AS PALAVRAS E O VOTO
Hayton Rocha
Hoje é um dia histórico. Desses que não esquecemos, mesmo quando preferimos esquecer algumas coisas. Nesta madrugada, a urna ainda não falou. Tudo parece incerto, inclusive as palavras, que se recusam a obedecer a quem tenta organizá-las. Estamos diante de dois futuros muito diferentes. Talvez isso explique tanta oscilação entre apreensão e confiança, euforia e desespero, esperança e medo... muito medo.
Na quarta-feira passada, recebi de um leitor uma longa mensagem. Ele percebeu, em minha crônica A pergunta que desarma o palanque, certa equivalência entre os candidatos que disputam o segundo turno. Imaginou como teria sido difícil para mim escrever sobre a eleição sem declarar preferência, justamente quando o assunto ocupa a cabeça de quase todo mundo, sobretudo da classe média, onde se concentra boa parte dos meus leitores.
Para ele, não há propriamente uma polarização, como insiste em repetir a imprensa. O que está em jogo é uma guerra entre a civilização e a barbárie, a democracia e o autoritarismo, os livros e as armas, a ciência e o dogma, o amor e o ódio. Não seriam dois polos de uma mesma reta, mas retas incapazes de se encontrar. Tampouco duas faces da mesma moeda, mas moedas cunhadas em metais diferentes.
Reconheço a força do argumento e compreendo a impaciência diante de qualquer tentativa de nivelar candidatos tão distintos em seus compromissos, propostas, realizações e trajetórias. Há diferenças que não podem ser escondidas sob o verniz da neutralidade. Nem toda equidistância é equilíbrio; às vezes, é apenas uma maneira de não tomar partido.
Refeito do susto, respondi ao amigo o que talvez devesse ter dito desde o começo: mais uma vez votarei em Lula. Já votei nele mesmo quando alguns de seus aliados injustamente me rotularam como tucano e tentaram me abater em pleno voo profissional, na virada deste século.
Muitos de meus leitores conhecem essa história. Conhecem também minhas origens e o chão em que aprendi a caminhar: o Nordeste brasileiro, tantas vezes tratado com desdém por outras regiões, embora continue fazendo sua parte, apesar das adversidades e dos preconceitos que insistem em sobreviver.
Não houve, portanto, intenção de disfarçar minha escolha. De omitir que votarei pela humanidade; pela redução das desigualdades (eliminação, infelizmente, é utopia); pela paz, não pelas armas; pelo respeito aos diferentes; pela proteção aos mais frágeis; pelo meio ambiente, para que o planeta sobreviva mais um tempo; pelas novas gerações, não pelo egoísmo dos que têm os mesmos privilégios que eu. Votarei, enfim, para que tenhamos eleições livres em 2030, sem o ranço de ódio recíproco.
O que tentei dizer, portanto, foi outra coisa, talvez sem a habilidade necessária para me fazer entender. Quis dizer que, seja um ou outro candidato, o Brasil continuará carregando nas costas problemas que vêm de longe: alguns anteriores à República, outros tão entranhados na vida nacional que já parecem parte da mobília. Corrupção, desigualdade, educação precária, preconceito, privilégios, violência. Trocam-se os ocupantes do Planalto, mas certas estruturas permanecem confortavelmente instaladas, como inquilinos que nunca pagam aluguel e ainda se julgam donos do prédio.
Isso não significa que os candidatos sejam iguais. Não são. Nem que o resultado da eleição seja indiferente. Não é. Há escolhas capazes de abrir caminhos, ampliar oportunidades e proteger direitos; outras podem fechar portas que levaram décadas para ser destrancadas.
Mas nenhum presidente, por mais bem-intencionado que seja, conseguirá sozinho desmontar uma herança tão antiga. A mudança não pode ser terceirizada para quem vence a eleição, como se, encerrada a votação, a outra metade dos brasileiros pudesse se desobrigar do destino do país.
O Brasil que teremos também será consequência do que fizermos ou deixarmos de fazer. Dependerá da disposição de cada um para reconhecer as próprias contradições, conter os impulsos de manada e transformar a indignação de ocasião em compromisso duradouro.
A urna não encerra a história; abre outro capítulo. E a tarefa não pertence apenas a um homem ou a uma corrente política. Pertence a todos nós, inclusive aos que preferem não se meter em política, como se a política, por delicadeza, fosse deixar de se meter na vida deles.
Ao final da conversa, agradeci ao amigo pela franqueza e pela compreensão do meu esforço para que o blog onde publico minhas crônicas não se pareça com o esgoto a céu aberto que as redes sociais despejam diariamente diante de nossos olhos. Não me considero o formador de opinião que ele imagina. Nem no meu prédio.
Pedi desculpas por não ter conseguido dizer tudo o que pretendia. Continuo tentando aprender, todos os dias, a lidar com as palavras. Às vezes, elas dizem menos do que pensamos; outras, revelam mais do que gostaríamos.
Quanto ao voto, repito: já está decidido. Quanto ao Brasil, infelizmente, ainda não.








