AS PALAVRAS PASSAM
Hayton Rocha
Soube que Aurélio Buarque de Holanda, alagoano cujo nome virou sinônimo de dicionário, numa entrevista há quase meio século escolheu três palavras como as mais bonitas da língua portuguesa. A ousadia não foi pouca. É como pedir a uma avó que escolha o mais belo dos netos ou a um torcedor que, sem negar a própria história, aponte o melhor entre seus ídolos. Sempre haverá culpa e alguma injustiça na resposta.
Primeiro ele escolheu “libélula”, palavra que voa antes mesmo de ser dita. E voa com aquele jeito indeciso de quem ainda está aprendendo a parar no ar feito beija-flor, sustentada mais pelo espanto do que pela física. Depois lembrou de “murucututu”, que já não voa: pousa. Palavra de bico arredondado, de olho noturno que tudo vê e quase nada revela. E “alvorada”, que não anda nem voa: irrompe. É clarim, é o dia abrindo a porta e empurrando a sombra para dentro das coisas, enquanto a noite recolhe seus restos pelos cantos.
Admirei nele não só a escolha, mas a coragem de tentar represar em três palavras a beleza de um idioma inteiro. Língua nenhuma aceita barragem. As palavras escapam. Infiltram-se pela memória, pelas rachaduras da infância, pelos esconderijos do que fomos e ainda tentamos entender. Palavra não é coisa que se escolha. É coisa que escolhe a gente. Às vezes cedo. Outras, só depois de muito estrago.
![]() |
| Ilustração: Dedé Dwight |
Comecei então a perguntar por aí quais palavras as pessoas salvariam da enxurrada da língua. Logo apareceram defesas apaixonadas, quase íntimas. Houve quem defendesse “volúpia”, porque sobe devagar, em espiral, como fumaça de incenso procurando o teto. Uma amiga preferiu “fascinação”, palavra que não convida: arrasta. Outra falou “brisa” como um sopro morno que entra pela janela e muda de lugar cortinas e pensamentos.
Alguém escolheu “sublime” com uma espécie de reverência aflita, dessas que a gente sente diante de certas paisagens exageradas demais para caber nos olhos. Outro citou “panapaná”, coletivo de borboletas, talvez porque poucas palavras produzam tanto movimento antes mesmo de terminar de ser pronunciadas. Houve ainda quem lembrasse “mainha”: de todas as mãezonas, a mais gigante, sobretudo no Nordeste.
Um poeta preferiu “misericórdia”, pela eterna disponibilidade de sofrer um pouco a dor do outro. Citou-se também “deliciosa” e “paixão”, palavras que deixam algum açúcar escondido na língua mesmo depois de pronunciadas. E teve quem resumisse o maior dos desejos humanos numa sílaba breve, leve e única: “paz”.
Já me dava por satisfeito com aquele punhado de assombros quando dois velhos amigos lembraram “efêmero”, porque inerente a tudo — da vida, do amor à dor; “galhardia”, por juntar bravura com generosidade; e “liberdade”, um sonho que ninguém explica nem entende.
Percebi, então, que cada pessoa não escolhia exatamente uma palavra. Escolhia um abrigo.
Quase todas, porém, desembocaram em “saudade”. Talvez porque certas palavras não descrevam: transbordem. “Saudade” não é ausência. É permanência contrariada. É alguém que foi embora mas continua deixando copos espalhados pela casa da memória. Tem cheiro antigo, barulho de talher na cozinha e de telefone de linha discada tocando numa tarde que não volta mais.
Ouvi aquilo encantado, como quem assiste a um leilão de lembranças. Cada palavra erguida diante das outras como uma peça rara, polida pelo tempo, valorizada pelo uso. Cada pessoa levantando sua pequena placa invisível para resgatar um pedaço de si antes que a correnteza levasse.
Já não sei se é escolha ou lembrança, mas a palavra que mexe comigo é outra: “água”.
Fico com “água” porque ela não disputa espaço, não grita. Contorna. Escoa. É das poucas coisas que, mesmo sem forma, encontram saída. E quando não encontram, inventam. Desvio, fresta, rachadura: sempre existirá um caminho para aquilo que nasceu para ser livre.
Talvez porque me contaram que foi a primeira palavra que aprendi. Antes de entender o que era sede, eu já pedia por ela. Antes de compreender o mundo, já sabia nomear aquilo que me sustentava dentro dele. Ou quem sabe porque, no fim do dia, tudo o que nos resta seja um banho demorado, onde a água leve embora o cansaço e devolva alguma ordem ao que por dentro desandou.
O curso da vida tem muito disso: uma tentativa meio inútil de segurar com palavras aquilo que nasceu para passar.
Algumas voam, como libélulas. Outras pousam, como murucututus. E existem aquelas que escorrem de dentro de nós, como água entre os dedos.
Quando a gente menos espera, as palavras passam. A sede fica.







