MINTA, POR FAVOR
Hayton Rocha
Já houve uma época em que o futebol ocupava no Brasil um espaço situado entre religião e anestesia coletiva. Copa do Mundo não era apenas torneio esportivo. Era uma suspensão provisória da realidade. Durante algumas semanas o país esquecia censura, fila de INSS, inflação, prestações em atraso e até o tamanho da própria insignificância social.
Já falei aqui das artes de Dinho, apelido herdado do pai, um cearense fã de Orlando Peçanha, o elegante zagueiro vascaíno campeão do mundo ao lado do capitão Hideraldo Bellini.
Aos quinze anos, Dinho já trabalhava como office-boy num daqueles edifícios emblemáticos do Setor Bancário Sul, em Brasília. Usava uniforme azul, ganhava pouco mais que um salário-mínimo e atravessava corredores carregando documentos e pastas como quem transporta segredos de Estado.
Outro dia descobri mais um capítulo de sua biografia.
Era abril de 1978. Na véspera do amistoso entre Brasil e Inglaterra, em Wembley, Dinho resolveu pedir ao chefe uma troca de turno. A Seleção de Cláudio Coutinho preparava-se para a Copa da Argentina e ainda tentava convencer o país de que futebol podia ser explicado por palavras como overlapping, polivalência e outras invenções que pareciam saídas de uma reunião entre contadores e economistas.
O chefe perguntou por que ele queria mudar o horário. E Dinho, ainda jovem o suficiente para acreditar que sinceridade produzia compreensão, resolveu dizer a verdade: queria assistir ao jogo da Seleção Brasileira.
O chefe era um homem tão sistemático que quando falava parecia montar frases em ordem alfabética. Tinha horror ao improviso, à alegria espontânea e provavelmente a crianças correndo atrás de bola. Ouvi-lo era como ler Diário Oficial com sinusite.
Negou o pedido. Disse que futebol era motivo fútil. Existe sempre alguém disposto a chamar de fútil justamente aquilo que nos impede de enferrujar por dentro.
Dinho ainda tentou argumentar. Disse que tanto faria trabalhar num turno ou no outro. Arriscou explicar que um amistoso em Wembley tinha relevância histórica para alguém como ele, apaixonado por futebol. Mas o chefe encerrou a conversa com aquela indiferença burocrática típica de pequenos poderes que se acreditam eternos.
Na manhã seguinte, resignado, Dinho apareceu normalmente no banco. O jogo começaria às onze da manhã no horário de Brasília.
E foi então que, por volta das dez e meia, o alarme de incêndio disparou no prédio.
Não era um alarmezinho tímido. Era um urro metálico atravessando corredores, escadas e gabinetes como se o Apocalipse estivesse descendo o Eixo Monumental em direção à Praça dos Três Poderes.
Funcionários evacuaram o edifício às pressas. Alguns desciam correndo em velocidade incompatível com a própria barriga. Outros tentavam manter a classe enquanto carregavam pastas inúteis contra o peito, como se papelada pudesse protegê-los do fim dos tempos.
Em 1978, qualquer sirene carregava cheiro de bomba, golpe ou conspiração. O Brasil ainda respirava sob a ditadura militar e havia no ar um medo permanente.
O prédio permaneceu interditado até o fim da tarde. Ninguém trabalhou. Mas Dinho viu o jogo.
Vinte e cinco anos passaram. O mundo mudou de roupa várias vezes. A ditadura acabou, a União Soviética implodiu, Brasília ganhou mais asfalto e radares eletrônicos do que árvores e Dinho virou alto executivo da empresa.
Já o antigo chefe envelheceu migrando de sala em sala, entre reuniões improdutivas e cafezinhos mornos. Existem pessoas que vão sendo lentamente arquivadas pela vida.
O destino, que possui um senso de humor mais perverso que muito cronista, um dia colocou o antigo chefe subordinado ao antigo office-boy.
Na véspera da aposentadoria, o ex-chefe pediu para conversar reservadamente com Dinho. Sentou-se diante dele quase sem voz. Disse que estava indo embora e provavelmente nunca mais voltariam a se ver.
Depois de alguns segundos, fez a pergunta que carregou durante quase três décadas como quem esconde um segredo mal enterrado:
— Foi você quem disparou o alarme naquele dia?
Dinho contou que levou alguns segundos olhando para ele. Não porque estivesse escolhendo uma resposta. Mas porque finalmente entendeu algo. Durante todo o tempo aquele homem não carregara uma suspeita. Carregara uma necessidade.
Precisava acreditar que alguém tinha jogado sujo. Precisava acreditar que o mundo lhe pregara uma peça. Precisava acreditar que a vida não poderia simplesmente favorecer um garoto apaixonado por futebol. A verdade, naquele momento, tinha perdido a utilidade.
Então Dinho sorriu. E resolveu oferecer ao velho chefe uma despedida compatível com toda uma carreira dedicada aos controles, às convicções absolutas e aos manuais de instruções.
Ofereceu-lhe exatamente o que ele procurara durante tanto tempo. Uma mentira. E talvez tenha sido a única verdade que aquele homem conseguiu aceitar.






