A VOLTA DO CHUPA-CABRA
Hayton Rocha
Uma série de mortes de porcos tem intrigado moradores da zona rural de São Brás, no agreste alagoano, onde a noite costuma ser tão calma que até o vento tem preguiça de varrer os sítios.
O caso se deu no Povoado Lagoa Comprida. Segundo os criadores, alguns porcos foram encontrados mortos de maneira incomum: cortes circulares, furos redondos na barriga, na cabeça, no pescoço e, o que mais causa espanto, sem uma gota de sangue.
Morte com cortes e furos, sem poças de sangue, sempre parece esquisita em qualquer lugar. O mais assustador, dependendo da imaginação de quem relata, é que ninguém ouviu nada. Nenhum latido ou correria. Nenhum grunhido de porco indignado com a sorte. E, na manhã seguinte, o mistério estendido no chão.
Como todo mistério que se preze, logo surgiram teorias. Primeiro vieram as hipóteses razoáveis: cães selvagens, raposas, algum predador noturno que a ciência ainda não teve tempo de catalogar.
Mas a razão tem pouco fôlego quando encontra a madrugada do agreste. Logo alguém lembrou de um velho conhecido do folclore do interior: o chupa-cabra.
Depois de ler a notícia, meu pensamento não foi diretamente ao sobrenatural. Só me veio à cabeça a fauna política.
![]() |
| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
Na tradição oral e em algumas ressacas coletivas, o chupa-cabra aparece nas sombras, suga o sangue de animais domésticos e desaparece sem deixar pegadas. Comportamento que, a gente sabe, também descreve boa parte dos operadores de licitação de obras públicas.
Dizem que a criatura parece um cachorro grande, metade demônio, metade lobo. Anda ereto, tem garras enormes e uma disposição incomum para transformar galinheiros tranquilos em assunto para o programa matutino de rádio.
No caso de Lagoa Comprida, porém, nem pegadas foram encontradas. O que só adubou a fertilidade da imaginação popular. Então alguns moradores cogitaram chamar um biólogo. A ciência, afinal, costuma ser convocada quando o folclore começa a criar asas.
Ocorre que o chupa-cabra, com sua habilidade para sugar sangue e deixar carcaças vazias, sempre me pareceu um parente distante, ou próximo demais, de certas figuras íntimas do orçamento público.
Se ele suga o sangue dos animais, há também quem sugue a seiva vital do dinheiro público. O primeiro deixa cabras, galinhas e porcos pelo caminho. Os outros deixam ambulâncias sem combustível, funcionários com salários em atraso e hospitais sem remédio.
No caso do chupa-cabra, a vítima é bicho de terreiro. No caso dos sanguessugas do orçamento, a vítima é algo maior porém mais indefeso: a sociedade.
O modo de agir também tem diferenças. O chupa-cabra age de madrugada, sem testemunhas, instalando o horror. Já os outros preferem a luz branca dos corredores palacianos. Trabalham em cima de contratos, licitações, superfaturamento de notas fiscais e pareceres técnicos redigidos numa linguagem tão incompreensível que ninguém sabe exatamente quem chupou o quê.
O resultado, no entanto, é parecido. O corpo social acorda mais pálido, tonto. Como alguém que perdeu sangue demais e ainda recebe a conta salgada do hospital na manhã seguinte.
A diferença é que o chupa-cabra ainda não teve sua existência comprovada. Já os sanguessugas ganharam até nome em operação policial. O monstro é mito. Os outros têm CPF, passaporte, RG e, às vezes, foro privilegiado.
Enquanto um pertence ao folclore rural, os outros frequentam gabinetes climatizados, fazem discursos sobre ética e aparecem na televisão falando em responsabilidade fiscal com a placidez de quem acaba de drenar uma lagoa.
No fundo, a comparação entre os dois é apenas uma tentativa de explicar safadezas usando imagens que até o galinheiro entende. Se o Estado funciona como um organismo, o dinheiro público é o sangue. E quando alguém vive de sugá-lo, não demora e o corpo começa a cambalear, zonzo, como galinha que anda em círculos no quintal antes de cair.
Quem sabe por isso histórias de monstros sobrevivam no interior. Elas ajudam a nomear aquilo que a lógica não explica, aquilo que a lei não alcança e aquilo que a vergonha não pega pelo rabo.
Tomara que a investigação descubra algo menos feio do que as sem-vergonhices de sempre. Já basta porco morto, sem sangue no chão e povo sem dormir. Seria uma pena estragar um mistério tão caprichado com mais uma safadeza.
No país onde o surreal trabalha inclusive em feriados e fins de semana, é possível que o verdadeiro mistério não esteja nos porcos de Lagoa Comprida. Mas no fato de que, enquanto procuram monstros no meio do mato, os verdadeiros vampiros já circulam livremente em mais uma pré-temporada eleitoral.
E, pior de tudo, pedindo voto.







