quarta-feira, 19 de junho de 2024

O dever de tentar

Aos 85 anos, uma querida amiga minha decidiu renovar a CNH para adquirir um novo carro. Ela pretende retomar as rédeas de sua vida: ir à praia, à igreja, ao supermercado, à farmácia, ao salão de beleza e aos bailinhos da penúltima idade, sem depender de ninguém.


Viúva, ela já não divide sua intimidade nem com as filhas descasadas. Mora sozinha, cuida da própria alimentação, assiste TV, reza e navega nas redes sociais. Temendo quedas, largou as caminhadas ao entardecer, aderindo à prática do pilates.  

 


Ela acredita que poderá contribuir bem mais para a economia de consumo, pois entrará no círculo virtuoso em que um bem durável não só gera lucro a quem o produz, mas também redistribui renda, desde grandes industriais até os guardadores de rua.


Alega também que apoiará vários segmentos produtivos, desde a indústria automobilística até petroquímicas, refinarias, destilarias de álcool, postos de combustíveis, fábricas de centrais multimídias, painéis digitais, couros, plásticos, pneus, rastreadores, tintas, lojas de autopeças e oficinas mecânicas.

 

Sua contribuição ainda alcançará fornecedores de bens e serviços a supermercados, passando pelos fabricantes de artigos cosméticos usados por sua cabeleireira, até o pessoal envolvido nos bailinhos das matinês de domingo (maître, barman, cozinheiro, garçons, músicos e dançarinos, entre outros).

 

Não esquece nem dos agentes de trânsito. No mínimo, aumentarão a arrecadação pública com multas por estacionamento de maneira inadequada, direção sem documentos de porte obrigatório e avanço de semáforos vermelhos. Se forem desonestos, optarão pelo “confisco privado”, certamente menos voraz, cujo resultado, de qualquer modo, retornará aos supermercados.

 

Por pouco a criatura não me convence! De tanto ver telejornal, parece jornalista cavando uma boquinha num ministério da área econômica. Me fez recordar do tempo em que, com quatro omeletes de carne moída e as sobras recicladas de arroz, feijão e farofa, superava o desafio de alimentar sua numerosa família na véspera do pagamento do salário do provedor geral, quando a geladeira exibia sintomas de falência de múltiplas gavetas.

 

Mas ela sabe que tudo depende da renovação da CNH. E que não há restrição legal ou regulamentar por idade, apenas por condições físicas e psicológicas, para garantir a segurança de quem está dirigindo ou, sobretudo, de terceiros desavisados que cruzarem seu caminho.

 

O entusiasmo é tão grande que eu não quero quebrar o encanto da exposição macroeconômica de motivos. Embora, confesso, me ocorra procurar o Detran munido de um relatório médico recomendando a suspensão do seu direito de dirigir. Pressentimento é coisa séria.

 

Seria traumático, entretanto. Então, resolvi conversar:

– Vale a pena a senhora enfrentar de novo o inferno do trânsito?

– Claro! Só saio de casa nos horários menos movimentados...

– Já pensou se levar outra fechada de ônibus daquela que teve que subir a calçada? E se atropela alguém? O que vai ser dos filhos desse infeliz?

– Vire esta boca pra lá! Você já viu um raio cair duas vezes no mesmo canto?

– E se derruba um motoqueiro no asfalto, sem capacete, de bermudas e descalço? É encrenca pro resto da vida, tá sabendo?!

– Meu filho, relaxe! Quem tem medo de fazer cocô, não come nem bolacha Maria!

 

Torço para que o perito do Detran perceba certa desatenção (ou que os reflexos já não são os mesmos) durante o exame de renovação da CNH, porém os próprios filhos concordam que o desfecho mexerá com sentimentos como felicidade, frustração ou tristeza. Para ela, dirigir sempre foi sinônimo de independência, e perder isso não é fácil, especialmente para alguém ainda ativa e lúcida, inclusive dançando arrasta-pé, baião, forró e xaxado nesta época do ano. 

 

Não me perguntem como, mas ela conseguiu a renovação da CNH. Nada mais me surpreende quanto à capacidade de persuasão dessa matriarca determinada, firme como uma baraúna. 


Mesmo assim, os filhos se reuniram para discutir como fazê-la desistir da compra. Então um deles se encarregou de comunicar a opinião unânime da família, inclusive de alguns bisnetos adolescentes:

– Quando a senhora precisar sair, combine com um dos 8 filhos ou 20 e tantos netos. Não é possível que não tenha ninguém disponível.

– E se for emergência?

– Chame um “Uber”. É menos arriscado.

– Você tá me achando com cara de rapariga pra ficar na calçada esperando um carro com o celular na mão?

 

E deu aquela rabissaca, gesto de desprezo bem nordestino, com direito a virada brusca do corpo, lábios cerrados e sacudidas da cabeça. 

 

Tentar ela tentou, mas acabou desistindo da compra porque, em geral, o mercado considera o limite de 70 anos para financiamento de veículos. Ficou triste, é verdade, mas só até ouvir um sanfoneiro cantar assim (referia-se ao carro, certamente!): "Eu não preciso de você/O mundo é grande e o destino me espera/Não é você quem vai me dar na primavera/As flores lindas que sonhei no meu verão...". 


Ainda bem. Pena que a economia brasileira jamais saberá o quanto deixou de faturar sem minha querida amiga circulando ao volante pelas ruas. 

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Golaços sociais


Dias antes das chuvas que provocaram inundações em quase todos os municípios gaúchos, no maior desastre climático da história do Rio Grande do Sul, o Juventude enfrentou o Corinthians pela segunda rodada do Brasileirão 2024. No Estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, algo curioso chamou atenção antes do início da partida: a maioria dos jogadores usava óculos escuros.


 

Reprodução/Redes Sociais


A cena noturna poderia ser vista como um desfile de vaidades, mas, na verdade, era uma jogada de marketing da Chilli Beans. A marca aproveitou o evento com grande audiência para promover sua nova linha de produtos. Após a vitória do Juventude por 2 a 0, um vídeo viralizou nas redes sociais: o principal jogador do time apareceu como um astro de cinema, de óculos escuros (para se proteger dos flashs), simulando uma coletiva de imprensa.

 

Esse foi mais um episódio do chamado Marketing de Guerrilha. Criado nos anos 70 por Jay Conrad Levinson e inspirado nas táticas de guerra do Vietnã, essa estratégia busca surpreender o público com ações criativas e de baixo custo.

 

Além disso, campanhas criativas podem servir a causas mais nobres. A Unicef, por exemplo, distribuiu garrafas de água turva nas ruas de Nova York (ninguém se animou a tomar alguns goles) para chamar a atenção para a falta de água potável em muitos países. O mundo, alterado pelo clima, também está mudando as crianças, afetando sua saude física e mental. A ação gerou empatia e incentivou doações generosas. 



Montagem: Reprodução/Redes Sociais

 

No Brasil, há pouco mais de uma década, a camisa do Vitória da Bahia mudou de cor numa campanha de doação de sangue. As listras vermelhas se tornaram brancas e só voltariam ao original conforme os torcedores atingissem metas de doação. Essa campanha não só salvou vidas, mas também uniu a comunidade baiana em torno de uma causa nobre, reforçando o orgulho e a identidade local com cada gota de sangue doada. 



Reprodução/Redes Sociais

 

Os problemas sociais no Brasil são muitos. Desigualdade de oportunidades, desnutrição e desmatamento são apenas alguns dos mais graves. 


Marketing não serve apenas para conseguir novos clientes. Ele ajuda a fidelizar quem já conhece uma marca, fazendo com que voltem a consumir seus produtos. Quando bem-feito, expande a visibilidade junto ao grupo de pessoas mais suscetíveis a "comprar" inclusive uma boa causa associada.

 

Frente a tantas possibilidades, é fácil imaginar algumas campanhas que poderiam ser trabalhadas. Por exemplo, o verde da camisa do Palmeiras ou do Goiás poderia ser restaurado, a partir de um uniforme totalmente branco, à medida que novas árvores fossem plantadas. 


Grandes marcas do setor agropecuário poderiam bancar campanhas para reverter a devastação ambiental. E talvez se possa estabelecer uma cota permanente de doação de alimentos por hectare desmatado legalmente (não há que se falar em compensação pelo desmatamento ilegal: aí só punição mesmo!).


Outra ideia seria tornar as camisas de Botafogo e Santos totalmente cinzas, simbolizando a baixa alfabetização no Brasil. Um cinza grafite, claro, que nos lembre a ponta do lápis que faz falta nas mãos de mais de 10 milhões de brasileiros. À medida que a taxa de alfabetização melhorasse, as cores originais retornariam.

 

Em caráter emergencial (com a intermediação da CBF e da Conmebol junto à Fifa), penso que se poderia discutir uma ação global envolvendo os principais clubes de futebol das maiores ligas do mundo para a reconstrução do Rio Grande do Sul. Seria um divisor de águas na história do esporte mais popular do universo, pelo menos em termos de Europa e América do Sul.



Pode parecer egoísmo pensar apenas no desastre climático brasileiro quando existem crises humanitárias terríveis assolando nações como Afeganistão, Congo, Iraque, Síria, Somália, Sudão etc. Não é. Apenas se tornaria mais fácil escorar a campanha no peso da tradição do Brasil no contexto do futebol mundial. 


 

Esses exemplos ilustram a criatividade no marketing, mas também o potencial de transformar o esporte em um vetor de mudança. Imaginem camisas que, além de cores e patrocínios de bancos e casas de apostas, reflitam compromisso com educação, meio ambiente e igualdade social. Com sua popularidade e alcance, o futebol pode tornar a sociedade menos injusta.  

 

E você, como gostaria que seu clube de coração usasse sua influência? Como torcedores e membros da comunidade, é preciso incentivar iniciativas que transformem cada jogo numa oportunidade de marcar golaços na vida real, onde cada tento signifique um passo a mais em direção a vitórias que transcendem as quatro linhas do campo.


Não se deve mais ver um estádio de futebol apenas como um local de diversão. Trata-se de uma caixa de ressonância de sonhos e pesadelos coletivos. O esporte mais popular, de mãos dadas com o marketing, precisa ser um instrumento de justiça social, com impactos duradouros e significativos, fazendo do mundo um lugar melhor.



quarta-feira, 5 de junho de 2024

Que chato, não?!

Ninguém nasce chato. Ser chato é um estado da alma, uma dimensão do espírito que se apura em fogo brando. Existem aqueles que, desde os primeiros minutos fora do útero, abusam do direito de berrar, seguros de que se darão bem no novo mundo na base do grito.

Modéstia à parte, perdi a conta de quantas vezes fui tachado de chato pela minha mulher.  Apesar de mais de cinco décadas de mútua tolerância, ela, vez por outra, não hesita em soltar um contundente “ô cabra chato!”. Mas sabe que seria bem pior conviver com uma pessoa insossa, morna e previsível.


Ilustração: Umor

Não vou negar, às vezes reclamo de forma mais destemperada de certas coisas. Mas, no calçar das meias alheias, percebo que ninguém está livre desse rótulo. Somos, na verdade, uma multidão de chatos vagando pelo mundo, alguns em avançado estado de decomposição mental.

 

Para mim, o mais difícil de aturar é aquele que não tem a mínima ideia da extensão de sua chatice e passa o dia criando situações irritantes. Não sossega nem dá descanso a ninguém, validando a tese de Millôr Fernandes segundo a qual “chato é um sujeito que não pode ver saco vazio”. 

 

Sei que existem coisas que fogem ao nosso controle e que acabam enfurecendo os outros. Só para constar, reconheço que às vezes perco a paciência e fico intolerável. Em algumas ocasiões, reclamo de quem me irrita e depois me dou conta de que ajo da mesma maneira, como atravessar a faixa de pedestres de carro fingindo não ver quem espera na calçada.

 

Sou capaz de apostar que isso também acontece com você. Se não se lembra, vou refrescar sua memória com algumas situações em que quase todo mundo escorrega no piloto automático. Mas vou poupá-lo das mais tóxicas, isto é, daquelas que envolvem o embate político, religioso ou clubístico, principalmente com disseminação de notícias falsas.

 

Uma pessoa chata clássica, digamos assim, é aquela que fala alto ao telefone em espaços fechados ou públicos. Outra é a que, durante uma conversa, fica checando o celular com um rabo de olho. No mínimo, isso denota desinteresse pelo que está sendo dito ou que preferia estar com alguém supostamente menos desagradável que ela (se for possível!).  

 

E quem fala apenas sobre si mesmo no trabalho ou numa mesa de bar? Ou costuma chegar atrasado aos encontros marcados, desrespeitando o tempo alheio? E quem só conversa cutucando ou cuspindo em você? Haja aporrinhação! 

 

Poucas coisas são tão maçantes quanto receber mensagens picotadas no WhatsApp. Por que não escrever tudo de uma vez? É aflitivo esperar cada frase completar o raciocínio de meu interlocutor. Que desagradável, não?!

 

Outra maluquice é demorar ou não responder a uma mensagem importante. E o pior: ver (eu me recuso a usar aqui o verbo “visualizar”) e não dizer nada. Mais aborrecidos ainda são aqueles que se julgam tão importantes que desativam os tiques azuis, deixando a incerteza no ar sobre se receberam a mensagem ou se não querem respondê-la. 

 

E tem o dissimulado, que diz que achou que tinha respondido a mensagem (ou que deixou para depois), como se isso aliviasse a frustração de quem aguarda a resposta.

 

Outro chato é aquele que interrompe alguém no meio de uma história um pouco mais demorada, mesmo que seja para acrescentar algo importante. Nada pode ser tão valioso a ponto de quebrar o clímax e forçar o interlocutor a retomar o raciocínio.

 

Tem mais. Imagine-se em sua caminhada matinal e alguém à sua frente falando ao celular, andando lentamente, quase parando. Já pensou você pisar descalço em cocô ou xixi de cachorro nessa hora? É enorme o risco de perder a compostura, rosnar alto e ser chamado de chato.

  

Outro dia encontrei dois chatos num congestionamento, pareados na chatice como se estivessem em bluetooth. O primeiro, achando-se mais importante do que todos, resolve ultrapassar pelo acostamento com sua vistosa camioneta. O segundo, apesar da caneta e do bloco de multas na mão, desvia o olhar e finge não ver a infração, talvez com medo de desagradar o apressado. Pensei em perguntar o motivo pelo qual fez vista grossa, mas olhei para minha mulher e li no rosto dela algo como: “ô cabra chato!”. No trânsito, todos têm razão, menos o santo de casa. 

 

E quer ver um monte de gente se afastar de você, tachando-o de um sujeito intragável? Fale só a verdade e cobre isso de todos a seu redor. Nada cria mais inimigos do que não mentir. Demora, mas a maturidade ensina: não acredite quando alguém lhe sugere “fale com toda franqueza!”.

     

Não vou mais me alongar e correr o risco de receber de alguns leitores, que me aguentaram até aqui, aquela mensagem cruel: “ô cabra chato!”

 

Enfim, Deus me proteja de mim e da chatice geral, pois só a minha faz sentido. 

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Raízes e horizontes

O romancista e poeta baiano Carlos Barbosa me contou que “O Meu Pé de Laranja Lima”, um clássico da literatura brasileira escrito por José Mauro de Vasconcelos, publicado originalmente em 1968, acaba de alcançar a marca de 400 mil exemplares vendidos na China. Trata-se da história de Zezé, um menino de cinco anos muito esperto e sensível. Tornou-se leitura escolar para as crianças chinesas.


A tradução foi feita por Ma Guangping e publicada pela primeira vez em 1983. Ela é conhecida por trazer várias obras literárias brasileiras para o público chinês, ajudando a promover nossa literatura no Oriente.


A notícia me fez lembrar da história de meu amigo Maneco. Ele passava horas contemplando a sombra de uma varinha cravada no chão do quintal, que mudava de posição a cada instante, até o pôr-do-sol: 

– O que você faz aí, hein? 

– Tô vendo o tempo passar, mãe...


No terreiro, além da cerca de avelós, do pé de manga espada e do galinheiro, havia o areal onde ele brincava com a irmã, inclusive nas noites de lua cheia, até ouvirem o alerta materno:

– Tá na hora de lavar os pés, beber água e dormir! 

 


Ele e Jacira, sete e oito anos, os caçulas dos sete filhos de Chicão e Mariquinha, nasceram num pequeno sítio à margem do rio São Francisco, distante seis léguas da cidade de Pedregulho. O sustento de todos vinha da pesca, da engorda de algumas crias e do plantio de mandioca, milho e feijão. 

 

Em noites de lua cheia, um impulso misterioso levava algumas mães na zona rural a, de repente, querer mudar para cidades maiores, na esperança de que os filhos descobrissem um mundo novo, aprendessem a ler, a fazer contas, a enxergar na escuridão. Não foi diferente com Mariquinha, na metade do século passado: 

– Chicão, nem pense que vou deixar esse menino ser criado aqui como Deus criou capim. Nem ele nem a irmã, viu?

– Ficou doida, foi? 

– Se quiser ficar, fique, mas vou levar os dois pra estudar na cidade.

– E vão viver de quê?

– Não sei. Deus dá jeito...

 

Contrariando o marido, que permaneceu no sítio na companhia do primogênito, Mariquinha partiu resoluta, carregando os filhos mais novos. Ao chegar em Pedregulho, alugou uma casa na periferia e conseguiu empregos menores para os três filhos mais velhos, agora responsáveis pelo sustento da família. E decidiu alfabetizar os caçulas.

 

As crianças estudariam numa escola profissionalizante. Jacira não se animou, mas o menino até pensou virar alfaiate para costurar aquelas roupas elegantes que os mais abastados vestiam na igreja. Durante o ano letivo, ambos se destacaram, sendo Maneco escolhido orador da turma na festa de formatura. E ela, integrante do coral, de última hora foi substituída por uma filha da elite local.  

 

Escondida da mãe, Jacira chorou muito. A professora, buscando contornar a situação, a fez declamadora. E lhe ensinou um poema sobre as dificuldades de uma órfã num mundo hostil do pós-guerra. No dia do evento, a menina, com olhos úmidos e mãos espalmadas, foi intensa e comoveu a todos, inclusive sua mãe:

– Chore não, minha filha, sua mãe tá viva! Olhe pra mim, bem aqui na sua frente!

 

Depois Maneco subiu ao palco e leu um discurso redigido pelo diretor da escola, começando assim: “O tempo pode ser medido pelas batidas de um relógio ou pode ser medido pelas batidas do coração...” E arrematou com “O trabalho”, de Bilac: 

“(...) É preciso trabalhar.

Não nasce a planta perfeita

E nem nasce o fruto maduro.

Para se ter a colheita

É preciso semear (...)”

 

Para quem assistiu, nascia ali uma grande atriz como Bibi Ferreira, digna de sonhar com cinema e teatro. Nascia também um escritor. Maneco devorava livros de Monteiro Lobato, fascinado pelas aventuras de Emília, uma boneca de pano com sentimentos e ideias libertárias.

 

A mãe exultava àquela altura, ainda mais porque o pai, tangido pela saudade, já se desfazia do sítio para se juntar aos seus no Natal de 1958.

 

O relógio, ansioso a vida toda, andou ligeiro desde os tempos em que a sombra de uma varinha no quintal mudava a cada instante, até o pôr-do-sol dos dias de hoje. 

 

Maneco e Jacira, hoje meus vizinhos de prédio, setentões, aposentados e viúvos, até conseguiram graduação universitária, mas não foram longe. Ela se casou com um comerciante, virou dona-de-casa e teve três filhos, que lhe deram seis netos. Ele também se casou, possui dois filhos e dois netos, e trabalhou por três décadas num grande banco estatal que lhe pagava o suficiente. 


Voltaram a viver juntos durante a pandemia, cuidando-se mutuamente, das caminhadas matinais aos remédios de cada um. E passam horas ouvindo as batidas de um velho relógio na parede da sala-de-estar, ambos com as retinas ressequidas de tantas telas. Não mais se debatem contra fatos e feitos. Quando o futuro vira passado, de nada serve o que podia ter acontecido.

 

Ontem, vendo o pôr-do-sol à beira-mar, Maneco comentou que gostaria de reencontrar sua mãe, a avisá-lo de novo: “Tá na hora de lavar os pés, beber água e dormir”. Do seu lado, Jacira fez o sinal da cruz e ressalvou: “Sem pressa, meu irmão!”.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Pedacinho do céu


Como é curiosa e tragicômica nossa pátria de contradições, onde o futuro é tão incerto quanto a próxima nota de um chorinho que se repete, ano após ano, como se estivéssemos presos num ciclo sem fim. 

Há três semanas o Brasil respira ofegante, tenso, acompanhando os dias de horror e os desdobramentos da maior tragédia climática de sua história.

A devastação que atingiu centenas de municípios do Rio Grande do Sul (que poderia ter ocorrido no Rio, em São Paulo ou Alagoas) expôs o melhor e o pior de nós. De um lado, a generosidade de voluntários, vindo de todas as partes, empenhados em salvar vidas e ajudar aos desabrigados. De outro, a crueldade de marginais que invadiram casas, lojas e fazendas para saquear o que restava, e de predadores que, em meio ao caos, cometeram atrocidades até contra crianças. 




Fragilizada como uma teia de aranha numa tempestade tropical, a nação oscila ao sabor da popularidade passageira e dos interesses pessoais de meia dúzia de figuras. A cada quatro anos, escolhemos um novo “salvador”, nos planos estadual e federal, convictos de que "desta vez vai ser diferente", esperançosos e iludidos como quem troca de canal buscando algo melhor nos reality shows.

 

Já passou da hora de intensificar a educação cívica de nossa gente. Nas escolas e nas mídias sociais, é inadiável que surjam programas e campanhas focadas na importância da responsabilidade cidadã, do voto consciente, desvinculados de figuras messiânicas. Como fazer isso sem puxar a brasa pro nosso bife? Não sei, mas tem quem saiba entre nós.

 

Toleramos, segundo o IBGE, o desperdício de um terço dos alimentos aqui produzidos com a resignação de quem leva uma torta na cara e ainda aplaude. É emergente discutir políticas públicas e iniciativas privadas que otimizem a logística de distribuição, eduquem sobre o aproveitamento integral e o combate ao esbanjamento. Como fazer? Tem quem saiba, juro!

 

Enquanto com uma mão jogamos algumas moedas aos mendigos, com a outra entregamos o ouro aos senhores vorazes dos orçamentos públicos. E o “castelo” nunca fica do lado dos vulneráveis. “Eu quero que pobre se exploda”, diria o deputado Justo Veríssimo, personagem antológico de Chico Anysio.

 

E a fama de que somos um povo trabalhador? Ultimamente, o que mais existe são artesãos do ofício de não fazer nada ou de adiar para o dia seguinte. Boa parte condena os espertalhões e ao mesmo tempo deseja calçar seus sapatos, tirando uma lasquinha do banquete financiado pelo suor alheio. Quer coisa mais contraditória em nossa pátria amada? 

 

Vivemos numa democracia virtual. Um lugar onde todos têm direitos, mas responsabilidades são ignoradas, parecendo um asilo ou um circo decadente. O infame “jeitinho”, nossa suposta malandragem, nos afunda cada vez mais enquanto nos gabamos como se ainda fôssemos respeitados pelas conquistas de Pelé e Ayrton Senna, únicos heróis nacionais indiscutíveis. 

 

O gigante adormecido ainda ronca alto no berço esplêndido do país do futuro. Talvez um dia acorde, e os bons finalmente tomem as rédeas, aproveitando nossa abundância natural, em vez de reduzi-la a apenas mais uma nota triste do chorinho que se repete.

 

Mas tenha cuidado: se sábado você resolver almoçar uma feijoada e for pego numa blitz após tomar dois goles de caipirinha, prepare-se para uma multa salgada de quase R$ 3 mil e a perda da carteira de motorista. Se optar por drogas mais pesadas, talvez nem lhe incomodem.

 

Porém se você tem menos de 18 anos, pode até cometer crimes como atropelar, roubar, assaltar, estuprar e matar, sem muitas consequências, pelo menos se as redes sociais não derem visibilidade ao caso. Mesmo se estiver pilotando um Porsche, em velocidade superior três vezes à permitida na via.

 

E se possui uma arma em casa (eu não tenho, vou logo avisando!), mesmo que seja um estilingue ou um canivete, e acertar as nádegas do sujeito que invadiu o seu quintal para fazer sabe-se lá o quê, você vai responder por tentativa de homicídio e pagará indenização à vítima por danos físicos e morais.

 

Mas preste atenção: se o invasor for menor de idade, só Jesus na causa! E se estiver desarmado, você estará perdido! Vai ser acusado de tentativa de homicídio doloso e qualificado, por motivo indecoroso, infame ou torpe. 

 

Portanto, tome nota: antes de reagir (argumentando “tolices” como a defesa de filhas e netas), pergunte educadamente o que ele deseja, se está armado e se por acaso possui cédula de identidade, título de eleitor ou passaporte provando que já fez 18 anos. 

 

Mas veja bem: antes de sair por aí repetindo que cada povo continua experimentando do inferno que merece, faça a sua parte: berre até ficar rouco cobrando políticas de segurança pública que integrem ações sociais, como programas de educação e profissionalização para jovens em risco, além de reformas no sistema de justiça que busquem a reintegração, em vez de apenas punição (sobretudo para pobre, preto e puta).

 

Se, mesmo assim, você acha que estou exagerando e que “desta vez vai ser diferente”, quem sou eu para duvidar? Quem sabe o chorinho monótono que ecoa por aqui ganha novas notas e vira um "Pedacinho do céu". Sem tantas contradições, por favor!

quarta-feira, 15 de maio de 2024

O bicho pegou

O site americano Vox andou ensinando aos seus leitores como pronunciar uma nova palavra: "den-gay", diz o texto. Sim, finalmente os gringos descobriram como se fala “dengue”. Nós, brasileiros, que temos uma relação estreita com essa palavrinha desde cedo, mal podemos conter nosso entusiasmo com essa descoberta.

 

Ilustração: Ivan Cabral

A dengue resolveu que não era mais suficiente ser apenas uma visitante ocasional em terras brasileiras e decidiu quebrar recordes dignos de entrar para o Guinness, com dois milhões de casos confirmados até o mês passado, segundo nosso vigilante Ministério da Saúde. Pelo visto, o Aedes aegypti decidiu fazer hora extra este ano. Desconfio, inclusive, de que já trabalhe com coach e influencers próprios, após ter diversificado sua atuação, da chikungunya à zika. 

 

Se deixou de ser notícia palpitante por aqui, agora é assunto nos jornais estrangeiros. O Washington Post fez questão de destacar que estamos cara a cara com uma crise de saúde pública sem precedentes. E o ousado Aedes (dispenso o sobrenome, pois já estamos bastante íntimos) resolveu inovar, chegando a lugares onde nunca havia marcado presença, mesmo sem passaporte, “visto” de entrada nem cartão de vacinação. 


Ilustração: Ivan Cabral

Com o caos climático instalado
 pelo aquecimento global jogando no time da epidemia, o mosquito também virou imigrante indesejado em várias partes do mundo – ele não possui documentos, mas tem asas –, incluindo a pitoresca região sul da Europa e até o Sul dos Estados Unidos.

 

O bicho, que tem um parentesco com nossa velha muriçoca (pernilongo), tornou-se um verdadeiro satanás, bem diferente dos tempos em que um repelente espiral verde em um suporte de alumínio, um mosquiteiro ou um spray de Detefon resolviam a parada. 

 

Aliás, criado para dizimar essa e outras pragas do Egito, aquele spray combatia até “malária, febre amarela e tifo”, segundo uma campanha publicitária veiculada em 1953, em O Cruzeiro, revista semanal que circulou entre nós durante anos. 

 

Com slogans do tipo “terrível contra os insetos”, “defenda sua casa” e compromisso de “proteção prolongada”, Detefon prometia exterminar ratos, baratas, moscas, mosquitos e formigas. Pena que uma substância integrante de sua fórmula foi banida em vários países nos anos 1970, por contaminar alimentos e intoxicar outros seres vivos. 

 

Meu saudoso tio e padrinho Enoch, a quem visitei nos anos 1980, no Maranhão, certo dia, me vendo na sala batendo palmas acima da cabeça, esmagando as primeiras muriçocas ao entardecer, se aproximou olhando pros lados e cochichou:

– Não conte ainda pra ninguém... Acabo de descobrir um método não venenoso pra acabar com os mosquitos. Você sabe o que é tabaco?

– Será o que tô pensando, tio?

– Bem, seu safado, não quero saber o que você tá pensando. Tô falando do pó-de-rapé, torrado...

– Isso mesmo, tio! Né aquele que os velhos cheiram pra espirrar? Eles dizem que é bom pra enxaqueca, sinusite...

 

E saiu uma "conferência" sobre receitas amazônicas que apresentavam em seu composto, além de fumo, ervas como casca da copaíba, canela-de-velho, cumaru-de-cheiro, pau-pereira, entre outras. Alguns índios até hoje acreditam que, aspirando o pó, absorvem a energia dos espíritos que acompanham o pajé de sua tribo e os espíritos que habitam a floresta. 

 

Atiçada a minha curiosidade, ele prosseguiu: 

– Vai precisar de alguns seixos, aquelas pedras arredondadas de beira de rio.

– Só serve desse tipo?

– Se não achar, quebre em pedacinhos um bloco de calçamento de rua e me traga aqui.

 

Antes do anoitecer, voltei. Tio Enoch então, de forma bastante didática e paciente, me explicou que as pedrinhas deveriam ser distribuídas pelos cômodos da casa, após colocar uma pitada de pó sobre cada uma delas. 


 

Segundo ele, quando as muriçocas vissem a novidade, não resistiriam à tentação e dariam umas cafungadas, buscando uma overdose de espirros. Com o porre, bateriam a cabeça nos seixos e cairiam duras, vítimas de traumatismo craniano, sem chance sequer de tentar fraudar eventual exame antidoping.


Mesmo com cara de besta, caí na gargalhada e quase digo aquilo que vocês estão imaginando, mas faltou coragem. Havia muito carinho e respeito entre nós. Optei então por disseminar a “receita” entre amigos e até hoje ainda encontro quem perca alguns minutos prestando atenção no que relato, oralmente ou por escrito. 

 

Agora que finalmente os gringos descobriram como se pronuncia “dengue”, me pego pensando sobre o que teria acontecido se a “receita” do tio Enoch circulasse no meio científico e o FDA, órgão governamental dos EUA que controla medicamentos e materiais biológicos, resolvesse acatar a estratégia como política oficial de combate à dengue. Talvez uma revolução na saúde pública mundial, digna de um Prêmio Nobel póstumo!

 

Ironia à parte, por conta do aquecimento global e de seu impacto devastador sobre as comunidades, pobres ou não, o cenário é alarmante. A dengue, ao cruzar fronteiras e bater à porta de novos lares, trazendo na bagagem dores no corpo, hemorragias e morte, reforça a emergência de se rediscutir a pauta ambiental, o abuso do planeta. Se houver tempo.

 

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Profetas de uma paixão

O escritor Graciliano Ramos, lá pelos idos de 1920, torcia o nariz para o futuro de uma paixão pela bola rolando de pé em pé. Preferia esportes hoje classificados como vintage, como a corrida a pé – útil inclusive para o ofício de roubar galinhas –, além de hobbies como o porrete e a pega de bois pelos chifres. Chegou a sugerir que se deveria elevar a rasteira ao status de esporte nacional, dada a nossa predisposição inata para a malícia e o drible na ética. 

 

Lima Barreto, outro escriba dos bons, também criticava a paixão pelo futebol, sob outro enfoque. Para ele, esse esporte seria um instrumento a mais de segregação racial. Se dentro das quatro linhas a coisa melhorou um pouco, de fora, os bárbaros continuam usando-o para vomitar sua bestialidade, como acontece de forma assombrosa em solo espanhol contra o jogador Vini Jr.

 

Mais que um jogo, para o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues o futebol era um retrato de nossa humanidade profunda, com suas grandezas e misérias. As circunstâncias, os acontecimentos e os resultados foram descritos em seus textos como uma ópera ou um folhetim teatral. “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”, escreveu.

 

Ilustração: Umor

Assistir a uma partida nos dias de hoje virou maratona de paciência e resignação, seja no estádio ou pela TV. O VAR (Árbitro Assistente de Video, na tradução para o nosso idioma), essa promessa de justiça infalível, trouxe mais pausas do que soluções, transformando os jogos em tediosas sessões de análise. A emoção genuína do esporte está sendo trocada por debates insossos sobre precisão tecnológica. 


O futebol, desse jeito, se assemelha às ciências exatas, com estatísticas e análises frias predominando sobre a magia do imponderável, do sobrenatural. Só falta acrescentar a famigerada margem de erro, para mais ou para menos. 

 

Quando o árbitro desenha no ar aquela tela imaginária, a pressão sanguínea dos torcedores beira o colapso. O pênalti se consolida como tema para mesa redonda, com direito a análise, quadro a quadro, sobre “movimentos antinaturais e ocupação de espaço”. Descobri, inclusive, que sou totalmente inapto para alguns movimentos naturais, a exemplo de torcer o braço atrás do corpo ou cair com as duas mãos na cintura. 

 

Mas a era do tédio no futebol também deve ser atribuída ao número reduzido de gols – não deveríamos ficar satisfeitos com placar abaixo de 3 a 3, isto é, um gol a cada 15 minutos. Assim como às pausas dramáticas, muitas vezes para que o árbitro possa promover uma verdadeira “discussão de relacionamento” com os assistentes de vídeo, mesmo em lances incontroversos até para os cegos. 

 

Para a escassez de gols, existem propostas a partir de mudanças bastante simples. Por exemplo, admitir que os arremessos laterais sejam executados com os pés. Alterar a regra dos escanteios (passariam a ser cobrados do ponto em que a linha de fundo intercepta a linha da grande área). E introduzir punições por faltas coletivas (após a quinta ocorrência, seria marcado tiro livre da meia lua da área do infrator, sem barreira). 

 

Como acabar com a insuportável “cera” nas partidas? Nada melhor que dois tempos de cronômetro de bola rolando, com intervalo de 10 minutos e com menos jogadores em campo (10 de cada lado, inclusive o goleiro), reduzindo aquela ciranda sem fim na zona intermediária. Outra melhoria no ritmo de jogo seria punir com tiro livre o retrocesso da bola ao campo de defesa após cruzar a linha do meio-campo, estimulando mais os ataques e contra-ataques.

 

Essas mudanças dariam novo gás ao futebol, inclusive por incentivar o surgimento de novas estratégias de jogo, sem exigir grandes investimentos em infraestrutura e tecnologia. 

 

Mas é difícil convencer certos mandachuvas de evidências. As alterações nas regras dependem de um órgão mais conservador que a Igreja Católica – o International Football Association Board. Mesmo vendo a molecada, inclusive meus netos, bocejando para o esporte e optando por fabricar o próprio encantamento no videogame.

 

Voltemos então a Graciliano Ramos. Foi premonitório ao antever que o futebol se tornaria um playground para apostas esportivas, transformando a maior paixão nacional em mero objeto de especulação financeira, mediada por plataformas digitais estrangeiras. 

 

Que bom que somos referenciais para o mundo em termos de leis e autoridades competentes para impedir o aliciamento de atletas e árbitros, evitando qualquer manipulação de resultados. A CBF e a CPI das apostas estão aí para garantir a retidão do negócio.

 

Caso contrário, teremos que engolir a profecia do velho Graça quanto à nossa inclinação para a astúcia e a malandragem como parte do futebol, assim como na vida em geral. 


Afinal, tem sido a arte de dar e sofrer caneladas em quem pensa diferente de nós que nos define como nação no abismo civilizatório em que caímos.



quarta-feira, 1 de maio de 2024

Perfume raro

Quem de nós, navegantes com mais de seis décadas de águas revoltas, não se lembra da melancólica canção-poema “Rosa de Hiroshima”? Com esta música, o lendário grupo musical “Secos e Molhados” tocou cicatrizes, visíveis e ocultas, de crianças que, inocentes aos dramas dos adultos, sobreviveram ao bombardeio atômico no Japão. 

 

Essas pequenas criaturas, transformadas pelos versos de Vinicius de Moraes em moleques calados e telepáticos, ou meninas cegas e desorientadas, trazem consigo o legado da radioatividade que se estenderá por gerações. E o poeta escolheu a flor para simbolizar o momento da explosão: uma imagem que evoca o trágico desabrochar de uma rosa. “Rosa com cirrose... Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada”, ele pontuou. 

 

Sim, tudo isso é muito injusto. O câncer infantil, líder cruel nas estatísticas de mortalidade entre nossas crianças, como atesta o Instituto Nacional do Câncer (Inca), prevê o doloroso surgimento de cerca de 8 mil casos anuais até 2025, atingindo jovens de 0 a 19 anos de idade. Quem ousou dizer que a vida seria justa?

 

Se fosse justa, veríamos desabrochar mais “rozas” em nossos canteiros. Não se espantem com o “z” que emprego aqui. Não falo de uma rosa qualquer, muito menos da descolorida e sem perfume Rosa de Hiroshima, mas da Roza da Apala, uma mulher que, inconformada com esse fatalismo estatístico, resolveu provar que atos falam mais alto que palavras.

 

Fotografia: Álbum de família 

Roza, ou Rozenita Fernandes, uma maceioense que nasceu poucos meses antes daquele fatídico bombardeio, é antes de tudo esposa, mãe e avó extremada. 
Em 1994, ela deixa seu emprego como psicóloga no antigo Hospital do Açúcar e, como voluntária, se junta a um grupo de almas devotadas para enfrentar o câncer infantojuvenil, abraçando a causa da recém-criada Apala (Associação dos Pais e Amigos dos Leucêmicos de Alagoas) – uma organização sem fins lucrativos mantida por doações e voluntariado que, na época, funcionava numa casa alugada.  

 

Logo, a Apala daria mais do que uma simples assistência a crianças com leucemia. Torna-se um lar temporário na capital alagoana (onde os tratamentos são possíveis) a crianças e adolescentes portadores de todos os tipos de câncer. Oferece refeições, assistência social e psicológica, cuidados odontológicos, suporte para compra de medicamentos e transporte para hospitais. 

 

E Roza percebe que poderia contribuir ainda mais na estruturação da casa, buscando meios para mantê-la ativa e próspera. A partir de um projeto arquitetônico desenvolvido por sua nora, Nadja Fernandes, nasce a sede própria em terreno doado pela Prefeitura de Maceió, com recursos arrecadados junto a centenas de doadores (empresas e pessoas) sensíveis à causa. 

 

A Apala se torna uma das melhores casas de apoio no país, atraindo a atenção de entidades como o Instituto Ronald McDonald’s e a Construtora V2, o que acelera vários projetos, inclusive o mais ambicioso deles: a criação do Ambulatório de Oncologia Pediátrica do Hospital Veredas (que sucedeu o Hospital do Açúcar), pertinho da instituição.

 

Foi assim que, sob o olhar determinado de Roza e sua equipe, a Apala enraizou-se, ganhou corpo e floresceu, tornando-se símbolo de compaixão e perseverança, voltado ao bem-estar de mais de 400 pessoas. Parecia ecoar pelos corredores “Os cegos do castelo”, de Nando Reis: “Eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele, eu vou cuidar... Ah! Eu cuidarei do seu jantar, do céu e do mar, e de você e de mim...”

 

Roza viu de tudo, até crianças sendo abandonadas à própria sorte por suas famílias. Lidar com uma criaturinha dessas gravemente enferma é defrontar-se, no mínimo, com duas perdas profundas: a da criança e a da própria esperança. É a ruptura da idealização da infância e do futuro que nunca chegará. Encontrar-se com o fim da vida de uma delas é, em parte, encarar a própria morte. 

 

Um dia, ela sentiu o peso do estresse emocional e físico, sobretudo das relações interpessoais complicadas no submundo corporativo, e resolveu voltar pra casa. Tinha consciência de que doara o seu melhor, sabia do tamanho da árvore que ajudara a plantar durante três décadas, de sua infatigável jardinagem e dos frutos colhidos. 

 

Roza havia descoberto por experiência própria que as ações são mais eloquentes do que as palavras. Sim, precisou de amor para pulsar, de paz para sorrir e de chuva para florir, lições colhidas de uma antiga canção que ecoa ao fundo de sua vida e lhe ajuda a tocá-la em frente. 


E agora o seu universo orbita mais suave ao redor de pessoas éticas, divertidas e inteligentes, como seu marido Roberto; seus filhos Hermann, Roberta e Renata; e suas netas Júlia, Luísa e Lívia, pilares de sua felicidade e fontes de alegria e renovação. Fez (e faz) por merecer.

 

Cartola estava certo quando compôs “As rosas não falam”. Tanto é que não me espanto com outra com tanta beleza, a Roza da Apala, que mesmo calada, apenas sorrindo, exala um perfume raro: a essência do bem.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Amizade inabalável

Nem pense, meu caro, que só porque você falhou ontem à noite a vida perdeu o sentido. Como não vai morrer tão cedo, é bom ir se acostumando, pois haverá uma segunda vez, uma terceira... Ainda bem. Que sorte, hein?

Ilustração: Umor


Lembre que já se foram os dias em que éramos jovens e que nenhum de nós (exceto os mentirosos, que não são poucos e ainda irão dominar o mundo!) tem o fôlego e o vigor da meninada no estirão do crescimento.

 

Naquela época, as meninas hesitavam no último minuto, e eram trocadas por substitutas improváveis, como almofadas apaixonantes, travesseiros sedutores e a imaginação fértil na palma da mão (não havia joysticks!). 


Agora, antes de mais nada, avalie se o problema não está escondido entre as suas orelhas, sob o que lhe resta de cabelos, talvez atormentado pela desilusão com os rumos da política partidária ou pelo lembrete de que o leão do imposto de renda não tem misericórdia e abocanha quase um terço de seus rendimentos.


Se não for isso, puxe uma conversa de gente grande com seu inseparável amigo careca, desdentado e feio, que anda cabisbaixo feito gato de armazém (dormindo sobre um saco enrugado). Entre vocês não existem temas tabus ou verdades inconfessáveis, e sim intimidade suficiente para tratar qualquer coisa sem frescuras. Afinal, juntos a partir dos primeiros tropeços da infância, compartilham segredos desde a chegada dos rascunhos de pentelhos.

 

Mas preste atenção! Não faça ameaças intimidatórias. Pressões exageradas podem levar a mal-entendidos catastróficos, abalando o respeito mútuo e, pior, comprometendo décadas de uma amizade inabalável. Seria o fim da picada – sem trocadilhos. 


Chantagens na linha sugerida por Juca Chaves também podem não funcionar. Segundo ele, era comum fazer um comentário mais ou menos assim, quando o amigo dele pedia ajuda para alívio da bexiga (sua segunda função): “Veja como você pode contar comigo, na hora em que mais precisa!”


Lembra-se das incontáveis vezes em que seu amigo careca foi convocado para missões emergenciais, como aquelas escapadas heroicas enquanto sua sogra cochilava na cadeira-de-balanço, antes de chamar a filha pro sermão das dez da noite? Ou então das vezes em que ele estava ali, exausto, depois da pelada da tarde? À noite, era acionado, tendo que se levantar às pressas e, ereto, forte e viril, ir à luta de cabeça erguida. 


Esses inesperados chamados ao dever, com o tempo, podem ter comprometido a prontidão do velho aliado de tantas batalhas, especialmente agora que, digamos, o combustível do tanque se aproxima da reserva e nenhum aditivo químico é garantia absoluta de autonomia de voo. 


Você sabe, inclusive, que nem todas as pessoas que se identificam como machos possuem um amiguinho careca e vice-versa, e que as experiências de intimidade, desejo e insegurança são universais, transversais a diferentes identidades. Por isso, aceite meu conselho: conversem até ficarem roucos. Afinal, burros só trocam coices porque não sabem dialogar. 



Já posso até antever a conversa:

– Quem diria que precisariam de mim tão cedo?! – exclamaria o careca, desdentado e feio – Ela e você ainda estavam naquela fase de amassos, beijos sem língua, nada de toque em partes íntimas…” 

– Me pegou de surpresa... Mas não justifica! Você precisa estar alerta, pronto para entrar em ação. E por favor, nada de sair por aí reclamando que está sendo explorado em tarefas incompatíveis com suas funções, quando continua recebendo de mim um tratamento cinco estrelas! 

– Tudo bem. É que nessas horas preciso de aquecimento, entende? Não daquele tipo que o treinador de futebol cobra de alguns atletas ainda no primeiro tempo, mesmo sabendo que não vai utilizá-los. Um carinho às vezes cai bem, como diz o poeta…

– Duro é que, do nada, ela achou de pronunciar aquela palavrinha cruel e me deixou numa sinuca de bico, de queixo caído. E quando falo de queixo caído, na verdade, não foi só ele que caiu.  

– Qual palavrinha?

– “Bora”!

–  Maldade... O “bora” realmente é uma armadilha capaz de causar ataques de nervos, de coração... Mas esqueça, já passou. Mude o canal... 

– Pensando bem, foi melhor assim. Não era a pessoa ideal para juntarmos nossas tralhas e trilhos. É aí que a gente descobre… 

– O que você descobriu?

– Ela exigiu luz acesa e espelhos pra conferir tintim por tintim. Queria preparar vídeos, virar musa do OnlyFans.

– Epa! Ficaríamos famosos, não?!

– Mas então me veio com aquele olhar esquisito, misterioso... Sei não! Parecia que se segurava pra não cair na gargalhada. E olhando pra você, meu amigo, que sempre esteve do meu lado, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza.

– É... Não ia dar certo mesmo. Amigo também é pra essas coisas.