CHEIRO DE CANGOTE
Hayton Rocha
Pouca coisa neste mundo é mais nordestina do que uma sanfona gemendo numa noite de junho. Talvez apenas o cheiro de canjica e pamonha misturado à fumaça da fogueira e ao suor de tanta gente dançando apertado, arrastando os pés. Porque forró nunca foi apenas música. É um jeito de falar consigo mesmo de esperança e resistência.
Já ouvi muito doutor explicar, cheio de convicção acadêmica, que a palavra “forró” teria vindo do inglês for all. Segundo a lenda, alguns engenheiros britânicos promoviam bailes abertos ao povo durante a construção das ferrovias. Outros garantem que nasceu nas festas dos soldados americanos em Natal, na Segunda Guerra.
Nada disso! Esses especialistas possuem a mania de imaginar que qualquer coisa bonita precisa ter vindo de fora. Se dependesse de certas teorias, até a cachaça teria sido inventada por um escocês deprimido.
O fato é que o “forró” já existia muito antes dessas histórias derivadas do "complexo de vira-latas". Dormia há séculos nos dicionários como parente de “forrobodó”, palavra usada para definir dança barulhenta e, dependendo da quantidade de aguardente, confusão depois da meia-noite. Mas o povo nunca precisou de etimologia para dançar, porque o forró mora noutro lugar.
Mora no sujeito que passa a noite inteira ensaiando coragem para chamar pro salão a moça mais bonita da festa. Mora na moça olhando para o lado enquanto espera exatamente aquilo. Mora no arrastar dos pés para não levantar poeira no terreiro. Mora na mão suada procurando outra mão durante um xote mais demorado. Mora nesse saudável costume nordestino de transformar tristeza em companhia.
Por isso o baião, o xaxado e o xote falam tanto de chuva que demora, de seca, de amor que vai embora, de saudade que insiste em ficar. Nordestino aprende cedo que alegria e sofrimento dormem na mesma rede.
Ainda me lembro de uma manhã chuvosa no Sertão paraibano em fins de 1967. Meu pai atendia alguns clientes quando um homem de camisa estampada, calça de linho e alpercatas aproximou-se carregando uma mala de couro já cansada nas bordas.
— Meu patrão, o senhor me autoriza oferecer este livro ao pessoal?
O vozeirão denunciava quem era. Luiz Gonzaga. Ou melhor: um Gonzagão já distante dos tempos gloriosos, atravessando cidades do interior, apresentando-se em rádios e cinemas pequenos enquanto o Brasil começava a achar moderno esquecer suas próprias raízes. Na mala, trazia exemplares de O Sanfoneiro do Riacho da Brígida, escrito por Sinval Sá.
Eu tinha de nove para dez anos. Deve ter sido o primeiro livro grosso, sem figuras, que li até o fim. Li ouvindo dentro da cabeça os aboios, os chiados do mato seco, o ranger dos arreios. Via o sertão como quem inventa cinema para si mesmo. E ouvia “Assum Preto” no mesmo linguajar dos meus avós maternos: “Tudo em vorta é só beleza… céu de abril e a mata em flô…”
Meu pai, surpreso com meu entusiasmo, imaginou ter descoberto um futuro forrozeiro dentro de casa. Comprou uma sanfona de oitenta baixos e contratou uma professora para me ensinar prática e teoria musical. Mas não deu certo.
A sanfona exige duas virtudes que nunca tive em abundância: coordenação e disciplina. Depois de meses de aula, eu ainda procurava os baixos como quem tenta abrir uma porta no escuro. Enquanto outros meninos e meninas arrancavam acordes do instrumento, eu produzia algo parecido com o sofrimento de um bode sendo alfabetizado à força.
Bem mais tarde, já nos anos noventa, ouvi um CD de outro paraibano nascido pouco tempo antes de mim. Soube que se tratava de um ex-funcionário do Banco do Brasil, que tocava desde menino uma pequena sanfona de vinte e quatro baixos em festas do Cariri. Chamava-se Flávio José.
Ao contrário do preguiçoso aqui, ele juntou talento e obstinação. Passou em concurso público, fez carreira. Depois largou o banco quando percebeu que a folha de ponto começava a sufocar a sanfona. Tem gente que nasce pra bater carimbo e outra pra acordar saudade dentro dos outros.
Hoje, quando Flávio José canta, parece que a voz dele vem de muito longe, do oco do mundo. Alguma coisa de Gonzagão e Dominguinhos continua respirando ali. E quando sua sanfona geme, até o coração se ajoelha. E logo alguém encosta em alguém e começa a dançar.
Essa, sim, é a verdadeira pátria do forró. A dos corpos que aprendem que a vida fica mais leve e solta quando dançada em par, com cheiro de cangote.







