março 25, 2026

O nome que cabe no grito

O NOME QUE CABE NO GRITO

Hayton Rocha

 

Botar apelido é mania tão brasileira, íntima e aparentemente inofensiva, mas não nasceu de brincadeira nem de carinho. Nasceu da dor da ausência de direitos. Da impossibilidade de existir plenamente diante da lei.

 



 


 

Durante a escravidão, nome de família era luxo reservado aos brancos. Casamento, linhagem, pátrio poder, tudo isso ficava do lado de fora da senzala. O escravizado recebia um nome formal, português, quase sempre emprestado de um santo do calendário ou da devoção da casa-grande. Um nome “limpo”, que cabia no livro da igreja e na boca do feitor.

 

Mas não era esse o nome que circulava na cozinha ou no terreiro. Ali, quem nomeava eram as mães. E o nome verdadeiro, o que carregava história, memória e pertencimento, quase nunca era o oficial.

 

Para os negros fugidos, refugiados em quilombos, não ter nome podia ser vantagem. Nome identifica, chama a atenção, denuncia. Entrega o rastro aos capitães do mato, com suas espingardas e chicotes. Melhor ser apelido, curto, fugidio, som de vento.


Na capoeira, o costume se repetia. Cada praticante ganhava outro nome, uma espécie de segunda pele. Proteção e pertencimento ao mesmo tempo. Um nome que não apontava para trás, que mirava o dia seguinte, o resto da vida.

 

Pense no desconforto de um negro, antes da abolição, ser chamado por um nome português, desses de pia batismal, cartório e certidão. Um nome que não reconhecia sua origem, sua história.

 

Depois da abolição da escravatura, quando a liberdade chegou sem plano de voo, muitos negros adotaram o sobrenome dos antigos senhores. Não por escolha ou gratidão, mas por necessidade. Era preciso existir no papel. Ser alguém diante do Estado.


No interior, onde igreja e padre eram artigos caros, muita gente só era batizada já quase adulta. E recebia um nome novo, estranho, que não dialogava com aquele pelo qual já era chamada entre os seus. O documento nascia desalinhado da vida real.

 

Entre os povos indígenas, mudar de nome também obedecia a ritos. Depois de certas passagens, certos aprendizados, a pessoa renascia com outro sentido. Nome acompanha transformação. Nome nunca é coisa pequena.

 

Com o tempo, esse costume escorreu para a população mestiça, atravessou cercas invisíveis e chegou às classes mais abastadas. Mas já vinha com cicatrizes, carregado de memórias.

 

No futebol, apelido encontrou terreno fértil. Garrincha, Didi, Vavá, Pelé, Manga, Baiaco, Mão-de-Onça, Pavão, Pinga, Sabará. Nomes que dispensavam sobrenome e não pediam explicação. Bastavam.


Lembro de um quinteto defensivo do Penedense de Alagoas, anunciado com pompa pelo locutor Sabino Romariz, antes de cada peleja no Baixo São Francisco dos anos 70. Tinha musica na escalação. A bola nem havia rolado, mas o jogo já começara:
“— O esquadrão alvirrubro adentra ao gramado com Beréu, Coco, Luiz Bodão, Casca e Ieié…”

 

E o que dizer de Nado, Bita, Nino e Lala, lendário ataque do Naútico dos anos 60, ecoando pelas ondas da Rádio Clube de Pernambuco? E o trio do Sport formado por Traçaia, Tomires e Nenzinho? Até a narração das tabelas soava como verso.

 

Depois, o apelido encolheu. Foi ficando menor, mais dócil. A geração dos “inhos”. Dava até para escalar uma possível seleção, treinada por Candinho: Edinho (filho de Pelé), Jorginho, Luizinho, Marinho e Mazinho, Juninho, Ricardinho e Ronaldinho, Marcelinho, Robinho e Joãozinho. Uma nação inteira falando baixo, como quem pede permissão para existir. 

 

Hoje, com a chegada definitiva da classe média ao futebol, os apelidos rareiam. Multiplicam-se Brunos, Cauãs, Davis, Émersons, Felipes, Gabriéis, Mateuses, Rodrigos e Tiagos. Nomes corretos, limpos. Muitos tatuados no próprio corpo. Bem-comportados. Como os estádios modernos: sem gerais, sem poeira, sem chuva.

 

Com eles, vai ver está sendo enterrado o último elo entre o ídolo e o coração do torcedor-raiz. Porque no futebol, apelido é proximidade. Pelé é bem maior que Édson Nascimento. Garrincha jamais caberia em Manoel dos Santos. Zico será sempre mais íntimo que Artur Coimbra. 

 

Apelido é o nome que não cabe no documento, mas cabe no grito. É o atalho que o povo inventou quando lhe faltavam direitos, espaços e sobrenomes. Um jeito de dizer, sem cerimônia: “esse aí é dos nossos!”. 


Quando o apelido desaparece, não é só o futebol que muda. É a língua que perde coragem. 


E, quando a língua se acovarda, o povo volta a falar baixo. Até não caber mais no próprio grito.

 

março 18, 2026

A moeda oficial do Brasil


A MOEDA OFICIAL DO BRASIL

Hayton Rocha

 

No Brasil, quando se fala em milhões, a explicação vem antes da dúvida.


Quinta-feira passada a jornalista Cora Rónai provocou uma sensação rara que só boas crônicas conseguem produzir: a impressão de que alguém acaba de acender a luz de um quarto onde todos fingiam enxergar perfeitamente no escuro.

 

A constatação dela é desconcertante. No debate público perdeu-se a noção concreta do valor do dinheiro. Quantias que, na vida real, representam décadas de trabalho passaram a circular no noticiário como números quase decorativos.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)


 

Para traduzir esse fenômeno, a autora recorre a uma metáfora engenhosa: o “milhão” teria deixado de ser apenas dinheiro e se transformado numa espécie de Unidade Básica de Corrupção, usada para medir escândalos e negócios suspeitos.

 

A ideia é brilhante porque devolve peso ao número: um milhão de reais não é um conceito abstrato. É o preço de um imóvel de alto padrão. Algo que, para a maioria dos mortais, exige anos de prestações que parecem carnês de penitência.


Para muita gente, esse milhão representa décadas de trabalho, pequenas renúncias domésticas e a lenta sucessão de trocas de apartamento que começa num quarto-e-sala modesto e termina, décadas depois, num imóvel que finalmente pode ser chamado de definitivo.


Agora compare isso com a realidade de quem vive de salário-mínimo. Para essa pessoa, acumular um milhão de reais ao longo de uma vida inteira já seria façanha heroica. Depois de pagar aluguel, comida, escola dos filhos e os imprevistos da existência, o número simplesmente não cabe na planilha.

 

É aí que surge a ironia. No noticiário político, milhões são mencionados como quem fala em paçocas e pirulitos. Deixam de representar o esforço de uma vida e passam a circular associados a transações que envolvem autoridades, intermediários e personagens quase sempre acompanhados da expressão “segundo nota oficial”.

 

A metáfora da crônica então faz um movimento elegante: transforma os milhões novamente em apartamentos de um milhão. De repente, aquilo que parecia apenas número volta a ter escala humana.

  

E é nesse ponto que surge a figura mais frequente no vocabulário político brasileiro: a nota oficial.


Diante de cifras gigantescas aparece sempre aquele comunicado cuidadosamente redigido que pretende explicar tudo sem dizer quase nada. A formalidade das palavras parece tentar reduzir o tamanho da quantia.


Conversava sobre isso com um amigo a quem confessei que aquela era uma crônica que eu gostaria de ter escrito antes. Dessas que cutucam o leitor com um alfinete, mas o fazem com sutileza para ninguém reclamar de agressão.

 

Ele ouviu, balançou a cabeça e respondeu com a sabedoria irônica que só os maduros cultivam:

— Você até pode escrever. Mas vão dizer que está em cima do muro.

 

Tem razão. Hoje, no Brasil, estar em cima do muro virou quase infração ideológica. Se você critica um lado, pertence ao outro. Se critica os dois, passa a pertencer a lugar nenhum — justamente o lugar mais perigoso, sujeito ao chumbo trocado entre as partes litigantes.

 

Eu teria que preparar também uma nota oficial explicando minha própria crônica: “Esclareço que minhas ironias não devem ser interpretadas como críticas específicas a qualquer grupo político, embora eventualmente possam parecer.”

 

Resolvi deixar o assunto de lado. Mas, por coincidência, encontrei outra crônica, desta vez do escritor Ruy Castro. Ele descrevia a vida de um ex-banqueiro habituado a mansões milionárias na Flórida, em Brasília, em São Paulo e em Trancoso. Festas em palácios, salões iluminados por lustres capazes de ofuscar o orçamento anual de pequenas cidades.

 

Até que chega o último parágrafo. Descobre-se então que o personagem agora reside numa cela de nove metros quadrados na penitenciária da Papuda.

 

A matemática da vida às vezes possui humor ácido. Quem antes media a existência em milhões agora calcula três ou quatro passos entre a cama de concreto e a parede da cela. Ou a latrina.

 

As duas crônicas, cada uma à sua maneira, tocam na mesma ferida: o talento nacional para explicar certas traquinagens por meio de notas oficiais.

 

Cada lado garante que o erro pertence ao adversário. A corrupção sempre nasce no campo ideológico oposto. As trincheiras estão cavadas, os argumentos carregados e os combatentes digitais marcham minuto a minuto pelas redes sociais.

  

Convém não atrapalhar. Melhor deixar que os zumbis vaguem em paz.

 

No Brasil dos milhões, a explicação precede a culpa. E a verdadeira unidade básica talvez não seja apenas a corrupção. É a desculpa oficial.

março 11, 2026

O bilhete errado

O BILHETE ERRADO

Hayton Rocha

 

Toda vez que escuto “Encontros e Despedidas”, de Fernando Brant e Milton Nascimento, penso que me casei com um erro ferroviário.

 

Não ela, claro, mas o engano que a antecedeu. Filha de cearense com alagoana, nasceu porque o pai, uma década antes, comprou o bilhete errado. Devia começar a trabalhar como bancário em Palmares, Pernambuco. Por descuido na estação de origem, desembarcou em União dos Palmares, Alagoas. 

 

Trocou a estação de destino, encontrou a família. Se tivesse conferido a placa da estação, talvez a história fosse outra. Ou não.


 



Magdala só veio ao mundo porque sua mãe, temendo estar diabética, fez promessa à santa padroeira: se o exame desse negativo, levaria a terceira gravidez adiante. A santa concordou. O exame deu. E aqui está entre lágrimas e risos, desde então, cumprindo a promessa em prestações de amor e teimosia.

  

Eu também sou fruto de um desencontro geográfico. Segundo de nove filhos de maranhense com paraibana, mudei aos dez anos para Alagoas. Mudança que parecia provisória e fincou raízes como mangue à beira-mar. Foi ali, entre bancos de escola e campinhos de pelada, que descobri a menina que, mais adiante, seria mãe de meus filhos e avó de meus netos.

 

A graça de termos filhos e netos, portanto, depende menos de nós mesmos e mais de um erro logístico. Um emprego promissor. Uma mala fechada às pressas. 

 

Os filósofos chamam isso de contingência. Palavra que traduz o susto permanente de existir, a possibilidade de algo acontecer ou não. Prefiro chamar de tropeço cósmico. Há algo de desajeitado no modo como o universo organiza nossas vidas: um atraso aqui, um empurrão ali, olhares que se cruzam por acaso e mudam o curso da história.

 

Todos nós somos frutos de encontros que quase não aconteceram. Dois corpos que, por razões insondáveis, coincidiram no instante certo. Se aquele homem não tivesse encontrado aquela mulher naquele dia específico, você que me lê neste instante não estaria aqui. Bastava um espirro, uma crise de tosse, uma câimbra. E outro seria você.

 

Se seus pais brigassem na saída do cinema. Se chovesse demais e a goteira no quarto desanimasse o romance. Se houvesse cansaço, enxaqueca, visita inesperada. Somos sobreviventes de improbabilidades acumuladas.

 

Você duvida disso? Suba a árvore genealógica da sua família. Cada casal ali é um milagre estatístico. Multiplique por gerações. Guerras atravessadas. Epidemias vencidas. Migrações forçadas. Amores clandestinos. Violências inomináveis. A história humana não é álbum de casamento. É campo minado que se atravessa às cegas, sem mapas nem pistas.

 

E ainda assim estamos aqui, respirando e fazendo planos para a semana que vem, para o mês que vem, para o próximo Natal.

 

Some a isso o detalhe de a Terra ainda não ter sido engolida por um asteroide. Ou de seu bisavô não ter embarcado para outro continente. Ou de seu avô ter perdido aquele trem. Ou de ter desembarcado por engano na penúltima estação. Às vezes, a diferença entre existir e não existir cabe numa plataforma vazia.

 

“Todos os dias é um vai-e-vem. A vida se repete na estação.” Há quem chegue para ficar. Há quem parta para nunca mais. E há quem mude o destino de uma família inteira apenas por comprar o bilhete errado.

 

Não somos arquitetos solitários do teto que nos dá abrigo. Construímos com o material que nos entregaram e nem sempre escolhemos o terreno. Cada escolha alheia infiltra-se na nossa biografia. Cada atraso ou coincidência abre ou fecha caminhos que julgamos nossos.

 

Há quem diga que Deus calculou todas as variáveis, que nada foi erro, apenas roteiro escrito nas estrelas. Outros juram que somos acidente biológico que aprendeu a fazer poesia para suportar o caos.

 

Eu, que me casei com um equívoco ferroviário e uma promessa à santa, estou seguro de que a vida não é plano fechado nem acaso cego. É improviso. Improviso por forças que não dominamos. Coreografia em que errar o passo, às vezes, é encontrar o par.

 

Se o cearense tivesse comprado o bilhete certo, eu não teria a meu lado a mulher que está comigo há mais de meio século. Se meus pais não tivessem migrado, meus filhos e netos não existiriam. Se um detalhe qualquer fosse outro, eu seria outro. Ou talvez nem estivesse aqui.

 

Não somos trilhos. Somos os desvios improváveis que nos trouxeram até aqui.

março 04, 2026

Caráter ao relento

CARÁTER AO RELENTO 

Hayton Rocha

 

Engana-se quem acha que conhecer alguém é questão de tempo. Tempo ajuda, mas raramente revela. A gente só conhece mesmo é no arranca-rabo, na tormenta, quando a engrenagem chia e o metal entrega a liga.

 

O tempo, aliás, é especialista em panos quentes. Amacia arestas, instala conforto. Conviver nem sempre é conhecer. Muitas vezes é apenas acostumar-se.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)



 

Todo mundo vê o que se mostra: a roupa limpa, a conversa aprumada, o sorriso pronto, a versão que sai de casa com manual de bons modos debaixo do braço. Poucos, pouquíssimos, sabem quem somos quando o sapato aperta e o elevador social despenca alguns andares. E se já dá um trabalho danado mudar a si mesmo, imagine reformar o outro.

 

A imaginação é generosa com quem nunca levou pancada. Arredonda defeitos, perfuma falhas, fabrica anjos e santas que não resistem ao primeiro vento mais sério. Idealizar é barato; conviver custa.

 

Mas a rigor ninguém conhece ninguém. Conhece a versão ensaiada para caber no mundo sem provocar espanto. A edição definitiva só estreia quando o chão começa a ceder.

 

Quer tirar a prova? Experimente viajar junto. 

 

Viagem é teste de caráter sem gabarito antecipado. Atraso de três horas no aeroporto, fila que não anda, criança chorando atrás, fome latejando, GPS jurando que é por ali enquanto o carro entra num beco sem saída. O quarto alugado que só prestava na fotografia. A mala que resolve fazer turismo sozinha.

 

É aqui que se revela quem respira fundo e resolve e quem faz plateia para reclamar. Quem ajuda a carregar a bagagem e quem distribui ordens. Quem ri do imprevisto e quem transforma qualquer contratempo em perseguição divina. 

 

No aperto ninguém planeja ser canalha. A canalhice surge como reflexo. É o ego assustado quando o mundo desobedece. Uns se agigantam e outros encolhem. 

 

Tem gente que se acha leve como a brisa de um fim de tarde. Até perder as estribeiras. Quando perde, pesa feito porta de cadeia. A leveza dependia do ar-condicionado, da bateria do celular, do sinal de wi-fi, do saldo na conta. 

 

 

Aliás, fale de dinheiro e a verdade sai da moita. 

 

Dinheiro é farol alto em estrada escura: ilumina até o que se queria esconder. Proponha dividir a conta do restaurante e observe quem calcula vantagem com régua invisível. Empreste, combine prazo e espere. Quem “esquece” não tropeça na memória... escolhe. A matemática moral raramente erra.

 

Pegue alguém num dia de sangue quente. A raiva é vento que arranca telhado e derruba fachada. Veja se conversa ou grita, se escuta ou atropela. “Eu estava nervoso”, dirá depois. Nervoso é estado. Crueldade é decisão. 

 

Não sei vocês, mas já tive chefes que me fizeram até cogitar descumprir o sexto mandamento (“Não matarás”). Nos primeiros dias, eram quase paternais. Semanas depois, reuniões para “alinhar expectativas” terminavam com alguém desalinhado diante dos outros. Elogio em privado, reprimenda em público. Constrangimento vendido como método de gestão, que mais tarde ganhou rótulo elegante: “assédio moral”.

 

Quer ir além? More junto. 

 

Morar junto é chuva grossa revelando goteira antiga. Toalha molhada sobre a cama, louça largada na pia. Aparecem a bagunça, o egoísmo, a preguiça de dividir tarefas simples, o jeito torto de lidar com rotina. Descobre-se quem constrói e quem apenas ocupa espaço, quem soma e quem suga.

 

Todo mundo parece admirável quando o mar está manso. O caráter, esse bicho tinhoso, só dá as caras no dia ruim. Quando o dinheiro míngua, o plano desanda, o cansaço bate feito sol em laje descoberta. É ali que cada um escolhe o que quer ser: abrigo ou ventania.

 

Já passei da idade de escolher gente por caras e bocas. Fala bonita impressiona, mas não se sustenta. Prefiro gesto que não rende aplauso. Cuidado que não vira postagem. Firmeza quando ninguém está olhando.

 

Aprendi errando com quem parecia pedra e virou pó na primeira ventania. E, para ser justo, também já me vi menor do que a imagem que gostava de exibir. Já fui muro sem prumo. Já fui vento quando pediam abrigo. A gente só descobre o próprio tamanho quando o mundo resolve medir.

 

Amizade, casamento e sociedade não quebram na brisa leve do entardecer. Arrebentam quando o mundo acorda atravessado e bate na porta antes do dia clarear. 

 

O bom de um dia ruim é que ele não inventa ninguém. Ele tira o teto. E deixa o caráter ao relento.

 

fevereiro 25, 2026

Onde andas, meu velho?

ONDE ANDAS, MEU VELHO? 

Hayton Rocha

 

Leio que Donald Trump pretende abrir arquivos secretos sobre alienígenas e OVNIs e renasce em mim uma esperança daquelas que a gente guarda no bolso como santinho dobrado: descobrir o paradeiro de meu velho amigo Urtigão.

 

Trump anunciou a façanha na Truth Social, como quem promete revelar o quarto segredo de Fátima. Dias antes, Barack Obama declarara num podcast que “alienígenas são reais”, mas que nunca os viu e que tampouco residem na Área 51. A CIA esclareceu que, no deserto de Nevada, testavam-se apenas aviões espiões, o que, claro, não tranquiliza ninguém.

 

Se não estão na Área 51, é evidente que podem estar por aqui, sobretudo depois do Carnaval. Talvez na Amazônia, no Cerrado ou plantando feijão-de-corda, maxixe e quiabo no que resta de Mata Atlântica.

 

E eu tenho um desaparecimento a esclarecer.




Há três anos, depois de semanas na roça — sem wi-fi, sem vizinho com antena caridosa, sem o milagre moderno da senha compartilhada — Urtigão ressurgiu na tela do meu celular como quem volta de retiro espiritual e descobre, chateado, que o mundo não sentiu sua falta.

 

Escrevi-lhe, em tom fraternal:
“Que alegria receber sinais de vida seus. Espero continuar merecendo ao menos um quarto do carinho que lhe dedico.”

 

Imaginei que acharia graça. Engano. Urtigão lê qualquer mensagem como agrônomo examina fungo em folha nova: com lupa de desconfiança, procurando praga.

 

Já dissera admirar em mim concisão, ironia e rapidez nas respostas, virtudes que persegue como quem corre atrás do próprio eco numa casa vazia. Minha frase lhe pareceu longa, longa demais. Suspeita.

 

Resolveu submetê-la a julgamento numa maquineta baiana em forma de acarajé futurista. Introduz-se o texto na boca eletrônica, piscam luzes, chia uma fritura metafísica, e sai o veredito impresso em tinta à base de dendê, em caligrafia de contador do Império.


“Ô, seu fresco, cadê você?”

 

Não satisfeito, repetiu o teste.
“Tá vivo, seu esculhambado?”

 

Terceira rodada, já com tempero regional:
“Ô corno, fi-duma-égua, onde andas?”

 

Suando frio, talvez ainda mareado de algum porre filosófico, mastigou o aparelho e engoliu. Sem pimenta. Concluiu que a máquina não errava. Errado era ele, literal demais para sobreviver ao idioma da amizade.

 

Urtigão é maré. Regula-se pela tábua de Massarandupió, praia naturista onde até as certezas tiram a roupa íntima. Some quando a lua mingua; reaparece quando a autoestima enche.

 

Depois que se aposentou, mudou para a roça convencido de que plantas são mais coerentes que humanos. Sonhava dividir com a musa travesseiros e dúvidas no meio do mato. Conseguiu. Depois descobriu que a vida bucólica é um mosteiro com moscas e que o silêncio demais começa a roer por dentro.

 

Talvez a infância explique. Uma professora, ao notar suas sardas espalhadas como constelação mal distribuída, decretou diante da turma:


“Parece um ovinho de tico-tico.”

 

Estava inaugurada a temporada de caça. Vieram outros apelidos cruéis: "Banana Madura", "Cagada de Mosca", "Enferrujado". Aprendeu cedo que há marcas que a gente não apaga. Só aprende a conviver com elas.  


Cresceu, virou bancário, fez filho, leu livros, plantou árvores e se aposentou. Parecia ter domesticado os próprios fantasmas. Fantasmas, porém, são bichos que fingem obediência.


Em fevereiro de 2023, recebi sua última mensagem: celular ruim, rede pior, chip trocado, WhatsApp desconfigurado. Falava em trocar o pomar pelo supermercado em Salvador, a solidão por vinhos e farmácia na esquina. Despediu-se heroico, como explorador prestes a enfrentar a selva:


“Vou ali caçar sinal no mato.”


E foi. Desde então, silêncio interestelar.

 

Por isso aposto nos arquivos americanos. Quem sabe se, entre relatórios sobre discos voadores e experimentos atmosféricos, aparece um anexo amassado:

“Caso Urtigão — humano irascível, visto pela última vez tentando capturar 4G entre abacaxizeiros.”


Se tiver sido abduzido, peço a devolução. Não precisa voltar conciso, rápido ou espirituoso. Basta reaparecer e continuar se comovendo quando, entre uma caipirosca e outra, escuta “Let it be” ou “Something” no bar de praia Lopana, de passagem por Maceió.

 

Porque toda teoria conspiratória nasce da mesma esperança: a de que quem some esteja apenas atrás de uma antena torta, e não soterrado no próprio silêncio, com o celular descarregado e o orgulho em modo avião.

 

Se você, meu velho, estiver só procurando sinal, que encontre o mais breve possível. Mesmo que seja para me esculhambar. 


Porque amizade também é isso: poder chamar o outro de alienígena “fi-duma-égua” e ainda assim esperar que ele reapareça.

 

 

 

 

fevereiro 18, 2026

Manual do bicho indomável

MANUAL DO BICHO INDOMÁVEL

Hayton Rocha

Não é natural acordar cedo e sair caminhando apressadamente ou correndo por aí nesta época do ano. Às sete da manhã, o corpo ainda negocia com o lençol e o sol já tosta o cocuruto de quem ousa sair sem boné. Mesmo assim, a criatura calça o tênis, sincroniza o relógio e declara ao espelho do elevador, com entusiasmo discutível: “Hoje vou correr dez quilômetros porque adoro”.


Ilustração: Uilson Morais (Umor)


Adora? Desconfie de quem diz gostar de sofrer voluntariamente. Bicho nenhum corre se não for tangido pela fome ou pelo pânico. O resto é invenção de quem já não foge de onça-pintada como seus ancestrais, mas continua acuado por outra coisa. Correr por prazer é invenção recente. Método elegante de não escutar a própria cabeça. Disfarce sofisticado da ansiedade.


Natural seria ficar. Uma voz aveludada, com hálito de café, diria: “Hoje, meu bem, basta caminhar sete mil passos. Fique na cama mais um pouco. O mundo não vai acabar às oito”. Mas não. A criatura vai. Volta esbaforida, orgulhosa das medalhinhas digitais no relógio como se tivesse atravessado o Saara puxando camelos. A tecnologia distribui indulgências eletrônicas: sofreu, logo merece existir.


Em seguida, já pensando no almoço, começa a liturgia. Arroz integral penitente ou espaguete pecador? Tilápia virtuosa ou frango sem pele — tristeza sob a forma de proteína? Carne moída que consola ou picanha que ameaça as coronárias? Mastiga-se com culpa ou com rebeldia.


Há quem sonhe com solução mais prática: três cápsulas por dia para corpo, cabeça e alma. Proteínas, sais minerais, cálcio para os ossos, duas gramas de paciência e uma dose de lembrança da infância feliz. Engolir e seguir. Sem dilemas. Sem a angústia de escolher entre salada e feijoada.


Algo como a criatura plugada no útero, recebendo tudo por um tubo. Sem abrir os olhos, sem opinar, sem manual de instrução. Talvez ali tenha sido nossa última temporada sem ansiedade. Depois do primeiro choro, matricula-se num curso intensivo de escolhas. E decidir cansa mais que correr.


Quem sabe uma inteligência artificial possa recalibrar a fórmula a cada aniversário e avisar: “Atualização concluída. Este organismo permanece válido até os 99 anos”. Depois disso, apenas dores, rangidos e perdas. A morte chegaria por notificação prévia: aceite os termos ou desligue.


Água também viria encapsulada. Nada de garrafinha pendurada como amuleto fitness. Mas, para não abolir de vez o livre-arbítrio bíblico, três taças de vinho por semana. Prova de que ainda não viramos samambaias farmacêuticas alinhadas sob luz artificial.


Dormiríamos seis horas por dia. O resto do tempo seria distribuído em blocos produtivos: leitura útil, música que estimule sinapses, boas conversas, exercício moderado. Claro, e algumas horas pro trabalho — palavra que descende de tripalium, instrumento romano de tortura. A etimologia não falha: trocamos o chicote por login, senha, metas e avaliações de desempenho. Tortura digital também deixa marcas, só que invisíveis.


Tais especulações surgiram numa chamada de vídeo com um velho amigo de Batatais, desses que já não temem pensar alto nem errar em público. Falávamos sobre o que é natural e o que é invenção humana — um cipoal de regras que criamos para fingir racionalidade enquanto administramos nossos medos.


Ele perguntou: “E a monogamia, é natural?”. E sorriu como quem derruba a primeira peça do dominó. “No quintal da minha infância, um galo só reinava sobre uma dúzia delas. Nenhuma galinha exigia exclusividade.”


Ensaiei discurso sobre ética nos relacionamentos, pacto civilizatório como coleira do instinto. Ele atalhou: “E o piercing na língua? Isso também é natural ou é só outra forma de marcar território no próprio corpo?”


O celular vibrou. Ele se despediu e sumiu da tela, deixando a provocação no ar: “O que você diz faz sentido… mas o que eu digo também faz, não?”. Vai ver foi convocado por algo inadiável: o tripalium doméstico.


Fiquei olhando os cadarços dos meus tênis encostados na parede. Pareciam me desafiar. Talvez não corramos por saúde. Talvez corramos para manter o animal ocupado. Porque, se ele fica parado, começa a perguntar.


Pergunta por que trabalhamos tanto. Por que comemos com culpa. Por que amamos sob contrato. Por que precisamos provar desempenho até quando estamos felizes.


Existe dentro de nós um bicho anterior ao aplicativo de passos, à planilha, à terapia de casal.


Se paramos, ele fala. E talvez o problema nunca tenha sido o bicho. O problema sempre foi o manual.

fevereiro 11, 2026

Fitas que se multiplicam

FITAS QUE SE MULTIPLICAM

Hayton Rocha

 

Ao publicar aqui Três fitas, semana passada, não pensei em alcance, algoritmo ou estatística. Antes de qualquer coisa, quis resgatar uma cena que trago na gaveta de meus achados mais caros: uma criança observando o gesto materno e descobrindo, sem saber, uma forma de lidar com o mundo. Nada épico. Nada digno de placa. Só o cuidado quando ninguém está olhando, que justamente por isso costuma durar mais.



Imagem: M.E. Ateliê da Fotografia



Escrevi como quem fala consigo mesmo. Um texto sem discurso armado, sem a pretensão de ensinar a quem já viveu mais ou menos do que eu. Talvez por isso tenha passado ileso pelo alarme das grandes certezas e encontrado leitores desarmados.

 

O que não calculei foi o depois.

 

Vieram comentários. Vieram muitos, variados, carregando histórias nos bolsos. Uns falaram de ciência, outros de fé, outros misturaram as duas coisas como quem não vê contradição entre medir os batimentos cardíacos e rezar. Houve quem risse, houve quem lembrasse de quedas — das que o corpo acusa e das que a vida disfarça.

 

E fui lendo tudo com um espanto bom.

 

Vi que o texto tinha escapado das minhas mãos. Já não me pertencia como pertence uma frase bem-acabada ou um parágrafo resolvido. Pertencia agora a quem o atravessava com a própria memória. Cada comentário era uma fita nova amarrada onde eu nem sabia que havia pulso.

 

Teve leitor que se viu no pai. Teve leitora que se reconheceu mãe, na filha. Teve quem lembrasse da avó, de um gesto antigo que só agora ganhava sentido. Gente que nunca tinha pensado muito sobre cuidado e, de repente, percebeu que passou a vida inteira cuidando — sem aplauso, sem plateia.

 

No sábado, recebi uma mensagem do mestre Artur Roman falando da repercussão. Conheço bem o ritual da fera: estudioso e metódico, enxerga sempre com olhos de lince. Falou de números, de proporções, de impacto. Quatro mil caracteres de crônica gerando quarenta mil em comentários.

 

Fiquei contente. Não pelo volume, mas pelo belo descompasso entre causa e efeito. Um barulho íntimo produzindo ecos inesperados. Uma fita puxando outra, que puxava outra, até virar um novelo enorme, impossível de abraçar.

 

Ele lembrou que, na vida acadêmica, impacto se mede por citação. Sob outra régua, impacto se mede por ressonância. Pelo tempo que o texto fica rondando alguém depois que a tela apaga. Pelo comentário escrito dias depois, já frio, mas ainda pulsante.

 

E os ecos foram muitos.

 

Alguns chegaram suaves, tímidos. Outros vieram emocionados, sem pedir desculpa pelo excesso. Vieram também os bem-humorados — esses que lembram que o riso é uma respeitável forma de inteligência. Todos legítimos. Todos necessários. Porque o texto não pretendia convencer ninguém. Queria apenas fazer companhia.

 

Depois da aposentadoria, passei a trabalhar de outro jeito. Sem horário fixo, sem metas mensuráveis. Trabalho de escutar, observar, não atropelar os fatos. Três fitas nasceu nessa praia: um lugar onde o tempo anda mais devagar e detalhe vira protagonista.

 

Talvez seja por isso que tenha tocado tanta gente. Porque não falava de heroísmo, mas de algo bem mais raro: o cuidado cotidiano. O que não aparece em currículo, não rende selfie, não vira discurso. Esse que só se nota quando faz falta.

 

Ao ler os comentários, restou a impressão de que a crônica virou conversa de fim de tarde. Daquelas em que ninguém quer ter razão, só permanecer mais um pouco. Escrever, ali, deixou de ser ato solitário e virou roda. Virou espaço de escuta mútua. Um lugar onde cada um chegava com sua fita, seus nós, sua maneira de segurar o mundo para que ele não caia no vazio.

 

As fitas, afinal, não estavam apenas no pulso daquele pai. Estavam nas mãos de quem comentou. Estavam também em quem leu e não escreveu nada. Estavam na memória de quem fechou a página e ficou olhando para o nada, como quem procura alguma coisa que ainda não sabe o que é.

 

Fitas invisíveis, sustentando uma ideia simples e quase subversiva: ninguém atravessa essa vida sozinho, embora finja não saber disso. 


Aprendi com Artur Roman: a crônica termina quando acaba o texto, mas começa de verdade quando encontra outro. E Três Fitas deixou de ser apenas uma história minha para virar um lugar de encontro.

 

Talvez seja por isso que ainda escrevo. Não para explicar o mundo — isso eu já desisti —, mas para amarrar fitas por aí. Quem sabe ajudam alguém a atravessar mais um dia, mais uma semana.

fevereiro 04, 2026

Três fitas

TRÊS FITAS

Hayton Rocha

 

O estrondo da queda — abafado, bruto, feito um armário que tomba — assustou mais do que feriu. Não houve grito, só o baque seco no chão. O corpo pouco acusou: um galo na testa, o andar hesitante pela pancada no quadril. O susto, esse sim, espalhou-se pela casa como cheiro de lavanda que permanece no ar mesmo depois da janela aberta.

 

O velho, convenhamos, morto de sono às dez da noite, não tinha nada que descer escada de madeira sem meias antiderrapantes. Há imprudências que a maturidade não corrige, apenas disfarça de cansaço. Em minutos, ela, médica, já levava o pai à emergência hospitalar. Ele passaria a madrugada em observação, entre exames, luzes frias e a paciência treinada de plantonistas.

 

Havia no ar uma incerteza nada metafísica, de ordem prática: atendimento médico no exterior costuma surpreender quem não se escora num seguro redigido na língua de Shakespeare. Não era o caso. Mas as letras miúdas de uma apólice sempre assombram. 

 

Entre o protocolo e a vigília, a filha, ciência à parte, amarrou no pulso do pai três fitas. Fez isso solene, como pacto. Ordenou que não as retirasse em hipótese alguma. Só o suor, o sabonete e o tempo teriam esse direito. Não eram enfeite nem superstição. Eram uma espécie de prontuário íntimo, escrito sem palavras.




 

Ela crescera entre os cinquenta tons de azul do litoral nordestino. Brincara com conchas e peixinhos em Maceió, Recife e Salvador, desde cedo aprendendo que o mar tanto acolhe quanto devolve. Até que o destino a puxou para Brasília, onde a infância se despede e o futuro começa a cobrar sua parte, sempre adiantado e quase nunca com desconto.

 

Na Bahia, aprendera que fé se amarra no pulso. Descobrira o Senhor do Bonfim — acordo antigo entre Cristo e Oxalá, entre o sagrado e o profano — e o poder das fitas coloridas, onde cada nó carrega um pedido sussurrado, constrangido. Os dela, ainda pequena, eram diretos: queria voar, fazer mágicas e comer sem engordar. Desejos desmedidos? Talvez. Mas há pedidos tão limpos que a vida escuta com mais atenção, reconhece a voz inocente de alguém no começo da jornada.

 

Antes disso, ainda em Alagoas, numa manhã na casa de amigos, à beira da piscina, viu sua mãe salvar uma criança do afogamento. Ali, sem discurso e sem plateia, decidiu que um dia também cuidaria de vidas. A medicina começou antes dos livros, no susto e na urgência de quem não aceita perder enquanto houver chance de virar o jogo.

 

Nunca se soube quando as fitas coloridas da infância se desfizeram. Sumiram como o rumor de uma onda que volta ao mar, sem deixar rastro visível. Mas os três pedidos foram atendidos.

 

Voou quando se tornou médica — e seguiu voando mais alto. Fez-se mestra e doutora, atravessou a neurologia, a epidemiologia, a ciência da saúde populacional. Agora também ensina, pesquisa, lidera centros de estudo. Descobriu que subir não afasta o chão: apenas amplia a paisagem.

 

Fez mágicas ao quebrar paradigmas e abrir trilhas na mata fechada. Latina, mulher, raridade não branca em poltrona onde o poder costuma vestir outra pele. Hoje palestra, publica, forma gerações sem jamais confundir mérito com privilégio. E desenha traço a traço o amanhã da medicina como quem cria o futuro antes que ele se torne mera fatalidade.

 

Quanto ao terceiro pedido, o mais desafiador, aprendeu a alimentar a alma. Mantém o corpo em guarda e o espírito abastecido de compaixão e justiça. Já orientou dezenas de jovens pesquisadores, muitos deles vindos de onde quase ninguém olha. Seu reconhecimento mora menos nos prêmios do que nas pessoas que ficaram de pé depois que cruzaram seu caminho. 

 

Hoje, cinco meses depois da queda naquela noite, o pai andou relendo memórias de sua filha. Ela fala de fé e superação, de envelhecimento saudável, de inteligência artificial a serviço da saúde. Diz que resistir e persistir não são slogans. São verbos a serem conjugados todo dia, mesmo quando bate o cansaço.

 

E era uma vez um pai — este que vos escreve — que não imaginava aonde ela chegaria. Que, volta e meia, lembra de quando a embalava, cantarolando “Se essa rua fosse minha”.

 

No máximo, torcia para que a febre cedesse.  O resto, o tempo amarrou.

janeiro 28, 2026

O gol que marca

O GOL QUE MARCA 
Hayton Rocha


Em ano de Copa do Mundo, a fronteira entre herói e vilão é estreita como as traves em disputa de pênaltis. Um chute torto, uma arrancada perfeita, e a História decide quem sobe ao pedestal e quem desce para o porão. Uns viram lenda — Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo. Outros viram cicatriz — Barbosa, Cerezo, Felipe Melo, Dante. A pressão é cruel: idolatra ou condena. E quase sempre faz isso em míseros noventa minutos.


Pensava nisso quando lembrei de João Batista de Almeida, amigo querido, vascaíno, que partiu há cinco anos. Ele costumava dizer que certas histórias só continuam existindo porque alguém insiste em contá-las — como cartas velhas que se recusam a sumir em dia de mudança.


Segundo João, em julho de 1958, uma menina de dez anos se recuperava de uma cirurgia na perna, no apartamento da família, no Rio de Janeiro. Vítima da poliomielite desde bebê, aprendera cedo que o corpo também pode ser território em disputa. Para enganar o tempo, montava um álbum de recortes dedicado a Bellini, zagueiro vascaíno e capitão da seleção campeã do mundo na Suécia. Um pequeno altar doméstico para um ídolo que não precisava se anunciar.


Num fim de tarde, a porta se abriu. “Boa noite”. Era Bellini.





Alguém lhe falara da menina. Entre compromissos, treinos e a ressaca do título recém-conquistado, ele foi. Sentou-se, contou histórias da Suécia como quem exagera uma pescaria. A menina ficou muda, travada. Alguns encontros dispensam palavras.


Dois anos depois, Bellini a reconheceu na rua, em Copacabana. Ela já andava melhor, carregando no corpo a esperança de voltar a andar sem esforço. Contou que faria a segunda e última cirurgia. Dias depois, Bellini ligou para o hospital, soube que tudo correra bem e apareceu para visitá-la. Levou bombons. Nada além disso. Um gesto simples, desses que não rendem manchete nem curtidas, mas sustentam uma emoção por semanas — às vezes por décadas.


O tempo passou. A menina virou Célia Vaz: cantora, maestrina, violinista. Em 1972, ganhou bolsa para estudar na Berklee College of Music, em Boston. Formou-se em Arranjo e Composição em 1976. Reconhecida no Japão, na Europa e nos Estados Unidos, tornou-se mais celebrada fora do que aqui — destino recorrente de talentos brasileiros que precisam atravessar oceanos para serem escutados em casa.


Em pouco mais de meio século, Célia foi a São Paulo visitar Bellini, aos 81 anos, e a mulher, Giselda. Deu-lhe um beijo. Também levou bombons. Entre um afago e outro, um filme silencioso atravessou a sala. As lágrimas caíram livres sobre os rostos, sobre a memória, sobre a caixa aberta. Há coisas que o tempo não estraga. Sabem esperar sem alterar o sabor.


Sei que o jogo mudou, como tudo muda. Ainda assim, custa imaginar uma cena dessas se repetindo hoje. Nem os clubes mais vitoriosos conseguem produzir ídolos admirados até por torcidas adversárias, como foram Ademir da Guia, Zico e Roberto Dinamite. O futebol moderno fabrica atletas precisos, eficientes, monitorados por métricas. Fabrica desempenho. Raramente fabrica encontros.


O jogo virou xadrez em alta velocidade. Tático, físico, estudado até o último centímetro do gramado. Os jogadores se encaixam em engrenagens rígidas, como peças substituíveis. O improviso — primo irreverente da genialidade — passou a ser tratado como risco.


Clubes e atletas viraram marcas. O escudo divide espaço com patrocinadores; o amor, com o mercado. A carreira virou portfólio. A fidelidade, um item opcional. Relações que antes levavam décadas para se formar hoje duram o tempo de um anúncio.


As redes aproximaram demais. O ídolo, antes distante e misterioso, passou a caber na palma da mão. Aproxima, mas desgasta. O encantamento não resiste ao excesso de luz. Aprende-se a posar, a editar, a se proteger. Vira personagem de si mesmo.


Talvez vivamos a fase mais imediatista de nossas vidas. Não toleramos falhas. Tudo é descartável. Será que aplicamos essa lógica também aos ídolos? Não suportamos a derrota, a queda. Esquecemos que dentro de toda grande conquista moram alguns fracassos — e que são eles que nos engrossam a casca.


Pode ser que o passado fique mais generoso visto à distância. Ainda assim, algo se perdeu no caminho: o gesto gratuito, o tempo doado sem agenda, a visita sem assessoria de imagem, a caixa de bombons entregue sem câmera.


Bellini não precisou ser gênio do futebol. Salvou uma tarde, uma menina, um álbum de recortes.


Isso não entra em estatística nenhuma. Mas atravessa décadas sem perder o brilho. Com o mesmo sabor.

O nome que cabe no grito

O NOME QUE CABE NO GRITO Hayton Rocha   Botar apelido é mania tão brasileira, íntima e aparentemente inofensiva, mas não nasceu de brincadei...