A ZOADA DOS OUTROS
Hayton Rocha
Um sujeito alto e magro ainda subia e descia escadas como menor aprendiz do Banco do Brasil, em 1975, quando fez provas para entrar em definitivo na engrenagem daquele mundo que parecia sólido como um cofre. E o fez com uma calma um tanto inocente, irresponsável, não filha da soberba, mas da ignorância do tamanho da porta que poderia se abrir.
Vinha de família grande: a mãe viúva, nove filhos e uma dose de coragem que precisava bastar para todos. Chegara à capital cinco anos antes, ainda com o futuro em estado bruto. Seu plano, se é que havia algum, era terminar o segundo grau e tentar um vestibular. O banco, naquele momento, era só uma estação intermediária, dessas em que a gente desce do trem sem imaginar que ali vai passar a vida inteira.
Na primeira etapa, as coisas tinham corrido bem. Português, psicotécnico, matemática. Atravessou como quem pisa numa rua cheia de poças: molha os pés, mas não afunda. Dias depois, veio a notícia da aprovação preliminar. E junto com ela, o anúncio da última etapa: prova de datilografia.
Hoje isso soa engraçado. Mas naquele tempo, dominar uma máquina de escrever era como aprender a falar a língua dos homens. Quem tinha intimidade com aquela zoada e o teclado de ferro já começava a vida com meio caminho pavimentado.
Na véspera, viu o salão sendo preparado. Mesinhas e cadeiras alinhadas, máquinas como soldados de chumbo antes da batalha. Ali cresceu a vontade de virar gente séria, ter um emprego de verdade, ganhar quatro mil cruzeiros por mês, comprar aquele Corcel 73 de que falava Raul Seixas em Ouro de Tolo e, quem sabe, ter menos culpa, menos vigilância e mais intimidade com a namorada.
A prova parecia simples: novecentos toques em seis minutos. O tempo, visto de perto, tem elasticidades que só se descobre quando se precisa.
O sujeito não era completamente estranho às teclas. Tinha aprendido numa escola de datilografia que aquilo era quase um ofício de sobrevivência. E posicionar os dedos corretamente era mais importante do que saber o que dizer. Mão esquerda de "A" a "G". Mão direita de "H" a ":". Olhar para o teclado era proibido, como se o segredo de fazer a coisa certa fosse confiar no que não se vê.
Nos dias que antecederam a prova, procurou alguns veteranos, com suas risadas e cicatrizes. Ouviu relatos de gente que travou, de dedos que desaprenderam, de nervos que não obedeceram. Guardou um conselho: comece devagar e vá ganhando confiança; depois acelere. Parecia simples, como quase tudo que não é.
Na hora, descobriu que o inferno tinha som. Um coro metálico, ritmado. As máquinas explodiram ao mesmo tempo, e aquilo deixou de ser prova individual. Era um campo de batalha onde cada um fingia lutar sozinho, mas ouvia o avanço do outro. Cada tecla batida ao lado parecia dizer: você ficou para trás.
Tentou seguir o plano e começar devagar. Mas como sustentar o próprio ritmo quando o mundo ao redor dispara? É difícil resistir à tentação de correr quando todos parecem voar. Foi então que o pânico encontrou seus atalhos. Teclas enganchadas umas nas outras, dedos perdidos, palavras que deixavam de ser palavras. E cada erro, além de tomar tempo, roubava o mais importante: o eixo.
Porém no meio daquele caos havia algo profundamente humano, embora ele ainda não soubesse nomear: não era apenas uma prova técnica. Era um teste de não se desorganizar com a zoada alheia.
Quando o tempo acabou, veio a ordem seca: parar imediatamente. Arrancou a folha da máquina com uma mistura de alívio e susto. Olhou o texto. Havia palavras irreconhecíveis, mas também algo mais importante: quase chegou até o final. Faltaram cinco palavras. Ali entendeu que o quase também é lugar de chegada.
Deu certo. Meio século depois, tendo passado a vida inteira numa mesma empresa e já aposentado há dez anos, ele ainda lembra daquele salão como quem guarda um aviso que não se repete.
Continua escrevendo como naquele dia: sem olhar para o teclado, tentando não escutar o que acontece ao seu redor.
Com o correr dos anos, aprendeu que a zoada dos outros só acordava a sua. Se bem que demorou a distinguir uma coisa da outra.









