DONAS DE BRASÍLIA
Hayton Rocha
Meu amigo doutor Izaías pertence a uma espécie em extinção: a dos homens que ainda acreditam que uma carta publicada no jornal pode produzir algum constrangimento nas autoridades.
É uma fé respeitável. Há quem acredite em horóscopo, em jogo de búzios, em saci-pererê. Ele acredita em denúncia ao Correio Braziliense.
Mora na Asa Sul e adquiriu, nas caminhadas matinais pelas superquadras, uma convivência pacífica com as saúvas. Não chega a ser amizade. É mais uma relação entre pagador de impostos e potência ocupante em ascensão.
Dias atrás resolveu escrever àquele jornal denunciando o avanço dos formigueiros sobre Brasília. O texto vinha redigido em tom jurídico. Para ele, tratava-se de um caso típico de esbulho possessório praticado por organizações subterrâneas altamente disciplinadas.
Ele lembra que Brasília foi concebida por Lúcio Costa para os automóveis. Mas basta caminhar hoje pela Asa Sul para perceber que o projeto original sofreu adaptações. As novas urbanistas da cidade não usam pranchetas. Usam mandíbulas.
Onde antes havia trilhas para pedestres, surgiram verdadeiras rodovias de transporte de carga. É um fluxo incessante de folhas e galhos avançando em fila indiana, capaz de humilhar qualquer secretaria de obras.
O Eixão, perto delas, parece um experimento arquitetônico fracassado. Cada saúva carrega sua carga com espírito de equipe, sem greve, sem reunião para discutir a necessidade de novas reuniões. Apenas trabalham.
O resultado aparece ao amanhecer. Árvores inteiras surgem nuas, vítimas de um assalto botânico durante a madrugada. Sob as superquadras, o solo vai adquirindo a consistência de um queijo suíço. Em certos trechos, se um cidadão mais encorpado pisar em falso pode inaugurar involuntariamente uma estação do metrô.
Meu amigo pergunta: onde está o Poder Público? É uma pergunta injusta...
O Poder Público anda ocupado com problemas maiores: crises fiscais, déficits bilionários, hospitais superlotados, transporte precário e outras tragédias expressas numa infinidade de siglas cuja simples pronúncia já provoca gastrite.
Diante dessas encrencas, uma formiga carregando um pedaço de folha parece mais uma cena poética. Ali reside o segredo delas. Compreenderam antes dos homens que os grandes perigos raramente chegam fazendo barulho. O cupim não derruba casa com explosões. Derruba com competência e obstinação.
Mas doutor Izaías, operador experiente do Direito, reconhece que os tempos mudaram. Já não se deve colocar o ser humano no centro do universo. Hoje se discute o direito dos animais, a proteção dos ecossistemas e a dignidade das diversas formas de vida.
Tudo muito justo. As saúvas também têm seus direitos. O problema começa quando o legítimo exercício de uma liberdade evolui para soberania territorial.
Porque uma coisa é coexistência ecológica. Outra é uma colônia anexar uma superquadra inteira, estabelecer corredores logísticos próprios e exercer domínio efetivo sobre árvores, calçadas e jardins. Dessa forma, argumenta ele, a omissão administrativa começa a flertar com a cumplicidade.
No encerramento da carta, faz um alerta à Secretaria do Meio Ambiente. Diz que a invasão já ocorreu. Que houve trânsito em julgado. Que a posse definitiva foi concedida às formigas. E que, mantido o atual estado da arte, não demorará para reivindicarem assento no Conselho Ambiental do Distrito Federal.
Achei a denúncia bastante consistente. Faltou apenas adaptá-la aos tempos modernos com a velha advertência de Auguste de Saint-Hilaire: ou Brasília acaba com a saúva ou a saúva acaba com Brasília.
Porém chego a uma conclusão perturbadora. A conquista já aconteceu.
Nenhuma espécie domina um território apenas pela força. Domina pela organização, pela capacidade de ocupar espaços, distribuir tarefas, explorar recursos e construir estruturas invisíveis para quem vive apenas na superfície.
Nesse aspecto, as formigas exibem desempenho invejável.
Trabalham sem discursos nem comissões especiais encarregadas de avaliar a conveniência de futuras comissões. Não disputam protagonismo, não cultivam vaidades institucionais. Simplesmente avançam.
Quando uma árvore desaparece, não procuram culpados. Carregam as folhas. Quando surge um obstáculo, não convocam audiência pública. Contornam. Quando decidem ampliar território, não apresentam projeto de lei. Escavam.
Foi assim que ninguém percebeu o momento exato da mudança de poder. Impérios raramente caem num único dia. Primeiro mudam os símbolos. Depois mudam os hábitos. Por fim, mudam os donos da terra.
Os homens continuam assinando decretos e concedendo entrevistas. Mas isso já parece mera formalidade administrativa. As verdadeiras proprietárias estão instaladas alguns metros abaixo.
Diante do fato consumado, proponho uma solução conciliatória: que as formigas permaneçam com Brasília.
Em troca, transfiram a antiga população humana para algum endereço tranquilo do litoral nordestino, com sombra de coqueiros, moquecas bem temperadas e vista permanente para o mar. Afinal, há mares (e marés) que vêm para o bem.
E doutor Izaías sabe que será muito bem-vindo. Aliás, olhando para o que construíram debaixo dos pés dos brasilienses, é fácil concluir que Brasília nunca pertenceu aos homens.
Foram apenas os inquilinos provisórios de uma cidade que as saúvas sempre souberam ser delas.






