A PERGUNTA QUE DESARMA O PALANQUE
Hayton Rocha
Na noite do último domingo, os candidatos à Presidência subiram ao palco do primeiro debate do segundo turno. A Band preparou três blocos e uma lista de temas urgentes: segurança, economia, saúde, produtividade, Estados Unidos, maioridade penal. O cardápio era farto. A conversa, nem tanto.
Mais uma vez, as farpas entraram pela porta da frente e ocuparam a sala inteira. Corrupção, investigação, suspeita, contra-ataque. Os assuntos da vida real ficaram esperando na varanda. Quem já tinha lado ganhou munição; quem ainda procurava um encontrou mais barulho.
O formato dos debates parece ter o prazo de validade vencido. Dois candidatos diante das câmeras, um relógio impaciente e a coreografia de sempre: um fala, o outro interrompe; um acusa, o outro retruca. Política vira uma pelada em que os jogadores parecem mais empenhados em provar que o adversário merece perder do que em mostrar por que merecem vencer.
Fico imaginando outro tipo de confronto. Nada mais dócil — a verdade também pode ser uma lâmina —, porém menos refém do repertório das assessorias.
Penso nisso por causa de uma ONG chamada MeuBrasilzin, que me convidou a ajudá-la na seleção de seu novo presidente.
Há dois candidatos ao cargo. Quando chegar a hora, pretendo fazer duas perguntas: qual livro, filme ou pessoa mais marcou a sua vida? E o que você mais admira no seu concorrente?
A primeira pede maturidade e memória, não currículo. A segunda exige mais do que um elogio protocolar. Ocorre que não sou besta: até a lembrança mais íntima pode virar peça de campanha. Um candidato treinado talvez cite um livro legal, agradeça a um professor e encontre no rival uma qualidade tão genérica que serviria para qualquer um.
Assim, farei mais duas perguntas: se você for o escolhido, que projeto confiaria ao seu concorrente? E o que essa escolha revela sobre aquilo que você ainda precisa aprender?
Mas voltemos ao debate presidencial. Perguntas desse gênero talvez produzissem um constrangido silêncio. Não uma falha técnica, nem uma queda de energia, mas aquele instante em que a resposta não vem pronta e o exército de marqueteiros, por mais que se esforce, não consegue soprá-la a tempo.
No caso de MeuBrasilzin, imagine o candidato interno diante de um concorrente que vem de fora. Ele conhece os corredores, as dores antigas, as dobradiças que rangem. Poderia alegar que o forasteiro não conhece a casa. Mas quem sabe reconhecesse nele justamente o que falta à organização: um olhar sem poeira acumulada.
Agora, invertamos a situação. O candidato externo pode chegar com a pose de quem veio salvar o lugar. Isso é tentação frequente entre recém-chegados e heróis de ficção. Ou pode reconhecer que existe um legado a preservar, uma história construída por quem já estava ali. Um líder não precisa demolir o passado para provar que o futuro chegou.
Claro que duas perguntas não salvarão MeuBrasilzin nem revelarão, por milagre, o caráter de quem responde. Mas uma pergunta bem-feita às vezes abre uma rachadura na persona. Por ela, talvez, apareça alguém menos ensaiado. Ou pelo menos alguém inteligente o bastante para improvisar sem recorrer ao ataque.
O que me interessa é esse pequeno deslocamento: sair da obrigação de diminuir o outro para demonstrar a própria grandeza. Quem sabe dessa forma o processo de escolha se aproximasse um pouco mais das pessoas que realmente tocam o dia a dia de MeuBrasilzin.
Voltemos de novo ao debate presidencial. No primeiro turno das eleições de 2026, quase um em cada quatro eleitores aptos ficou sem escolher um candidato: não compareceu às urnas, votou em branco ou anulou o voto. É um dado pesado demais para caber na explicação preguiçosa de que o povo não se interessa ou não sabe votar. Pode ser que essa gente esteja cansada de ouvir candidatos que falam muito e se revelam pouco.
Não sei se perguntas melhores no último debate, marcado para sexta-feira que vem, na Globo, farão alguém sair de casa para votar no domingo. Mas talvez bastasse ouvir um candidato dizer, sem ironia, o que confiaria ao adversário.
A urna continuará dividindo os votos. Por alguns minutos, porém, o palanque poderá lembrar que, depois da disputa, o país continuará sendo o mesmo.








