OS QUE AMANHECEM POR DENTRO
Hayton Rocha
Quase todas as manhãs, enquanto caminho pelo calçadão da orla, passa por mim um senhorzinho que parece ter escapado de uma fotografia antiga esquecida na parede da memória. Deve ter seus noventa anos, talvez mais. É franzino, miúdo, com pouco mais de metro e meio, desses que o tempo vai esculpindo devagar, como a maré faz com as pedras dos arrecifes: tira uma quina aqui, arredonda outra ali, mas preserva o essencial.
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| Fotografia: Magdala Veras |
O que mais chama atenção nele, porém, não é o corpo quase portátil. É o sorriso. Um sorriso leve, daqueles cuja fabricação foi descontinuada há décadas, junto com os discos de vinil e os jeans boca-de-sino.
Ele me deseja um bom-dia toda vez que passa. Mas não é um bom-dia qualquer, distribuído a granel. O dele vem inteiro. Vem na boca, nos olhos e no braço levantado devagar, como quem espalha pequenas bênçãos de bolso para desconhecidos.
E como se desejar bom-dia uma vez só fosse pouco, na volta ele repete o ritual. Talvez para garantir que seu desejo realmente aconteça. Ou porque desconfie, com razão, que o mundo anda tão distraído, tão ocupado em contar calorias e discutir política, que precisa ser avisado duas vezes de que ainda vale a pena amanhecer.
Não sou o único destinatário daquela gentileza quase artesanal. Ele faz isso com quase todos que encontra pelo caminho. Há pessoas que se atualizam logo cedo com notícias sobre guerras, previsões do fim do mundo ou receitas milagrosas para emagrecer. Ele distribui a teimosa esperança de um dia bom.
Deve ser feliz. Ou, pelo menos, alguém que descobriu um segredo mais raro: parecer feliz sem fazer propaganda disso.
Vai ver aprendeu que a alegria mora nas coisas miúdas, nessas que passam despercebidas pelos apressados, pelos poderosos. Coisas como se sentar à beira-mar, pedir uma água de coco, um chope gelado ou qualquer líquido que refresque a alma, e depois enterrar o dedão do pé na areia úmida, como quem tenta medir a temperatura da eternidade.
E o que dizer de uma rede depois do almoço. Rede boa é uma espécie de útero para desocupados como eu. A gente se deita, cobre o rosto com um lençol ainda impregnado de cheiro de netos ou de sábados, e desaparece do mundo por meia hora. Cochilar numa varanda, a esta altura, talvez seja a forma mais sutil de dizer à vida: espere um pouco, vou ali e volto já.
Hoje cedo ele foi além. Aproximou-se de mim, repetiu o bom-dia e perguntou minha idade. Sessenta e oito, respondi. “Um menino!”, ele pontuou.
Descobri então que se chama João Batista, é manauara radicado em Maceió, contador aposentado, casado há 64 anos “com a mesma mulher”. Falou disso com um entusiasmo quase indecente, como se descrevesse um romance clandestino, escondido atrás de uma moita ou no banco de trás de um Aero Willys.
Sessenta e quatro anos com a mesma mulher. Em tempos de amores descartáveis, aplicativos de encontros e casamentos que duram menos que o prazo de validade dos ansiolíticos da moda, aquilo me pareceu quase um milagre.
Enquanto ele falava, o espírito de porco que vira e mexe se apossa do cronista sugeriu perguntar se ele teria visto e o que achou de um vídeo que circula nas redes sociais em que o ator Nelson Freitas diz que, depois de certa idade, já não doem mais as falsidades, as mentiras ou as traições. O que dói é a cervical. É o joelho. É a lombar. A dor, depois dos cinquenta, vira uma espécie de síndica do corpo: cobra taxa extra quando menos se espera, muda de apartamento, mas nunca vai embora do condomínio.
Tem dia em que é a panturrilha. No outro, a coluna. Depois aparece uma bursite, uma labirintite, uma tendinite, como se o corpo passasse a se comunicar em latim. Tudo cai. Cai o cabelo, cai o colágeno, cai a bunda, cai a ficha. Só não caem a pressão, os triglicerídeos e o preço da mensalidade do plano de saúde.
Diz o vídeo ainda que tem gente que frequenta academia não para ficar sarado, mas para não emperrar. É manutenção preventiva. Velho que não anda, desanda. Caminha-se não para reduzir a gordura da barriga, mas para continuar aparando as unhas dos pés e entrando no carro sem barulho de armário com dobradiças desgastadas.
Pensei ainda em perguntar se João Batista sentia essas dores migratórias, essa ferrugem ambulante que a idade espalha pelos ossos e juntas sem piedade.
Mas tive juízo e fiquei quieto. Quem sou eu para falar sobre decadência diante de alguém que atravessa a velhice distribuindo bom-dia como quem distribui flores?
Despedi-me com pena de mim mesmo. Porque há gente, como eu, que apenas envelhece. E há gente que continua amanhecendo por dentro.






