quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Não ia dar certo, entende?

Na live “Pelé, 80 anos” apresentada outro dia pelo site UOL Esporte em homenagem ao aniversário do Rei do Futebol, o jornalista Cláudio Arreguy contou uma história deliciosa de como o mundo esportivo quase foi vítima do acaso e engrossaria o caldo das coisas que poderiam ter sido e não foram. 

 

Dizia ele que Dr. Prata, médico e pai do escritor Mário Prata, sugeriu a Dondinho, o pai de Pelé, que convencesse o filho a prestar concurso para o Banco do Brasil. “Futebol não dá futuro a ninguém! Bota o rapaz no Banco do Brasil que lá ele tem futuro garantido”. 

 


Apesar de a sugestão partir do único e respeitável médico da Bauru na metade da década de 1950, prevaleceu o saber popular: “Se conselho fosse bom...”. Note-se que, naquele tempo, não se imaginava que mais de meio século depois haveria “médico” aconselhando cloroquina para combater uma gripezinha sazonal. 

Posso até não discutir o estrago que o conselho do Dr. Prata a Dondinho, se acatado, causaria ao futebol mundial, mas me atrevo a imaginar o que teria acontecido ao cidadão Edson Arantes do Nascimento se tivesse obedecido a eventual orientação paterna. 


Com a bola que ele andava jogando, logo seria transferido para uma grande metrópole, passando a integrar o time de futebol de salão da AABB. E nos primeiros anos de banco não seria tão difícil obter uma licença especial para disputar jogos pela extinta CBD. Quem sabe até um publicitário condicionaria a liberação do atleta à exposição da marca da empresa na camisa canarinho, como ocorreria mais tarde envolvendo a CBV (vôlei), a partir das Olimpíadas 92, em Barcelona.  


Edson, porém, sabendo que a ação cruel do tempo sobre seus músculos e ossos uma hora decretaria o fim da carreira futebolística, cuidaria de preservar suas relações internas, admitindo até que alguns chefes dessem pitacos sobre sua conduta extra-banco. A empresa sempre teve seus sabichões das segundas-feiras que transitavam de teorias de Einstein sobre a interação entre espaço, tempo e gravidade, aos estudos sobre os múltiplos orgasmos de uma abelha-rainha.  

 

Por azar ou grande atuação de goleiros que jogavam contra a seleção brasileira, Edson deixaria de marcar alguns gols que certamente seriam incluídos entre os mais bonitos de sua jornada. Gols que não aconteceram, mas ficaram para sempre na memória dos amantes do esporte. 

Aos 29 anos e no auge de sua forma física, o funcionário do BB cedido à CBD viria a ser o grande protagonista brasileiro na Copa 1970, um autêntico “Nélson Mandela” a liderar a seleção na conquista de seu terceiro Mundial, que garantiu a posse em definitivo da taça Jules Rimet, roubada e derretida 13 anos depois, sinal claro de como o país cuida de sua história.

Na época, três goleiros passariam a ser conhecidos no mundo inteiro justamente por se envolverem – dois deles como coadjuvantes e o outro dividindo o papel de protagonista – em lances espetaculares de Edson, reconhecido mais tarde como o “Atleta do Século”.

Viktor, da antiga Tcheco-Eslováquia, quase levou um gol em um chute de Edson do campo de defesa brasileiro. O goleiro bem que tentou, mas não conseguiu fazer a defesa, e a bola passaria a poucos centímetros do ângulo de sua trave esquerda. Na manhã seguinte, imagino, um chefe de serviço qualquer ligaria para Edson: “Negão, vê se capricha na próxima e melhora o rendimento, tá legal?”

Mazurkiewicz, do Uruguai, tomou humilhante "drible da vaca" – também conhecido como “meia-lua”, “arrodeio” – na entrada da grande área. Mesmo desequilibrado, Edson ainda chutou cruzado, rente ao pé da trave direita, iludindo inclusive o zagueiro que tentava fazer a cobertura. Após a partida, creio, um gerente qualquer ligaria: “Você não tinha nada que enfeitar! Poderia ter feito o gol de fora da área, cobrindo o goleiro com uma cavadinha, sem frescura!”

Banks, da Inglaterra, por sua vez, defendeu uma cabeçada quase perfeita, interceptando em pleno ar uma bola que quicou antes, após um salto espetacular de Edson entre os zagueirões branquelos. Certamente um diretor qualquer do banco não perderia a oportunidade de cutucar o funcionário cedido: “Vacilou. Se tivesse cabeceado no contrapé do goleiro, no canto esquerdo, faria o gol...”

 

Logo depois Edson retomaria sua carreira bancária pressionado de tudo quanto era jeito – normas e rotinas de serviço desconhecidas, metas de vendas de produtos, avaliação de desempenho, colegas invejosos de suas tarefas extra-banco etc. Acabaria mais desorientado do que o goleiro italiano Albertosi, vítima de seu último gol em Copas do Mundo, na goleada de 4 a 1. 

De repente, Edson já não sorriria largo, leve, para os clientes. Nem veria graça num trabalho cheio de manuais de procedimentos. Teria medo de demonstrar insegurança ao prestar esclarecimentos e, quem sabe, suscitar dúvida em seu chefe imediato quanto à aptidão para a carreira. O que diriam Dondinho e Celeste se o filhão perdesse o emprego com futuro garantido de que falava o Dr. Prata?

 

Mas daria tudo certo. Se bem que Edson, que nunca vira motivos para denunciar os excessos da ditadura militar ou a existência de racismo no país, logo perceberia que metade da população brasileira é parda, mas isso nunca se refletiu nos quadros da empresa, circunstância que piora quando se fala da ocupação dos chamados cargos de confiança.

 

Hoje, oitentão, aposentado, Edson talvez refletisse sobre algumas questões para as quais não encontrou resposta no emprego com futuro garantido: por que nunca viu um presidente negro em tantos anos de carreira na empresa? E vice-presidente negro, por que só um em mais de dois séculos de história? 


Quem sabe até se perguntasse: e se ele, Edson, tivesse nascido em Dois Riachos, Sertão alagoano, fosse mulher, mestiça de caboclo com indígena, e se chamasse Marta, a história teria sido diferente? "Não ia dar certo, entende?", talvez dissesse.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Almas virtuais

Toda pessoa morre duas vezes. A primeira quando é sepultada (ou cremada) e a segunda quando seu nome é mencionado pela última vez. Poucas ficam na memória por séculos, como Cristo, da Vinci, Joana d’Arc, Beethoven, Newton, Darwin ou Madre Teresa de Calcutá. A maioria não resiste nem mesmo na lembrança de seus descendentes. Minto se disser que recordo o nome completo de minhas bisavós.


Na
 série de ficção científica Black Mirror, lançada há 10 anos, uma viúva faz contato com a versão virtual de seu falecido marido através de um serviço revolucionário. A aproximação começa com mensagens de texto, já que o sistema fora alimentado por uma base de dados (chats, e-mails, imagens, redes sociais etc.) sobre o comportamento do casal em suas interações enquanto ele ainda era vivo.

A partir de áudios e vídeos, o serviço consegue reproduzir vozes e a permitir entre eles o contato por celular (o "espelho negro"). Mais que isso, cria um andróide à semelhança do falecido que é capaz de interagir com a viúva em quase todos os sentidos, se é que me faço entender. 

Confesso que ultimamente ando tendo problemas em separar realidade de ficção, mas, no começo deste ano, me disseram que uma inspirada nordestina chamada Jurema, criada à base de tareco, macaxeira e mariola, hoje neuropsicóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), resolveu oferecer à humanidade um serviço bem parecido com o da série Black Mirror.  

Caboclinha de fibra, Jurema teria procurado um colega especialista em inteligência artificial da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, para discutirem a viabilidade de seu projetoDepois de uma boa troca de argumentos, ela passou a desenvolver uma startup no Vale do Silício, no Norte da Califórnia. 

O objetivo é mapear a personalidade de uma pessoa falecida e transferir os achados para um computador, por meio de um software que simula as ações humanas repetidas de forma padronizada. O sistema deverá levar cerca de seis meses para levantar o histórico de alguém – informações do dia a dia, momentos marcantes, vacilos, memórias, manias e saberes –, da mais remota infância até o último suspiro. 

Da análise desses dados, a ferramenta vai conseguir o que se busca: o contato póstumo da melhor qualidade. Para Jurema, o resultado mesmo só virá daqui a quatro ou cinco anos, porque será preciso recriar a voz, a imagem e o jeitão de fazer escolhas da pessoa falecida nos seus mais sórdidos e  inconfessáveis detalhes. 

Enquanto trabalha a startup para chegar nesse estágio, a ilustre brasileirinha acredita que o primeiro protótipo, com lançamento a um grupo restrito de indivíduos previsto para o ano que vem, será capaz de gerar livros e filmes biográficos de 100 usuários que estão testando a novidade. 

Se tudo transcorrer dentro do esperado, a partir daí qualquer ser humano – não só ricos e poderosos como Steve Jobs, Angela Merkel, Oprah Winfrey ou Bill Gates – poderá legar uma biografia confiável, sem a interferência do dedo encardido do próprio ou de seus familiares. 

Isso vai permitir escalar o conhecimento de pessoas das mais diferentes áreas e realidades, desde, por exemplo, uma PhD vinculada à Harvard Medical School a uma professora de ensino fundamental no interior alagoano, que nunca se tornou famosa, mas que tem a contribuir com suas percepções e narrativas para melhoria do mundo.

É óbvio que nossa heroína tupiniquim sabe que grandes invenções, daquelas capazes de transformar a vida humana sobre a Terra, podem trazer fama e grana para inventores e algum futuro dentro de sua área de atuação. Ocorre que nem sempre o mundo muda para melhor. As alterações climáticas e as desigualdades sociais são evidências disso.   

Se hoje o termo “Nobel” é ligado ao prêmio que reconhece indiscutíveis avanços para os seres humanos, sua origem veio do sentimento de culpa que tomou conta de Alfred Nobel, depois que ficou rico por ter inventado a dinamite, em 1867. Tanto que, chamado de “mercador da guerra” por enriquecer com os conflitos entre homens e nações, deixou boa parte de seus bens para criar o instituto e o prêmio com seu nome.

Meu temor é que o genial invento da caboclinha Jurema dê sobrevida a algumas criaturas nefastas que rastejam por aí – para as quais, sem dúvida, morrer uma única vez é mais que suficiente – e isso impeça meus netos, enfim, de desfrutarem do país do futuro que me prometeram no tempo em que eu ainda morria de medo de almas na hora de dormir.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Memórias de meu cárcere

Como não beber dessa bebida amarga? Parece fácil acordar às quatro e meia da madrugada e caminhar solitário no silêncio de meus barulhos, por uma hora, a tropeçar aqui e ali nas quinas que se metem no meu caminho entre a cozinha e a varanda onde o vento e os primeiros sinais de luz juram que a agonia vai passar. 


Parece simples trocar o noticiário da hora pelas canções de ontem, a engolir minha dose de alienação sobre o horror instalado no desmantelo da hora. Prefiro ouvir Simone cantar Aldir, a dizer que posso pegar aquele feijão preto, pôr meia dúzia de latas pra gelar e mudar a roupa de cama que tudo volta já.

Parece fácil preparar todo dia a própria comida sem despencar na rotina de sal, gordura e limão ou vinagre, no forno ou no fogão, depois de limpa a última ruga da folha de alface como se ali cochilasse o monstro insaciável que pode acabar com tudo em duas ou três semanas.


Faz de conta que é natural ver Magdala resignada, sem botar os pés na calçada há sete meses – nem mesmo para afogar nossos netos de abraços e beijos salgados de lágrimas –, a compartilhar o mesmo trajeto que fiz minutos antes para depois, na varanda, longe das franjas de espuma que escorrem na praia, pegar uma cor ou fazer um cabelo bonito pra eu notar. 

 
Ou vê-la disposta a dar uma geral, fazer um bom defumador, encher a casa de flor para, de tardezinha, os olhos boiarem diante da cena do filme que assistimos, ainda que a tecla pause nos conceda a trégua de poder ir ao banheiro lavar o rosto ou à cozinha em busca de uma fruta qualquer. 

 

Parece simples deixar a escuridão da caverna uma vez por semana, em liberdade provisória por meia hora, apenas para manter vivo o motor do carro, enquanto uns, de máscaras ou não, passeiam pelas ruas fingindo não sentir medo de ver emergir o monstro que engoliu mais de 150 mil irmãos.

 

Parece fácil ver tantas crianças fora da sala de aula, cujos pais, prisioneiros de suas próprias incertezas, não sabem como, sem os dilemas do convívio na escola, lhes ensinar os deveres de casa em matérias básicas como colaboração, generosidade, compaixão, resiliência e solidariedade. 

 

Ou ainda  em meio a tanta mentira, tanta força bruta nas redes antissociais! – deixar de ir à padaria, ao cinema, ao bar, ao supermercado ou ao restaurante, certo de que local onde se aglomeram incautos é praticamente impossível não haver um infectado sequer, ainda que sem sintomas.

 

Parece fácil, simples. Não é.

 

Ainda bem que posso me deitar mais cedo quase toda noite, não para dormir o sono represado dos madrugadores, mas para mergulhar nas águas de oceanos nada pacíficos já navegados por velhos lobos-do-mar como Braga, Cony, Ruy, Sabino, Ubaldo e Verissimo.  

 

Posso ainda, inspirado nas viagens desses marujos fabulosos, mesmo sem contato físico com o mundo lá fora, que já cheira de novo a fumaça de óleo diesel, escrever meia dúzia de palavras e queimar a paciência dos que ainda prestam atenção naquilo que tenho a dizer.

 

Sei que daqui a vinte anos talvez não me arrependa das coisas que fiz, mas estou seguro de que posso me arrepender das que deixei de fazer. Sei que, por vezes, optei por não mexer no roteiro do filme de minha vida, mesmo sabendo que ninguém descobre novos caminhos – apesar de Google Maps, Waze etc. – sem mudar de direção. 

 

De fato, talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado, como disse Chico. Enquanto não chega o habeas corpus que afastará de mim esse cárcere, preciso refletir sobre como pegar os novos ventos que sopram e velejar bem longe do meu porto seguro até descobrir onde tudo isso vai dar. 


Parece fácil, simples. É, parece...

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Entre compadres

A cumpadragem é coisa muito séria por aqui, como diz o poeta Jessier Quirino. Muito mais que o jeito pelo qual uma pessoa se torna aparentada de outra através do ritual católico do batismo, esse parentesco por afinidade chega a ser maior que laços de sangue porque compadre é escolha; parente, não.

Um caso sequer não me lembro de um amigo convidar outro para batizar o filho e o escolhido arranjar desculpa para escapar do compromisso, do tipo: “Não sei se vou estar na cidade no dia...” “Quem sabe é melhor você chamar alguém da família...” Se isso acontecer, a encrenca é feia. É desfeita a ser resolvida a murros e tabefes, com direito do ofendido de invocar a legítima defesa da honra.  


Chicó Neto e João Grilo Neto – descendentes dos andarilhos da Taperoá dos anos 1950, de "O Auto da Compadecida" –, amigos desde as primeiras letras e números, eram bancários, quarentões, além de compadres e vizinhos no bairro de Manaíra, na orla de João Pessoa, até o começo do ano passado. Tão unidos que, sem o menor pudor, um dia João bateu na porta de Chicó com um pedido de risco cabeludo:
– Cumpade, me empreste o seu carro novo. Preciso dar um pulinho em Campina Grande e o meu tá na oficina desde a semana passada.  
– Opa, cumpade, tá aqui a chave! Mas tenha cuidado, viu? Dei só a entrada e ainda nem paguei o seguro.
– Não se preocupe! Bem cedinho, devolvo lavado e de tanque cheio.

Tarde da noite, ao retornar, João notou que esquecera o controle remoto com que abriria o portão da garagem. Parou então numa vaga no estacionamento público em frente ao apartamento de Chicó, que a tudo assistia pela brecha da persiana. Foi só João apagar as luzes que Chicó desceu com a chave reserva e reposicionou o carro uns 200 metros adiante. No dia seguinte, João mal pulou da cama e já foi devolver o veículo. Quase infarta!
– Por Deus, cumpade, eu juro que deixei o carro bem aqui! – choramingava apontando a vaga com outro carro. 

Chicó, derretendo de rir, vibrava com o troco. Troco porque, quatro meses antes, viajara em férias com Ariana e Suassuna (esposa e filha) e ao compadre confiou as chaves do apartamento. Chicó é daqueles que guardam por décadas cópias de faturas quitadas de água, luz, gás etc. Morria de medo de vazamento de torneira ou descarga. Seu freezer, inclusive, um primor de organização: camarão, lagosta, peixe, tudo embalado com etiqueta identificadora. 

No primeiro sábado, João promoveu uma farra memorável com algumas amigas e amigos. Depois de beberem e fumarem de tudo, zeraram o estoque do freezer. E ainda tiveram o descaramento de substituir o conteúdo das embalagens por pedaços de macaxeira, batata-doce e rodelas de inhame. 

Ao retornar cheio de fatos, filmes e fotos, Chicó decidiu oferecer um jantar aos amigos, inclusive o compadre. Minutos antes dos convivas chegarem, surtou ao descobrir o que havia descongelado com todo cuidado:
– Mulher! O miserável ainda escreveu nos sacos:  Macaxeira ao thermidor, Batata-doce gratinada, Inhame em rodelas com alcaparras... 

Voltando ao ataque de pânico de João com o "sumiço" do carro novo do compadre, semanas depois Chicó e Ariana lhe fariam uma breve visita, levando a afilhada para pedir a benção do padrinho. João, que nunca foi de se preocupar com visitas inesperadas, improvisou o baião-de-dois com as sobras de carne-de-sol e feijão-de-corda do almoço, enquanto, na sala, Chicó amolecia o pescoço com uma cerveja gelada. 

Comida na mesa, João senta-se em frente ao amigo e sugere: 
– Afrouxe a gravata, cumpade, tire os sapatos... – os quais, sorrateiramente, seriam trocados por um par quase idêntico. Ocorre que Chicó calça 41 e João, 38. Quando, após o jantar, a bexiga obrigou Chicó a procurar o banheiro, os pés se recusaram a entrar nos sapatos. 
– Mulher, meus pés incharam! Acho que a bebida tá me fazendo mal...

E sem videogame para matar o tédio de criança nessas visitas, a afilhada, sem querer, azedou o baião-de-dois para quatro:
– Padrinho, por que o pessoal do prédio vive dizendo que sou a sua cara?
– Esse povo fala demais, filha...

Duas semanas adiante, João seria transferido para Recife, seguro de que lá teria melhores oportunidades de crescimento profissional. Como nunca gostou de despedidas, foi-se num piscar de olhos com a facilidade dos solteirões.  

Bem próximo ao Natal, Chicó e Ariana vão ao Recife e, por acaso, reencontraram João numa mesa às margens do rio Capibaribe, tomando chope com frango à passarinho no bar O Santo e a Porca, que fica na Casa Forte, bairro de atmosfera bucólica na Zona Norte da capital pernambucana. 

Algumas tulipas depois, num daqueles silêncios que fazem parte de toda conversa entre velhos amigos e compadres, João confere (a incerteza é a mãe de todas as insônias):   
– Nem toda besteira pode tirar o sono e acabar uma cumpadragem séria como a nossa, né cumpade?
– É verdade... – consente Chicó.

Calada até ali, Ariana encosta a cabeça no peito do marido, boceja e arremata:
– Vamos? Tô morta...

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Confissões perigosas

Apesar de Trump, os Estados Unidos continuam sendo o principal destino dos brasileiros que vão morar fora do país, por conta de oportunidades de emprego, segurança, qualidade e estilo de vida. Um milhão e meio deles vivem por lá, dos quais metade em quatro estados: Flórida, Califórnia, Massachusetts e Nova Jersey.

Trezentos mil moram próximos a Boston, capital do estado de Massachusetts, em cidadezinhas como Everett e Framinnghan. É lá que vive há mais de uma década Valéria Sweet, uma mineira de Caratinga, dos cabelos cacheados, olhos pretos e miúdos, que criou um negócio interessante.  

Ela sabe que cada povo tem um jeito todo próprio de encarar a vida e de se relacionar com a morte. Aqui, por exemplo, afora Zeca Pagodinho e família, não é costume organizar uma reunião, com buffet e tudo, para receber as pessoas que forem ao enterro. No Brasil, os velórios, geralmente, acontecem na capela do cemitério e o tempo para preparação do corpo é de, no máximo, 24 horas após a morte. 

Dizem que esse período curto reflete a banalização do tema por essas bandas – escuta-se com frequência por aqui o clássico “morreu, morreu!” – e da pressa daqueles que não querem queimar vela com quem já não tem nada, nem votos, a oferecer. 

Valéria percebeu que nos Estados Unidos o buraco era mais acima, sem trocadilho. Na hora da despedida, parentes e amigos deixam no caixão objetos alusivos à relação com o falecido e valorizam homenagens como painéis de fotografias e vídeos do finado. Além disso, o corpo leva dias para ser preparado, à espera de quem vem de longe para se despedir. E há recepções na casa enlutada, com cardápio variado de pratos quentes e frios.  

A doce mineirinha trabalhava como cuidadora de um veterano de guerra portador de doença terminal. No fim de uma tarde, divagavam sobre a existência de vida após a morte quando veio o estalo:
– Eu gostaria de falar alguma coisa no meu funeral – dizia o moribundo.
– Como?
– Não sei...
– Bom, que tal escrever uma carta ou gravar um vídeo?
– Minha família... Alguns amigos não vão gostar do que tenho a dizer.
– Vai fazer diferença pro senhor?
– Nenhuma...
– Então me autorize, por escrito, a falar em seu nome.
– Promete fazer isso?
– Prometo! 


Ela agora vive a apartear discursos em funerais na condição de “confessora de leito de morte". Em dado momento das homenagens ao falecido, pede a palavra, abre um envelope e lê uma carta ou projeta um vídeo com aquilo que o morto não quis, não pôde ou não teve tempo de dizer em vida. 

Vale tudo: revelar segredos felpudos, mexer em testamento em cima da hora, exibir objetos perigosos, como pornografia, artefatos sexuais, e-mails, filmes, drogas, armas, dinheiro. Óbvio, Valéria cobra da pessoa moribunda, antecipadamente, três mil dólares pelo serviço a ser prestado. 

O trabalho mais complicado até agora foi quando contratada para divulgar uma confissão envolvendo o melhor amigo do defunto. Teve que pedir a palavra com mais veemência, caprichar no gestual e tornar público o que o falecido lhe autorizou a revelar: que o amigo não o respeitara nem no leito de morte, apalpando as partes de sua mulher... Que a mulher só fingia certo desconforto com a apalpação, mas revirava os olhos, gemia, relaxava e, no fundo, gostava do que estava acontecendo. 

Após a fala, o bolinador de viúvas em andamento cuidou de escapulir do recinto pela porta dos fundos. Ele e a madame apalpada foram instados por amigos e familiares do morto a deixarem a cerimônia, em atenção a expresso e irrevogável desejo do confidente.

Valéria pensa em abrir uma representação em Brasília. Está segura de que existe aqui um filão generoso a ser explorado, mais rentável até que no Hemisfério Norte. A ideia, adaptada à índole tupiniquim, é ganhar dinheiro não pela revelação dos segredos, mas por abafar tudo o que for dito pelo moribundo. Óbvio, nunca terá problemas com o Código de Defesa do Consumidor. Àquela altura, quem poderia reclamar estará dormindo. Profundamente.  

Ela está de olho mesmo é nos ganhos provenientes do silêncio, com preço a combinar com algumas figuras carimbadas presentes nesses velórios. Pagamento, segundo a mineirinha, só em dinheiro vivo, com 10% de acréscimo para envolvidos em crimes de corrupção, peculato, prevaricação e/ou lavagem de dinheiro. Sem recibo, claro!

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Mestres por acaso

Jurandir nunca foi de rascunhar. Apenas franzia a testa, limpava os óculos, punha o papel na máquina e preparava cartas, memorandos e fichas cadastrais irretocáveis. Para mim, que aos vinte e poucos anos a tudo assistia com olhos e ouvidos abertos para o espetáculo de um novo mundo, aquilo explicava a correspondência regular que ele mantinha com um certo Drummond, como se fosse a coisa mais natural ser íntimo do itabirano autor de Poema de Sete Faces, mesmo vivendo a milhares de quilômetros.

Seis anos mais novo que eu, o filho de Jurandir (Jurandir Neto) nascera num 16 de setembro, mesma data em que veio ao mundo Rita de Cássia, herdeira de Maerbal. Vez por outra os pais lembravam essa coincidência cósmica que apertou ainda mais os cadarços da amizade que lhes unia.

Maerbal, por sinal, perito de balanços, conciliava o amor pelo ofício bancário com outra paixão bem resolvida: transmitir o que sabia a estudantes universitários, como eu, de contabilidade, economia e administração de empresas. Gostava também de velejar e, além de obcecado por música, até agora nutre a mania de adquirir relógios de parede em leilões virtuais só pelo deleite de ouvir a disputa sonora da marcação do tempo. 

Ayres completava o trio de mestres, todos eles, hoje, na casa dos 80. Não havia remédio que curasse a enxaqueca que lhe azedava o semblante quase sempre sereno. Amante de livros assim como de telas, pincéis e tintas, atuava como investigador de cadastro, tal como Jurandir. Dele os colegas diziam, não sem traços da boa inveja: um sujeito insaciável, bem-dotado, inclusive intelectualmente. 

Entre Jurandir, Maerbal e Ayres havia em comum a louvável capacidade de trabalhar pesado sem sufocar a leveza da amizade. E no setor de cadastro do Banco do Brasil daquela Maceió do começo da década de 1980, os três mestres acabariam protagonistas de um caso memorável.

Por curto período, Ayres fora designado para substituir interinamente o chefe do setor e, de brincadeira, fechou a cara ao avisar aos colegas: “Prestem bem atenção... A partir de amanhã eu exijo mais respeito e seriedade. Aproveitem a chance de trabalhar sob a liderança de um ‘superchefe’!”

No dia seguinte, Maerbal trouxe sua máquina fotográfica, a pretexto de registrar a presença de Ayres na cadeira do titular ausente. O “superchefe”, então, ajeitou os escassos fios de cabelos entre as orelhas e sorriu para a câmera. De molecagem, porém, Maerbal clicou-o do pescoço para baixo, cortando-lhe a cabeça. 

Revelada a fotografia dois dias depois – não parece, mas era assim que funcionava naquele tempo –, a brincadeira encheu o ambiente de graça e luz. E o dia ganharia ares poéticos quando Maerbal, em alusão à enxaqueca de Ayres, provocou Jurandir oferecendo-lhe o mote: “A cabeça a dor levou”.

Sentado à mesa, Jurandir dobrou ao meio uma folha de papel ofício, cobriu o rosto com a mão esquerda espalmada abaixo do nariz e, a lápis grafite, sem borracha ou rascunho, em minutos produziu com impecável caligrafia:

“Mareba,

Custou, mas como custou!
Quantos anos se passaram
E, ai de nós, não voltaram...
Custou, mas como custou!
Rita de Cássia cresceu
E um noivado apareceu,
Com ameaças de vovô...
Custou, mas como custou!
Te lembras, eu bem me lembro
Dos meados de setembro:
A dupla ao mundo chegou
Para curso dar ao vale
De lágrimas que é a vida.
Que esta lhes seja florida
E que outra boca não fale.
Só a que o Bem desejou.
Custou, mas como custou!
Mas o papel chega ao fim,
E o que se passou, passou...
Agora é cuidar, pois sim,
Desse fato inusitado:
O “super” guilhotinado...
Credo, cruz, Ave-Maria!
Parece feitiçaria!
Mas o perigo ficou
Se a de cima se mandou.
A outra – raro exemplar –
Essa a dor não quis levar!”
  
Não me custou nada – a não ser manter olhos e ouvidos limpos – aprender por acaso com aqueles mestres que, em qualquer parte do mundo, quando a gente escolhe um trabalho de que gosta, não tem que trabalhar nem um dia na vida.

Mundo, vasto mundo, tão vasto quanto o meu coração. Eu não devia contar, mas essa lua sobre a praia de Pajuçara, esse Cabernet Sauvignon, ainda me botam comovido pra danado.


quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Santo remédio

De cara fechada, sem batom, uma das ascensoristas do templo bancário da Cidade Baixa, onde trabalhavam mais de 500 pessoas, pilotava o seu elevador com a preguiça das segundas-feiras quando Rivaldo meteu a mão no bolso do paletó e lhe ofereceu um punhado de confeitos:
— Pegue, moça, chupe!
— Por quê?
— É um santo remédio. Nunca vi ninguém triste chupando confeitos.

Ele chegara à Bahia em junho de 1992, vindo do Recife. Voltava ao Banco do Brasil depois de um período cedido ao governo de Pernambuco em que ocupou a diretoria de RH do extinto Bandepe. Casado com Bárbara, analista de projetos da Sudene, formavam um casal bem humorado e carinhoso com filhos e amigos.

Na semana anterior, um puxa-saco escolado que havia na área, ao saber de sua origem sergipana e por ser freguês de um restaurante no Dique do Tororó que servia um cabrito guisado com aipim e farofa d'água de comer com os olhos a meio pau, alisava as pontas do bigodão ao indagar: 
— Chefe, você gosta de comer bode?
Rivaldo, que não perdia bola alçada por nada nesse mundo, sorriu e rebateu de primeira:
— Gostar eu gosto, mas é um bicho agoniado pra danar! 

Meses depois, quando soube que eu estava de partida, transferido para a agência Tabuleiro, em Maceió, veio conversar comigo como só ele sabia fazer:
— Por que você vai nos deixar? O que mais tem aqui na Bahia é tabuleiro!

Nos reencontramos no ano seguinte, designados, por 100 dias, para participar do Programa de Melhoria do Atendimento do Distrito FederalComo Bárbara não pôde acompanhá-lo, vi Rivaldo algumas vezes, apesar do conforto do apart-hotel em que se hospedava, queixando-se da saudade de casa. Eu havia alugado um quarto-e-sala no final da Asa Norte, próximo ao restaurante Nosso Mar, onde fiquei com minha mulher e nossa caçula. 

Bárbara viajava de Salvador para Brasília quase todo fim-de-semana. Numa segunda-feira como outra qualquer, ao telefone, ele comentou comigo:
— Minha mulher anda desconfiada de mim.
— É mesmo? O que você está aprontando? 
— Nada do que cê tá pensando, seu sacana! 
— O que seria?
— Ela não acha que sou acionista da Varig. Ela tem certeza!


De volta a Salvador, Rivaldo se aposentaria no começo de 1994 e, logo após doar as gravatas, tornou real uma antiga fantasia: comprar um "brinquedo" para navegar na Baía de Todos-os-santos. E quando, pela primeira vez, saiu do píer num pequeno bote até a embarcação, um amigo que lhe visitava, de Brasília, quis saber:
— Como é que você compra um barco sem saber nadar?
— Peraí, e você, que vive dentro de um avião pra lá e pra cá, por acaso sabe voar? 

Quando, mais adiante, me chamou para conhecer a Queridoca, quase acontece uma tragédia. O destino seria a Ilha dos Frades, nome inspirado no grupo de religiosos que sobreviveu a um naufrágio e encontrou abrigo na ilha que possui exuberante floresta atlântica, com árvores nativas, inclusive pau-brasil. 

Depois de vários goles de cerveja, camarões no alho e óleo e mergulhos em alto-mar, eu voltava à proa quando notei Rivaldo trêmulo, com a voz grave, pastosa:
— Diga nada não... Bárbara vai ficar aperreada...
— O que foi?
— Acho que é derrame — disse, a enxugar o suor da testa — Me leve pro hospital.
— Calma... — preocupei-me, imaginando como socorrê-lo sem que nossas mulheres notassem — O que você tá sentindo?
— A vista embaçou, a mão tá gelada...

Não sou médico, mas, antes de pedir ao barqueiro para voltar ao cais, cuidei de observá-lo com mais atenção e, com a ajuda de todos os santos de plantão nos céus da Bahia, fiz diagnóstico rápido e certeiro, além de propor o adequado tratamento, sem intercorrências:
— Rapaz, você tá com meus óculos e eu tô com os seus!
— Eita! Agora é que você não vai contar nada pra ninguém. Minha mulher vai me interditar...
— Pode deixar! Também não vou cobrar pela consulta.

A “cura” instantânea, sem sequelas nem efeitos colaterais, nos fez olhar com menos indiferença a fartura de céu, sal e sol que tínhamos diante de nós, santo remédio para quase todos os males.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Chance, martírio e toalha

Logo após a Copa do Mundo de 1970, no México, quando o Brasil conquistou em definitivo a taça Jules Rimet, surgiu no Centro Sportivo Alagoano (CSA) um ponta-esquerda driblador, raçudo e veloz, um verdadeiro azougue para seus adversários. Chamava-se Ricardo.

Na época, um cartola do Esporte Clube Bahia conseguiu convencer a diretoria do clube alagoano a levar o garoto para realizar testes em Salvador antes de decidir por sua contratação.

No primeiro treino na Fazendinha – antigo centro de treinamentos no bairro da Pituba, em Salvador –, Ricardo, aos 18 anos, rendeu bem acima do esperado contra os titulares do Tricolor de Aço, que contava com estrelas regionais como Picasso, Aguiar, Sapatão, Roberto Rebouças, Baiaco, entre outras.

A conversa então se deu ali mesmo, à beira do campo:
– Bom, Ricardo, você tem futuro – disse o cartola, tentando mascarar o entusiasmo para não comprometer a proposta salarial a ser feita –, mas ainda é muito verde para jogar num clube grande como o Bahia.
– Tudo bem, vou voltar pra casa. Quando fizer 30 anos, apareço de novo por aqui. 
O acordo com o CSA e o contrato foram fechados no dia seguinte.

Mas o menino nunca se firmou como atleta profissional do Bahia. Encurralado nas cordas pelos golpes das tardes em Itapuã e das noites no Rio Vermelho, Ricardo logo viveria um martírio (sobrepeso e lesões) até jogar a toalha e retornar para Alagoas, onde pouco tempo depois largaria o futebol sem nada digno de nota. 

Chance, martírio e jogar a toalha me remetem a outro caso interessante. Envolveu o falecido Geraldo Bulhões (Gebê), eleito cinco vezes deputado federal por Alagoas, com mandatos consecutivos ao longo de 20 anos (de 1971 a 1991) até virar governador. No exercício desse último cargo, ele também ocupou a presidência do Conselho Deliberativo do CSA, sua paixão desde criança. 

Aqui um parêntesis: Gebê, aliado do então presidente Fernando Collor, virou notícia nacional após a divulgação de brigas com a esposa, Denilma Bulhões. Jornais e revistas revelaram que ele havia sofrido uma surra de toalha molhada da primeira dama nos aposentos do palácio dos Martírios. 

O episódio teve grande repercussão midiática e ele nunca o desmentiu, nem mesmo após o divórcio. Denilma, inclusive, era chamada de “governadora” e, dizem, inspirou a personagem Rubra Rosa, de Fera Ferida, novela da Rede Globo

Gebê, que sofria sérios problemas nos olhos e evitava viajar por isso mesmo, no começo de 1993 designou representante para que fosse ao Rio em busca de reforços para o Azulão.  Além do Fluminense, o São Cristóvão seria outro clube a ser visitado.

Ao desembarcar, primeiro o emissário procurou o pequeno clube carioca, cujos cartolas pediram quantia irrisória pela liberação de um atleta de seu time juvenil. Antes de bater o martelo, porém, o procurador resolveu ouvir Gebê:
– Governador, o pessoal tá nos oferecendo um menino bom de bola, bem baratinho...
– Quem é?
– Vi um treino dele e gostei. Tem só 16 anos. Mesmo magrinho, é ligeiro, dribla bem. O menino é bom!
– Menino a gente já tem de monte aqui em Maceió. O CSA precisa de jogador maduro, pronto.
– Tá bom... Então vou levar Catanha, que já tem 21.

Nada contra Catanha, que virou ídolo azulino e depois teria passagem marcante pela Europa, sendo vice-artilheiro do Campeonato Espanhol 1999/2000, com atuações que lhe garantiram inclusive a naturalização e uma vaga na Seleção da Espanha. 

Acontece que o menino rejeitado por Gebê logo depois seria cedido ao Cruzeiro, de Minas, e no ano seguinte faria parte da Seleção Brasileira tetracampeã mundial nos Estados Unidos. Era um certo Ronaldo, que viraria fenômeno e mais tarde ainda seria pentacampeão na Copa de 2002, na Ásia, assinalando dois gols na partida final contra a poderosa Alemanha. 

Azulão, assim, perdeu a grande chance de ser reconhecido no mundo inteiro como clube formador de uma lenda do esporte mundial, com todas as vantagens disso decorrentes.

Há quem diga que a falta de visão de Gebê (perspectiva, no caso) pode ter motivado a famosa surra de toalha molhada no palácio dos Martírios. Não creio nisso, mas, reconheço, entre quatro paredes, nunca se sabe o que pode acontecer. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A sacanagem de Jobim com João

Nada de maestro, compositor, pianista, cantor ou arranjador musical. Nem um dos criadores da Bossa Nova. O Jobim a quem me refiro era caixa do Banco do Brasil nos anos 70, na agência de Maceió.

Cara de areia mijada, óculos na ponta do nariz, timbre de voz grave, ele contava cédulas mordendo a língua. Vivia a pregar peças e a perturbar o juízo das mais variadas pessoas e ninguém sabia ao certo quando falava sério ou de brincadeira.

Certa vez, ao atender a um cliente que sacava alta quantia em dinheiro, de propósito ele trouxe um dos pacotes cintados de 100 cédulas com duas notas a menos e aproximou-se com o maço desfalcado na palma da mão, balançando, como se estivesse “pesando a mercadoria”:
— Sei não... Deve tá faltando duas cédulas...
— Então, conte o dinheiro, rapaz! — propôs o cliente.

Jobim simulou contar, recontar e, confirmada a falta, completou o pacote com duas cédulas retiradas da gaveta do caixa. O cliente arregalou os olhos e saiu dali impressionado, a ponto de comentar com os vigilantes na saída:
— Esse rapaz é bom mesmo. Conhece dinheiro até pelo peso.

Diferente de Jobim era João, que nunca tocou violão nem cantou porque era desafinado até para assoviar. Chefiava um setor em outro pavimento, onde seus colegas o viam como alguém carrancudo, inflexível, que se jactava de ser professor de Física e profundo estudioso de objetos voadores não identificados.

Com ar de sabe-tudo, João contava que o astrofísico francês Jacques Vallee, em seu livro Anatomy of a Phenomenon, de 1965, teria sido o autor da primeira definição de OVNI. Em linguagem empolada, dizia que "eram manifestações de relatos de uma imagem visual percebida pela testemunha como a de um objeto voador material, que possuiria pelo menos umas das seguintes características: aparência ou comportamento incomum". 

Ao saber disso, Jobim pediu a um fofoqueiro — toda empresa possui os seus — para espalhar pelos treze andares da agência que tivera no passado uma experiência misteriosa com seres extraterrestres.

       Fez isso convicto de que seria procurado por João, a quem passou a evitar. Toda vez que João se aproximava dizendo que precisava conversar, Jobim arranjava uma desculpa qualquer e escapulia, atiçando ainda mais a curiosidade "científica" do colega.

Era esperado que o encontro acontecesse. Um dia, João ficou de tocaia na porta da agência, minutos antes do final do expediente:
— Oi, Jobim, eu soube que você viveu uma experiência com OVNI e queria conversar sobre isso.
— Olhe, João, eu prefiro não tocar nesse assunto. Ninguém acredita no que eu digo. 
— Por quê? Você sabe que sou estudioso...
— Melhor deixar isso pra lá.
— Peraí, Jobim, você vai ter que me contar como foi.
— Pois bem, eu era fiscal de operações em Santana do Ipanema, no Sertão. Fui vistoriar umas lavouras de milho num baixio e como não conseguia chegar de carro lá embaixo, tive que descer o morro no lombo de um jumento.
— Sim, e daí?
— Não sei bem o que aconteceu. De repente, o tempo esfriou, mesmo com o solzão de rachar. Aí surgiu uma sombra danada de grande e desceu um troço cinza, parecia dois pratos emborcados.
— E você, fez o quê?
— Tá doido?! Pulei do jumento na hora e me escondi detrás de uma touceira de capim. Deu até vontade... Dor de barriga.
— Sei...
— Não demorou dois minutos saíram dois baixinhos olhudos, da cabeça grande, de dentro dos pratões e caminharam na direção do jumento.
— E você, quietinho...
— Claro! 
— E aí?
— Um deles olhou pro jumento e perguntou: “uba-tatuba?”  O jumento deu uma gargalhada e respondeu: “tatuba-uba!”

A turma do “deixa-disso” teve que entrar em cena. João queria estrangular Jobim:
— Você é moleque mesmo! Me fazer perder tempo com uma sacanagem dessas?
— Eu bem que lhe avisei. Ninguém acredita no que eu digo!