CERTOS MISTÉRIOS
Hayton Rocha
Meu amigo Marcelo Torres, escritor e jornalista baiano radicado em Brasília, outro dia me fez uma instigante pergunta em forma de crônica: quem seria a tigresa de unhas negras e íris cor de mel cantada por Caetano Veloso? Aquela musa de pele de ouro marrom, que gostava de política em 1966 e, doze anos depois, dançava com as Frenéticas no Dancin’ Days? Quem era a deusa, atriz do musical Hair, que com alguns homens fora feliz e com outros apenas mulher?
Quando interrogado por fãs e jornalistas, Caetano sorria, desconversava e deixava a pergunta no ar. Sabia que certos mistérios, depois de explicados, ficam menores que a curiosidade. Musa identificada perde metade do encanto e ganha certidão de batismo, passaporte e endereço fixo.
Como o país estava havia quase vinte anos sem escolher diretamente o presidente da República, o povo aproveitou o enigma para improvisar uma eleição. Brasileiro não suporta urna vazia. Se não pode eleger presidente, escolhe escola de samba, melhor jogador, pior juiz, par romântico de novela ou musa de compositor.
De um lado, Zezé Motta: unhas negras, pele de ouro marrom e outros traços espalhados pela canção. Do outro, Sônia Braga: atriz de Hair, protagonista de Espelho Mágico e dona de credenciais para reivindicar o rugido. O Brasil, sempre disposto a transformar qualquer assunto em Fla-Vasco, dividiu-se entre as duas.
Felizmente, ainda não havia redes sociais. Sem elas, o ódio precisava sair de casa, pegar ônibus e procurar o adversário, o que dava um trabalho danado.
Caetano explicou depois que a tigresa não era uma mulher específica, mas uma personagem feita de muitas. Tinha um pedaço de Sônia Braga, talvez mais de Zezé Motta, além de traços de outras mulheres que conhecera ou vira passar pela noite. Uma colcha de retalhos com unhas negras, olhos de mel e compulsão por arranhar.
Como a explicação não satisfez a curiosidade pública, Caetano recorreu a Gustave Flaubert. No século XIX, acusado de atentar contra a moral e os bons costumes com Madame Bovary, o escritor francês teria encerrado a discussão sobre a protagonista com a célebre frase:
— Madame Bovary sou eu.
Mais de cento e vinte anos depois, Caetano resolveu dar uma de Flaubert:
— A tigresa sou eu.
Deu certo. Ninguém mais lhe fez a pergunta. Talvez por reverência à criação artística ou por receio de que ele aparecesse na entrevista seguinte de unhas negras e pele de ouro marrom.
Depois de ler a bela crônica de Marcelo, lembrei de Djavan, volta e meia intimado a revelar quem inspirou suas canções de amor. Já lhe atribuíram paixões por Glória Pires e Patrícia Pillar. Esta última, segundo uma frase atribuída a Luis Fernando Verissimo, seria uma das raras provas da existência de Deus, ao lado do pudim de laranja.
O suposto romance com Glória nasceu em 1983, durante o especial Djavan — Um Facho de Luz, na TV Globo. Ao som de “Pétala” (Ó, meu amor, viver é todo sacrifício feito em seu nome...), os dois protagonizaram uma cena tão magnética que o público enxergou namoro onde havia amizade, arte e encantamento. Anos depois, o cantor esclareceu que nunca foram amantes. A imaginação dos espectadores, porém, já havia composto sua própria canção.
Com Patrícia Pillar, não sei. Dizem que o romance começou na mesma época, durante as gravações do filme Para Viver um Grande Amor, estrelado por ambos.
Djavan despista e jura saber pouco sobre o amor. Diz-se apenas um transeunte: observa encontros, recolhe desencontros e transforma os cacos em arte. Pode ser. Quem conhece demais o amor escreve tratados; quem não entende nada cria canções e poemas.
Acredito nele. Compositor é uma espécie de contrabandista: atravessa a fronteira carregando sentimentos que nem sempre lhe pertencem e, quando perguntam de onde vieram, responde que não tem nada a declarar. Pode ter roubado um olhar na rua, uma despedida na esquina ou uma dor contada por uma amiga. Depois mistura tudo, acrescenta três acordes e devolve ao mundo o que o mundo lhe emprestou.
Mas essa teoria do compositor-transeunte encontrou seu limite quando ouvi Herbert Vianna cantar, em “Uns Dias”, um verso revelador: “Eu quis te matar”. A canção, associada às dores deixadas pelo fim de seu romance com Paula Toller, fala de abandono, ausência e ciúme, sentimentos que, em mãos menos talentosas, costumam terminar em boletim de ocorrência.
Na época, se eu fosse amigo de Herbert, teria sugerido que seguisse Caetano e recorresse a Flaubert, assumindo:
— O assassino sou eu.
Mas seria exagero. Paula segue por aí vivíssima, cantando e encantando. Herbert sobreviveu ao abandono e à dor, e compôs outras grandes canções. Bom pra todos.
Desde que o mundo é mundo há amores assassinados. Os que sobrevivem viram canções, tigres, tigresas. Ou pudins de laranja.









