O BILHETE ERRADO
Hayton Rocha
Toda vez que escuto “Encontros e Despedidas”, de Fernando Brant e Milton Nascimento, penso que me casei com um erro ferroviário.
Não ela, claro, mas o engano que a antecedeu. Filha de cearense com alagoana, nasceu porque o pai, uma década antes, comprou o bilhete errado. Devia começar a trabalhar como bancário em Palmares, Pernambuco. Por descuido na estação de origem, desembarcou em União dos Palmares, Alagoas.
Trocou a estação de destino, encontrou a família. Se tivesse conferido a placa da estação, talvez a história fosse outra. Ou não.
Magdala só veio ao mundo porque sua mãe, temendo estar diabética, fez promessa à santa padroeira: se o exame desse negativo, levaria a terceira gravidez adiante. A santa concordou. O exame deu. E aqui está entre lágrimas e risos, desde então, cumprindo a promessa em prestações de amor e teimosia.
Eu também sou fruto de um desencontro geográfico. Segundo de nove filhos de maranhense com paraibana, mudei aos dez anos para Alagoas. Mudança que parecia provisória e fincou raízes como mangue à beira-mar. Foi ali, entre bancos de escola e campinhos de pelada, que descobri a menina que, mais adiante, seria mãe de meus filhos e avó de meus netos.
A graça de termos filhos e netos, portanto, depende menos de nós mesmos e mais de um erro logístico. Um emprego promissor. Uma mala fechada às pressas.
Os filósofos chamam isso de contingência. Palavra que traduz o susto permanente de existir, a possibilidade de algo acontecer ou não. Prefiro chamar de tropeço cósmico. Há algo de desajeitado no modo como o universo organiza nossas vidas: um atraso aqui, um empurrão ali, olhares que se cruzam por acaso e mudam o curso da história.
Todos nós somos frutos de encontros que quase não aconteceram. Dois corpos que, por razões insondáveis, coincidiram no instante certo. Se aquele homem não tivesse encontrado aquela mulher naquele dia específico, você que me lê neste instante não estaria aqui. Bastava um espirro, uma crise de tosse, uma câimbra. E outro seria você.
Se seus pais brigassem na saída do cinema. Se chovesse demais e a goteira no quarto desanimasse o romance. Se houvesse cansaço, enxaqueca, visita inesperada. Somos sobreviventes de improbabilidades acumuladas.
Você duvida disso? Suba a árvore genealógica da sua família. Cada casal ali é um milagre estatístico. Multiplique por gerações. Guerras atravessadas. Epidemias vencidas. Migrações forçadas. Amores clandestinos. Violências inomináveis. A história humana não é álbum de casamento. É campo minado que se atravessa às cegas, sem mapas nem pistas.
E ainda assim estamos aqui, respirando e fazendo planos para a semana que vem, para o mês que vem, para o próximo Natal.
Some a isso o detalhe de a Terra ainda não ter sido engolida por um asteroide. Ou de seu bisavô não ter embarcado para outro continente. Ou de seu avô ter perdido aquele trem. Ou de ter desembarcado por engano na penúltima estação. Às vezes, a diferença entre existir e não existir cabe numa plataforma vazia.
“Todos os dias é um vai-e-vem. A vida se repete na estação.” Há quem chegue para ficar. Há quem parta para nunca mais. E há quem mude o destino de uma família inteira apenas por comprar o bilhete errado.
Não somos arquitetos solitários do teto que nos dá abrigo. Construímos com o material que nos entregaram e nem sempre escolhemos o terreno. Cada escolha alheia infiltra-se na nossa biografia. Cada atraso ou coincidência abre ou fecha caminhos que julgamos nossos.
Há quem diga que Deus calculou todas as variáveis, que nada foi erro, apenas roteiro escrito nas estrelas. Outros juram que somos acidente biológico que aprendeu a fazer poesia para suportar o caos.
Eu, que me casei com um equívoco ferroviário e uma promessa à santa, estou seguro de que a vida não é plano fechado nem acaso cego. É improviso. Improviso por forças que não dominamos. Coreografia em que errar o passo, às vezes, é encontrar o par.
Se o cearense tivesse comprado o bilhete certo, eu não teria a meu lado a mulher que está comigo há mais de meio século. Se meus pais não tivessem migrado, meus filhos e netos não existiriam. Se um detalhe qualquer fosse outro, eu seria outro. Ou talvez nem estivesse aqui.
Não somos trilhos. Somos os desvios improváveis que nos trouxeram até aqui.






