SEGREDO NÃO TEM PREÇO
Hayton Rocha
Mineira de Governador Valadares, cabelos cacheados, olhos miúdos e um jeito manso de falar, Valéria Sweet começou sua odisseia multinacional fazendo faxinas nos arredores de Boston, nos Estados Unidos. Depois virou cuidadora de idosos terminais, quando descobriu que os estadunidenses levam a morte tão a sério quanto os brasileiros levam promoção de Black Friday.
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| Ilustração: Uilson Morai (Umor) |
No Brasil, enterro costuma ser operação-relâmpago. Morreu às oito, enterra ao meio-dia e às cinco da tarde já existe parente de óculos escuros perguntando discretamente como ficará o inventário de bens. Velório é quase escala técnica entre o óbito e o próximo cafezinho.
Nos Estados Unidos, a morte recebe produção executiva. O corpo passa dias sendo maquiado como candidato em debate eleitoral. Há vídeos emocionais em que o falecido aparece pescando, sorrindo ou abraçado a um labrador obeso ao som de violinos melancólicos. Amigos deixam no caixão cartas, charutos, fotografias e latinhas de cerveja, como se o morto estivesse embarcando para férias numa dimensão paralela administrada pela Disney.
Foi cuidando de um veterano de guerra que Valéria teve a ideia. Ele passava horas olhando pela janela enquanto a neve descia devagar sobre os telhados. Numa dessas conversas de fim de tarde, o velho comentou:
— Eu gostaria de dizer algumas coisas no meu funeral.
Valéria sorriu.
— O senhor pode escrever uma carta.
— Minha família não vai gostar.
— Faz diferença?
O velho pensou alguns segundos.
— Nenhuma.
Então ela respondeu com aquela mineirice perigosamente calma:
— “Xacomigo”.
Valéria Sweet virou “confessora de leito de morte”.
Funcionava simples. O cliente, já em avançado estado de despedida, escrevia cartas ou gravava vídeos com revelações bombásticas. Tudo autenticado em cartório, advogado presente e três mil dólares pagos antecipadamente. No funeral, em meio às homenagens, Valéria pedia a palavra. E o inferno começava.
Houve empresário que revelou possuir três famílias em estados diferentes. Pastor que confessou alergia à própria fé. Coronel reformado que admitiu nunca ter disparado um tiro em combate e construído a carreira inteira fazendo tráfico de influência ou jogando colegas de caserna uns contra os outros.
O episódio mais célebre ocorreu quando um morto resolveu denunciar o melhor amigo. Em carta curta e grossa, contou que o sujeito aproveitara os últimos dias de internação para apalpar discretamente a esposa do moribundo durante as visitas hospitalares.
Valéria leu tudo com serenidade de tabeliã do Apocalipse. Relatou inclusive que a viúva, embora fingisse desconforto, “revirava os olhos, gemia baixinho e relaxava com inesperada naturalidade”.
O acusado empalideceu como quem vê o próprio nome surgir numa delação premiada. Tentou escapar pelos fundos enquanto a viúva recebia olhares capazes de derreter granito. Foram ambos convidados a se retirar em respeito “à memória do falecido”.
A partir daí, Valéria passou a ser temida nos funerais da comunidade brasileira mais que visita do Serviço de Imigração e Alfândega. Até que começaram a chegar algumas notícias interessantes do Brasil.
Ministros envolvidos em rumores nada republicanos. Banqueiros aparecendo em conversas atravessadas. Assessores jurídicos jurando inocência com expressão de quem esconde dólares no colchão da amante e senha de paraíso fiscal na agenda do celular.
Valéria então percebeu que o verdadeiro filão de ouro não estava nas revelações nos Estados Unidos. Estava em manter a boca fechada no Brasil.
Mudou-se para Brasília e abriu uma representação discreta, sem placa, sem site e sem CNPJ visível, num centro comercial da Asa Sul, diante da Esplanada dos Ministérios e a poucos metros da Rodoviária do Plano Piloto, aquele gigantesco aquário tropical onde assessores, burocratas, lobistas e profetas do caos dividem o mesmo cheiro de ar-condicionado com mofo.
O novo modelo de negócios era ainda mais sofisticado. Valéria passou a cobrar não para revelar os segredos de alguém, mas para destruí-los. Cartas explosivas, vídeos estarrecedores, contas no exterior, fotografias, nomes de operadores, tudo eliminado mediante prévio pagamento em dólares. Com taxa extra nos casos envolvendo lavagem de dinheiro, peculato e prevaricação.
Deu tão certo que Valéria já foi até responsabilizada pelo fechamento de um famoso point da política brasileira, palco de grandes articulações desde a redemocratização do país.
Nos últimos meses, aliás, com pré-candidatos à Presidência e ao Congresso brotando feito cupim em madeira úmida, tudo indica que a mineirinha vai apodrecer de rica.
Na guerra que vem aí, segredo não tem preço. Tem leilão. E a temporada de lances mal começou.







