UMA VELHA FOTOGRAFIA
Hayton Rocha
Você se apresentou no São João de Caruaru, no Dia dos Namorados, diante de uma multidão reunida no Pátio Luiz Gonzaga. Não teve sanfona, triângulo nem zabumba, mas imagino aquele mar de gente cantando junto, como se cada casal apaixonado — e cada separado arrependido — levasse no bolso da alma aquela velha fotografia.
Não pude ir. Tivesse ido, talvez a gente se encontrasse e eu lhe perguntaria: como vai você, bicho? Preciso saber da sua vida. É que, há mais de meio século, sua vida atravessou a minha, a de Magdala. Entrou pelo chiado do rádio, pelo toca-fitas e pelas preguiçosas tardes de domingo.
Já se disse quase tudo sobre você, de bem e de mal. Chamaram-no de rei, romântico incurável, ultrapassado e outros rótulos que a vida entrega com uma mão enquanto retira um pedaço com a outra. Mas ninguém pode negar que você ainda canta sem aspas, ama sem interrogações, sonha com reticências e vive sem pontos de exclamação.
Há nisso uma elegância rara. A de quem veste um paletó de linho branco, um chapéu alquebrado e segue pela vida como flores que teimam em nascer entre trilhos.
Ainda menino, perto da estação ferroviária de Cachoeiro de Itapemirim, você aprendeu que o destino, às vezes, nem bate à porta: passa por cima. Ficou um pedaço de você pelo caminho. O resto virou resistência.
Mais tarde, trocou Cachoeiro por Niterói, os sonhos pelo rádio e acabou se transformando numa espécie de parente sentimental do Brasil. Titia Amélia e Lady Laura acompanharam de perto e sabiam disso como ninguém.
Nem mesmo quando a morte, essa visitante inconveniente que não respeita nem reinados e títulos, levou mulheres amadas e filhos queridos, você desistiu.
Há pessoas que transformam a dor em renúncia. Você fez dela canção. E foi remexendo nesses pedaços da sua história que compreendi uma coisa simples: no fundo, suas canções nunca falaram apenas de você. Falavam de nós.
Porque ninguém amou sozinho naquela época. Havia sempre uma canção sua esperando a hora certa de dizer o que a gente não conseguia. Às vezes bastava um trecho: "Eu sei que eu tenho um jeito meio estúpido de ser, mas é assim que sei te amar".
Quem nunca ouviu sua voz avisando que não adiantava tentar esquecer alguém porque ainda viveria dentro da gente? Quem nunca acreditou que certos detalhes eram grandes demais para desaparecer na longa estrada?
Fui um moleque inseguro, embora ousado e presunçoso. Tinha meus medos, mas os escondia atrás de uma arrogância de anéis, colares e jeans desbotados. No ônibus que me levava da Gruta ao Farol, em Maceió, fazia perguntas a mim mesmo que hoje me soam absurdas.
E se outro cabeludo aparecesse quando tudo estivesse acabado entre nós? Se ela ouvisse o ronco do ônibus, lembraria daquele metido a poeta, com mais amor do que concordância verbal?
Era difícil admitir que outro pudesse lhe falar palavras de amor como eu falava. Mas duvido que tivesse meus erros de português, minha rebeldia ou minha esperança de tudo dar certo.
À noite, imaginava que ela procuraria meu retrato e encontraria outro rosto na moldura. Mesmo assim, acreditava que, por trás daquele sorriso alheio, haveria sempre um pequeno fantasma meu fazendo pose.
A juventude tem dessas convicções extravagantes. Acredita que o amor é uma escritura registrada em cartório, que a saudade respeita pactos verbais e que certas pessoas permanecerão para sempre sentadas na mesma cadeira da memória.
Por um tropeço cósmico, um detalhe, quatro décadas depois, numa sexta-feira de agosto de 2013, eu e Magdala encontramos com você nos camarins do Centro de Convenções, em Brasília.
Estávamos diante de alguém que conhecia todos os segredos da nossa geração.
— Suas músicas estão em nossas vidas desde aquele disco lançado antes do Natal de 1971 — confessei, meio sem jeito.
— Quais, bicho? — você perguntou, sorrindo.
— “A Namorada”, “Amada Amante”, "Como vai você", “Traumas”. Mas uma delas era especial: “Detalhes”. Cheguei a tentar cantar para ela, dedilhando um violão...
Você então voltou-se para Magdala:
— E ele cantava bem?
Não me lembro do que ela respondeu. A memória, com seus caprichos, guarda umas coisas e devolve outras. Deve ser por isso que existem certas canções, certas pessoas. Elas passam a vida inteira lembrando por nós aquilo que o tempo faria questão de esquecer.
Você continua subindo aos palcos. Nós seguimos juntos carregando, no bolso da alma, aquela velha fotografia.







