COM SENHA E TUDO
Hayton Rocha
Tenho uma inveja medonha de quem tem certeza de tudo. Deve ser maravilhoso viver sem o peso da dúvida e da reflexão.
Há duas décadas, um amigo me contou que visitara um médico, dono de hospital, tão frio que até o cafezinho parecia servido numa bandeja de necrotério. O doutor falava de suas virtudes gerenciais com tamanha empáfia que a soberba lhe escorria pelos cantos da boca.
Meu amigo era bancário. O médico queria financiar equipamentos de ressonância magnética, máquinas que nos vasculham por dentro sem nos perguntar se temos ou não algo a esconder.
Para provar que podia pagar o empréstimo, contou que implantara metas desde a porta da emergência. De cada cem pacientes, quarenta fariam exames complexos; dez seriam internados; três ou quatro chegariam à UTI. Com chuva, sol ou a virose do dia, o hospital teria a precisão de uma fábrica de parafusos.
A receita adicional permitiria comprar novos equipamentos sem recorrer a bancos. O corpo humano ajudaria a pagar as prestações. Coração, fígado, pulmão, rim: cada órgão daria sua contribuição à expansão do negócio.
Se algum plano de saúde recusasse autorização, não haveria problema. Numa hora crítica, poucas famílias discutem evidências científicas ou preços. Assinam. Se preciso, aprendem o caminho do plantão judicial. O medo é um vendedor eficiente e costuma conseguir liminar.
É o tal do pay-per-use: paga-se pelo que se usa. Quanto mais se faz, mais se cobra; quanto mais se cobra, mais se ganha. Ao autorizar uma internação, o plano não entrega um cheque em branco — isso é coisa do passado. Entrega seus dados bancários básicos, com senha e tudo. Não sabe quantas diárias virão nem quanto custará cada procedimento. Disponibiliza os recursos e torce pelo bom senso do outro lado.
Quando o plano pertence a funcionários de empresa estatal ou de economia mista, aparece outra jabuticaba: a crença de que o governo de plantão não o deixará falir.
Anos mais tarde, meu amigo passou a trabalhar numa operadora de planos de saúde. Viu de perto hospitais e planos acirrarem a disputa, com o paciente no meio. Se um lado impõe condições demais, o outro pode quebrar. E quem fica entre os dois é justamente quem precisa de atendimento.
Ele percebeu que a saída estava menos na guerra de tabelas e mais na integração das partes: planos de saúde, hospitais, laboratórios e serviços especializados dividindo informações, responsabilidades e riscos.
Defendia, por exemplo, que planos e fundos de previdência ligados aos mesmos trabalhadores e aposentados se aproximassem e participassem da gestão das redes de assistência. Teriam motivo para buscar qualidade e custos sustentáveis. Saúde exige investimento de longo prazo, e o setor já passava por movimentos de consolidação.
Isso não resolveria tudo, claro. Ser sócio não pode dar ao dono do capital o controle do apito, da bola e do placar. Transparência, regulação e limites são indispensáveis para que a integração não concentre poder nem transforme o paciente em detalhe de uma planilha.
Negócio não é palavrão. Profissionais precisam ser bem pagos, equipamentos custam caro e o capital não faz voto franciscano. A situação complica quando a remuneração depende da multiplicação da doença.
A regulação deveria funcionar como freio. No Brasil, certos freios só são examinados depois que o carro chega ao pé da ladeira. E o paciente, que deveria estar no centro do sistema, muitas vezes descobre que era apenas o centro de custo. Sua vida pode caber numa guia recusada, numa senha ou num telefonema que não chega a tempo.
Depois dos sessenta anos, o corpo vira carro usado: quando não acende uma luz no painel, surge um ruído na suspensão. Amigos somem, exames chegam, e o futuro passa a caber entre duas consultas.
Se o hospital cobra cada vez mais, o plano precisa arrecadar mais, reduzir coberturas ou restringir atendimentos. Se a assistência fica inacessível, um aposentado pode até viver mais, porém com menos saúde e menos recursos. E o desequilíbrio ameaça também o patrimônio que deveria garantir sua renda.
Na semana passada, tanto tempo depois, reencontrei meu velho amigo. Ele segue acreditando que grandes fundos de pensão e planos de saúde dos mesmos associados deveriam sentar-se à mesa e buscar participação societária nas grandes redes médico-hospitalares, mesmo porque o mercado de saúde no Brasil já movimenta trilhões de reais por ano.
Para ele, quem paga aposentadorias deveria ter interesse em que o aposentado viva bem. Quem paga assistência médica, também. Se os beneficiários são os mesmos, seus representantes precisam conversar e dividir responsabilidades. O medo dessa aproximação, porém, ainda paralisa muita gente.
Meu amigo teme que essa conversa continue sendo protelada, mesmo sabendo-se que a porta do hospital pode fechar a qualquer momento.
Se os fundos de pensão e os planos de saúde dos mesmos associados não aprenderem a trabalhar juntos, diz ele, alguém poderá morrer à míngua, sem assistência, embora tenha uma aposentadoria futura garantida.
É por isso que tenho uma inveja danada de quem vive sem o peso da dúvida e da reflexão.








