E AGORA, GLÓRIA?
Hayton Rocha
A morte de Glória Menezes, aos 91 anos, fecha uma cortina que parecia destinada a permanecer aberta. Durante mais de seis décadas, seu rosto iluminou palcos, telas e salas de estar. Não entrava nas casas brasileiras pela porta. Aparecia no meio da sala e tornava-se íntima da família.
Ao receber a notícia, pensei imediatamente em como reagirá minha mãe.
Há cinco anos, quando Tarcísio Meira morreu de Covid-19, ela me telefonou com a voz de quem segurava o choro pelas pontas:
— Meu filho, você viu?
— O quê, mãe?
— Ele morreu… E agora, o que vai ser de Glória?
Não se referia ao ator como quem lamenta a partida de um desconhecido. Falava de alguém que frequentara nossa casa durante décadas, embora nunca tivesse aceitado um café, pedido açúcar ou perguntado pela saúde da família.
Na época, Glória também estava internada, mas apresentava sintomas leves. Minha mãe, se pudesse, teria vestido duas máscaras, lambuzado os braços com álcool em gel e ido pessoalmente abraçar a viúva.
Ela nunca conseguiu separar inteiramente a ficção da realidade. Para minha mãe, novela não era uma história inventada. Era a vida acontecendo em outro endereço.
Lembro-me dela, no bairro da Gruta, em Maceió, diante do último capítulo de Pecado Capital. Carlão, o taxista vivido por Francisco Cuoco, tentava livrar-se de uma mala de dinheiro abandonada em seu carro por assaltantes. Antes que pudesse entregá-la à polícia, foi morto por um bandido.
Minha mãe levantou-se do sofá:
— Pega esse cachorro miserável!
Não havia policial dentro da televisão capaz de ouvi-la, mas isso nunca a impediu de orientar perseguições, advertir mocinhas e avisar a um personagem que o assassino estava de tocaia na esquina.
Ela já andava aborrecida porque Lucinha, vivida por Betty Faria, trocara Carlão pelo milionário Salviano, interpretado por Lima Duarte.
— Essa moça é interesseira. Quer é o dinheiro daquele velho feio!
E decretou:
— Carlão vai acabar se lascando.
Minha mãe não assistia à novela. Prestava consultoria aos personagens.
Vinte anos depois, em Pernambuco, conheci um dos acionistas da Usina Pumaty. Enquanto explicava o processo de fabricação do álcool, consultava o relógio com inquietação. Às cinco da tarde, interrompeu a visita:
— Preciso ir. Ainda vou tomar banho, jantar e ver a novela.
Descobri que também confundia ficção e realidade. Em Ídolo de Pano, Dennis Carvalho vivera um sujeito capaz de afastar o próprio irmão da herança familiar. Dois anos depois, em Locomotivas, apareceu namorando uma moça e envolvido com outra.
O usineiro apontou para a televisão:
— Esse rapaz nunca me enganou. Não vale nada!
Alguém tentou esclarecer:
— Isso é novela.
Ele franziu a testa:
— Sei não. Ninguém apronta aquilo tudo com o irmão e depois aparece enganando as moças se não for cabra safado.
A televisão chegou ao Brasil antes que muitos brasileiros alcançassem a escola. Num país de tradição mais oral do que escrita, a novela tornou-se o romance dos que não liam romances, o teatro dos que jamais entrariam num teatro e, algumas vezes, a aula de política que escapava da vigilância dos censores.
Carlos Drummond de Andrade, observador atento da vida brasileira, percebeu cedo que aquela caixa instalada no meio da sala não exibia apenas histórias. Exibia o próprio país, com suas contradições, seus vícios e suas virtudes, ainda que Brasília tentasse cobrir o espelho.
Em O Bem-Amado, proibiram as palavras “coronel” e “capitão”, julgando que fossem referências militares. Não compreenderam que Dias Gomes falava de uma patente mais antiga: a de quem governa currais eleitorais, manda nos vivos e inaugura cemitérios sem conseguir encontrar um morto sequer.
As novelas nos deram vilões que odiamos com sinceridade, mocinhas por quem sofremos sem necessidade e políticos fictícios que pareciam menos inventados do que muitos políticos verdadeiros. Os personagens envelheceram conosco. Alguns morreram diversas vezes e reapareceram em outra história, com outro nome e os mesmos olhos.
Glória Menezes fazia parte dessa família sem retrato no álbum. Durante quase seis décadas, ela e Tarcísio representaram para milhões de pessoas a rara possibilidade de um amor sobreviver ao último capítulo.
Agora, penso em minha mãe, aos 87 anos, recebendo a notícia da partida de sua “comadre”. Talvez diga que Glória não morreu. Apenas demorou cinco anos para responder à pergunta feita naquele telefonema.
E agora, o que vai ser de Glória?
Vai ver, foi encontrar Tarcísio. Alguns amores apenas mudam de endereço.






