setembro 09, 2026

Sem ronco nem sonho

 

SEM RONCO NEM SONHO

Hayton Rocha

 

Recebo de um amigo esta mensagem: “Sei que você tem muitos temas na fila para escrever, mas não custa lhe provocar com esse sexteto de quase seis séculos de existência!”. 


Na imagem, criada por inteligência artificial, Robert De Niro, Al Pacino, Anthony Hopkins, Jack Nicholson e Harrison Ford aparecem abraçados a Clint Eastwood, como se celebrassem juntos seus 96 anos. A confraternização nunca aconteceu, mas bem que poderia.


 


 

Se juntarmos a esses gigantes os brasileiros Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Nathália Timberg e Tony Tornado — que esta semana soltou seu vozeirão no Rock in Rio, durante uma homenagem a Tim Maia , todos acima dos 95, teremos uma maravilhosa confraria com quase um milênio de histórias para contar.


 


Diante dessa confraria de longevos, penso no que virá. E quanto mais penso, mais desconfio, lamentavelmente, de que o futuro seja como os bilhões de anos anteriores ao nosso nascimento: nada. Absolutamente nada. Um sono profundo, sem ronco nem sonho.



Faço parte de alguns grupos de internet que viraram uma espécie de antessala estatística do cemitério. Não passam dois meses sem surgir a foto de algum membro cercada por emojis de vela, mãos postas e frases piedosas.

“Descanse em paz.”

“Que Deus o receba.”

“Cumpriu sua missão.”

 

Essa última frase sempre me intriga. Desconheço quem tenha recebido da vida um memorando explicando qual era sua missão. A maioria passou décadas tentando controlar o colesterol, a glicose e a lidar com gente complicada sem perder completamente a fé no gênero humano.

 

Mas o ritual se repete. Chega a notícia, forma-se a fila das condolências e aparece um questionamento menos nobre, embora profundamente humano:

“Logo fulano?”

“Por que não beltrano?”

 

Se algum beltrano estiver lendo isto, calma. Não leve para o lado pessoal. A espécie humana não foi desenhada para a sinceridade absoluta. Se fosse, confraternização entre colegas exigiria escolta policial e velório terminaria em pancadaria.

 

Também sempre surge alguém querendo saber a causa mortis, como se aquilo ainda tivesse relevância.

— Infarto fulminante.

— Dormindo, vejam vocês...

 

“Dormindo” é talvez a única hipótese realmente invejável. Nas demais, pergunta-se apenas para confirmar se o azar já estaria escolhendo outro endereço.

 

Aí começam os comentários típicos de um condomínio de especialistas sobre a criatura:

— Mas ela fazia caminhadas!

— Os exames estavam ótimos!

— Parecia tão disposta!

 

Não entendo como tantos desconfiam da ciência enquanto engolem diariamente um coquetel químico capaz de ressuscitar um cavalo asmático. Tirando os mentirosos, desconheço alguém desse time que sobreviva sem alguma bengala farmacêutica para ansiedade, glicose, hipertensão, insônia, próstata, refluxo ou aquela tristeza difusa, inexplicável.

 

Certas mortes talvez tenham menos relação com laudos de laboratório e mais com fadiga existencial. Há gente que vai morrendo em prestações de desgosto, decepcionada com parentes, políticos e a descoberta de que a maturidade consiste apenas em aprender a disfarçar cansaço.

 

Sem falar nas dores. Depois de certa idade, o corpo amanhece disparando alarmes de guerra. Levantar da cama vira uma negociação importante entre joelhos, lombar e a compostura no cargo de sobrevivente.

 

É quando surgem alguns médicos surfando no vai-e-vem das modas científicas. Você entra no consultório descrevendo calafrio, enxaqueca, moleza e sensação de proximidade da morte. O sujeito mal levanta os olhos:

— É virose.

 

Virose, aliás, serve para tudo. Um diagnóstico tão abrangente que me faz suspeitar que alguns doutores o aprendam no primeiro semestre e prolonguem a faculdade apenas para aperfeiçoar a escrita ilegível.

 

Talvez bastasse oferecer água gelada, cafezinho e dizer que vai passar. Porque, querendo ou não, passa mesmo. O amor, a agonia e até aquele amigo conselheiro que jurou que você não chegaria a lugar nenhum fazendo o que fazia.

 

Há uma ideia antiga à qual o tempo vem me fazendo dar razão: toda pessoa morre duas vezes. A primeira, quando recebe sepultura e epitáfio. A segunda, na última vez em que seu nome é pronunciado entre os vivos.


Esta, sim, é definitiva. Pouquíssimos escapam: Jesus Cristo, Maomé, Beethoven, Leonardo da Vinci, Pelé. O restante desaparece aos poucos, como perfume barato em dia de ventania.

 

Mas existe uma certa grandeza nisso. Pais sobrevivem nos gestos dos filhos. Avós permanecem escondidos em fotos, manias e receitas. Uns e outros continuam respirando na memória alheia. Essa seria a forma possível de eternidade.

 

Talvez aqueles velhos atores e atrizes saibam disso. Depois que as câmeras se apagarem, continuarão vivos nos personagens que deixaram conosco. Cada filme ou novela é também um modo de adiar a segunda morte.

 

O bom da velhice? Não sei. Sei apenas que acumulei histórias suficientes para atravessar o resto da vida jogando conversa fora. Posso aumentar passagens, diminuir vergonhas, recriar lembranças e transformar fracassos em literatura, que ainda constitui a vingança mais elegante contra o tempo.

 

Por isso sigo escrevendo, tomando meus remédios como quem administra uma farmácia clandestina dentro do estômago e provocando quem ainda presta atenção no que digo.

 

Até a hora inevitável em que, sem pressa alguma — que fique bem claro! , voltarei a dormir por mais alguns bilhões de anos. Sem ronco nem sonho.



setembro 02, 2026

De toga ou de bermuda?

 

DE TOGA OU DE BERMUDA? 

Hayton Rocha

 

Meu saudoso amigo Carnaúba faleceu no ano passado, privando o mundo de sua mente brilhante, sob todos os aspectos. Jamais aceitava uma notícia sem antes submetê-la ao tribunal de suas desconfianças. Não era advogado, mas recorria de tudo com motivos de sobra.

 




 

Achei que fosse me telefonar assim que soube do juiz mineiro afastado de suas atividades depois de aparecer, durante uma sessão virtual de julgamento, bebendo vinho na boca da garrafa, fumando e vestindo bermuda por baixo do paletó.

 

Carnaúba nem esperaria que eu dissesse “alô”. Iria direto ao ponto:

— Desde quando beber vinho impede alguém de julgar?

 

Eu tentaria explicar que não era apenas a bebida. Havia o cigarro, a bermuda, a garrafa levada à boca e o caráter solene de um julgamento transformado em um alpendre de fim de tarde.

 

Carnaúba não se daria por satisfeito:

— Se ele tivesse bebido antes da sessão, estaria tudo bem? O tribunal dispõe de bafômetro virtual? E se bebesse numa taça de cristal, com o dedo mindinho levantado, seria falta grave ou harmonização gastronômica?

 

Era assim. Carnaúba não procurava respostas. Espetava perguntas na casca da realidade para saber se ela estava madura.

 

O Conselho Nacional de Justiça determina que as sessões virtuais mantenham a liturgia dos atos presenciais. Magistrados devem usar vestimenta adequada, como terno ou toga. A toga, todos sabem, é uma espécie de cortina jurídica: cobre o homem para que enxerguemos apenas a autoridade. O problema começa quando a cortina se abre e aparece uma bermuda ou um par de sandálias.

 

Carnaúba certamente se interessaria:

— A norma diz alguma coisa sobre cueca?

 

Eu faria cara de quem não entendeu, apenas para vê-lo explorar um pouco mais o seu ponto de vista.

— Tô falando sério. Se a câmera mostra o paletó e a gravata, quem garante que, da cintura para baixo, a República não esteja de samba-canção? E o asseio das partes pudendas, como fica? Há corregedoria para sovaco fedido? Fiscal de meia furada? Perícia em roupa íntima?

 

Antes que eu respondesse, ele dispararia outra:

— A Justiça precisa parecer séria ou precisa ser justa?

 

Essa seria mais complicada.

 

O juiz Milton Lívio Lemos Salles foi afastado cautelarmente. Seus processos foram redistribuídos, ele não poderá ingressar no tribunal para fins funcionais nem utilizar veículos oficiais. Continuará, porém, recebendo os vencimentos enquanto durar a apuração. No mês passado, segundo a folha do TJMG, recebeu R$ 83.583,55 líquidos.

 

Carnaúba faria um muxoxo:

— Oitenta e três mil reais por mês para ficar em casa?

— É o que deu nos sites de notícias.

— Bebendo?

— Se quiser.

— Fumando?

— Desde que não prejudique os vizinhos.

— De bermuda?

— Até sem ela…

 

Então concluiria que havíamos encontrado a punição mais cobiçada da história.

 

Em breve, bancários, caixas de supermercado, enfermeiros, professores e metalúrgicos reivindicariam isonomia: o direito de, depois de uma garrafa de vinho, serem afastados, proibidos de trabalhar e condenados a receber salário integral em casa, de pernas pro ar.

 

A disponibilidade remunerada é uma dessas invenções que só o Direito consegue explicar sem rir. Para o cidadão comum, disponibilidade significa estar pronto para trabalhar. No serviço público, dependendo da carreira, pode significar receber para não chegar nem perto do trabalho. É a língua portuguesa julgada à revelia.

 

Nada disso absolve o magistrado. Julgar a vida alheia exige lucidez, decoro e alguma distância da adega ou da geladeira. Quem decide sobre patrimônio, laços de família e liberdade não pode transformar uma sessão numa degustação transmitida pela internet. A Justiça já anda suficientemente cambaleante sem precisar de ajuda do álcool.

 

Mas Carnaúba desconfiaria da indignação seletiva, inclusive por parte da imprensa. Perguntaria se a garrafa nos escandalizou mais do que certas sentenças. Se uma bermuda causa maior dano à dignidade da Justiça do que processos que envelhecem em gavetões. Ou se o cigarro diante da câmera produz mais fumaça do que algumas decisões nebulosas.

 

Pena que Carnaúba já não está neste plano. Se estivesse, eu talvez lhe dissesse que o juiz será julgado, como deve ser. Mas que a Justiça brasileira, com a devida vênia, também deveria aproveitar a sessão para se olhar no espelho.

 

Carnaúba ajeitaria os óculos na ponta do nariz, faria aquela pausa de quem preparava a sentença e arremataria:

— De toga ou nu da cintura pra baixo?

agosto 26, 2026

No cabo da enxada

 

NO CABO DA ENXADA

Hayton Rocha

 

Daqui a pouco, mais de 158 milhões de brasileiros poderão votar para presidente da República, governadores, senadores e deputados. Com o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão nesta semana, a campanha esquentará de vez. É a época em que candidatos descobrem, subitamente, o encanto das feiras livres, dos canteiros de obras e das ferramentas que nunca lhes passaram pelas mãos. O país inteiro transforma-se num imenso palco, onde até a espontaneidade entra em cena sob a batuta de marqueteiros.



 

Para conquistar a atenção do eleitor e gerar a chamada mídia espontânea, políticos de todos os credos fazem de tudo. Bebem licor de jenipapo com tira-gosto de sarapatel requentado, dançam baião sem nunca terem chegado perto de uma sanfona e comem pastel como se jamais houvessem visto um guardanapo de linho. O importante é parecer natural. Ou, pelo menos, convencer a câmera de que aquilo não foi ensaiado quinze vezes antes da gravação.

 

É justamente nesse período que costumam ressurgir vídeos de campanhas passadas, feito zumbis que se levantam das catacumbas digitais para perseguir seus protagonistas. A internet não esquece. Apenas espera.

 

Na última eleição municipal, reapareceu um desses mortos-vivos. Na tentativa de se reeleger prefeito de Salvador, um candidato resolveu visitar as obras do aeroporto. O ato político virou piada instantânea nas ladeiras, nos becos e nos terreiros da capital baiana.

 

No vídeo, o pequeno burgomestre empunhava uma enxada com mãos alvas e delicadas, de unhas impecáveis. Vestindo terno azul-marinho e sapatos engraxados, tentava equilibrar brita e cimento sobre a ferramenta. Parecia confundir enxada com vassoura, o que também não ajudaria muito alguém que provavelmente nunca varreu um alpendre. Segurava-a como quem encontra pela primeira vez um objeto que até então só conhecia de fotografia. Se precisasse capinar, faria sentado, claro.

 

A cena me fez lembrar outra, ocorrida na virada do século, durante a Festa do Cacau, em Camacã, no sul da Bahia. Ali vi um velho cacique da política baiana escapar por pouco de um constrangimento memorável.


Entre as atrações da festa está a Quebra do Cacau, competição em que trabalhadores rurais disputam quem abre mais frutos no menor tempo. É uma reprodução da colheita: o cacau é retirado com podão, amontoado em rumas e aberto a facão para a retirada das amêndoas. Não há espaço para hesitação. A ferramenta e a mão precisam conversar como velhos companheiros.

 

Virar Diamante Negro, Ferrero Rocher ou Sonho de Valsa é apenas questão de tempo, açúcar, leite, fogo e alguma propaganda.

 

Naquele ano, alguém cochichou ao ouvido do cacique, entregou-lhe um facão e um fruto de cacau. A ideia era que partisse simbolicamente o primeiro produzido após o anúncio de avanços no combate à vassoura-de-bruxa, praga terrível que quase devastara as lavouras da região.

 

Por precaução, a casca já estava parcialmente cortada. Em cerimônias políticas, nunca se deve subestimar o potencial de um vexame épico.

 

Nem assim ele se animou. Olhou para o facão, depois para o cacau e, por fim, para as próprias mãos. Fez um rápido cálculo mental. Talvez receasse decepar os dedos, finos e pouco familiarizados com a aspereza do trabalho no campo.

 

Sorriu sem graça, balançou o indicador e desistiu. Eram mãos de quem nunca pegara num barbante, muito menos num facão. Acostumadas apenas ao peso de alianças políticas, pastas, dossiês, e processos, não conheciam enxadas nem podões. Em compensação, sabiam constranger aliados, puxar as orelhas de correligionários e apertar o pescoço de adversários.

 

Não posso garantir, porque nunca presenciei — e não vou começar a mentir justamente em ano de eleição —, mas dizia-se que ele gostava de advertir os discípulos:

— Aqui, quem não é meu amigo é meu inimigo.

 

O tempo passou. O facão virou enxada. Mudaram os cenários, as câmeras e os marqueteiros. As mãos, porém, continuaram parecidas: delicadas demais para o trabalho e experientes o bastante para o poder.

 

Talvez seja por isso que as campanhas eleitorais insistam tanto em colocar ferramentas nas mãos dos candidatos. A enxada, o facão e o martelo funcionam como certificados instantâneos de intimidade com o povo. Pouco importa se o político não sabe por onde começar. Basta sorrir para a câmera que o marqueteiro faz o resto.

 

Porque, em política, pegar no cabo da enxada costuma ser bem mais leve do que o trabalho que vem depois.

agosto 19, 2026

E agora, Glória?

 

E AGORA, GLÓRIA?

Hayton Rocha

 

A morte de Glória Menezes, aos 91 anos, fecha uma cortina que parecia destinada a permanecer aberta. Durante mais de seis décadas, seu rosto iluminou palcos, telas e salas de estar. Não entrava nas casas brasileiras pela porta. Aparecia no meio da sala e tornava-se íntima da família.





 

Ao receber a notícia, pensei imediatamente em como reagirá minha mãe.

 

Há cinco anos, quando Tarcísio Meira morreu de Covid-19, ela me telefonou com a voz de quem segurava o choro pelas pontas:

— Meu filho, você viu?

— O quê, mãe?

— Ele morreu… E agora, o que vai ser de Glória?

 

Não se referia ao ator como quem lamenta a partida de um desconhecido. Falava de alguém que frequentara nossa casa durante décadas, embora nunca tivesse aceitado um café, pedido açúcar ou perguntado pela saúde da família.

 

Na época, Glória também estava internada, mas apresentava sintomas leves. Minha mãe, se pudesse, teria vestido duas máscaras, lambuzado os braços com álcool em gel e ido pessoalmente abraçar a viúva.

 

Ela nunca conseguiu separar inteiramente a ficção da realidade. Para minha mãe, novela não era uma história inventada. Era a vida acontecendo em outro endereço.

 

Lembro-me dela, no bairro da Gruta, em Maceió, diante do último capítulo de Pecado Capital. Carlão, o taxista vivido por Francisco Cuoco, tentava livrar-se de uma mala de dinheiro abandonada em seu carro por assaltantes. Antes que pudesse entregá-la à polícia, foi morto por um bandido.

 

Minha mãe levantou-se do sofá:

— Pega esse cachorro miserável!

 

Não havia policial dentro da televisão capaz de ouvi-la, mas isso nunca a impediu de orientar perseguições, advertir mocinhas e avisar a um personagem que o assassino estava de tocaia na esquina.

 

Ela já andava aborrecida porque Lucinha, vivida por Betty Faria, trocara Carlão pelo milionário Salviano, interpretado por Lima Duarte.

— Essa moça é interesseira. Quer é o dinheiro daquele velho feio!

E decretou:

— Carlão vai acabar se lascando.

Minha mãe não assistia à novela. Prestava consultoria aos personagens.

 

Vinte anos depois, em Pernambuco, conheci um dos acionistas da Usina Pumaty. Enquanto explicava o processo de fabricação do álcool, consultava o relógio com inquietação. Às cinco da tarde, interrompeu a visita:

— Preciso ir. Ainda vou tomar banho, jantar e ver a novela.

 

Descobri que também confundia ficção e realidade. Em Ídolo de Pano, Dennis Carvalho vivera um sujeito capaz de afastar o próprio irmão da herança familiar. Dois anos depois, em Locomotivas, apareceu namorando uma moça e envolvido com outra.

 

O usineiro apontou para a televisão:

— Esse rapaz nunca me enganou. Não vale nada!

Alguém tentou esclarecer:

— Isso é novela.

Ele franziu a testa:

— Sei não. Ninguém apronta aquilo tudo com o irmão e depois aparece enganando as moças se não for cabra safado.

 

A televisão chegou ao Brasil antes que muitos brasileiros alcançassem a escola. Num país de tradição mais oral do que escrita, a novela tornou-se o romance dos que não liam romances, o teatro dos que jamais entrariam num teatro e, algumas vezes, a aula de política que escapava da vigilância dos censores.

 

Carlos Drummond de Andrade, observador atento da vida brasileira, percebeu cedo que aquela caixa instalada no meio da sala não exibia apenas histórias. Exibia o próprio país, com suas contradições, seus vícios e suas virtudes, ainda que Brasília tentasse cobrir o espelho.

 

Em O Bem-Amado, proibiram as palavras “coronel” e “capitão”, julgando que fossem referências militares. Não compreenderam que Dias Gomes falava de uma patente mais antiga: a de quem governa currais eleitorais, manda nos vivos e inaugura cemitérios sem conseguir encontrar um morto sequer.

 

As novelas nos deram vilões que odiamos com sinceridade, mocinhas por quem sofremos sem necessidade e políticos fictícios que pareciam menos inventados do que muitos políticos verdadeiros. Os personagens envelheceram conosco. Alguns morreram diversas vezes e reapareceram em outra história, com outro nome e os mesmos olhos.

 

Glória Menezes fazia parte dessa família sem retrato no álbum. Durante quase seis décadas, ela e Tarcísio representaram para milhões de pessoas a rara possibilidade de um amor sobreviver ao último capítulo.

 

Agora, penso em minha mãe, aos 87 anos, recebendo a notícia da partida de sua “comadre”. Talvez diga que Glória não morreu. Apenas demorou cinco anos para responder à pergunta feita naquele telefonema.

 

E agora, o que vai ser de Glória?

 

Vai ver, foi encontrar Tarcísio. Alguns amores apenas mudam de endereço.

agosto 16, 2026

Me tira o tubo!

 

ME TIRA O TUBO!
Hayton Rocha


Virada a página da última Copa do Mundo, restou a sensação de que o futebol precisa de uma janela aberta. O jogo continua apaixonante, mas a sala está abafada, o ventilador quebrou e alguém ainda acendeu um cigarro.




Ver uma partida hoje exige mais paciência do que paixão. Você grita gol, abraça o desconhecido ao lado, promete abandonar os vícios e, quando se prepara para voltar à condição de civilizado, surge na tela a frase capaz de congelar vulcões: “Checagem do VAR.”

E, se a coisa já andava ruim, piorou com o impedimento semiautomático, engenhoca que espalha câmeras pelo estádio e usa inteligência artificial para identificar o instante do passe, traçar linhas virtuais e entregar ao VAR, em imagens 3D, a posição de atacantes e defensores.

O gol, que antes saía à vista, agora é pago em duas prestações. Na primeira, o torcedor explode. Na segunda, se a tecnologia autorizar, comemora de novo. Entre uma e outra, fica de braços erguidos, como um assaltante surpreendido pela polícia.

Reconheço a nobreza da intenção: fazer justiça sem tirar a graça do esporte. O problema é que, para descobrir se o atacante tinha uma unha adiante do zagueiro, joga água gelada justamente na fonte do calor do futebol: o grito de gol.

Parte da chatice vem da escassez. Gol virou fruta fora da estação. Há partidas em que não aparece nem com reza braba. Depois de noventa minutos, atendimentos, substituições e conferências no monitor, o placar termina zerado.

Ninguém deveria ficar satisfeito com menos de seis gols. Quatro a dois — ou cinco a um, três a três — seria o placar desejável. Um gol a cada quinze minutos, tempo suficiente para o coração se recompor antes de ser novamente posto à prova.

E não se diga que a emoção seria banalizada. O basquete distribui cestas como quem joga xerém aos pintinhos e nem por isso a torcida boceja. O prazer não perde a graça porque acontece mais vezes. Se fosse assim, ninguém repetiria beijo ou sobremesa.

Como todo apaixonado pelo futebol, trago comigo um reformador das regras. Por isso, ouso receitar alguns remédios baratos. Nenhum exige aumentar o campo ou as traves.

A partida poderia ter dois tempos cronometrados de trinta minutos. Parou a bola, parou o relógio. Seriam sessenta minutos de bola circulando, em vez de noventa recheados de cera e falsas agonias.

Por mim, cada equipe teria dez jogadores, incluindo o goleiro. Menos gente, mais espaço. O talento respiraria e os pernas de pau perderiam esconderijos. Quem ultrapassasse a linha central com a bola não poderia retornar ao próprio campo. Futebol foi inventado para andar para a frente. Para trás já caminha a humanidade.

O escanteio seria batido do encontro da linha da grande área com a de fundo. Depois da quinta falta, tiro livre da meia-lua, sem barreira. Talvez os brucutus descobrissem que tornozelo adversário não é bigorna.

Há quem defenda o fim do impedimento. Discordo. Seria intolerável ver um armário de dois metros acampado ao lado do goleiro, esperando um chutão. Acabaria levando cantil, rede e repelente.

Quanto ao VAR, não proponho desligá-lo. A credibilidade do futebol também está em jogo — e as casas de apostas não ajudam. Adotaria o sistema do vôlei: cada treinador teria direito a duas revisões por tempo.

Isso reduziria as interrupções e a mistura de covardia e vaidade que leva certos árbitros ao monitor mesmo quando estão convencidos do que viram. Alguns parecem ter descoberto ali, cercados pelas câmeras e pela marca do patrocinador, uma oportunidade de exposição. Viraram totens de merchandising com apito na boca.

Com menos atletas, mais espaço e maior tempo de bola rolando, o futebol ganharia novas estratégias e sobrevida entre as novas gerações.

Muitas talvez nunca tenham visto, nem no YouTube, o “General”, personagem de Jô Soares no Viva o Gordo. Amigo do presidente João Figueiredo, sofrera um acidente e passara seis anos em coma. Ao despertar, descobriu que a ditadura acabara e José Sarney ocupava a Presidência. Toda vez que a realidade contrariava suas certezas, desesperava-se:
— Me tira o tubo! Me tira o tubo!

Se nada for feito para soprar as brasas da paixão pelo futebol, um dia o atacante ainda marcará um golaço, a torcida conterá a comemoração e o VAR traçará dezessete linhas para descobrir que a ponta de uma espinha no nariz estava impedida.

E talvez já não tenhamos forças nem para xingar. Restará macaquear o velho General:
— Me tira o tubo! Me tira o tubo!

agosto 12, 2026

Jogando conversa fora

 

JOGANDO CONVERSA FORA

Hayton Rocha

 

Artur e Felipe, ambos na casa dos dez anos, tinham saído do mar. Traziam aquele ar satisfeito de quem acabara de resolver assuntos importantes com o oceano. Um deles veio até onde eu conversava com seu pai, na areia, e explicou:

— A gente estava ali, jogando conversa fora, pensando na vida... De repente, uma onda nos derrubou...





 

Ri. Não pela queda. Crianças caem desde que o mundo é mundo. Achei engraçada a frase daquele pequeno filósofo recém-saído do santuário de águas mornas de São Miguel dos Milagres, interrompendo uma profunda reflexão existencial por culpa de uma onda inconveniente.

 

Fui injusto. Afinal, quem sou eu para constranger uma criança que pensava na vida? Hoje elas chegam à adolescência sabendo mais sobre guerras, golpes financeiros e mudanças climáticas do que muitos da minha geração só aprenderam perto dos dezoito anos.

 

Chamam isso de adultização precoce. Não sei. Talvez seja apenas o mundo fazendo das suas cada vez mais cedo. Quando eu tinha a idade deles, pensar na vida preenchia uma parcela muito menor da agenda. Me ocupava com outras coisas.

 

Eu morava em União dos Palmares, na Zona da Mata alagoana, numa época em que ainda não se cogitava negociar a infância para algoritmos e aplicativos. 

 

Brincava de bafo de figurinhas, chimbra (bola de gude), finca, futebol de botão, peladas, peteca e pião. Armava alçapões para papa-capim (cabeça-preta) e extravagante (golinha), pescava carás, jundiás e piabas no Rio Mundaú, caçava calangos, descia ladeiras em carrinhos de rolimã e afanava cajus e mangas de um sítio detrás do cemitério com a habilidade de um profissional altamente especializado.

 

Havia outras atividades paralelas. Atribuía apelidos cruéis aos meus sete irmãos menores, quebrava dentes mastigando rolete de cana e participava de pesquisas avançadas sobre o desespero de galinhas chocas quando os filhotes que quebravam a casca dos ovos eram patos e insistiam em nadar na primeira poça de lama que aparecia.

 

Era uma agenda intensa. Pensar na vida simplesmente não cabia. A infância naquele lugar parecia moenda de usina: trabalhava-se o dia inteiro. Sobrava o bagaço. E olhe lá, quando não ia para a fornalha.

 

Só tinha duas coisas capazes de prejudicar tamanha produtividade. A primeira, os favores domésticos: ir à bodega, à feira ou à padaria. A segunda eram as surras, merecidas ou não. Hoje muita gente trata os castigos da antiga pedagogia doméstica como simples folclore familiar. Eu tento, mas quase nunca consigo.

 

Apanhei bastante. Mais do que a dor física, restou a descoberta precoce de que os adultos nem sempre são o abrigo que imaginamos. Quando o medo e a proteção passam a morar na mesma criança, alguma coisa se desalinha dentro dela.

 

Foi assim que aprendi a esconder sentimentos, inventar versões convenientes dos fatos que testemunhava e manter a boca fechada quando me parecia mais oportuno e menos arriscado. Coisa de adulto.

 

Mas fui feliz a maior parte do tempo, não nego. Tão feliz quanto se pode ser quando se vive ralando os joelhos, com o nariz escorrendo, o dedão do pé estropiado de tanto jogar bola e algumas lombrigas disputando espaço com os hormônios e os sonhos.

 

Primeiros socorros eram simples. Queimadura de urtiga se resolvia com gelo. Verruga se combatia com leite de avelós. E quase toda enfermidade — de junta destroncada a corte de arame farpado — parecia responder a uma camada generosa da pomada Iodex ou a uma pincelada de Merthiolate de duvidosa eficácia bactericida.

 

No fim das tardes, via o sol esfriar, desaparecendo atrás da Serra da Barriga, e tentava imaginar quem teria sido Zumbi dos Palmares. Na minha cabeça, ele poderia ser uma mistura de Hércules, Pelé e algum pistoleiro como Pecos ou Ringo, dos filmes de faroeste das matinês de sábado.

 

Nunca encontrei uma resposta definitiva. 


Com o correr dos anos, passei a desconfiar de que envelhecer não é abandonar a criança que fomos. Significa apenas acumular rugas em torno dela.

 

Lembrei disso ao ouvir aquele menino na praia dizendo que estava pensando na vida. Provavelmente já descobriu algo que levei décadas para entender.

 

Enquanto a gente pensa na vida, o mar nem pede licença. De repente, vem uma onda e nos derruba. Com alguma sorte, nos levantamos, sacudimos a areia e retomamos a conversa.

agosto 05, 2026

Nem me venha com essa!

 

 

NEM ME VENHA COM ESSA!

Hayton Rocha

 

 

Diz um amigo que pede a Deus todo dia para poupá-lo de virar um velho ranzinza como eu. Repete isso sempre que nos encontramos, embora reconheça que circula por aí uma coletânea de frases feitas capazes de provocar em qualquer pessoa dores auditivas, visuais e, dependendo da gravidade, até espirituais.


 

Ilustração: Uilson Morais (Umor)


 

Antes que a comunidade linguística me corte o pescoço ou me condene à fogueira dos estúpidos, peço que considere estas linhas apenas o resmungo de um galo velho metendo o bico onde não é chamado.


Claro, já não perco tempo com “prever o futuro” ou “elo de ligação”. A ciência ainda deve à humanidade um colírio e uma solução otológica contra essas construções. O problema agora é outro. Minha rabugice lateja diante de frases que alguns não se cansam de repetir sem prestar atenção ao que significam.

 

Comecemos pela ilustre afirmação de que “gosto não se discute”. Como não se discute? Se alguém me disser que prefere cebola crua a doce de leite, vou discutir, claro. Se sustentar que surgiram jogadores de futebol mais completos do que Pelé, não vou nem contestar: chamarei um médico para avaliar se estamos diante de um problema de visão ou de um caso clínico mais delicado. Há gostos pessoais e há diagnósticos. Confundir uma coisa com a outra é perigoso.

 

Outra expressão que me faz coçar a sobrancelha é “na minha modesta opinião”. A frase encerra um paradoxo admirável. Quem precisa anunciar a própria modéstia já fracassou no teste antes de fazê-lo. É como alguém se apresentar dizendo que sua maior virtude é a humildade. Se a criatura considera sua opinião tão modesta assim, talvez faça um enorme favor guardando-a exclusivamente para si.

 

Na mesma prateleira ficam “eu, pessoalmente, acho” e “eu, sinceramente, penso”. Você já imaginou se a pessoa resolvesse falar em nome da humanidade inteira? Que alívio saber que a opinião é pessoal! Ou devo entender que, nas demais ocasiões, ela emitia opiniões impessoais e mentirosas?

 

Também desconfio de quem, numa conversa, começa uma resposta dizendo “veja bem”. Quem recorre a esse fôlego reflexivo geralmente não quer que vejamos coisa nenhuma. Está apenas ganhando tempo para embrulhar em papel celofane a sua versão dos fatos.

 

A esposa pergunta ao marido:

— Você vai chegar cedo hoje?

— Veja bem...

Entenda-se: vai ao boteco tomar chope com os amigos.

 

O marido descobre na fatura do cartão a compra de uma bolsa de três mil reais:

— Você teve coragem?

— Veja bem...

Entenda-se: comprou, não aceita devolução e ainda considera a pergunta uma violência psicológica.

 

Tem ainda aquele palavreado estranho dos boletins policiais. Neles, bandido não foge: “empreende fuga”. Ninguém veste blusa ou calça: “traja uma peça de cor...”. E ninguém simplesmente morre: “não resiste e vem a óbito”. Se morreu, é claro, não tinha mesmo como continuar resistindo. A morte, até onde se sabe, raramente admite recurso.

 

No esporte, então, os clichês desafiam até a Matemática. Não é raro um treinador exigir que seus atletas deem 110% em campo. Nunca entendi de onde sairão os 10% restantes. E não me digam que é apenas figura de retórica. Se não há compromisso com a ciência, que peça logo 200%. Pelo menos o exagero ganha alguma ambição.

 

A pior de todas talvez seja “o importante é participar”. Mentira! O importante é ganhar. Quem diz o contrário quase sempre perdeu e tenta transformar o fracasso em filosofia de vida. Nunca vi um campeão olímpico devolver a medalha de ouro porque participar lhe pareceu suficiente. Se você já viu, por favor, me aponte o atleta, que reconsidero o que afirmo.

 

Mas reconheço que ninguém está livre do pecado. Reli alguns textos meus e encontrei excrescências do tipo “para dizer a verdade”, como se precisasse avisar quando não estivesse mentindo. Escrevi “para começo de conversa”, embora jamais tenha iniciado conversa pelo fim. Também usei “eu, se fosse você”, hipótese impossível, pois, se eu fosse você, deixaria de ser eu. Descobri até que já falei em “pequenos detalhes”. Existem grandes detalhes? 

 

Pelo visto, o amigo a quem me refiro no início desta crônica, e que continuará rezando para não envelhecer como eu, tem razão. Entrar na velhice discutindo com frases prontas não parece ocupação muito saudável.

 

Mas, veja bem... Se isso é ser ranzinza, aceito o diagnóstico. Pior seria atravessar a vida repetindo lugares-comuns sem perceber que alguns já nascem precisando ser enterrados. De preferência depois de virem a óbito.

julho 29, 2026

No grid de largada

 

NO GRID DE LARGADA 

Hayton Rocha


Até bem pouco tempo, vocês corriam em pista segura e sinalizada. A escola ditava o ritmo dos dias, os pais ajudavam a escolher os caminhos e a vida parecia uma estrada protegida por guardrails dos dois lados. De repente, os dezoito anos chegaram trazendo na mochila um mapa incompleto, uma bússola de funcionamento duvidoso e a notícia de que agora a escolha do rumo lhes pertence.




Essa fase só é bonita nas selfies. Vista de dentro, lembra aqueles segundos que antecedem a largada de uma prova de Fórmula 1. O coração acelera mais que o motor, ninguém sabe o que encontrará depois da primeira curva e a parte mais barulhenta nem vem dos carros. Vem dos especialistas na vida alheia. Há sempre uma multidão disposta a explicar qual profissão seguir, onde investir o talento e como atravessar uma pista em que ela própria nunca correu.


Como já estive nesse grid, deixem que este velho avô, hoje sem capacete e com o motor em marcha mais lenta, espalhe algumas placas pelo caminho. Não porque seja sábio, longe disso. Apenas porque já errou curvas suficientes para reconhecer algumas delas à distância. E porque a experiência, embora não evite capotamentos e derrapagens, ensina onde o asfalto fica mais escorregadio.


A primeira descoberta costuma decepcionar os vendedores de fórmulas mágicas: dinheiro é importante, mas raramente aceita ocupar o lugar de propósito. Evita muitos vexames, paga contas e reduz angústias. Ainda assim, parece preferir a companhia de quem se apaixona pelo próprio ofício. Na vida encontrei mais felicidade entre os apaixonados pelo que faziam do que entre os obcecados pelo que ganhavam. O entusiasmo, curiosamente, abre portas que a simples ambição jamais encontra.


Também aprendi que tudo nasce pelo menos duas vezes. Primeiro na imaginação de alguém. Depois no mundo das coisas. Antes de existir um automóvel, um avião ou um navio, alguém suportou ouvir que aquilo era impossível. Antes de existir uma empresa, um livro ou uma ponte, existiu uma ideia teimosa recusando-se a morrer. Quase toda realização começou como uma aposta que parecia grande demais para quem observava de fora.


Outra surpresa: ninguém cruza a pista sozinho. Os heróis das fotografias costumam esconder uma multidão fora do enquadramento. Pais, professores, parceiros de jornada. Há sempre uma equipe nos boxes, calculando riscos, trocando peças e pneus e torcendo para que o carro complete a corrida. Às vezes, basta uma palavra dita na hora certa para evitar que alguém abandone a prova.


Por isso nunca compreendi o culto exagerado ao sucesso individual. Quase tudo o que realmente importa é construído com outras pessoas. Até a felicidade depende mais dos vínculos que acumulamos do que dos troféus que exibimos. Os aplausos passam. Quem caminha ao nosso lado permanece.


A vida também não demonstra grande respeito pelos nossos planos. Ela gosta de nos mandar de volta aos boxes. Desmonta certezas, muda rotas e nos obriga a recomeçar. Com o tempo percebemos que a pista ensina mais nas curvas do que nas retas. E que alguns desvios aparentemente injustos acabam nos levando a paisagens que jamais conheceríamos de outra forma.


Nunca ouvi uma história memorável sobre alguém que passou a existência inteira evitando riscos. Conheço muitas sobre acidentes de percurso, derrotas, fracassos e recomeços. Aliás, são essas que merecem ser contadas.


Outra coisa que o correr dos anos me ensinou: o mundo produz em abundância especialistas em feitos imaginários. Conheci gênios das segundas-feiras, empresários bons de garganta e influenciadores da coragem alheia. Enquanto eles discursavam, alguém trabalhava. Enquanto explicavam o sucesso, alguém o construía.


Há quem tenha pressa de chegar, mas as pessoas que mais admirei quase nunca pareciam apressadas. Apenas apareciam todos os dias e continuavam fazendo o que precisava ser feito. Descobri que a disciplina vence corridas que o talento sozinho não consegue terminar.


Quanto ao resto, diria que faz bem manter algum carinho pelas próprias raízes. Uma árvore não cresce porque abandona o chão. Cresce porque continua ligada a ele. Saber de onde viemos pode ajudar a não nos perdermos quando o caminho fica nebuloso.


E não tenham medo das escolhas. Nem das mudanças. Nem dos circuitos desconhecidos. Mesmo quando tudo parece caótico, talvez exista uma ordem invisível acertando o percurso fora do nosso campo de visão. Uns a chamam de Deus. Outros lhe dão nomes diferentes.


Tendo o universo tantas possibilidades, tantos países, tantas cidades e tantas famílias, vocês foram colocados exatamente aqui, como meus netos. Não sei explicar a razão. Ninguém sabe. Sei apenas que, de todos os títulos que a vida poderia ter me concedido, nenhum me envaidece mais do que ser avô de vocês.


E algumas vitórias dispensam troféus.

julho 22, 2026

A água e o tempo

 

A ÁGUA E O TEMPO

Hayton Rocha


Sexta-feira passada, meu velho e querido amigo Biramar me perguntou, com palavras mais elegantes, se não havia uma crônica cochilando dentro daquela fotografia de quase duas décadas atrás que voltou a circular pelas redes sociais.




Na imagem, um jovem Lionel Messi dá banho em Lamine Yamal, então com poucos meses de vida. Não foi coisa de profeta, montagem de computador nem milagre produzido por inteligência artificial. A cena nasceu de uma campanha beneficente realizada pelo Unicef em parceria com o Barcelona. Messi foi sorteado entre os jogadores do clube. Yamal, entre as crianças participantes. O acaso, que escreve melhor do que qualquer um de nós, colocou os dois diante da mesma banheira.


Biramar acreditou que eu pudesse retirar alguma novidade daquela água antiga. Confesso que fiquei tentado. Mas já haviam espremido a fotografia até a última gota. Falaram em bênção, coincidência, destino e passagem de bastão. Só faltou alguém garantir que Messi, enquanto ensaboava o menino, percebera em seu pezinho esquerdo os sinais de um futuro craque.


Resolvi esperar a final da Copa do Mundo. No domingo, os dois estariam em lados opostos: Messi pela Argentina, Yamal pela Espanha. Talvez os deuses do futebol, sempre dispostos a corrigir os cronistas, acrescentassem alguma coisa à história.


Acrescentaram. Ao contrário do esperado, nenhum dos dois fez uma grande partida. Messi viveu sua atuação mais apagada no torneio. Não finalizou no alvo, não deu um passe decisivo a um companheiro e caminhou boa parte do jogo cercado por espanhóis que acompanhavam seus passos como perdigueiros bem treinados. Yamal também esteve abaixo de seus melhores dias. Correu, marcou, tentou, mas encontrou pela frente dois ou três adversários que lhe fecharam portas, janelas e, por precaução, até o basculante.


A Espanha venceu por 1 a 0 na prorrogação. Depois do apito final, enquanto os campeões corriam de um lado para outro, Yamal procurou Messi. Encontrou-o sentado no gramado, derrotado e sozinho naquela solidão que às vezes acontece diante de oitenta mil espectadores. O argentino se levantou e os dois se abraçaram.


Então a antiga imagem reapareceu. Ali estavam novamente o homem e o menino. Só que agora a água escorria dos olhos de Messi. A criança que ele banhara por acaso acabava de ajudá-lo a lavar a alma após uma derrota. O tempo, espécie de fotógrafo sem coração, invertera as posições.


Disseram que era uma passagem de bastão. Pode ser. Mas o futebol não é corrida de revezamento, e gênios como Messi não entregam o bastão a ninguém. Deixam-no caído no gramado, à espera de que algum menino tenha coragem de apanhá-lo.


Aos 39 anos, em sua sexta Copa, Messi talvez chorasse pelo provável adeus à seleção, pela lembrança da final perdida em 2014 no Brasil ou porque certas medalhas de prata pesam mais do que âncoras. Os torcedores o aplaudiram e cantaram seu nome. Algumas despedidas doem ainda mais quando vêm acompanhadas de um amor intenso.


Ou talvez chorasse por se lembrar do próprio começo. Aos dez anos, Messi foi diagnosticado com deficiência do hormônio do crescimento. O tratamento era caro demais para a família e para o Newell’s Old Boys. O Barcelona enxergou no pequeno argentino aquilo que os olhos comuns ainda não conseguiam ver, assumiu as despesas e o levou para a Espanha. 


Mais tarde, Ronaldinho Gaúcho o acolheu no time principal, como quem protege uma chama pequena antes que ela aprenda a iluminar estádios.


Messi nasceu argentino, cresceu futebolisticamente espanhol e foi amparado por um brasileiro. Yamal nasceu na Espanha, filho de pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial. Talvez o abraço entre os dois conte uma história muito maior do que aquela final.


Fronteiras são invenções humanas. Funcionam razoavelmente bem para desenhar mapas, carimbar passaportes e organizar Copas do Mundo. Quando servem para barrar pessoas, separar sangues e medir a dignidade de alguém pelo lugar onde nasceu, tornam-se cercas erguidas contra os ventos que varrem a História.


O futebol sabe disso. As seleções da Espanha, da França e da Inglaterra mostram em campo o que certos intolerantes se recusam a enxergar fora dele: algumas das mais belas realizações humanas nasceram da mistura. Quando povos, cores, sotaques e histórias diferentes vestem a mesma camisa, o preconceito pode até permanecer nas arquibancadas, mas perde de goleada dentro de campo.


Biramar tinha razão. Havia uma crônica cochilando naquela fotografia. Só não estava dentro da banheira. Estava esperando a água virar lágrima.

Sem ronco nem sonho

  SEM RONCO NEM SONHO Hayton Rocha   Recebo de um amigo esta mensagem: “Sei que você tem muitos temas na fila para escrever, mas não custa l...