A BOLA, O LIVRO E O “SE”
Hayton Rocha
Em “As Primas de Sapucaia”, conto de Histórias sem Data (1884), Machado de Assis pontuou: “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução...”
O que teria acontecido ao Brasil se Pelé, Roberto Dinamite, Sócrates e Zico, em seus tempos de glória, tivessem feito o que Gustavo Scarpa faz agora: falar de livros para quem talvez nunca imaginasse que um jogador de futebol pudesse conversar sobre Tolstói?
Em Anna Karenina, Tolstói escreveu: “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”
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| Reprodução/Redes Sociais |
Recentemente, Scarpa publicou no YouTube uma resenha de A Morte de Ivan Ilitch. O clássico russo chegou ao topo da lista dos mais vendidos da Amazon Brasil. Vieram convites, entrevistas, seguidores. E, no meio da torcida do Atlético Mineiro, nasceu a Galeitura, um clube de leitura que, pelo nome, já driblou a sisudez que muitas vezes ronda os livros.
Não é pouca coisa. No Brasil, basta um sujeito famoso recomendar uma chuteira para a loja esvaziar. Recomendar um livro é outra conversa. O freguês costuma perguntar se tem edição com menos páginas, mais fotos.
Scarpa, porém, parece ter encontrado o passe certo. Seu futebol se apoia menos na força e na explosão física do que na inteligência tática, no refinamento do toque e na precisão da perna esquerda. Por isso, a leitura não parece um adereço colocado ali para surpreender. É apenas mais um traço de alguém que, por acaso, também joga futebol em alto nível.
E se Pelé tivesse indicado livros depois daquele milésimo gol, em 19 de novembro de 1969? O país inteiro talvez tivesse corrido às livrarias. Ou, mais provavelmente, às bancas de jornal, onde já se comprava quase tudo: revista, gibi, figurinha. O vendedor passaria a perguntar ao freguês: “Vai levar também Capitães da Areia ou Vidas Secas?”
E se Zico tivesse citado Dom Casmurro, do Bruxo do Cosme Velho, numa entrevista depois de um jogo? Será que as arquibancadas teriam formado filas para uma biblioteca? Se Roberto Dinamite tivesse falado de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, alguém teria levado o livro para a concentração? E Sócrates, médico, jogador e cidadão inquieto, talvez tivesse encontrado na leitura uma extensão natural de suas conversas sobre democracia e futebol.
Não há como saber. O “se” continua aquele torcedor incorrigível: escala o passado, muda a formação e vibra com um resultado que nunca aconteceu.
Naqueles anos nada dourados, o Brasil ainda convivia com o analfabetismo crônico. Nenhum craque, por maior que fosse, teria resolvido sozinho um problema que exigia escola, professor, biblioteca e políticas públicas consistentes.
O futebol poderia ajudar a abrir a porta; não substituiria quem precisava construir a casa. A diferença é importante. Uma campanha de leitura não alfabetiza automaticamente quem não teve acesso à escola, mas pode fazer alguém querer entrar nela. Ou voltar.
Imaginem hoje os clubes abrindo bibliotecas. A criança chegaria para visitar a sede e sairia com um livro debaixo do braço. Talvez Corinthians, Flamengo, Palmeiras ou Vasco descobrissem que também se pode ganhar torcida sem contratar medalhão a peso de ouro. E os canais de mídia reservariam espaço para as leituras dos jogadores. O influencer que acompanha o dia a dia do clube falaria da provável escalação e, ao lado, da lista de livros da concentração.
Talvez seja fantasia demais. No entanto, o que vemos agora também parecia improvável: um meio-campista recomendando Tolstói, um livro russo vendendo como se tivesse acabado de marcar um gol nos acréscimos, torcedores discutindo literatura nas redes sociais. O que parecia distante aconteceu porque alguém resolveu falar do que gostava, apesar da insegurança.
Há quem insista em dizer que o futebol aliena o país, embotando os olhos para suas grandes mazelas sociais. Às vezes, sim. Mas também pode conduzi-lo a lugares onde não costuma entrar. Uma bola atravessa fronteiras; um livro, quando encontra o leitor, atravessa o tempo. Juntos, podem fazer algo simples e singular: despertar curiosidade e ampliar horizontes.
O passado não aceita replay. Pelé já não pode gravar uma resenha sobre a obra de Graciliano Ramos ou Jorge Amado. Roberto Dinamite e Sócrates já não estão aqui para escolher a leitura do mês. Mas a biblioteca que sonhamos ainda pode ser construída.
A bela jogada de Gustavo Scarpa merece uma salva de palmas. Não muda o Brasil de uma hora para outra, mas pode levar mais brasileiros a abrirem um livro. E quem sabe assim a leitura ganhe novos torcedores.








