NEM TUDO AS BORBOLETAS PODEM
Hayton Rocha
Não me lembro de ter recebido um beijo de minha mãe quando criança. Nem de meu pai. Amor, naquele tempo, era outra coisa. Vinha em prato cheio, remédio comprado na hora certa, roupa lavada no varal e na preocupação com o chá de sabugueiro e com a colcha de chenile quando a febre subia. Ninguém perguntava se estávamos felizes. Apenas seguíamos vivendo. E éramos.
Hoje vejo pais abraçando filhos no aeroporto, elogiando desenhos tortos, perguntando pelos deveres escolares, pelos medos, pelos sonhos. Acho bonito, não nego. Deve fazer bem. Mas pertenço a outro tempo, quando carinho era sentimento que raramente saía pela boca ou pelas mãos.
Talvez por isso eu nunca tenha esquecido tia Creuza. Do que ainda consigo tocar com a memória, foi ela quem me deu o primeiro gesto de afeto: um abraço apertado e um cheiro demorado no cocuruto, numa tarde remota no sítio Jacaré, no Brejo paraibano, onde meus avós maternos viviam cercados de mangueiras, galinhas, novilhas e incertezas quanto ao mês seguinte, ao ano seguinte.
| Fotografias: Álbum de Família |
Tia Creuza era linda, leve e magra como uma borboleta dessas que parecem feitas de papel de seda. Nunca quis namorar, muito menos casar ou ter filhos. Havia quem a chamasse de esquisita. Naquela Paraíba dos anos sessenta, mulher que ficava no caritó ainda era vista como erro de fabricação ou promessa quebrada perante Deus.
Ela simplesmente não quis. Preferiu acompanhar os passos de seu pai, meu avô Zé de Brito Jurema e de Olívio, seu irmão mais velho, no cabo da enxada, na venda de manga e inhame, no trato com os bichos e na fumaça espessa do cigarro de fumo de rolo. Enquanto as irmãs aprendiam as prendas domésticas, tia Creuza queria saber mesmo da força da terra, da chuva fina no canteiro de verduras e do ponto certo do feijão.
Nunca ligou para livros. Não saberia quem foi Kundera nem Nietzsche. Mas desconfiava, com a inteligência bruta dos que observam mais do que falam, que muito casamento nasce do amor e morre da convivência. Viu cedo demais mulheres virando empregadas emocionais de homens vazios. Viu também homens fugindo de casa para escapar daquilo que chamavam de rotina, como se a monotonia fosse culpa exclusiva do outro.
Sem discurso feminista, sem teoria sociológica e sem jamais ter ouvido falar em patriarcado, tia Creuza tomou uma decisão revolucionária para a época: optou pela própria companhia.
Nunca precisou acordar às pressas para bater ponto, enfrentar reunião inútil, sorrir para chefe inseguro ou fingir interesse por palavras como feedback, performance e networking. A vida dela cabia nas coisas miúdas: uma horta molhada ao amanhecer, uma bicicleta atravessando a rua no fim da tarde, um rádio de pilha tocando baixinho na cozinha e a liberdade de não dever satisfações a ninguém.
Há sete anos esteve aqui em Maceió para iniciar um tratamento médico. Reviu sua irmã, minha mãe, os sobrinhos e um pedaço antigo de sua própria vida. Num domingo, entre um guaraná e outro, dei a ela uma blusa de mangas compridas e um boné amarelo com uma conhecida marca azul bordada na frente.
Ela se comoveu. Os olhos ficaram úmidos como se eu tivesse lhe entregado um tesouro. Naquele instante, tive vontade de retribuir o abraço e o cheiro no cocuruto que recebi quando menino. Mas não consegui. Faltou costume. Há sentimentos que passam tanto tempo represados que acabam travados no caminho até as mãos.
Depois voltou para Itabaiana, onde morava sozinha numa casa cedida por um sobrinho querido que nunca lhe deixou faltar nada. Parecia feliz, nos seus oitenta e tantos anos.
Toda tarde saía pedalando devagar pelas ruas, olhando as miudezas pelo caminho: um cachorro dormindo na sombra, um menino dengoso no colo da mãe, a roupa balançando no varal, o céu mudando de cor atrás dos fios elétricos e suas andorinhas.
Era como se carregasse na garupa a alma de um certo poeta pantaneiro lhe lembrando baixinho que as borboletas pousam sem pedir licença, sem fazer alarde, sem machucar as próprias asas.
Esta madrugada o câncer a levou. Nem tudo as borboletas podem.







