ONDE ANDAS, MEU VELHO?
Hayton Rocha
Leio que Donald Trump pretende abrir arquivos secretos sobre alienígenas e OVNIs e renasce em mim uma esperança daquelas que a gente guarda no bolso como santinho dobrado: descobrir o paradeiro de meu velho amigo Urtigão.
Trump anunciou a façanha na Truth Social, como quem promete revelar o quarto segredo de Fátima. Dias antes, Barack Obama declarara num podcast que “alienígenas são reais”, mas que nunca os viu e que tampouco residem na Área 51. A CIA esclareceu que, no deserto de Nevada, testavam-se apenas aviões espiões, o que, claro, não tranquiliza ninguém.
Se não estão na Área 51, é evidente que podem estar por aqui, sobretudo depois do Carnaval. Talvez na Amazônia, no Cerrado ou plantando feijão-de-corda, maxixe e quiabo no que resta de Mata Atlântica.
E eu tenho um desaparecimento a esclarecer.
Há três anos, depois de semanas na roça — sem wi-fi, sem vizinho com antena caridosa, sem o milagre moderno da senha compartilhada — Urtigão ressurgiu na tela do meu celular como quem volta de retiro espiritual e descobre, chateado, que o mundo não sentiu sua falta.
Escrevi-lhe, em tom fraternal:
“Que alegria receber sinais de vida seus. Espero continuar merecendo ao menos um quarto do carinho que lhe dedico.”
Imaginei que acharia graça. Engano. Urtigão lê qualquer mensagem como agrônomo examina fungo em folha nova: com lupa de desconfiança, procurando praga.
Já dissera admirar em mim concisão, ironia e rapidez nas respostas, virtudes que persegue como quem corre atrás do próprio eco numa casa vazia. Minha frase lhe pareceu longa, longa demais. Suspeita.
Resolveu submetê-la a julgamento numa maquineta baiana em forma de acarajé futurista. Introduz-se o texto na boca eletrônica, piscam luzes, chia uma fritura metafísica, e sai o veredito impresso em tinta à base de dendê, em caligrafia de contador do Império.
“Ô, seu fresco, cadê você?”
Não satisfeito, repetiu o teste.
“Tá vivo, seu esculhambado?”
Terceira rodada, já com tempero regional:
“Ô corno, fi-duma-égua, onde andas?”
Suando frio, talvez ainda mareado de algum porre filosófico, mastigou o aparelho e engoliu. Sem pimenta. Concluiu que a máquina não errava. Errado era ele, literal demais para sobreviver ao idioma da amizade.
Urtigão é maré. Regula-se pela tábua de Massarandupió, praia naturista onde até as certezas tiram a roupa íntima. Some quando a lua mingua; reaparece quando a autoestima enche.
Depois que se aposentou, mudou para a roça convencido de que plantas são mais coerentes que humanos. Sonhava dividir com a musa travesseiros e dúvidas no meio do mato. Conseguiu. Depois descobriu que a vida bucólica é um mosteiro com moscas e que o silêncio demais começa a roer por dentro.
Talvez a infância explique. Uma professora, ao notar suas sardas espalhadas como constelação mal distribuída, decretou diante da turma:
“Parece um ovinho de tico-tico.”
Estava inaugurada a temporada de caça. Vieram outros apelidos cruéis: "Banana Madura", "Cagada de Mosca", "Enferrujado". Aprendeu cedo que há marcas que a gente não apaga. Só aprende a conviver com elas.
Cresceu, virou bancário, fez filho, leu livros, plantou árvores e se aposentou. Parecia ter domesticado os próprios fantasmas. Fantasmas, porém, são bichos que fingem obediência.
Em fevereiro de 2023, recebi sua última mensagem: celular ruim, rede pior, chip trocado, WhatsApp desconfigurado. Falava em trocar o pomar pelo supermercado em Salvador, a solidão por vinhos e farmácia na esquina. Despediu-se heroico, como explorador prestes a enfrentar a selva:
“Vou ali caçar sinal no mato.”
E foi. Desde então, silêncio interestelar.
Por isso aposto nos arquivos americanos. Quem sabe se, entre relatórios sobre discos voadores e experimentos atmosféricos, aparece um anexo amassado:
“Caso Urtigão — humano irascível, visto pela última vez tentando capturar 4G entre abacaxizeiros.”
Se tiver sido abduzido, peço a devolução. Não precisa voltar conciso, rápido ou espirituoso. Basta reaparecer e continuar se comovendo quando, entre uma caipirosca e outra, escuta “Let it be” ou “Something” no bar de praia Lopana, de passagem por Maceió.
Porque toda teoria conspiratória nasce da mesma esperança: a de que quem some esteja apenas atrás de uma antena torta, e não soterrado no próprio silêncio, com o celular descarregado e o orgulho em modo avião.
Se você, meu velho, estiver só procurando sinal, que encontre o mais breve possível. Mesmo que seja para me esculhambar.
Porque amizade também é isso: poder chamar o outro de alienígena “fi-duma-égua” e ainda assim esperar que ele reapareça.






