novembro 01, 2026

A bola, o livro e o "se"

 

A BOLA, O LIVRO E O “SE”

Hayton Rocha


Em “As Primas de Sapucaia”, conto de Histórias sem Data (1884), Machado de Assis pontuou: “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução...” 


O que teria acontecido ao Brasil se Pelé, Roberto Dinamite, Sócrates e Zico, em seus tempos de glória, tivessem feito o que Gustavo Scarpa faz agora: falar de livros para quem talvez nunca imaginasse que um jogador de futebol pudesse conversar sobre Tolstói? 


Em Anna Karenina, Tolstói escreveu: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”


 

Reprodução/Redes Sociais



Recentemente, Scarpa publicou no YouTube uma resenha de A Morte de Ivan Ilitch. O clássico russo chegou ao topo da lista dos mais vendidos da Amazon Brasil. Vieram convites, entrevistas, seguidores. E, no meio da torcida do Atlético Mineiro, nasceu a Galeitura, um clube de leitura que, pelo nome, já driblou a sisudez que muitas vezes ronda os livros.


Não é pouca coisa. No Brasil, basta um sujeito famoso recomendar uma chuteira para a loja esvaziar. Recomendar um livro é outra conversa. O freguês costuma perguntar se tem edição com menos páginas, mais fotos.


Scarpa, porém, parece ter encontrado o passe certo. Seu futebol se apoia menos na força e na explosão física do que na inteligência tática, no refinamento do toque e na precisão da perna esquerda. Por isso, a leitura não parece um adereço colocado ali para surpreender. É apenas mais um traço de alguém que, por acaso, também joga futebol em alto nível.


E se Pelé tivesse indicado livros depois daquele milésimo gol, em 19 de novembro de 1969? O país inteiro talvez tivesse corrido às livrarias. Ou, mais provavelmente, às bancas de jornal, onde já se comprava quase tudo: revista, gibi, figurinha. O vendedor passaria a perguntar ao freguês: “Vai levar também Capitães da Areia ou Vidas Secas?”


E se Zico tivesse citado Dom Casmurro, do Bruxo do Cosme Velho, numa entrevista depois de um jogo? Será que as arquibancadas teriam formado filas para uma biblioteca? Se Roberto Dinamite tivesse falado de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, alguém teria levado o livro para a concentração? E Sócrates, médico, jogador e cidadão inquieto, talvez tivesse encontrado na leitura uma extensão natural de suas conversas sobre democracia e futebol.


Não há como saber. O “se” continua aquele torcedor incorrigível: escala o passado, muda a formação e vibra com um resultado que nunca aconteceu.


Naqueles anos nada dourados, o Brasil ainda convivia com o analfabetismo crônico. Nenhum craque, por maior que fosse, teria resolvido sozinho um problema que exigia escola, professor, biblioteca e políticas públicas consistentes.


O futebol poderia ajudar a abrir a porta; não substituiria quem precisava construir a casa. A diferença é importante. Uma campanha de leitura não alfabetiza automaticamente quem não teve acesso à escola, mas pode fazer alguém querer entrar nela. Ou voltar.


Imaginem hoje os clubes abrindo bibliotecas. A criança chegaria para visitar a sede e sairia com um livro debaixo do braço. Talvez Corinthians, Flamengo, Palmeiras ou Vasco descobrissem que também se pode ganhar torcida sem contratar medalhão a peso de ouro. E os canais de mídia reservariam espaço para as leituras dos jogadores. O influencer que acompanha o dia a dia do clube falaria da provável escalação e, ao lado, da lista de livros da concentração.


Talvez seja fantasia demais. No entanto, o que vemos agora também parecia improvável: um meio-campista recomendando Tolstói, um livro russo vendendo como se tivesse acabado de marcar um gol nos acréscimos, torcedores discutindo literatura nas redes sociais. O que parecia distante aconteceu porque alguém resolveu falar do que gostava, apesar da insegurança.


Há quem insista em dizer que o futebol aliena o país, embotando os olhos para suas grandes mazelas sociais. Às vezes, sim. Mas também pode conduzi-lo a lugares onde não costuma entrar. Uma bola atravessa fronteiras; um livro, quando encontra o leitor, atravessa o tempo. Juntos, podem fazer algo simples e singular: despertar curiosidade e ampliar horizontes.


O passado não aceita replay. Pelé já não pode gravar uma resenha sobre a obra de Graciliano Ramos ou Jorge Amado. Roberto Dinamite e Sócrates já não estão aqui para escolher a leitura do mês. Mas a biblioteca que sonhamos ainda pode ser construída.


A bela jogada de Gustavo Scarpa merece uma salva de palmas. Não muda o Brasil de uma hora para outra, mas pode levar mais brasileiros a abrirem um livro. E quem sabe assim a leitura ganhe novos torcedores.

outubro 28, 2026

Certos mistérios

 

CERTOS MISTÉRIOS 

Hayton Rocha


 

Meu amigo Marcelo Torres, escritor e jornalista baiano radicado em Brasília, outro dia me fez uma instigante pergunta em forma de crônica: quem seria a tigresa de unhas negras e íris cor de mel cantada por Caetano Veloso? Aquela musa de pele de ouro marrom, que gostava de política em 1966 e, doze anos depois, dançava com as Frenéticas no Dancin’ Days? Quem era a deusa, atriz do musical Hair, que com alguns homens fora feliz e com outros apenas mulher?

 

 


Quando interrogado por fãs e jornalistas, Caetano sorria, desconversava e deixava a pergunta no ar. Sabia que certos mistérios, depois de explicados, ficam menores que a curiosidade. Musa identificada perde metade do encanto e ganha certidão de batismo, passaporte e endereço fixo.

 

Como o país estava havia quase vinte anos sem escolher diretamente o presidente da República, o povo aproveitou o enigma para improvisar uma eleição. Brasileiro não suporta urna vazia. Se não pode eleger presidente, escolhe escola de samba, melhor jogador, pior juiz, par romântico de novela ou musa de compositor.

 

De um lado, Zezé Motta: unhas negras, pele de ouro marrom e outros traços espalhados pela canção. Do outro, Sônia Braga: atriz de Hair, protagonista de Espelho Mágico e dona de credenciais para reivindicar o rugido. O Brasil, sempre disposto a transformar qualquer assunto em Fla-Vasco, dividiu-se entre as duas.

 

Felizmente, ainda não havia redes sociais. Sem elas, o ódio precisava sair de casa, pegar ônibus e procurar o adversário, o que dava um trabalho danado.

 

Caetano explicou depois que a tigresa não era uma mulher específica, mas uma personagem feita de muitas. Tinha um pedaço de Sônia Braga, talvez mais de Zezé Motta, além de traços de outras mulheres que conhecera ou vira passar pela noite. Uma colcha de retalhos com unhas negras, olhos de mel e compulsão por arranhar.

 

Como a explicação não satisfez a curiosidade pública, Caetano recorreu a Gustave Flaubert. No século XIX, acusado de atentar contra a moral e os bons costumes com Madame Bovary, o escritor francês teria encerrado a discussão sobre a protagonista com a célebre frase:

— Madame Bovary sou eu.

 

Mais de cento e vinte anos depois, Caetano resolveu dar uma de Flaubert:

— A tigresa sou eu.

 

Deu certo. Ninguém mais lhe fez a pergunta. Talvez por reverência à criação artística ou por receio de que ele aparecesse na entrevista seguinte de unhas negras e pele de ouro marrom.

 

Depois de ler a bela crônica de Marcelo, lembrei de Djavan, volta e meia intimado a revelar quem inspirou suas canções de amor. Já lhe atribuíram paixões por Glória Pires e Patrícia Pillar. Esta última, segundo uma frase atribuída a Luis Fernando Verissimo, seria uma das raras provas da existência de Deus, ao lado do pudim de laranja.

 

O suposto romance com Glória nasceu em 1983, durante o especial Djavan — Um Facho de Luz, na TV Globo. Ao som de “Pétala” (Ó, meu amor, viver é todo sacrifício feito em seu nome...), os dois protagonizaram uma cena tão magnética que o público enxergou namoro onde havia amizade, arte e encantamento. Anos depois, o cantor esclareceu que nunca foram amantes. A imaginação dos espectadores, porém, já havia composto sua própria canção.

 

Com Patrícia Pillar, não sei. Dizem que o romance começou na mesma época, durante as gravações do filme Para Viver um Grande Amor, estrelado por ambos. 

 

Djavan despista e jura saber pouco sobre o amor. Diz-se apenas um transeunte: observa encontros, recolhe desencontros e transforma os cacos em arte. Pode ser. Quem conhece demais o amor escreve tratados; quem não entende nada cria canções e poemas.

 

Acredito nele. Compositor é uma espécie de contrabandista: atravessa a fronteira carregando sentimentos que nem sempre lhe pertencem e, quando perguntam de onde vieram, responde que não tem nada a declarar. Pode ter roubado um olhar na rua, uma despedida na esquina ou uma dor contada por uma amiga. Depois mistura tudo, acrescenta três acordes e devolve ao mundo o que o mundo lhe emprestou.

 

Mas essa teoria do compositor-transeunte encontrou seu limite quando ouvi Herbert Vianna cantar, em Uns Dias”, um verso revelador: “Eu quis te matar”. A canção, associada às dores deixadas pelo fim de seu romance com Paula Toller, fala de abandono, ausência e ciúme, sentimentos que, em mãos menos talentosas, costumam terminar em boletim de ocorrência.

 

Na época, se eu fosse amigo de Herbert, teria sugerido que seguisse Caetano e recorresse a Flaubert, assumindo:

— O assassino sou eu.

 

Mas seria exagero. Paula segue por aí vivíssima, cantando e encantando. Herbert sobreviveu ao abandono e à dor, e compôs outras grandes canções. Bom pra todos.

 

Desde que o mundo é mundo há amores assassinados. Os que sobrevivem viram canções, tigres, tigresas. Ou pudins de laranja.

outubro 25, 2026

As palavras e o voto

 

AS PALAVRAS E O VOTO
Hayton Rocha


Hoje é um dia histórico. Desses que não esquecemos, mesmo quando preferimos esquecer algumas coisas. Nesta madrugada, a urna ainda não falou. Tudo parece incerto, inclusive as palavras, que se recusam a obedecer a quem tenta organizá-las. Estamos diante de dois futuros muito diferentes. Talvez isso explique tanta oscilação entre apreensão e confiança, euforia e desespero, esperança e medo... muito medo.




Na quarta-feira passada, recebi de um leitor uma longa mensagem. Ele percebeu, em minha crônica A pergunta que desarma o palanque, certa equivalência entre os candidatos que disputam o segundo turno. Imaginou como teria sido difícil para mim escrever sobre a eleição sem declarar preferência, justamente quando o assunto ocupa a cabeça de quase todo mundo, sobretudo da classe média, onde se concentra boa parte dos meus leitores.

Para ele, não há propriamente uma polarização, como insiste em repetir a imprensa. O que está em jogo é uma guerra entre a civilização e a barbárie, a democracia e o autoritarismo, os livros e as armas, a ciência e o dogma, o amor e o ódio. Não seriam dois polos de uma mesma reta, mas retas incapazes de se encontrar. Tampouco duas faces da mesma moeda, mas moedas cunhadas em metais diferentes.

Reconheço a força do argumento e compreendo a impaciência diante de qualquer tentativa de nivelar candidatos tão distintos em seus compromissos, propostas, realizações e trajetórias. Há diferenças que não podem ser escondidas sob o verniz da neutralidade. Nem toda equidistância é equilíbrio; às vezes, é apenas uma maneira de não tomar partido.

Refeito do susto, respondi ao amigo o que talvez devesse ter dito desde o começo: mais uma vez votarei em Lula. Já votei nele mesmo quando alguns de seus aliados injustamente me rotularam como tucano e tentaram me abater em pleno voo profissional, na virada deste século. 

Muitos de meus leitores conhecem essa história. Conhecem também minhas origens e o chão em que aprendi a caminhar: o Nordeste brasileiro, tantas vezes tratado com desdém por outras regiões, embora continue fazendo sua parte, apesar das adversidades e dos preconceitos que insistem em sobreviver.

Não houve, portanto, intenção de disfarçar minha escolha. De omitir que votarei pela humanidade; pela redução das desigualdades (eliminação, infelizmente, é utopia); pela paz, não pelas armas; pelo respeito aos diferentes; pela proteção aos mais frágeis; pelo meio ambiente, para que o planeta sobreviva mais um tempo; pelas novas gerações, não pelo egoísmo dos que têm os mesmos privilégios que eu. Votarei, enfim, para que tenhamos eleições livres em 2030, sem o ranço de ódio recíproco.

O que tentei dizer, portanto, foi outra coisa, talvez sem a habilidade necessária para me fazer entender. Quis dizer que, seja um ou outro candidato, o Brasil continuará carregando nas costas problemas que vêm de longe: alguns anteriores à República, outros tão entranhados na vida nacional que já parecem parte da mobília. Corrupção, desigualdade, educação precária, preconceito, privilégios, violência. Trocam-se os ocupantes do Planalto, mas certas estruturas permanecem confortavelmente instaladas, como inquilinos que nunca pagam aluguel e ainda se julgam donos do prédio.

Isso não significa que os candidatos sejam iguais. Não são. Nem que o resultado da eleição seja indiferente. Não é. Há escolhas capazes de abrir caminhos, ampliar oportunidades e proteger direitos; outras podem fechar portas que levaram décadas para ser destrancadas.

Mas nenhum presidente, por mais bem-intencionado que seja, conseguirá sozinho desmontar uma herança tão antiga. A mudança não pode ser terceirizada para quem vence a eleição, como se, encerrada a votação, a outra metade dos brasileiros pudesse se desobrigar do destino do país.

O Brasil que teremos também será consequência do que fizermos ou deixarmos de fazer. Dependerá da disposição de cada um para reconhecer as próprias contradições, conter os impulsos de manada e transformar a indignação de ocasião em compromisso duradouro.

A urna não encerra a história; abre outro capítulo. E a tarefa não pertence apenas a um homem ou a uma corrente política. Pertence a todos nós, inclusive aos que preferem não se meter em política, como se a política, por delicadeza, fosse deixar de se meter na vida deles.

Ao final da conversa, agradeci ao amigo pela franqueza e pela compreensão do meu esforço para que o blog onde publico minhas crônicas não se pareça com o esgoto a céu aberto que as redes sociais despejam diariamente diante de nossos olhos. Não me considero o formador de opinião que ele imagina. Nem no meu prédio.

Pedi desculpas por não ter conseguido dizer tudo o que pretendia. Continuo tentando aprender, todos os dias, a lidar com as palavras. Às vezes, elas dizem menos do que pensamos; outras, revelam mais do que gostaríamos.

Quanto ao voto, repito: já está decidido. Quanto ao Brasil, infelizmente, ainda não.

outubro 21, 2026

A pergunta que desarma o palanque


A PERGUNTA QUE DESARMA O PALANQUE
Hayton Rocha


Na noite do último domingo, os candidatos à Presidência subiram ao palco do primeiro debate do segundo turno. A Band preparou três blocos e uma lista de temas urgentes: segurança, economia, saúde, produtividade, Estados Unidos, maioridade penal. O cardápio era farto. A conversa, nem tanto.



Ilustração: Ivan Cabral


Mais uma vez, as farpas entraram pela porta da frente e ocuparam a sala inteira. Corrupção, investigação, suspeita, contra-ataque. Os assuntos da vida real ficaram esperando na varanda. Quem já tinha lado ganhou munição; quem ainda procurava um encontrou mais barulho.

O formato dos debates parece ter o prazo de validade vencido. Dois candidatos diante das câmeras, um relógio impaciente e a coreografia de sempre: um fala, o outro interrompe; um acusa, o outro retruca. Política vira uma pelada em que os jogadores parecem mais empenhados em provar que o adversário merece perder do que em mostrar por que merecem vencer.

Fico imaginando outro tipo de confronto. Nada mais dócil — a verdade também pode ser uma lâmina —, porém menos refém do repertório das assessorias.

Penso nisso por causa de uma ONG chamada MeuBrasilzin, que me convidou a ajudá-la na seleção de seu novo presidente. 

Há dois candidatos ao cargo. Quando chegar a hora, pretendo fazer duas perguntas: qual livro, filme ou pessoa mais marcou a sua vida? E o que você mais admira no seu concorrente?

A primeira pede maturidade e memória, não currículo. A segunda exige mais do que um elogio protocolar. Ocorre que não sou besta: até a lembrança mais íntima pode virar peça de campanha. Um candidato treinado talvez cite um livro legal, agradeça a um professor e encontre no rival uma qualidade tão genérica que serviria para qualquer um.

Assim, farei mais duas perguntas: se você for o escolhido, que projeto confiaria ao seu concorrente? E o que essa escolha revela sobre aquilo que você ainda precisa aprender?

Mas voltemos ao debate presidencial. Perguntas desse gênero talvez produzissem um constrangido silêncio. Não uma falha técnica, nem uma queda de energia, mas aquele instante em que a resposta não vem pronta e o exército de marqueteiros, por mais que se esforce, não consegue soprá-la a tempo.

No caso de MeuBrasilzin, imagine o candidato interno diante de um concorrente que vem de fora. Ele conhece os corredores, as dores antigas, as dobradiças que rangem. Poderia alegar que o forasteiro não conhece a casa. Mas quem sabe reconhecesse nele justamente o que falta à organização: um olhar sem poeira acumulada.

Agora, invertamos a situação. O candidato externo pode chegar com a pose de quem veio salvar o lugar. Isso é tentação frequente entre recém-chegados e heróis de ficção. Ou pode reconhecer que existe um legado a preservar, uma história construída por quem já estava ali. Um líder não precisa demolir o passado para provar que o futuro chegou.

Claro que duas perguntas não salvarão MeuBrasilzin nem revelarão, por milagre, o caráter de quem responde. Mas uma pergunta bem-feita às vezes abre uma rachadura na persona. Por ela, talvez, apareça alguém menos ensaiado. Ou pelo menos alguém inteligente o bastante para improvisar sem recorrer ao ataque.

O que me interessa é esse pequeno deslocamento: sair da obrigação de diminuir o outro para demonstrar a própria grandeza. Quem sabe dessa forma o processo de escolha se aproximasse um pouco mais das pessoas que realmente tocam o dia a dia de MeuBrasilzin.

Voltemos de novo ao debate presidencial. No primeiro turno das eleições de 2026, quase um em cada quatro eleitores aptos ficou sem escolher um candidato: não compareceu às urnas, votou em branco ou anulou o voto. É um dado pesado demais para caber na explicação preguiçosa de que o povo não se interessa ou não sabe votar. Pode ser que essa gente esteja cansada de ouvir candidatos que falam muito e se revelam pouco.

Não sei se perguntas melhores no último debate, marcado para sexta-feira que vem, na Globo, farão alguém sair de casa para votar no domingo. Mas talvez bastasse ouvir um candidato dizer, sem ironia, o que confiaria ao adversário. 

 

A urna continuará dividindo os votos. Por alguns minutos, porém, o palanque poderá lembrar que, depois da disputa, o país continuará sendo o mesmo. 



outubro 14, 2026

Com senha e tudo


COM SENHA E TUDO

Hayton Rocha


Tenho uma inveja medonha de quem tem certeza de tudo. Deve ser maravilhoso viver sem o peso da dúvida e da reflexão.

Há duas décadas, um amigo me contou que visitara um médico, dono de hospital, tão frio que até o cafezinho parecia servido numa bandeja de necrotério. O doutor falava de suas virtudes gerenciais com tamanha empáfia que a soberba lhe escorria pelos cantos da boca.



Meu amigo era bancário. O médico queria financiar equipamentos de ressonância magnética, máquinas que nos vasculham por dentro sem nos perguntar se temos ou não algo a esconder.

Para provar que podia pagar o empréstimo, contou que implantara metas desde a porta da emergência. De cada cem pacientes, quarenta fariam exames complexos; dez seriam internados; três ou quatro chegariam à UTI. Com chuva, sol ou a virose do dia, o hospital teria a precisão de uma fábrica de parafusos.

A receita adicional permitiria comprar novos equipamentos sem recorrer a bancos. O corpo humano ajudaria a pagar as prestações. Coração, fígado, pulmão, rim: cada órgão daria sua contribuição à expansão do negócio.

Se algum plano de saúde recusasse autorização, não haveria problema. Numa hora crítica, poucas famílias discutem evidências científicas ou preços. Assinam. Se preciso, aprendem o caminho do plantão judicial. O medo é um vendedor eficiente e costuma conseguir liminar.

É o tal do pay-per-use: paga-se pelo que se usa. Quanto mais se faz, mais se cobra; quanto mais se cobra, mais se ganha. Ao autorizar uma internação, o plano não entrega um cheque em branco — isso é coisa do passado. Entrega seus dados bancários básicos, com senha e tudo. Não sabe quantas diárias virão nem quanto custará cada procedimento. Disponibiliza os recursos e torce pelo bom senso do outro lado.

Quando o plano pertence a funcionários de empresa estatal ou de economia mista, aparece outra jabuticaba: a crença de que o governo de plantão não o deixará falir.

Anos mais tarde, meu amigo passou a trabalhar numa operadora de planos de saúde. Viu de perto hospitais e planos acirrarem a disputa, com o paciente no meio. Se um lado impõe condições demais, o outro pode quebrar. E quem fica entre os dois é justamente quem precisa de atendimento.

Ele percebeu que a saída estava menos na guerra de tabelas e mais na integração das partes: planos de saúde, hospitais, laboratórios e serviços especializados dividindo informações, responsabilidades e riscos.

Defendia, por exemplo, que planos e fundos de previdência  ligados aos mesmos trabalhadores e aposentados se aproximassem e participassem da gestão das redes de assistência. Teriam motivo para buscar qualidade e custos sustentáveis. Saúde exige investimento de longo prazo, e o setor já passava por movimentos de consolidação. 

Isso não resolveria tudo, claro. Ser sócio não pode dar ao dono do capital o controle do apito, da bola e do placar. Transparência, regulação e limites são indispensáveis para que a integração não concentre poder nem transforme o paciente em detalhe de uma planilha.

Negócio não é palavrão. Profissionais precisam ser bem pagos, equipamentos custam caro e o capital não faz voto franciscano. A situação complica quando a remuneração depende da multiplicação da doença.

A regulação deveria funcionar como freio. No Brasil, certos freios só são examinados depois que o carro chega ao pé da ladeira. E o paciente, que deveria estar no centro do sistema, muitas vezes descobre que era apenas o centro de custo. Sua vida pode caber numa guia recusada, numa senha ou num telefonema que não chega a tempo.

Depois dos sessenta anos, o corpo vira carro usado: quando não acende uma luz no painel, surge um ruído na suspensão. Amigos somem, exames chegam, e o futuro passa a caber entre duas consultas.

Se o hospital cobra cada vez mais, o plano precisa arrecadar mais, reduzir coberturas ou restringir atendimentos. Se a assistência fica inacessível, um aposentado pode até viver mais, porém com menos saúde e menos recursos. E o desequilíbrio ameaça também o patrimônio que deveria garantir sua renda.

Na semana passada, tanto tempo depois, reencontrei meu velho amigo. Ele segue acreditando que grandes fundos de pensão e planos de saúde dos mesmos associados deveriam sentar-se à mesa e buscar participação societária nas grandes redes médico-hospitalares, mesmo porque o mercado de saúde no Brasil já movimenta trilhões de reais por ano.

Para ele, quem paga aposentadorias deveria ter interesse em que o aposentado viva bem. Quem paga assistência médica, também. Se os beneficiários são os mesmos, seus representantes precisam conversar e dividir responsabilidades. O medo dessa aproximação, porém, ainda paralisa muita gente.

Meu amigo teme que essa conversa continue sendo protelada, mesmo sabendo-se que a porta do hospital pode fechar a qualquer momento. 


Se os fundos de pensão e os planos de saúde dos mesmos associados não aprenderem a trabalhar juntos, diz ele, alguém poderá morrer à míngua, sem assistência, embora tenha uma aposentadoria futura garantida. 


É por isso que tenho uma inveja danada de quem vive sem o peso da dúvida e da reflexão.

outubro 07, 2026

Presente!

  

PRESENTE!

Hayton Rocha



No tempo em que caderno, lápis e tabuada tinham cheiro de escola pública e infância, professora merecia todo o respeito da molecada, eu queria que meu nome fosse Abel ou Abraão. O motivo era  de ordem prática, nada bíblico: ser um dos primeiros da lista de presença. Bastaria responder “presente!” e ficar livre para dedicar o pensamento a outros assuntos que, para mim, não eram menos relevantes que a aula.

 

Enquanto a professora descia pelo alfabeto, eu poderia prestar atenção na lâmpada acesa e empoeirada, acompanhar o voo sem rumo  de uma mosca ou imaginar o conteúdo da lancheira de quem chegara com volume suspeito. Mas sempre fui prisioneiro da lista, à espera da letra H, com medo de me distrair justamente na hora de provar que estava ali presente.



Ilustração: Uilson Morais (Umor)

 

Falei sobre isso, outro dia, com minha mulher. Ela me ouviu com o olhar desconfiado de quem rascunha um diagnóstico e sentenciou:

— Você talvez tenha TDAH desde criança e nunca soube.

 

Curioso, fui ler sobre o assunto. Descobri que o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade é bicho de três cabeças: desatenção, inquietude e impulsividade. Costuma manifestar-se na infância e, em muitos casos, acompanha o sujeito pela vida afora.

 

A criança é descrita como alguém “com a cabeça no mundo da lua”, “desastrada” ou equipada com um “motor de popa”. Conversa durante a explicação dos outros, derruba o copo, esquece o livro, perde a lapiseira e não fica quieta nem quando isso vale ponto. Seu corpo está na carteira, mas o pensamento pulou a janela e foi jogar futebol com tampa de Fanta ou caco de telha.

 

Na adolescência, pode ter dificuldade para aceitar regras e limites. Na vida adulta, esquece compromissos, perde documentos, muda de assunto antes que o primeiro encontre um ponto final e avança sinais, inclusive os da prudência. Só relaxa dormindo e olhe lá: às vezes, passa a noite disputando espaço com o lençol  ou o travesseiro.

 

A boa notícia é que o TDAH não é uma virose da alma para a qual se anuncie cura milagrosa. Exige avaliação séria e pode ser tratado. Mas há sites que prometem conserto rápido, definitivo, parcelado no cartão ou, com desconto, via Pix. A indústria da cura não sofre de déficit de atenção: enxerga uma nova presa a quilômetros de distância.

 

Sinceramente, não sei em que minha mulher se baseou para levantar essa suspeita. Logo eu, que, se tivesse nascido com asas, poderia ser confundido com um anjo. Que me transformei num adulto previsível, capaz de permanecer desde a adolescência na mesma empresa, com a mesma namorada. Alguma peça não se encaixa nesse quebra-cabeça.

 

Tudo bem que minha mãe sempre foi impulsiva no dizer o que pensa, em qualquer circunstância, hora ou lugar. Também é verdade que meus filhos, assim como eu, até pouco tempo deixavam torneiras abertas, lâmpadas acesas e perdiam carteiras, celulares e chaves.

 

Há quem diga que algumas heranças atravessam as gerações de fininho. Não chegam apenas na cor dos olhos ou no formato do nariz, mas na ansiedade, no tique nervoso, no modo de rir. A genética, quando resolve fazer graça, conta piadas que só serão entendidas anos depois.

 

Tirando as sobrancelhas, por exemplo, em nada lembro minha saudosa avó materna. Ainda assim, suas cantigas de ninar nunca saíram dos meus ouvidos e até hoje sinto o gosto de sua “bolacha de leite”, feita de farinha de trigo, mel de rapadura, manteiga, cravo, canela e gengibre — sem uma gota de leite sequer.

 

Desconfio de que a herança mais profunda não esteja nos traços vistos no espelho, mas na música, nos sabores e nas pequenas manias que permanecem.

 

Nem eu escapei de certas heranças: até pouco tempo lutei contra a vontade de zoar meus netinhos exatamente como fazia com meus irmãos menores, quando bullying era só coisa de buliçoso. Eu me continha para que não recorressem à Advocacia-Geral da União Familiar, comandada pela avó deles. Se a denúncia chegasse ao tribunal, não haveria habeas corpus que me salvasse.

 

Pensando bem, a avó deles pode estar coberta de razão. Talvez eu tenha atravessado a vida com a cabeça no mundo da lua e um pequeno motor de popa escondido na alma. Só não compreendo por que resolveu abrir essa gaveta justamente agora.

— Porque acabei de lhe fazer uma pergunta e você não respondeu — ela me explicou.

— O que você perguntou mesmo?

 

Passei a infância esperando a letra H para provar à professora que estava presente. E só agora me dou conta de que nem sempre estive plenamente.

setembro 30, 2026

Perdidos e pedidos


PERDIDOS E PEDIDOS

Hayton Rocha

 

Na coleção O Mundo da Criança, que havia numa estante lá em casa, minha irmã Haydeé e eu, aos dez e nove anos, descobrimos uma lenda afro-cristã surgida no fim do século XIX. Tornara-se popular entre os abolicionistas empenhados em acabar com o vexame da escravidão, embora o país, depois de libertar os escravos, tenha conservado o chicote e a senzala sob outros nomes.

 

Dizia-se que um fazendeiro mandou um menino negro vigiar alguns cavalos recém-comprados. Ao cair da tarde, faltava um animal. O patrão aplicou na criança uma surra tão bruta que suas costas ficaram em carne viva.

— Encontre o cavalo ou vai ver o que lhe acontece!

 

O menino saiu pela noite, encontrou o animal e conseguiu laçá-lo, mas a corda partiu-se e o bicho desapareceu na escuridão. De volta à fazenda, recebeu nova surra. Depois, foi amarrado sobre um formigueiro, para que os insetos concluíssem o serviço iniciado pela crueldade humana.

 

Quando amanheceu, o corpo estava frio, com os olhos sem luz.

 

Mas, de repente, lá estava o menino de pé, com a pele lisa feito louça, sem marca alguma das chibatadas. À direita, a Virgem Maria; à esquerda, o cavalo fujão. O fazendeiro ajoelhou-se arrependido, talvez porque até os tiranos adquirem consciência quando percebem que há testemunhas no céu. O menino se fez de mouco, beijou a mão da santa e foi embora.

 

Daquele dia em diante, andarilhos, bêbados e loucos — que às vezes enxergam melhor do que os ajuizados — juravam ter visto uma tropa de potros conduzida por um moleque num cavalo de crinas negras e compridas.

 

Também diziam que, quando alguém perdia alguma coisa, bastava pedir ajuda ao menino. Ele encontrava o objeto, desde que o dono acendesse uma vela para a santa que o livrara da escravidão. Nascia a lenda do Negrinho do Pastoreio.

 

Por isso, toda vez que perdíamos um brinquedo, um caderno ou um lápis, Haydeé e eu acendíamos uma vela sobre a mesa da sala de jantar e recorríamos ao Negrinho. E ele nunca falhou conosco, apesar da distância que nos separava no Sertão paraibano do Pampa gaúcho dos anos sessenta. 




 

Havia certamente alguma influência do que nosso pai ouvia em sua radiola, na voz inigualável de uma gauchinha arengueira, miúda no tamanho mas imensa no palco. Elis Regina cantava a obra-prima de Edu Lobo e Guarnieri: “Upa, neguinho na estrada... começando a andar e já começa a apanhar.”

 

A canção parecia alegre, mas carregava um país inteiro nos ombros. No Brasil, até a tragédia aprende a cantar para não morrer de tristeza.

 

À medida que a inocência esfriou, abandonei aquelas promessas. Passei a aceitar melhor o dualismo da vida, com seus achados e perdidos, seus planaltos e planícies. Aprendi que em alguns dias chove e, noutros, bate o sol. 

 

Muita coisa ficou pelo caminho: amigos de ocasião, que logo desapareceram; a convivência diária com os filhos, que cresceram e deixaram lugares vazios à mesa. Chega uma idade em que a gente compreende que sofrer pelo inevitável é acrescentar outra perda à lista: a do tempo.

 

Algumas coisas, porém, não deveriam ter sumido.

 

Se ainda se jogasse futebol como antigamente, talvez aparecessem novos Pelés, Romários, Ronaldos e Zicos. Também já não ouço muito samba nem rock’n’roll. Onde em se plantando tudo dava, já não brotam mudas de Chicos, Elises, Ritas, Tons e Vinicius.

 

Perdemos ainda uma certa delicadeza e boa parte da capacidade de discordar sem desejar a extinção do adversário. A política virou arquibancada: cada torcida enxerga pênalti apenas na área do outro. Nas redes sociais, amigos de copo e de cruz se transformam em inimigos antes do sol nascer. O algoritmo agora serve raiva em doses cavalares, e nós engolimos sem consultar a bula.

 

A coisa aqui está feia. Há muita erva daninha ocupando jardins, florestas, quintais e pantanais. Algumas usam farda; outras, terno sob medida. Há as que discursam em púlpitos, escondem-se em gabinetes ou desfilam de toga, convencidas de que a Constituição é espelho diante do qual podem retocar, a seu bel-prazer, a própria imagem.

 

Enquanto isso, continua faltando cavalo no pasto. O governo culpa o Congresso, o Congresso culpa o Supremo, o Supremo abre inquérito, a oposição grava vídeos, a situação publica uma nota de esclarecimento e o povão, amarrado ao formigueiro, espera a próxima mordida. Ou chicotada.

 

Talvez seja hora de procurar de novo o Negrinho do Pastoreio. Pedir que nos traga de volta o compromisso com a verdade, a compaixão pelos pobres, a prudência aos poderosos e uma dose a mais de juízo para todos nós.

 

Mas não quero abusar da paciência do meu velho amigo. Ele deve estar até o pescoço com tantos perdidos e pedidos. Daqui a pouco, faltarão velas até nas bodegas de ponta de rua desta amada pátria de frustrações continentais.

 

Vai ver o Negrinho do Pastoreio também tenha se perdido de nós. Só nos faltava essa.

setembro 27, 2026

Nao desista, Diógenes!

 

NÃO DESISTA, DIÓGENES!

Hayton Rocha

 

Há mais de dois mil anos, o filósofo grego Diógenes saiu pelas ruas com uma lanterna acesa em plena luz do dia. Como o sol já cumpria seu papel, perguntaram por que carregava luz ao meio-dia.

— Procuro um homem honesto — respondeu.



Se fosse hoje, talvez dissesse que procura uma criatura civilizada — homem, mulher ou qualquer variação — capaz de ocupar um gabinete ou uma tribuna sem deixar um rastro de escândalos.

 

A lanterna mudou de mãos, mas a cena continua atual, familiar.

 

Diógenes andou, procurou, cansou e não achou. Encontrou gente corrupta, incapaz, oportunista ou portadora daquela mistura indigesta de ignorância com prepotência que inviabiliza até assembleia de condomínio em noite de prestação de contas.

 

Dois mil anos depois, qualquer Diógenes contemporâneo pode sair com farol alto ou holofote de aeroporto e ainda assim terá dificuldade em encontrar alguém que atravesse o poder sem se contaminar por ele.

 

Se o exagero parecer injusto, basta surfar no noticiário. A qualquer momento aparece alguém, até ontem apresentado como exemplo de virtude, usando tornozeleira eletrônica, passaporte retido ou autorização judicial para cumprir a agenda com hora marcada. Ao lado dele, outro cidadão exemplar explica desvios com a serenidade de quem administra milagres contábeis.

 

Tropicalizando a conversa, o Brasil segue tentando operar essa máquina complexa chamada democracia. Não é bonita. Faz barulho, emperra, às vezes não anda. Mas, comparada às alternativas que a História testou e reprovou, ainda é a menos perigosa.

 

Às vésperas de mais uma eleição, o país entra naquela turbulência em que cada solavanco é apresentado como prova de que só um dos pilotos sabe pousar. De lado a lado, distribuem-se certificados de patriotismo e sentenças de traição. O adversário vira inimigo; a divergência, delito; e a verdade passa a valer menos pelo que contém do que pela mão que a compartilha.

 

É justamente quando todos parecem ter certeza de tudo que mais precisamos é da lanterna de Diógenes. Não para iluminar os candidatos — eles já vivem sob refletores —, mas para enxergar o que a paixão eleitoral deixa no escuro: interesses, contradições e a perigosa facilidade com que absolvemos nos nossos aquilo que condenamos nos outros.

 

O equívoco começa quando tratamos a democracia como promessa de milagre. De tempos em tempos, surge um iluminado de palanque ou redentor de rede social oferecendo soluções rápidas para problemas que levaram décadas para amadurecer. Muda o figurino, muda o slogan, mas o truque é o mesmo.

 

Não importa de que lado esteja. Toda promessa de redenção imediata merece inspeção de lupa: o que vem junto, quem embarca, quem lucra e quem desaparece no caminho.

 

Também não adianta transferir a esperança para as instituições, como se fossem entidades autônomas, imunes à natureza de quem as ocupa.

 

No Executivo, a cada troca de governo, muda-se a decoração da sala, mas preserva-se o costume de confundir Estado com propriedade temporária. Seus ocupantes chegam prometendo desmontar privilégios e logo descobrem que alguns deles são bastante confortáveis.

 

O Judiciário, por sua vez, parece muitas vezes operar na fronteira entre interpretar a lei e reescrevê-la. Há quem fale como legislador, atue como executor, decida como monarca e estranhe quando alguém se lembra daquele livreto básico chamado Constituição.

 

Como todo corpo organizado, protege-se. Quando muito, oferece uma correção discreta, uma advertência protocolar ou uma explicação que esclarece pouco e resolve menos.

 

Já o Legislativo não decepciona no sentido literal da palavra. Entrega exatamente o que promete: discurso. Ainda que vazio, frequentemente.

 

Durante a campanha, candidatos vestem armaduras retóricas e se oferecem para enfrentar corrupção, desigualdade, violência e os demais males nacionais. Depois de eleitos, muitos descobrem uma vocação para a invisibilidade produtiva: trabalham pouco, aparecem muito e comunicam melhor do que entregam.

 

Enquanto isso, a realidade não faz campanha. A fome não diminui com discurso. O posto de saúde não se abastece de intenção. A escola não evolui por medida provisória. E tanto você quanto eu seguimos financiando essa festa estranha em que quase ninguém dança, mas todos pagam ingresso.

 

Talvez o erro de Diógenes tenha sido de escala. Não precisamos apenas encontrar uma criatura honesta. Precisamos parar de tolerar a desonestidade como método, inclusive a nossa, quase sempre justificada por conveniências e pequenas vantagens.

 

Democracia não é plateia. É obra em construção permanente, cheia de andaimes, poeira e rachaduras. E obra que exige mais do que opinião: requer escolha, presença, cobrança e o desconforto disso resultante.

 

É possível que o velho Diógenes ainda perambule por aí, de lanterna acesa, atravessando ruas cheias de criaturas distraídas por suas telas iluminadas.

 

A diferença é que hoje ele não precisa procurar muito. Basta apontar o facho de luz. E ver quem sustenta o olhar.

setembro 23, 2026

Tchutchururu!

TCHUTCHURURU!

Hayton Rocha

 


No começo do mês, meu amigo Sérgio Riede comemorou a chegada dos setenta anos com uma festa brega, em Brasília. Digo "brega" com carinho, sem a menor intenção de ofender. Aos setenta, a pessoa adquire o direito de ouvir Reginaldo Rossi, vestir paletó amarelo com broche de girassol na lapela e declarar novamente seu amor à cara-metade sem prestar contas ao bom gosto.  




Enquanto ele fingia tocar guitarra e dublava canções que sobreviveram aos próprios intérpretes, fui transportado para União dos Palmares, interior de Alagoas. Eu tinha 10 anos e integrava o “The Friend Boys”, nome, extraído de um dicionário, que ninguém sabia traduzir, mas todos pronunciávamos com a segurança de quem acabara de desembarcar de Liverpool.



A banda era formada por mim, César, filho do marceneiro da cidade, e os irmãos Luciano e Tadeu Farias. Não me lembro de quem tocava o quê. Certamente porque ninguém tocava coisa alguma.

 

Nossas guitarras eram feitas de madeira. Não madeira nobre, dessas que hoje vêm acompanhadas de certificado ambiental e preço em dólar. Eram tábuas recortadas à serra e lixadas apenas o suficiente para não arranhar a barriga do guitarrista. César levava vantagem sobre nós: sendo filho de marceneiro, tinha acesso à tecnologia de ponta da época: compensado, prego, serrote e verniz.

 

As cordas podiam ser de arame, barbante, elástico ou linha de pesca. Produziam um “nhen-nhen” que não chegava a incomodar os vizinhos nem favorecer a paquera. Para fingir que afinávamos o instrumento, usávamos parafusos, pregos dobrados ou tampinhas verdes e vermelhas de tubos de creme dental. O fabricante da pasta jamais soube que também abastecia a indústria musical da terra de Zumbi dos Palmares.

 

A guitarra não tinha cabo, amplificador nem som. Ainda assim, tocávamos alto. A eletricidade vinha da imaginação, que naquele tempo não precisava de tomada nem bateria. As bocas eram suficientes. 

 

O microfone era um cabo de vassoura. Latas faziam as vezes da bateria. Os pratos eram tampas de panela, desde que nenhuma mãe percebesse o desfalque na cozinha. Montávamos nosso palco em qualquer canto e, de repente, o quintal virava The Cavern Club, embora nenhum de nós soubesse onde ficava o famoso porão dos Beatles. Para falar a verdade, mal sabíamos onde ficava a Inglaterra.

 

Havia outro pequeno problema: os Beatles insistiam em cantar em inglês, língua que ainda não havia chegado oficialmente à nossa vida. Mas não nos deixamos intimidar.

 

“She loves you, yeah, yeah, yeah” virou “Xilóviu, ié, ié, ié”. “Help! I need somebody” transformou-se em “Rélpi! Ai nidi sambaqui”. E “Well, shake it up, baby, now” saía mais ou menos como “Uél, xeiquitópe, beibe, nau”. Cantávamos tudo com uma convicção que dispensava dicionário. Se Paul McCartney aparecesse para corrigir a pronúncia, provavelmente seria convencido a cantar no cabaré do Alto do Cruzeiro.

 

Alguns meninos mantinham cadernos com as letras escritas em fonética caseira. “I want to hold your hand” passava a ser “Ai uant tu rould ior rendi”. Eram manuscritos preciosos, uma espécie de Pedra de Roseta da Jovem Guarda, compartilhados em segredo por quem havia conseguido decifrar duas estrofes no serviço de alto-falante da cidade, no rádio ou na radiola.

 

Quando a música acelerava e o inglês escapulia de nós, recorríamos ao idioma universal dos desesperados: “tchutchururu”. Bastava manter o ritmo até o refrão reaparecer. O importante não era saber o que a canção dizia, mas cantá-la como se falássemos de nossa própria vida.

 

E falávamos. Afinal, toda criança compreende uma canção antes de compreender as palavras. O corpo traduz aquilo que o vocabulário ainda não alcançou. É possível que nosso inglês fosse péssimo, mas nossa meninice tinha sotaque perfeito.

 

Quase seis décadas depois, não sei o que foi feito dos demais integrantes do “The Friend Boys”. César, Luciano e Tadeu Farias dobraram em algumas esquinas do tempo, esse empresário ingrato que desfaz as bandas sem se preocupar com o destino de seus integrantes. Talvez ainda se lembrem de nossos concertos mudos. Ou quem sabe tenham esquecido até o nome do conjunto. De vez em quando, a memória também pratica seu embromation: inventa alguns sons, preenche os vazios e a vida pega o beco.

 

Quanto a mim, já não me fazem falta a guitarra de madeira nem o microfone de cabo de vassoura. Dormem no limbo onde estão os demais brinquedos da criança que fui.

 

Mas, naquela festa em Brasília, enquanto meu amigo celebrava os 70 anos e alguns convidados dublavam cantores e tocavam instrumentos invisíveis, tive a impressão de ouvir, muito ao longe, quatro meninos afinando instrumentos que nunca tocaram.

 

Então alguém gritou “tchutchururu!”. E o moleque que ainda cochila em mim, sem guitarra, sem microfone e ainda desconfiado da pronúncia do inglês, entrou no refrão.

 

Há canções que a gente passa a vida inteira sem entender. Mesmo assim, sabe de cor.

A bola, o livro e o "se"

  A BOLA, O LIVRO E O “SE” Hayton Rocha Em “As Primas de Sapucaia”, conto de  Histórias sem Data  (1884), Machado de Assis pontuou: “Palavra...