NÃO DESISTA, DIÓGENES!
Hayton Rocha
Há mais de dois mil anos, o filósofo grego Diógenes saiu pelas ruas com uma lanterna acesa em plena luz do dia. Como o sol já cumpria seu papel, perguntaram por que carregava luz ao meio-dia.
— Procuro um homem honesto — respondeu.
Se fosse hoje, talvez dissesse que procura uma criatura civilizada — homem, mulher ou qualquer variação — capaz de ocupar um gabinete ou uma tribuna sem deixar um rastro de escândalos.
A lanterna mudou de mãos, mas a cena continua atual, familiar.
Diógenes andou, procurou, cansou e não achou. Encontrou gente corrupta, incapaz, oportunista ou portadora daquela mistura indigesta de ignorância com prepotência que inviabiliza até assembleia de condomínio em noite de prestação de contas.
Dois mil anos depois, qualquer Diógenes contemporâneo pode sair com farol alto ou holofote de aeroporto e ainda assim terá dificuldade em encontrar alguém que atravesse o poder sem se contaminar por ele.
Se o exagero parecer injusto, basta surfar no noticiário. A qualquer momento aparece alguém, até ontem apresentado como exemplo de virtude, usando tornozeleira eletrônica, passaporte retido ou autorização judicial para cumprir a agenda com hora marcada. Ao lado dele, outro cidadão exemplar explica desvios com a serenidade de quem administra milagres contábeis.
Tropicalizando a conversa, o Brasil segue tentando operar essa máquina complexa chamada democracia. Não é bonita. Faz barulho, emperra, às vezes não anda. Mas, comparada às alternativas que a História testou e reprovou, ainda é a menos perigosa.
Às vésperas de mais uma eleição, o país entra naquela turbulência em que cada solavanco é apresentado como prova de que só um dos pilotos sabe pousar. De lado a lado, distribuem-se certificados de patriotismo e sentenças de traição. O adversário vira inimigo; a divergência, delito; e a verdade passa a valer menos pelo que contém do que pela mão que a compartilha.
É justamente quando todos parecem ter certeza de tudo que mais precisamos é da lanterna de Diógenes. Não para iluminar os candidatos — eles já vivem sob refletores —, mas para enxergar o que a paixão eleitoral deixa no escuro: interesses, contradições e a perigosa facilidade com que absolvemos nos nossos aquilo que condenamos nos outros.
O equívoco começa quando tratamos a democracia como promessa de milagre. De tempos em tempos, surge um iluminado de palanque ou redentor de rede social oferecendo soluções rápidas para problemas que levaram décadas para amadurecer. Muda o figurino, muda o slogan, mas o truque é o mesmo.
Não importa de que lado esteja. Toda promessa de redenção imediata merece inspeção de lupa: o que vem junto, quem embarca, quem lucra e quem desaparece no caminho.
Também não adianta transferir a esperança para as instituições, como se fossem entidades autônomas, imunes à natureza de quem as ocupa.
No Executivo, a cada troca de governo, muda-se a decoração da sala, mas preserva-se o costume de confundir Estado com propriedade temporária. Seus ocupantes chegam prometendo desmontar privilégios e logo descobrem que alguns deles são bastante confortáveis.
O Judiciário, por sua vez, parece muitas vezes operar na fronteira entre interpretar a lei e reescrevê-la. Há quem fale como legislador, atue como executor, decida como monarca e estranhe quando alguém se lembra daquele livreto básico chamado Constituição.
Como todo corpo organizado, protege-se. Quando muito, oferece uma correção discreta, uma advertência protocolar ou uma explicação que esclarece pouco e resolve menos.
Já o Legislativo não decepciona no sentido literal da palavra. Entrega exatamente o que promete: discurso. Ainda que vazio, frequentemente.
Durante a campanha, candidatos vestem armaduras retóricas e se oferecem para enfrentar corrupção, desigualdade, violência e os demais males nacionais. Depois de eleitos, muitos descobrem uma vocação para a invisibilidade produtiva: trabalham pouco, aparecem muito e comunicam melhor do que entregam.
Enquanto isso, a realidade não faz campanha. A fome não diminui com discurso. O posto de saúde não se abastece de intenção. A escola não evolui por medida provisória. E tanto você quanto eu seguimos financiando essa festa estranha em que quase ninguém dança, mas todos pagam ingresso.
Talvez o erro de Diógenes tenha sido de escala. Não precisamos apenas encontrar uma criatura honesta. Precisamos parar de tolerar a desonestidade como método, inclusive a nossa, quase sempre justificada por conveniências e pequenas vantagens.
Democracia não é plateia. É obra em construção permanente, cheia de andaimes, poeira e rachaduras. E obra que exige mais do que opinião: requer escolha, presença, cobrança e o desconforto disso resultante.
É possível que o velho Diógenes ainda perambule por aí, de lanterna acesa, atravessando ruas cheias de criaturas distraídas por suas telas iluminadas.
A diferença é que hoje ele não precisa procurar muito. Basta apontar o facho de luz. E ver quem sustenta o olhar.








