NEM ME VENHA COM ESSA!
Hayton Rocha
Diz um amigo que pede a Deus todo dia para poupá-lo de virar um velho ranzinza como eu. Repete isso sempre que nos encontramos, embora reconheça que circula por aí uma coletânea de frases feitas capazes de provocar em qualquer pessoa dores auditivas, visuais e, dependendo da gravidade, até espirituais.
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| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
Antes que a comunidade linguística me corte o pescoço ou me condene à fogueira dos estúpidos, peço que considere estas linhas apenas o resmungo de um galo velho metendo o bico onde não é chamado.
Claro, já não perco tempo com “prever o futuro” ou “elo de ligação”. A ciência ainda deve à humanidade um colírio e uma solução otológica contra essas construções. O problema agora é outro. Minha rabugice lateja diante de frases que alguns não se cansam de repetir sem prestar atenção ao que significam.
Comecemos pela ilustre afirmação de que “gosto não se discute”. Como não se discute? Se alguém me disser que prefere cebola crua a doce de leite, vou discutir, claro. Se sustentar que surgiram jogadores de futebol mais completos do que Pelé, não vou nem contestar: chamarei um médico para avaliar se estamos diante de um problema de visão ou de um caso clínico mais delicado. Há gostos pessoais e há diagnósticos. Confundir uma coisa com a outra é perigoso.
Outra expressão que me faz coçar a sobrancelha é “na minha modesta opinião”. A frase encerra um paradoxo admirável. Quem precisa anunciar a própria modéstia já fracassou no teste antes de fazê-lo. É como alguém se apresentar dizendo que sua maior virtude é a humildade. Se a criatura considera sua opinião tão modesta assim, talvez faça um enorme favor guardando-a exclusivamente para si.
Na mesma prateleira ficam “eu, pessoalmente, acho” e “eu, sinceramente, penso”. Você já imaginou se a pessoa resolvesse falar em nome da humanidade inteira? Que alívio saber que a opinião é pessoal! Ou devo entender que, nas demais ocasiões, ela emitia opiniões impessoais e mentirosas?
Também desconfio de quem, numa conversa, começa uma resposta dizendo “veja bem”. Quem recorre a esse fôlego reflexivo geralmente não quer que vejamos coisa nenhuma. Está apenas ganhando tempo para embrulhar em papel celofane a sua versão dos fatos.
A esposa pergunta ao marido:
— Você vai chegar cedo hoje?
— Veja bem...
Entenda-se: vai ao boteco tomar chope com os amigos.
O marido descobre na fatura do cartão a compra de uma bolsa de três mil reais:
— Você teve coragem?
— Veja bem...
Entenda-se: comprou, não aceita devolução e ainda considera a pergunta uma violência psicológica.
Tem ainda aquele palavreado estranho dos boletins policiais. Neles, bandido não foge: “empreende fuga”. Ninguém veste blusa ou calça: “traja uma peça de cor...”. E ninguém simplesmente morre: “não resiste e vem a óbito”. Se morreu, é claro, não tinha mesmo como continuar resistindo. A morte, até onde se sabe, raramente admite recurso.
No esporte, então, os clichês desafiam até a Matemática. Não é raro um treinador exigir que seus atletas deem 110% em campo. Nunca entendi de onde sairão os 10% restantes. E não me digam que é apenas figura de retórica. Se não há compromisso com a ciência, que peça logo 200%. Pelo menos o exagero ganha alguma ambição.
A pior de todas talvez seja “o importante é participar”. Mentira! O importante é ganhar. Quem diz o contrário quase sempre perdeu e tenta transformar o fracasso em filosofia de vida. Nunca vi um campeão olímpico devolver a medalha de ouro porque participar lhe pareceu suficiente. Se você já viu, por favor, me aponte o atleta, que reconsidero o que afirmo.
Mas reconheço que ninguém está livre do pecado. Reli alguns textos meus e encontrei excrescências do tipo “para dizer a verdade”, como se precisasse avisar quando não estivesse mentindo. Escrevi “para começo de conversa”, embora jamais tenha iniciado conversa pelo fim. Também usei “eu, se fosse você”, hipótese impossível, pois, se eu fosse você, deixaria de ser eu. Descobri até que já falei em “pequenos detalhes”. Existem grandes detalhes?
Pelo visto, o amigo a quem me refiro no início desta crônica, e que continuará rezando para não envelhecer como eu, tem razão. Entrar na velhice discutindo com frases prontas não parece ocupação muito saudável.
Mas, veja bem... Se isso é ser ranzinza, aceito o diagnóstico. Pior seria atravessar a vida repetindo lugares-comuns sem perceber que alguns já nascem precisando ser enterrados. De preferência depois de virem a óbito.






