A PRÓXIMA DANÇA
Hayton Rocha
O apelido é Dinho porque seu pai, lá no Ceará do começo dos anos sessenta, resolveu homenagear o elegante Orlando Peçanha, zagueiro vascaíno campeão do mundo em 1958 que desarmava os atacantes adversários sem sujar o calção.
Dinho migrou para Brasília com sua família. Era desses meninos que chegam cedo demais às coisas ruins e tarde demais às boas. Hoje diriam que tinha altas habilidades. Naquele tempo, diziam que era superdotado. E ser assim significava ser empurrado para um lugar onde ninguém espera por você.
A escola decidiu promovê-lo dois anos. Aos catorze, já estava no terceirão, cercado de rapazes com barba rala, meninas que fumavam escondido, usavam batom, sabiam cruzar as pernas e destruir a autoestima de alguém com um simples “você é tão bonitinho”.
Dinho discutia futebol, literatura, música e política, mas não sabia o que fazer com as mãos quando uma garota passava. Ficava duro, não por valentia, mas por pânico. As meninas de dezessete olhavam para ele como quem olha para o irmão caçula da amiga: com absoluto desinteresse.
Ninguém teve a delicadeza de explicar a ele que talvez fosse melhor socializar com meninas mais próximas da sua faixa etária. Jogaram o menino na pista de dança onde todos já sabiam o dois-pra-lá-dois-pra-cá, enquanto ele ainda tropeçava sozinho.
Rejeitado, Dinho refugiou-se onde podia: nos livros, revistas e sonhos. Lia compulsivamente. De almanaque a bula de remédio, passando por enciclopédia e receita culinária. Lia porque os textos eram mais generosos que as pessoas. Nunca riam dele.
Também desenvolveu uma relação íntima com algumas musas que posavam para revistas masculinas. Uma cantora nortista, aliás, ocupava lugar de honra no altar de seus afetos. Nela tudo era perfeito: a voz, o riso, os peitos, as coxas. Era a idade em que um rapaz se apaixona até por propaganda de sabonete.
Foi quando apareceu em sua vida alguém com peso e temperatura. Cearense como ele, corpo cheio, olhos claros, sorriso fácil e um jeito de andar que chegava antes do resto do corpo. Cozinhava na sua casa e havia qualquer coisa de perigoso no modo como preparava molhos, no jeito de mexer a panela e depois levar o dedo à boca, como quem prova mais do que o sal.
Dinho notou que ela o olhava de uma forma diferente. Não era olhar de professora ou tia. Demorava um segundo a mais. E um segundo, naquela idade, é quase um passaporte.
Ela ria das piadas dele. Passava perto demais. Encostava o braço. E ele, que até então conhecia intimidade apenas em orgias pessoais à base de fotos e sonrisal, vivia em estado de iminente combustão.
Numa tarde em que sua mãe deu uma saidinha, Dinho ouvia na vitrola “Café da Manhã”, de Roberto Carlos. De repente, a moça aparece na sala, cantarolando de olhos cerrados, dançando com uma vassoura como se fosse gente. Girava devagar, levantando a barra da saia o suficiente.
Dinho se aproximou. Sentia o cheiro dela, do alho e da cebola refogada. Ela passou por ele e cochichou que ia tomar banho porque estava suada. Não olhou para trás. Nem precisava. Certos convites são feitos de costas.
Mesmo oito anos mais novo, ele foi atrás. Parece guardar a lembrança daquela tarde como quem guarda um fósforo riscado dentro da gaveta: não ilumina mais nada, mas ainda cheira a fogueira.
Aos quinze anos Dinho começou a trabalhar como office-boy de um banco. Usava farda, ganhava pouco mais de um salário mínimo e andava pela cidade com a arrogância inocente de quem já pode pagar o próprio lanche e comprar discos, livros e revistas sem pedir dinheiro aos pais.
Mais tarde, já adulto, pintou uma namorada de verdade. Daquelas de mão suada, beijo de língua no escurinho do cinema, ciúme bobo e rascunho de poema no bolso. Dinho apaixonou-se com a fome de quem passou muito tempo olhando vitrines.
Como quase toda a sua geração, aprendeu cedo que o amor não era coisa pequena. Bastava uma canção, dessas que misturam Deus, poesia e promessa, para fazer alguém ajoelhar sem perceber e trocar alianças.
Vieram dívidas, dúvidas, filhos e fadiga que ocupam mais espaço que qualquer discussão. Hoje, quando fala disso, Dinho ri. Reconhece que passou a vida inteira chegando cedo demais para umas coisas e tarde demais para outras.
Outro dia confessou que já nem sabe se perdeu o tempo das coisas ou se foi o tempo que perdeu a vontade dele. Ainda assim, não desiste. Persiste no salão.
Porque há quem passe a vida toda aprendendo os passos. E há aquele que, quando finalmente acerta, percebe que a música já foi embora.







