caminho, dois cães enormes – um boxer e um rottweiler – me atacaram, latindo alto e salivando. Paralisei. Só deu tempo virar de costas e rezar três segundos pra Nossa Senhora de Guadalupe levar minha alma pro céu, sem escalas.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)

Ouvindo aquilo, só não me assustei porque ela estava ali a poucos metros, vivinha, contando o ocorrido à amiga. Seria castigo cruel: logo ela, que cuidou de Lobão – um poodle cardiopata e nefropata que nos fez companhia por 18 anos – até o último suspiro, com direito a funeral com “honras de Estado”. 

 

E ela prosseguiu, já convertendo o susto em roteiro de cinema:

– As mãos tremiam como se eu estivesse batendo palmas. Quem já sonhava com a mala nova da viagem de volta ao Brasil... Pensei no pior. Não precisaria mais de mala nenhuma: voltaria noutra, no bagageiro do avião...

 

Do outro lado da tela, a amiga fazia sinais da cruz como se a internet transmitisse bênção em tempo real. Eu, de longe, sorri diante do exagero. A imaginação não tem limites: basta um latido mais grosso e já escolhe a foto do velório, a roupa e até o salmo da missa de sétimo dia.

 

Quando chegou em casa e contou o episódio, todos riram. Disseram que já conheciam as feras. São controladas por uma tal “cerca invisível”. Um fio enterrado no jardim transmite sinal para a coleira: primeiro um apito, depois um choque. Nada letal – ao menos para cães maiores.

 

Nós, humanos sem coleira, andamos cercados por barreiras invisíveis mais impiedosas: contas que nos assombram, impostos que não param de nos morder, senhas que escapam da memória. Às vezes penso que essa tecnologia devia ser adaptada para certos políticos: bastava um apito sempre que rondassem os cofres públicos e, se insistissem, o choque viria não da tomada, mas da vergonha acesa na ficha policial.

 

Ela, porém, não se deu por satisfeita. Quis voltar ao campo de batalha onde quase me deixou viúvo.

– E você, não diz nada? Não acha que deveriam nos avisar dessas feras assassinas?

– Nós não combinamos sair só após a reunião?

– Mas achei que você iria demorar!

– Pois é...

 

Logo ela, que gosta de caminhar de mãos dadas para evitar que uma queda nos entregue de bandeja à ortopedia – joelhos, tornozelos ou o que restar de nossas juntas enferrujadas. Eu, com mais de 100 quilos, não creio que seus 52 me segurem. Mas finjo que acredito em milagres.

 

Ainda assim, reconheço: mãos dadas é como corda de segurança no abismo. Não evita o salto, mas reduz o pânico. Caminhar lado a lado é nosso pacto contra a pressa do tempo – essa fera inquieta que avança sem apito, sem aviso prévio e sem coleira.

 

– Posso não ter sido engolida viva, mas quase tive um troço. Vamos lá comigo, agora... – propôs.

– Tudo bem, vamos. Vai ver essa onda de prender estrangeiro e deportar tá mexendo com o humor de alguns cães por aqui. 

– Lá vem você com suas...

– Calma! Agora você tá protegida pelo seu padroeiro oficial das caminhadas no vale de lágrimas.

 

E fomos. O sol já atiçava o verde das árvores do condomínio, e os cães, indiferentes, cochilavam sob a sombra, quem sabe rindo do susto que haviam causado.

 

Olhei para ela e pensei: há perigos maiores do que boxers e rottweilers. O maior deles é viver sem se dar as mãos, sem fé na coleira invisível que nos protege da pior das feras: a solidão. 

 

E ali, no intervalo entre o susto dela e minha bravata mal ensaiada, pensei: cães latem, mordem e se cansam. O tempo, não. É o único rottweiler que nunca cochila — e quando avança, não há apito, cerca, coleira ou oração que o segure.



 

agosto 20, 2025

Meia dúzia de diamantes

 

MEIA DÚZIA DE DIAMANTES

Hayton Rocha

 

O Vasco alcançou no último domingo uma vitória daquelas que não cabem apenas nas estatísticas, mas se alojam na memória como retrato inesperado da vida. Em pleno Morumbis, diante de mais de 54 mil testemunhas, o time carioca atropelou o Santos de Neymar por 6 a 0 – cinco gols em 16 minutos –, lavando a alma de uma torcida acostumada mais com o fel dos fracassos que com o mel das conquistas.

 


Em algum canto do firmamento, Pelé e Roberto Dinamite devem ter se entreolhado, incrédulos, como dois semideuses apanhados de surpresa pelo improviso dos mortais.

 

O primeiro tempo já trazia presságios de tsunami. Lucas Piton abriu o placar aos 17 minutos e, a partir dali, o Vasco tratou os contra-ataques como um cronista que descobre a palavra certa a encaixar: repetiu, insistiu, até se dar por satisfeito com o enredo. O Santos ainda ensaiou esperança com um pênalti, mas o VAR — essa praga eletrônica que anda matando de ansiedade o torcedor e transformando comemoração em gagueira — anulou o lance por impedimento na origem.

 

Na segunda etapa, não houve piedade. David acertou um voleio de cartilha, Coutinho ampliou com a serenidade de quem assovia um sambinha, Rayan converteu um pênalti que ele mesmo cavou, Coutinho voltou a marcar e Tchê Tchê fechou a conta abrindo um sorriso largo. Foi um massacre com direito a nota de rodapé na história.

 

A torcida santista, ferida na própria honra, virou-se de costas para o espetáculo. Gesto silencioso e ensurdecedor. Não era só protesto: era luto público por um time que, no segundo tempo, assistiu ao adversário dançar sem jamais encontrar o compasso. No fim do jogo, Neymar, chorando e sendo consolado por Fernando Diniz — treinador vascaíno — parecia a encarnação do improvável: a estrela mundial, reduzida a criança perdida no recreio, amparado pelo professor.

 

Confesso: fazia muito tempo que não via um nocaute tão impiedoso numa luta entre dois gigantes. Lembro de quando, aos 14 anos, vi pela TV o Botafogo aplicar uma indigesta meia dúzia no Flamengo, presente de aniversário de 77 anos do rubro-negro. Jairzinho, que marcou três vezes, fez um deles de letra que mereceu uma manchete inesquecível: “Na década da alfabetização, o Furacão mete um gol de letra no Flamengo.”

 

Nove anos depois, em 1981, o Flamengo de Zico devolveria a fatura: 6 a 0 no Botafogo, no “Jogo da Vingança”. Eram tempos em que a rivalidade ainda tinha certo romantismo — o ódio ficava restrito às arquibancadas, e a vingança podia esperar nove anos. Desde então, raras vezes vi um gigante machucar o outro com tamanha crueldade. Até o último domingo.

 

Porém o que mais me chamou atenção não foi o placar, e sim uma coincidência pessoal. Naquela tarde, recusei o convite de minha neta para acompanhá-la na compra de material escolar, aqui no hemisfério Norte. Foi por ela que, onze anos atrás, acelerei a aposentadoria para ajudá-la nos primeiros meses de vida. Foi a ela também que ensinei a contar nos dedos ao som da cantiga infantil: “Mariana conta 1, é 1, é Ana, viva Mariana...” — até o 10, como se a vida coubesse inteira na soma desses números.

 

Expliquei que ficaria em casa para ver o Vasco jogar, mesmo temendo um castigo dos céus. Afinal, Neymar estava em campo, buscando provar que ainda tem querosene na lamparina para voltar à Seleção. O Morumbis lotado parecia palco ideal para sua apoteose, e eu já me preparava para o possível vexame. Mas quando minha neta voltou, feliz, trazendo cadernos e livros, eu, incrédulo, revia o placar de 6 a 0. Foi inevitável pensar numa paródia da cantiga: “E o Vascão já fez 1, é 1... E o Vascão já fez 2, é 2...” — até chegar ao 6. Não me atreveria a cantar até 10, pois aí já seria esculacho.

 

O bom de ser vascaíno ultimamente é não carregar mais a ilusão de levantar taças todo ano. Aprendemos a celebrar pequenas conquistas, como quem guarda conchinhas na beira da praia, sabendo que a maré mais cedo ou mais tarde levará tudo embora. Mas domingo não foi conchinha: foi pérola rara, reluzindo como meia dúzia de diamantes.

Quando minha neta voltou da papelaria, não fui eu a ensiná-la de novo a contar. Mas foi ela quem me fez lembrar: às vezes a vida também sabe somar seis, mesmo quando muitos só esperam zero. 

agosto 13, 2025

João vive. Viva!

JOÃO VIVE. VIVA!
Hayton Rocha


Em Copacabana, onde a maresia corrói metais, mas conserva memórias, vive João Cândido de Lima Neto. Desde fevereiro de 1949, quando trocou o expediente no Banco do Brasil pelos passeios matinais entre o Forte e o Leme, João caminha pelas calçadas como quem relê capítulos de um livro cujo final só ele sabe. Já são 100 anos de prosa e verso — e o enredo, veja só, ainda se escreve com graça e espanto.

Figura carimbada do bairro, virou personagem de uma edição especial de O Globo sobre centenários cariocas. Ganhou manchete não apenas por atravessar um século em pé, mas por ser raiz invisível da cidade — dessas que não aparecem nas fotos, mas sustentam o que nelas floresce. Um alicerce discreto, carregando a alma do lugar sem alarde nem holofote.


Reprodução/O Globo - Fotografia: Guito Moreto

Na entrevista, falou da Copacabana quase rural, das noites apagadas pela guerra e do fiscal de praia que só liberava banho entre 14h e 16h. Imagine só: pedir licença para mergulhar no Atlântico! A paranoia era tanta que até o pôr do sol parecia precisar de crachá. João conta isso com um riso discreto, ajeitando o chapéu de feltro marrom, como quem carrega no bolso as chaves do tempo — e ainda sabe onde cada uma se encaixa.

Ele também coleciona apegos particulares — além de moedas raras e carrinhos em miniatura que já lhe renderam menções em revistas britânicas. Guarda gargalhadas de netos, buzinas de bonde, cafés na Colombo, memórias de Sinatra no Maracanã e sorrisos que ficaram presos nas entrelinhas do passado. Caminhou sozinho até os 95. Hoje, ladeado por cuidadora, desfila sua elegância centenária entre jornaleiros, chaveiros, porteiros e pipoqueiros. Lembra um samba de Cartola ou Noel Rosa: a gente reconhece a letra mesmo sem escutar a melodia.

Tem três filhos, quatro netos, três bisnetos e uma curiosidade sem freio. Diz a filha, Renata, que o segredo está nos livros. Ou nos passos. Ou, quem sabe, no dom de continuar achando graça onde já não há tanta novidade. Um talento singular: manter-se jovem sem precisar parecer — talvez o mais subversivo dos gestos num mundo viciado em juventudes performáticas.

Penso nisso tudo e me pego imaginando o que diriam cientistas ao ver João atravessar os últimos 100 anos com essa leveza. 

Justamente na página ao lado da reportagem, um geneticista de Harvard, David Sinclair, crava: “A primeira pessoa que viverá 150 anos já nasceu.” Segundo ele, até 2035 haverá uma pílula capaz de reiniciar nossas células — como quem clica em atualizar sistema na tela da vida. Rugas a menos, mitocôndrias a mais. Versão 2.0 da existência.

Mas de que adianta viver 150 anos se não der pra restaurar as configurações originais de fábrica? Não falo de articulações novas ou do viço da pele. Falo da capacidade de se encantar com a caneca trincada que não vaza, de rir do cachorro desafinado que late pro motoqueiro apressado, de bater à porta do vizinho só pra desejar bom dia, de “beijar o português da padaria”, como diria Zeca Baleiro. E é aí que João, com seu passo miúdo e olhar curioso, parece já ter descoberto o segredo que nenhuma cápsula trará: viver mais é menos urgente que viver melhor.

Se é pra sonhar com longevidade, que seja com espaço interno pra carregar reservas de encantamento — também de indignação, claro. O mesmo João que, certamente, se indigna, à sua maneira, com um país que tolhe a dignidade. Onde a miséria não seja confundida com estatística, a desigualdade não seja banalizada e criança tenha infância, não trincheira. Onde ninguém precise pedir licença pra existir ou prova de endereço pra ser tratado como gente.

Um país que abrace mais e castigue menos. Onde segurança não seja privilégio nem sentença. Onde o futuro não dependa de cápsulas milagrosas, mas de escolhas conscientes. Onde democracia não seja aplicativo com bug, mas organismo vivo, corrigido quando necessário por gente capaz — sem Messias de ocasião nem vilões convenientes.

E se, por capricho da biotecnologia, você que me lê for a primeira pessoa a soprar 150 velinhas, que seja com a força de quem entendeu que a vida vale mais pelas coisas que não custam: a lembrança da mãe oferecendo chá de eucalipto e manta de chenille no arrepio da febre; do pai pelejando com o chiado do rádio antigo justamente na hora do gol.

Ou, faça como João: aguarde o apito final do Grande Árbitro fechando o jogo — quem sabe, um pouco antes dos 120 — com gratidão no bolso, lucidez no olhar e as alpercatas de sempre, leves o bastante para mais um passeio sereno pelas calçadas do acaso.

agosto 06, 2025

Em nome do mau cheiro, amém

EM NOME DO MAU CHEIRO, AMÉM
Hayton Rocha


Só me faltava essa! Christine Connell, influenciadora digital norte-americana, viralizou nas redes sociais, no mês passado, ao garantir que passou sete anos sofrendo com uma infecção crônica nos seios nasais causada por um pum próximo ao rosto. Isso mesmo: flatulência facial. Uma bufa com mira certeira.


Reprodução/Redes Sociais


Segundo a moça, tudo começou quando, recuperando-se de uma cirurgia no tornozelo, cochilava num quarto de hotel ao lado do então namorado. O rapaz, tomado por uma emergência intestinal incontrolável, soltou aquilo que os antigos chamavam de "vento ruim". E bem perto do rosto da amada.


Daí em diante, dores faciais, congestão nasal permanente e infecções recorrentes. Nem o velho e confiável Vick Vaporub, disponível nas melhores prateleiras do mercado farmacêutico, aliviava o desconforto. Foi assim que começou a via-sacra por consultórios médicos e exames dignos de enredos de ficção científica.


Até que, numa dessas jornadas diagnósticas, um laboratório revelou o mistério: Escherichia coli — a popular E. coli — instalada nos confins das vias respiratórias da jovem. Uma bactéria nativa das vísceras agora promovendo intercâmbio cultural nas cavidades paranasais. A equação foi montada em segundos: do cólon dele ao nariz dela, voo direto, sem escalas, sem visto alfandegário nem pedido de desculpas.

Quem sou eu para me meter com essas trocas gasosas conjugais? Sei apenas que, durante longas convalescenças, muitos casais dormem como cartas de baralho: valete, dama ou rei, cada cabeça para um lado. E, nessas posições alternativas, o inesperado costuma bater ponto com razoável frequência, muitas vezes servindo até de despertador em plena madrugada. 

Não sou totalmente leigo no assunto, claro. Posso afirmar que já vi casamentos terminarem por muito menos — e com bastante barulho no tribunal. Quando não há filhos em disputa, bens a dividir ou pensão para reivindicar, abre-se espaço para o que chamo de litigância olfativa. Inventa-se uma tragédia bacteriológica com apelo emocional e potencial indenizatório digno de um seriado de TV explorando o universo jurídico.

Ouvi de um patologista clínico amigo meu, dos mais confiáveis e discretos — daqueles que jamais postariam um parecer no Instagram — que gases intestinais não transmitem bactérias. A E. coli, segundo ele, provavelmente veio de ambiente hospitalar ou de alguma intercorrência pós-cirúrgica. Mas a moça sustenta sua versão original com fervor evangélico. E, convenhamos, isso rende bem mais curtidas que qualquer boletim técnico da Organização Mundial da Saúde.

Desde então, virou sacerdotisa da higiene nasal. Espalha tutoriais sobre lavagem com soro fisiológico, prega vaporizadores e compartilha sua via-crúcis respiratória como quem revela a terceira parte dos segredos de Fátima. Seus seguidores se dividem entre o ceticismo clínico e a fome por escândalos — que, diga-se, rende mais que barris de petróleo em tempos de guerra no Oriente Médio.


Não vou negar, ando apreensivo com o precedente. Vai que a moda pega e os tribunais passem a julgar flatulências litigiosas? Já vislumbro cláusulas contratuais em futuros casamentos: “As partes concordam que odores involuntários emitidos no convívio não constituem ofensa nem justificam pedido de indenização, salvo se...”


E olha que tem odores pra todos os desgostos. Um bafo matinal já basta pra azedar o café da manhã — às vezes, nem “bom dia” salva. Dentista resolve? Talvez. Fio dental, um chiclete e muita fé. O chulé, então, muda o microclima do lar e, em casos graves, exige intervenção médica — ou exorcismo. Já o temido combo dos horrores — bafo, bufa, chulé, precedidos de um arroto — constitui uma amostra grátis dos confins dos infernos.


Mas se cada micróbio da vida a dois for parar no tribunal, com laudos técnicos, perícias olfativas e vídeos explicativos, nosso Judiciário — que já tropeça com ações de guarda, alimentos e xingamentos via redes sociais — vai implodir. Estaria vindo aí o Direito dos Sentidos, com varas específicas para flatulências, hálitos, secreções e outras intimidades litigiosas.

Para os casos mais cabeludos, talvez se convoque uma junta formada por dentistas, otorrinos, podólogos e psicanalistas. E, quando tudo mais falhar, que se chame um padre — porque tem situações em que só reza brava dá conta dessa biodiversidade.

Melhor rir antes que algum juiz aceite denúncia de flatulência dolosa com agravante de mira certeira — a mais antiga modalidade de assédio conjugal desde os tempos de Adão e Eva. Crime sem pena, mas com cheiro de sentença inapelável.

julho 30, 2025

As escolhas que nos escolhem

Domingo passado, mandei uma mensagem para uma amiga, parabenizando pelo aniversário. Desejei a ela, com toda a sinceridade, que nesta nova temporada da série Vida continue desfrutando dos verdadeiros luxos neste plano: boas companhias, mente serena, saúde sob controle e, principalmente, a impagável liberdade de escolher o que fazer — ou não fazer — com o próprio tempo.


Ela agradeceu, claro, com a delicadeza de sempre. Mas retribuiu o afago com uma daquelas alfinetadas envoltas em veludo que só as bisavós sabem espetar. Disse que essa tal liberdade de escolha era mais uma das minhas ironias poéticas disfarçadas. Segundo ela, quem tem ditado os rumos de seus dias, ultimamente, é um de seus bisnetos. Contou inclusive que, no dia anterior, sábado, viu-se “obrigada” a fechar as páginas de As Intermitências da Morte, de Saramago, para aceitar o gentil (mas imperativo) convite da criança para um passeio ao shopping.




Entre a leitura da obra de um Nobel de Literatura e um picolé de açaí na praça de alimentação barulhenta, adivinha quem levou a melhor? Falou mais alto o afeto entre eles.


Fiquei aqui, a 600 quilômetros de distância, ruminando esse dilema intergeracional. Há algo de profundamente bonito e inquietante nesse jogo de forças entre o tempo vivido e o tempo que começa a viver. De um lado, a mulher que lê sobre a Morte em férias, apaixonada por um violoncelista. Do outro, o menino que ainda ignora o peso das ausências e a leveza das partidas.


Saramago, com sua prosa tortuosa e sua ironia de padre herege, nos lembra que é a morte que dá sentido à vida — e que o amor, muitas vezes, consegue interromper até o expediente corriqueiro dela. 


Minha amiga, ao ceder à vontade do bisneto, talvez tenha feito o mesmo: suspendeu momentaneamente a contemplação do crepúsculo para mergulhar, com açúcar e com afeto, no amanhecer da vida.


Mas aquele episódio também me acendeu um alerta que pisca por dentro da gente, cobrando dois dedos de reflexão até a madrugada de segunda-feira: será que ainda enxergamos as pessoas pelo que são — ou só pelo que nos entregam?


Tempos estranhos, os nossos. Em vez de vínculos, colecionamos utilidades. Tornamos o afeto moeda de troca, e os encontros, pequenas reuniões de interesse. Sorrisos viraram cartões de visita; abraços, protocolos de ocasião. E assim, quase sem notar, vamos transformando relações em transações: quem serve, permanece; quem apenas é, caminha para o descarte.


No trabalho, o crachá virou passaporte para a relevância. Com ele, vêm os convites, os salamaleques, os cafés com promessas. Sem ele, boa parte da audiência desaparece sem deixar bilhete de despedida. E nas famílias, muda o cenário, mas a lógica se repete: muitos pais, avós — e agora bisavós — só recebem uma ligação quando alguém precisa de carona, conselho ou cobertura para as faltas que a vida impõe.


É aí que o perigo se instala de mala, escova e sandálias: quando deixamos de ser pessoas e viramos prestadores de serviço emocional. Quando confundimos amor com funcionalidade. Quando a presença só vale se trouxer alguma utilidade.


Se isso faz sentido, resta a pergunta: estamos, de fato, escolhendo com quem queremos estar — ou apenas aceitando quem nos escolhe quando precisa?


Minha amiga, com sua sabedoria, não se queixou. Mas havia, em sua resposta, um receio sutil: o de perder o controle da própria história. Porque, quando já não se escolhe o que comer, com quem sair, o que ler, onde morar ou a que horas dormir... aos poucos, vamos sendo deslocados do volante da vida para o banco de carona da vontade alheia.


Passar dos sessenta ou dos setenta, portanto, não dói pelas velinhas no bolo, mas pelo vazio que cresce quando os convites minguam. E não falo de eventos sociais, mas dos convites da alma: ser escutado, ser necessário, ser lembrado — não por conveniência, mas por consideração genuína.


Talvez a maior ousadia da velhice seja continuar escolhendo. Dizer não ao shopping, às vezes. Voltar à companhia de Saramago. Porque liberdade não é fazer tudo o que se quer, mas poder escolher o que importa.


E que privilégio conhecer alguém que nos ensina, com coragem e doçura, que mesmo quando a Morte tira férias — ou se apaixona por um violoncelista, como na obra de Saramago —, a Vida continua exigindo escolhas. Que amar também é permitir ao outro o direito de escolher. Ainda que, numa tarde qualquer de sábado, a escolha seja um picolé de açaí, e não um livro.

julho 23, 2025

Os olhos da cara

Outro dia, ouvi alguém se queixando de que seus óculos “custaram os olhos da cara”. Ri, claro — não da dor alheia, longe de mim rir do sofrimento ocular de ninguém —, ao lembrar da lenda do conquistador espanhol Diego de Almagro, que teria perdido um olho tentando invadir uma fortaleza inca nas Américas.  

 

Dizem que, ao reencontrar o imperador Carlos I, desabafou com orgulho — ou, quem sabe, buscando uma recompensa em ouro e prata: “Defender os interesses da Coroa espanhola me custou um olho da cara.” 

 

E você aí achando que conta de tratamento dentário é salgada.

 

Já a expressão “Casa da Mãe Joana”, veja só, virou sinônimo de desordem sem freio. Mas tem pedigree: Joana I de Nápoles, acusada de conspirar contra o marido e expulsa pelo cunhado, foi parar em Avignon. Lá, resolveu regularizar os bordeis e, sem querer, emprestou seu nome à zorra toda. Lá era Paço. Aqui virou casa. E o Brasil, com seu talento para tropicalizar tudo, fez do nome próprio uma metáfora coletiva para lugares onde manda quem pode, entra quem quer e ninguém responde por nada.

 

Se expressões populares tivessem cabeça, tronco e membros, dava pra dizer que estamos perdendo velhos amigos sem sequer ir ao enterro.

 

“A cobra vai fumar”, por exemplo, que já foi ameaça de guerra, hoje dá cadeia por maus-tratos a animais silvestres. “Ficar a ver navios”? Com rastreadores, GPS e câmeras nos portos, ninguém mais espera à toa na beira do cais. E “fazer das tripas coração”? Numa era em que se pede todo tipo de comida por aplicativo, uma tripinha ainda me remete ao petisco favorito da minha saudosa sogra.

 

Expressões e palavras que já foram moeda corrente no linguajar do povão agora soam como peças de museu ou figurino de novela de época. Algumas ainda se agarram às beiradas da memória, outras já foram pro brejo com chifres e cascos.

 

“Balela” virou fake news nos telejornais. “Quiproquó” — do latim quid pro quo — anda escondida em tirinhas da Mafalda. “Sacripanta”, que já foi insulto respeitável pra trambiqueiro com pedigree, hoje parece nome de vilão da Disney. E o que dizer de “lambisgoia”, “sirigaita” e “traulitada”? Palavras com tempero e textura que, hoje, provocam mais espanto.

 

“Braguilha” e “esparrela”, coitadas, também caíram no esquecimento sem pedir socorro ao Google antes de sumirem. “Estapafúrdio”, que já nomeou todo tipo de disparate, agora cede espaço a “bizarro” ou “exótico”. E “tabefe”, que para minha querida mãe soava bem mais encorpado do que um simples tapa na cara, anda sumido nos cantos da língua.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)


 

Não é que os jovens sejam analfabetos desalmados. É que os contextos mudam. A gambiarra que sustentava “fazer um gato” está sendo criminalizada e digitalizada. Daqui a pouco, nem vai haver fio de cobre pra puxar energia de graça. E aí? A expressão morre de fome e sede.

 

A linguagem está virando um mosaico apressado — mistura de emoji, figurinha e gíria desidratada. “Cringe” aponta o dedo, “gatilho” dispara sem aviso, “flopar” afunda antes de zarpar, e “cancelar” transforma tropeços em apedrejamentos virtuais. E quem, como eu, já acumula mais ontens do que amanhãs, tenta decifrar o “sextou” numa semana em que todo dia parece quinta-feira ou sábado.

 

Tudo bem, é o curso natural da língua. Ela muda como o tempo e, feito o prato do dia, sempre volta com alguma releitura. Ainda assim, bate uma tristeza nesse adeus sem cerimônia. Uma saudade de quando “nem que a vaca tussa” significava teimosia inegociável. De quando “quem tem boca vai a Roma” era incentivo e não metáfora ao GPS.

 

Talvez no futuro existam museus de expressões. Salas interativas, com hologramas explicando o que era “pulga atrás da orelha”, “fazer vista grossa” ou “matar dois coelhos com uma cajadada só”. E um cantinho reservado a termos que, pela bela sonoridade, não mereciam jamais o esquecimento: “bagatela”, “chapuletada”, “faniquito” e “rebuliço”.

 

Até lá, paciência. Entre um “pense numa coisa arretada de boa!” e um “que esculhambação é essa!”, vamos tentando manter vivas expressões que, se já não cabem no dia a dia, ainda encontram abrigo na memória de seminovos como eu.

 

Porque toda expressão ou palavra que morre por falta de uso é mais um velório sem flores nem velas. Um enterro linguístico sem lágrimas nem preces.

 

E a língua vai perdendo não só os olhos da cara, mas a alma também, quando a gente esquece de pegar lápis, papel e, volta e meia, brincar com ela.  

julho 16, 2025

O silêncio das tartarugas

O medo da insignificância social tem um papel decisivo na vida do ser humano. Na metade dos anos 1980, eu já acumulava mais de uma década de trabalho e nutria um sonho nada modesto, desses que preenchem o espaço entre a sexta-feira e o domingo: acertar na loteria esportiva. E apostava semanalmente, até perceber que estava apenas encurtando o caminho dos outros para a sorte grande. Entendi que o verdadeiro azar era insistir.

Hoje, quatro décadas depois, volta e meia me pego repassando antigos devaneios, como aquele em que, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes, sou preso, por engano, durante uma viagem em férias a Buenos Aires. Confundido com um perigoso subversivo, acabo nas garras da ditadura argentina — aquela bruxa de saias engomadas e cassetete em punho que tomou o poder de março de 1976 a dezembro de 1983, de início sob a batuta e o bigode do general Jorge Rafael Videla.


E se — imagino eu —, após sessões de tortura que me deixassem cego, mudo e surdo, jamais tivesse conseguido provar minha inocência? E se, por um capricho do destino ou uma assinatura equivocada de um juiz, fosse solto agora? O que encontraria ao sair? Que Brasil me aguardaria, depois de quatro décadas de silêncio? Quem dos meus teria me esperado?


Foi assim que soube da história de outro Jorge, semana passada, num site de notícias. Não o Videla, mas uma tartaruga macho da espécie Caretta caretta, nascida no litoral brasileiro, que, em março de 1984, teve a infeliz ideia de atravessar o caminho de uma rede de pesca em Bahía Blanca, na costa argentina.



Reprodução: Redes Sociais


Capturado por acidente, acabou transferido — num misto de trapalhada logística e descaso científico — para um aquário em Mendoza, no coração da Cordilheira dos Andes. Sim, a mais de mil quilômetros do mar!


Ali, Jorge sobreviveu. Quase quarenta anos nadando em círculos, em água doce, alimentado com ovos de galinha e carne de vaca. Virou atração turística, como quem cumpre pena de prisão perpétua em cela com visitação monitorada — uma penitência disfarçada de zoologia.


Mas um dia alguém se comoveu — talvez descendente de Borges, Quino ou Mercedes Sosa. E outro alguém também, mais outro... Até que 60 mil pessoas assinaram uma petição pedindo que o animal, coitado, tivesse direito a algo melhor do que um tanque com bifes, claras, cloro e selfies. 


A Justiça argentina, sensível ao clamor, autorizou a soltura. Em 2021, Jorge embarcou num voo rumo a um centro de reabilitação em Mar del Plata.


Ali, Jorge reaprendeu o que nunca deveria ter esquecido: a caçar, a perseguir cardumes, a viver sem grades como todo quelônio que habita os mares.


Ensinaram-lhe que tartaruga que é tartaruga não pede delivery nem come na mão de ninguém. Três anos depois, os biólogos decidiram: ele estava pronto.


No dia 11 de abril deste ano, Jorge foi levado num navio militar, a 20 quilômetros da costa. E devolvido ao mar. Saiu nadando sem olhar para trás, rumo ao norte, ao Brasil. “Ele sabe pra onde vai”, disse uma pesquisadora, com um suspiro que misturava alívio e saudade antecipada.


Desde então, já passou pelo Uruguai, deu uma olhada em Floripa e agora ronda Angra dos Reis. Dizem que busca a Praia do Forte, no litoral baiano, onde provavelmente nasceu. Ou talvez só queira reencontrar um pedaço esquecido de si.


Carrega um transmissor no casco. Toda vez que emerge para respirar, emite um sinal. Como quem diz: “Ainda tô aqui.” Mas o chip tem data de validade. Vai se calar em breve. E, se tudo der certo, nunca mais saberemos de Jorge. O que, convenhamos, será uma bênção.


Não é todo dia que uma criatura sobrevive ao confinamento forçado, à dieta de gosto discutível, ao esquecimento institucional e à vitrine do entretenimento. Jorge é exceção. A maioria não volta. Nem tartaruga. Nem gente.


O próprio site de notícias pontua que, nos anos 1980, um golfinho confinado em São Vicente, no litoral paulista, foi solto precocemente. Morreu pouco depois. Nadar exige preparo, sorte. E tempo.


Fico me perguntando: e se fosse eu, agora, libertado depois de quarenta anos sem voz, sem família, sem amigos? Teria que reaprender tudo: a falar por sinais, a caminhar sem escolta, a confiar em humanos, em manhãs e amanhãs. A respirar fora do aquário.


Talvez só me restasse um chip imaginário, colado no peito, avisando de tempos em tempos: “Ainda tô aqui.” Até que o sinal se calasse. 


E eu, como Jorge, talvez sumisse sem fazer alarde — não por revolta, mas por ter entendido, enfim, que o mundo continua redondo e gira, mesmo sem a nossa presença.

A coleira invisível

A COLEIRA INVISÍVEL  Hayton Rocha   Terça-feira da semana passada, sete e meia da manhã. Ouvi de longe ela conversando com a amiga por video...