O MAR NÃO É PARA AMADORES
Hayton Rocha
Morei a maior parte da vida em três cidades litorâneas, porém minha experiência marítima se resume a algumas travessias de ferryboat na Baía de Todos os Santos, quando a maior preocupação era perguntar em quantos minutos chegaríamos e confiar que alguém soubesse a resposta. Ferryboat, aliás, é uma invenção pra lá de esquisita: mistura de ônibus, praça de alimentação e prévia do juízo final com cheiro de maresia.
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| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
Nunca pisei num navio de cruzeiro. E se pisasse seria apenas para passar vergonha já na primeira onda mais encorpada, agarrado a uma coluna como quem tenta salvar a própria carcaça. Tenho enjoo e tontura até assistindo documentário do Discovery Channel. Basta a câmera balançar que meu estômago já me cobra o desembarque.
Cruzeiro marítimo é vendido como sonho. Gente sorrindo no convés, taça na mão, saxofone ao fundo, pôr do sol cenográfico e uma garçonete perguntando se você deseja mais camarão empanado. Mas abra o olho: desconfie de qualquer lugar onde você come vinte e quatro horas por dia e ainda chamam isso de descanso.
Navio de cruzeiro é uma espécie de condomínio fechado da gastroenterite. Aquilo parece férias, só que funciona como laboratório epidemiológico com música ao vivo.
Pense: milhares de pessoas confinadas num tubo metálico flutuante, compartilhando banheiro, corrimão, elevador, espreguiçadeira, maçaneta, piscina e um exército intercontinental de bactérias, fungos e vírus. É uma conferência universal de todas as secreções humanas. A diferença entre um cruzeiro e um hospital é basicamente a presença do cassino.
Na pandemia, houve até um navio transformado num aquário flutuante de coronavírus. O danado circulava pelos corredores com a desenvoltura de bêbado em casamento open bar.
O norovírus, conhecido como “o satanás do intestino”, deve olhar para buffet de cruzeiro como criança diante de vitrine de brinquedos no Natal.
Buffet, aliás, é uma invenção extraordinária para quem gosta de fartura e uma tragédia para quem aprecia os avanços civilizatórios. Nada aproxima mais a humanidade da barbárie do que uma fila por camarão grátis. O sujeito pega a colher da salada depois de coçar a sobrancelha, espirrar discretamente no punho ou ajustar a sunga molhada. Em seguida, devolve o utensílio ao recipiente com a calma de um monge budista. E os companheiros de viagem, logo atrás, seguem acreditando na pureza do purê. Existe algo de profundamente otimista em consumir maionese preparada para três mil desconhecidos em alto-mar.
Sem falar nos elevadores. Navio de cruzeiro transforma adultos em sardinhas verticais. Você entra num cubículo com oito pessoas úmidas, perfumadas em excesso e ligeiramente bêbadas, enquanto o ar-condicionado recicla não apenas o oxigênio, mas também evidências gasosas da democracia intestinal.
Os corredores vivem cheios. As piscinas têm consistência de sopa humana. E as hidromassagens? Inventaram um tanque aquecido coletivo e convenceram as pessoas de que aquilo representa luxo, não um experimento microbiológico premium.
E tem ainda um detalhe importante: cruzeiro é paixão especialmente de idosos. Nada contra o time em que jogo. A velhice merece descanso, lazer e até fila prioritária no cassino. Mas reunir centenas de criaturas acima dos sessenta num ambiente fechado, cercado por vírus respiratórios e comida de procedência duvidosa, parece roteiro concebido por um demitido injustamente da vigilância sanitária.
Claro, os navios possuem enfermarias. Mas elas lembram extintor de incêndio em boate antiga: você torce para nunca precisar descobrir se funciona. Porque basta surgir uma virose mais animada e, de repente, o comandante do navio deixa de parecer Roberto Carlos em especial de fim de ano para assumir a expressão de síndico quando dispara o alarme de incêndio no condomínio.
Veja você para onde caminha a humanidade. Passamos séculos tentando escapar de aglomerações insalubres, águas contaminadas, epidemias, pestes e ratos. Aí enriquecemos um pouco e recriamos tudo isso em versão premium, com varanda gourmet, pacote all inclusive e internet de bordo.
Na dúvida, prefiro avião. Avião pelo menos oferece a possibilidade estatística da tragédia rápida. Já navio só disponibiliza a chance de você morrer lentamente, cercado de música caribenha, cheiro de protetor solar vencido e o norovírus atacando sua flora intestinal com uma fome de anteontem.
Seria isso o progresso? Transformar antigas caravelas da peste em resorts flutuantes onde uma gente bronzeada brinda enquanto procura Dramim ou Floratil na enfermaria.
Nem morto embarco numa furada dessas! A comida pode até parecer tentadora, mas o norovírus circula de Ray-Ban e pulseirinha como hóspede VIP.







