quarta-feira, 10 de abril de 2024

Toda paixão tem o seu calvário

O futebol tem seus momentos de profundo desencanto, como quando seu time está sofrendo uma derrota por dois a zero ainda no primeiro tempo e você está ali, acomodado no sofá, diante da TV, à espera do improvável milagre da virada. Faz sentido pessoas de todas as idades expressarem uma paixão tão arrebatadora por uma bola que simplesmente cruza a linha de gol? Que impacto isso teria em nossas vidas?

 

Reprodução/FaceBook

Não posso falar pelos outros, mas, pessoalmente, percebi há décadas que, quando o Vasco entra em campo, o apito soa e a bola rola, as diferenças entre minha mulher e eu se tornam mais pronunciadas do que qualquer debate filosófico sobre a origem planetária do feminino e do masculino. 

Com a chegada do Brasileirão 2024, nosso mundo vai se bifurcar novamente. Ficarei horas grudado na telinha, enquanto nenhuma atividade específica fará com que ela se desligue por completo de outros papéis. Talvez só quando amamentava nossos filhos (há quatro décadas), sua atenção era plena. Ainda assim, volta e meia olhava o que rabiscara na mão e lembrava de que precisava reler um livro qualquer para a prova do dia seguinte, renovar o esmalte das unhas ou verificar se as prateleiras da despensa estavam vazias.

 

As mulheres de minha geração possuem um poder de concentração bem mais amplo que os homens e isso se aprofunda com o passar dos anos. Se estão com os filhos, o pensamento voa para o marido. Se estão com o parceiro, preocupam-se com os netos. E sempre com uma autocobrança latejando, como se nascessem com uma espécie de chip da culpa no coração. 

 

Penso que a arte do foco múltiplo deriva do fato de a imaginação feminina ser mais rica e fértil do que a masculina. Elas são mais inquietas e vivazes. A maioria não consegue ficar horas vendo alguns marmanjos ofegantes correndo atrás de uma bola, um deles soprando um apito estridente, enquanto outros, dentro e fora do campo, especulam sobre o que poderia ter sido e não foi, como no velho filme "O Feitiço do Tempo". 

 

Como alguém permanece diante da telinha após o fechamento da rodada, domingo à noite, revendo lances, ouvindo o choro dos perdedores ou aturando a empáfia dos vencedores? Sem falar dos “sábios”, geralmente jogadores aposentados que ficam cacarejando obviedades ou contando fatos da própria carreira que ninguém (pelo menos entre as mulheres!) quer saber.

 

Seja como for, minha mulher sabe que, a partir deste mês, nossa coexistência sob o mesmo teto se dará de novo  em dimensões paralelas. Ela terá que se acostumar com a "criança" aqui absorta no sofá, com um punhado de bolachas ou pipocas na mão e os olhos grudados na telinha, imersa no apaixonante universo do futebol. 

 

E se o plantão do telejornal interromper a programação para noticiar que um tsunami está se formando no Atlântico Sul, perto de onde nos escondemos, ou que a OTAN acaba de revidar um ataque chinês, norte-coreano ou russo, definindo a terceira guerra mundial como pauta jornalística da vez, não desviarei a minha atenção um segundo, sobretudo se o placar estiver zero a zero, nos quinze minutos finais, e o adversário com um jogador a menos em campo. 

 

Ela sabe também que, se o telefone tocar e for alguma emergência em família, direi sem pestanejar: “Pede pra ligar mais tarde”. Não passará por minha cabeça que um parente possa ter tido um mal súbito qualquer – não antes de a partida terminar. Tudo tem o seu tempo! 

 

Se a chamada for de origem desconhecida, me farei de surdo. Posso sugerir: “Veja se não dá pra gente conversar depois do jogo?” Então, ela convencerá o interessado a ligar mais tarde, dirá que é inútil insistir, pois se ela mesma se aproximar da TV, arrisca-se a ouvir algo como: ‘Minha filha, pelo amor de Deus! Logo agora que Payet vai bater o escanteio?!” 

 

Fazer o quê? Todo vascaíno acima dos 60, órfão de Roberto Dinamite, Edmundo, Romário e Juninho Pernambucano, é assim. 


Mas, reconheço, o interesse das mulheres por futebol tem evoluído bastante, tanto como fãs quanto como participantes ativas. Prova disso, a rainha Marta, seis vezes escolhida a maior futebolista do mundo, e Leila Pereira, do Palmeiras, melhor dirigente de clube brasileiro.


De forma que vou pedir a uma de nossas netas  vascaína “praticante”, sem qualquer influência minha, a esta altura mais entendida no assunto do que eu – para explicar à avó o que significa “cruzar no primeiro pau”, “cabecear no contrapé do goleiro” ou “acertar chute de três dedos na gaveta”. Sem contar o "avançar as linhas" (parece coisa de costureiro afobado!).

 

Afinal, toda paixão tem o seu calvário, mas nada existe de mais grandioso nessa vida, onde tudo só tem começo e meio. O fim é pra quem não enxerga recomeços e deixa a chama apagar. 

 

quarta-feira, 3 de abril de 2024

O fabuloso Toim Leitão, do Crateús

Não posso esconder uma pontinha de inveja de alguns amigos que tiveram a sorte de crescer ao lado de um avô que não lia jornais, livros ou revistas, mas era mestre na arte de contar estórias, daquelas de arregalar os olhos e arrancar risadas, suspiros e lágrimas, até os netinhos caírem no sono, embalados pelas aventuras narradas.


Os avôs que me couberam nesta vida, dois tipos duros e carrancudos, não esboçavam um sorriso nem por decreto ou se mangassem um do outro. Mas, sendo justo, nunca se viram. 


Feliz de um amigo meu que volta e meia me fala de Toim Leitão, seu avô, um cearense do Sertão dos Crateús de ascendência holandesa, voz grave, sorriso largo, olhos quase fosforescentes, com seus imponentes 185 cm de altura, corajoso e forte feito Sansão, seu cavalo alazão.

 

Fotografia: Álbum de família

Agricultor e vaqueiro, Toim parecia saído das páginas do livro “Alexandre e os outros heróis”, de Graciliano Ramos, de que mais tarde Chico Anysio tiraria uma casquinha para criar o memorável Pantaleão. Mas nunca mentiu para atrapalhar ninguém, só temperava um pouco a sua versão dos fatos. Afinal, só se deve exigir a verdade absoluta das pedras e dos tolos. 

 

Casou-se com Onédia, que já sonhava com cirurgia plástica antes mesmo de o termo virar moda, nos tempos em que Pitanguy ainda nem mexia com bisturis. Vai saber o que Toim andou cochichando no ouvido dela. Só sei que provou da pitanga antes de madura, tendo que se casar pra moça não cair na boca do povo.

 

Coronel Bonfim, o sogrão, tinha terras até perder de vista. Não foi nenhum sacrifício pro bonitão vestir um paletó de linho, engraxar os sapatos, pentear o topete e fazer promessas diante da paróquia. Em troca, o casal abiscoitou 1/12 avos, parte que lhe coube do latifúndio.

 

Daí por diante, cuidou com carinho e fervor desse quinhão de terras, onde os netos (a quem a todos chamava de “meu fi”, pois não guardava os nomes), passavam os fins de semana e as férias ouvindo estórias, banhando-se no açude e aprendendo as coisas sertanejas, como beber leite cru num curral direto de divinas tetas, com direito à trilha sonora do mugido, ao cheiro de estrume e ao risco de brucelose.  

 

Dizem que o pai de Toim e bisavô de meu amigo, Mané Leitão, encontrou seu fim numa de suas incursões pelas matas para caçar animais silvestres. O corpo só foi encontrado dias depois, em estado de volta à natureza. Tombou enquanto tocaiava um tatu que, assustado, vendo o velho morto, e imbuído de virtudes cristãs, só deixou a toca após o enterro.


Toim virou lenda no Crateús a partir de uma farra de domingo, quando contou a alguns amigos o que acontecera com Veludo, cão de caça que sabia interpretar desenhos. Sustentou ele que rabiscava numa folha de papel o que queria (inhambu, mocó, perdiz, preá etc.) e o cachorro buscava a encomenda. Como duvidaram, chamou o bicho, desenhou uma paca bem gorda e ordenou a busca imediata. 

 

Ilustração: Umor


Três horas mais tarde, nada de Veludo. E os amigos, bêbados, tropeçavam de rir, o que chateou demais Toim. Anoiteceu, amanheceu... Nada! Uma semana depois, o cão reapareceu na Fazenda Cajazeiras todo latanhado, faminto, arrastando uma paca mutilada, com três patas. O dono então reviu a “comanda” guardada no bolso e percebeu o erro que cometera: não havia desenhado uma das patas do animal. 


Meses depois, Toim contou aos amigos que precisou levar uma boiada até o Piauí e teve que pernoitar ao relento. No dia seguinte, ainda escuro, tentou calçar uma das botas, mas não alcançava o fundo. Com os primeiros raios de sol, notou que, por engano, tinha enfiado a perna direita, até a virilha, na boca de uma jibóia. Quase engasga a coitada.  

 

Toim contou ainda, noutra oportunidade, que um dia bateu uma vontade doida de comer carne de tatu. Já tinha tempo que não refogava um bicho desses na panela, com alho, cebola, sal, pimenta preta e tomates. Onédia e as crianças salivavam só de pensar na iguaria saindo do fogão.

 

Na boca da noite, ele montou Sansão, chamou Veludo e partiram pra mata, buscando algum buraco com terra fresca, típico de morada recente, onde o animal espera escurecer pra cair na vida. Não demorou muito, ouviu latidos e, de cabeça baixa pra não arranhar os olhos na caatinga, encontrou o cão rosnando, gengivas de fora, com o rabo de um tatu entre os dentes. 

 

Toim chegou a jurar que desmontou e amarrou os arreios na coleira do cachorro pra garantir a captura. Mas, naquela escuridão medonha, se distraiu com uma picada de saúva e, num piscar de olhos, viu o cavalo sendo puxado buraco adentro, ficando de fora apenas a cabeça e o pescoço.

 

Veludo sumiu no oco do mundo e Sansão, depois do susto, nunca mais foi o mesmo. Nem os netos de Toim Leitão, que tiveram a sorte de crescer ouvindo essas estórias fabulosas.

quarta-feira, 27 de março de 2024

Tributo à comédia humana

Sexta-feira, de noite, num desses templos sagrados de delações não premiadas onde, entre um gole e outro, o destino se desenrola em tramas dignas de um roteiro de cinema, meu amigo ítalo-brasileiro Tiberio Bacardi, brilhante cronista ainda desconhecido do grande público, aguardava a namorada que fora ao santuário das toaletes. Foi quando testemunhou uma cena tão hilária quanto reveladora.


Ilustração: ChatGPT

Três amigas, todas na casa dos 40 verões, com a graça de quem aprendeu a surfar no vai-e-vem das marés da vida, trocavam confidências numa mesa do lado, movidas a drinques multicoloridos. Uma delas dominava a conversa (a saga de um pré-encontro amoroso) com a verve de Tatá Werneck, transformando o que seria um simples jantar numa aventura digna de um filme de Almodóvar, com dramas, reviravoltas e uma generosa dose de humor e sensualidade. 

A “nossa” Tatá esmiuçou a preparação para o encontro como um ritual, quase um treinamento para virar um holograma: fingia comer e, na beira do desmaio, se permitia a extravagância de uma fatia fina de queijo e um trio de castanhas como prêmio de consolação.

A importância de cuidar de pés e mãos não foi negligenciada – vai que um fetiche inesperado aparece no meio da noite. Ela brincava: “Quem nunca foi surpreendida com um convite para um jantar japonês e teve que revelar, no desespero, aquele esmalte da semana anterior ainda se agarrando bravamente às unhas, feito gato no carpete em dia de mudança?”

E o protocolo de beleza seguiu mais complexo que a preparação de um desses jogadores de futebol com suas curiosas sobrancelhas e tatuagens. O esforço, dizia ela, valeria a dor física e mental, contanto que resultasse numa aparência arrasadora e poderosa.

No grande dia, não deixou nenhuma ponta solta, nada ao acaso. Logo cedo, após pequenos ajustes depilatórios (ou jardinagem criativa), uma visita estratégica à academia garantiu que cada músculo se fizesse presente, ainda que a medida quase significasse tossir um dos pulmões para fora. 

Viu-se então, em seguida, diante do dilema do guarda-roupa, com considerações que variavam do vestido de gala ao clássico "pretinho básico", mesmo desconfiando de que, no final das contas, o esforço passaria despercebido. Nem ela duvidava de que o interesse primário do sujeito seria outro, longe do tipo de traje. 

Horas diante do espelho, ajustando cada detalhe na esperança de capturar 10% da atenção dele, a decisão sobre a lingerie trouxe novo impasse: conforto versus sedução, batalha que só as mulheres entendem, quando uma certa peça insiste em se acomodar nas reentrâncias mais íntimas. “Talvez te achem linda, mas eles não fazem ideia do trabalho que dá. Pensam que você nasceu pronta, como um efeito especial de cinema” – arrematou.

Os sapatos, escolhidos pela estética, poderiam virar instrumentos de tortura medieval se surgisse uma oportunidade para dançar. Teria que fingir que as lágrimas eram da emoção. Ela inclusive lembrou do filme “Perfume de Mulher”, onde um cego, vivido por Al Pacino, tira uma moça pra dançar que, inicialmente, descarta: “Não posso, porque meu noivo chegará daqui a pouco...” Ao que ele ponderou: “Mas em um momento se vive uma vida!”, conduzindo-a, então, no memorável tango “Por una cabeza”, de Gardel e Le Pera.

Mas se por um capricho qualquer, após todo esse esforço, o sujeito decidisse cancelar o encontro no último minuto? “A única desculpa aceitável para a desfeita seria a morte súbita da mãe, do pai, infarto agudo ou fratura exposta" – “Tatá” pontuou, refletindo sobre a fragilidade dos compromissos modernos.

E mesmo depois de toda a preparação, persistia um grande risco: ele poderia nem notar aquela calcinha de grife que estava sofregamente removendo e que custou a ela novo mergulho na escuridão do cartão de crédito. “Entre abraços e beijos você se dá conta de que acaba de viver mais um episódio da série ‘Todo esse esforço pra porra nenhuma!’" – concluiu.

Ali, distante daquele drama, Tiberio Bacardi anotava as partes mais marcantes, usando o bloco de notas do celular, ao ser surpreendido pela voz de sua namorada:

– Por que essa cara de quem teve uma revelação divina?

– Nada, nada demais...  Tô aqui pensando num compromisso marcado pra amanhã à tarde... – respondeu, optando por uma resposta neutra ao invés de compartilhar uma possível construção literária em andamento.

– Com quem... Posso saber?

– O proctologista.

–  Ah, bom…

Esse desfecho, não só selou uma noite de observações, mas também deixou meu amigo Tiberio Bacardi convicto de que, na vida, como no bar, as histórias mais fascinantes são aquelas compartilhadas entre um gole e outro, onde cada um de nós, entre um gole e outro, protagoniza sua própria comédia humana. 

quarta-feira, 20 de março de 2024

O metaverso de Nozinho

– E aí, Nozinho, o motor tá bom mesmo?

– Vai-te lascar! Eu mexo com isso desde menino e lá vem você perguntar besteira?

– Calma! Perguntei por perguntar...

– Pois me pague, pegue o carro e vai-te embora daqui...


Nozinho era assim, um paraibano que mais parecia esculpido numa tora de pau-ferro, com acabamento à base de machado. A natureza caprichou no design e na acidez. Era conhecido lá em Itabaiana como “Biliro” (de bilro, peça de aço ou madeira usada para confecção de renda, graças à silhueta esguia e a cabeça volumosa).


Mecânico e motorista de mão cheia (sem largar o volante!), apesar de enxergar menos que morcego ao meio-dia, seu par de óculos com lentes esverdeadas era tão icônico que ganhou o apelido de “Sprite”, gozação com sua forma nada refrescante de ver o mundo. E mesmo sem saber ler nem escrever, detinha saberes que deixavam muitos doutores comendo poeira na estrada.

 

Do tipo que nunca levava desaforo nem pra oficina, talvez fosse sua forma de navegar nas águas turbulentas de uma sociedade que valoriza mais as letras do que a sabedoria de vida. Ou porque gostava de encrenca, se questionassem suas teses sobre inovações tecnológicas “desnecessárias” nos automóveis. “Pra que pé esquerdo se não tem mais pedal de embreagem? Não serve nem pra apagar cigarro ou matar barata!” – dizia dos veículos automáticos.

 

Me lembrei dele ontem enquanto lia sobre o Vision Pro da Apple, aqueles óculos de realidade virtual com preço pra lá de salgado, acima de R$ 17 mil. Apple que resolveu se fazer de desentendida e não quer chamar o brinquedinho de “metaverso”, talvez para não embarcar na mesma nave que o bilionário Zuckerberg e sua turma da Meta (empresa que atualmente controla as redes sociais), que até agora não decolou.

 

Reprodução/Redes Sociais

Se estivesse entre nós, Nozinho desdenharia desse “computador espacial revolucionário”, com a autoridade de quem, desde o começo dos anos 1970, já fazia mágica juntando peças do motor de um carro como quem brinca de Lego. Diria que esse negócio de realidade virtual não passa de conversa pra jumento cochilar ruminando na sombra. 

 

O homem era tão brabo que, numa prova de habilitação para dirigir veículos de carga, ao invés de identificar as peças de três motores em caixas distintas (de fusca, chevette e caminhão), misturou tudo, desafiando a lógica do teste. “Só jegue não sabe fazer!” – esculachou. Em seguida, com a perícia de um relojoeiro, montou os motores e saiu do recinto, não sem antes oferecer à banca avaliadora, que o reprovara por ser analfabeto, conselho de especialista em chaves de fendas e de bocas: “Vão tudinho tomar bem no 'mei' da arruela!”

 

Acreditem, rola lentamente até hoje na Câmara dos Deputados, em Brasília, projeto de lei para alterar o Código de Trânsito Brasileiro, permitindo aos iletrados tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e, pelo menos, mudar o patamar de miséria. 

 

Há coisa de 20 anos, num domingo, enquanto Nozinho bebia e contava seus casos no boteco, um de seus sobrinhos achou de recordar do que a irmã dele (sua mãe) fizera poucos meses antes: a saga de uma gata grávida e o destino cruel que lhe foi reservado. 

 

Eu, calado no meu canto, prestava atenção ao que dizia o sobrinho, que nos comoveu a todos, entorpecidos por várias cervejas naquele começo de tarde.

– Não quero essa gata aqui de jeito nenhum! – teria decretado a dona da casa.

– Mamãe... É só enquanto ela melhora, engorda um tiquinho… Tava passando fome na rua.

– Nem venha com essa conversa mole! Suma daqui com ela, agora, ou deixe que eu mesma vou dar um jeito nisso!

 

Nozinho, que tinha a irmã como segunda mãe e, por isso mesmo, estava cada vez mais curioso, cobrou pressa no desfecho. Balançou a cabeça ao ouvir que a empregada doméstica fora encarregada de misturar cacos de vidro na comida da grávida, para que, contrariada com a hospitalidade, sumisse. 

 

– E você, infeliz, deixou matar a bichinha? Por que não procurou outra pessoa pra tomar conta dela? – apelou o tio, contrafeito. 

– Como, tio? Se demorasse, levaria uns cascudos, uns tapas… Só deu tempo de pedir a moça pra quebrar os cacos maiores em pedacinhos e torcer pra coitada escapar, fugir, sei lá…

 

Acontece que a gestante seguia firme, barrigão arredondando, à espera inocente do dia sublime. 

– E aí… Escapou? – indagou o tio, com dó da gata, vendo o lado do sobrinho, mas também procurando entender sua irmã.

– Morrer não morreu, tio, mas apareceu lá em casa uma ninhada de filhotes, tudinho de óculos verdes!

 

Nozinho se levantou num pulo só e partiu com tudo pra cima do moleque, que escapuliu ligeiro feito um gato, morrendo de rir. 

 

Se fosse hoje, era bem capaz de o gaiato dizer que os bichanos chegaram ao mundo cada qual com seu Vision Pro da Apple, prontos pro espetáculo das sete vidas. E o tio, com a delicadeza de um beliscão de alicate, mandaria o “'fidirapariga' tomar no 'mei' da arruela”. Mesmo com todo respeito que tinha pela irmã.

quarta-feira, 13 de março de 2024

No frescor dos novos tempos

Está em discussão no Congresso Nacional um projeto de lei que visa regulamentar o trabalho de motoristas de aplicativos e de empresas por meio de entidades de classe.

 

Com o calorão que anda fazendo ultimamente, há cada vez mais queixas nas redes sociais contra motoristas que cobram adicional dos passageiros que querem viajar com o ar-condicionado ligado. É como se os prestadores do serviço se tornassem os novos mercadores do Egito, onde tudo se compra e se vende, até mesmo a brisa que nos refresca durante a viagem. E veja que não trato aqui de um conto de fadas moderno, mas da triste realidade das plaquinhas que adornam o encosto de cabeça dos bancos dianteiros dos carros, oferecendo o refrigério por certo preço. 


É a cortesia cedendo lugar à cobrança. Balas (ou confeitos) e água gelada foram substituídas por um pagamento antes mesmo de o carro partir. Enquanto alguns defendem a gratuidade da climatização, principalmente em tempos de aceleração do aquecimento global, outros apontam que esse custo não pode recair nas costas dos motoristas, pois o uso do equipamento aumenta muito a conta do combustível. 

 

Conheço um militar reformado que se aventura pelas estradas urbanas como condutor de aplicativos. Ele me contava outro dia, com resignação, que as plataformas têm repassado muito pouco aos motoristas. "Infelizmente é assim. Ah, se eu pudesse oferecer o conforto de antes, sem pedir aos passageiros o reforço por fora...”, lamenta.

 

Aqui deitado em rede esplêndida, ao som do mar e à luz de um sol escaldante, depois de dias e mais dias sem fazer nada de útil à aventura humana sobre a Terra, resolvi perturbar o sossego das plataformas de transporte com minhas indagações de aprendiz de rábula. 

 

Uma delas, em sua sapiência tecnológica e a partir do caso do ar-condicionado, me garante que quando detecta que "o motorista conduz mal uma corrida, pune o desobediente com severa advertência", uma espécie de marca de Caim nos tempos modernos. Nada como uma avaliação ruim para trazer à tona o pior de nós mesmos, não é?

 

Diz mais: que "a cobrança de qualquer adicional por fora representa violação às regras de segurança e podem levar à desativação da conta do motorista parceiro envolvido". 

 

Uma segunda empresa me manda uma mensagem rebuscada, sem nada de novo: “Somos uma empresa de tecnologia voltada à mobilidade urbana e conveniência, que conecta passageiros e motoristas parceiros por meio de seu aplicativo”. E sugere que “motoristas e passageiros decidam juntos sobre o uso do ar-condicionado”.

 

Com a aprovação da lei que regulamentará o trabalho de motoristas de aplicativos por meio de sindicatos, me ocorre propor uma negociação bastante simples para resolver o impasse. 

 

Sem falsa modéstia, a ideia só não é melhor porque é minha. Vejam bem: por que não estabelecer uma taxação mútua? Os passageiros pagariam pelo ar fresco, mas seriam compensados quando fossem obrigados a escutar funk, sertanejo ou dissertações intermináveis sobre preferências clubísticas, políticas ou religiosas.

 

Para os motoristas que insistirem em tentar convencer “convertidos” com suas réplicas e tréplicas, uma penalidade extra seria cobrada: aumento de 50%, com o lembrete de que ficar em silencio é nunca mais precisar ter razão, mesmo em tempos de overdose de informações.

 

A flatulência (e a eructação) também teria cobrança recíproca, apesar da previsível polêmica quanto à autoria de disparos letais silenciosos, sobretudo no caso do transporte compartilhado de passageiros, do meio-dia pra tarde.

 

No fim da corrida, haveria o acerto de contas entre as partes, com razoável chance de a maioria das viagens terminarem com as despesas adicionais anuladas entre si. Elas por elas, digamos assim.

 

Com tanta gente por aí que não se constrange em compartilhar sua estupidez a qualquer hora do dia ou da noite, inclusive espalhando notícias falsas, a taxação mútua, que a princípio pode parecer injusta aos motoristas, teria também um caráter pedagógico e profilático.

 

Sei que na categoria Confort da principal plataforma que opera no Brasil existe a possibilidade, antes da viagem, de o passageiro marcar a opção de não conversar com o motorista e até de definir a opção pelo ar-condicionado, porém me refiro aqui às categorias mais populares, claro, de todos os aplicativos.

 

Não é a solução perfeita, admito, mas ao menos se poderia transformar as viagens em momentos de bem-estar e paz social, ouvindo-se, no frescor dos novos tempos, apenas o barulhinho do ar-condicionado e não monólogos de donos da verdade ou música de qualidade duvidosa para passageiros cujos ouvidos correm o risco de virar penicos.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Elas amadurecem bem antes

Na semana do Dia Internacional da Mulher, andei relendo uma pesquisa realizada há alguns anos, no Reino Unido, sobre diferenças de maturidade entre sexos. Em resumo, chegou-se à conclusão de que o homem permanece emocionalmente imaturo até 43 anos de idade e a mulher atinge a maturidade emocional bem antes: aos 32. O estudo revelou ainda que 80% das mulheres acreditam que os homens “nunca deixam de ser crianças”. 


Certas atitudes não deixam dúvidas sobre a lerdeza da maturidade de alguns homens: recontar as mesmas piadas e achar graça de novo, não se interessar por tarefas domésticas, confundir masculinidade com grosseria, exibir bíceps e tríceps para demonstrar como são fortes, entre outras bobagens.

As mães percebem essa diferença desde cedo, principalmente nas famílias mais numerosas como a que me trouxe ao mundo, com pais, cinco filhos e quatro filhas. Vi isso bem de perto quando uma de minhas irmãs, apenas um ano mais velha que eu, tornou-se adolescente “décadas” antes de mim.

Estamos falando do começo dos anos 1970. Enquanto eu, entre 12 e 13 anos, dividia meu tempo entre dormir, comer, estudar, bater bola, jogar botões (futebol de mesa), ler "Placar" e zoar meus irmãos mais novos, minha irmã já suspirava ouvindo Dio come ti amo, Non ho l’età (per amarti) ou assistindo aos requebros de Elvis Presley. Lia muito fotonovelas e até desenhava seus próprios "quadrinhos", em meio a namoricos movidos a doses generosas de estrogênio e progesterona de ovários fresquinhos.

Foto: Álbum de família 

Nessa época, a banda LSD – sob a batuta de um certo Djavan – fazia sucesso em Alagoas, animando as noites de sexta-feira na AABB Maceió, na Praia da Avenida. Ela, claro, sonhava em ir à balada toda semana, mas nosso pai era inflexível feito porta de cofre: “só vai se seu irmão for junto!”.

Como ela iria me convencer se, todo dia, no máximo às dez da noite, eu já tropeçava de sono? E se eu fosse à balada, cadê coragem pra dançar com as garotas? Dormir sentado numa cadeira dura, sob a luz negra e o barulho ensurdecedor da banda, inalando fumaça de cigarros até a hora de voltar?


Ela sabia do meu gosto por desenhar e, certa manhã, pediu a um traíra do colégio que me desafiasse a desenhar uma cena de sexo daquelas típicas de revistinhas suecas, fonte de deleite da molecada nos tempos em que se passava mais tempo nos banheiros do que estudando. 

Em pouco tempo, o inocente aqui rabiscou algo com toda carga erótica possível, assinou no rodapé e o traíra ainda insuflou o ego do “artista” dizendo que nunca vira nada parecido a não ser nos "catecismos" de Zéfiro (1921 – 1992). Meia hora mais tarde, lá estava minha irmã triunfante com a "obra de arte" nas mãos: "Como é, vai ou não vai sexta-feira à noite?"

Se me recusasse, meu pai ficaria sabendo do que eu andava “aprendendo” na escola e por certo mudaria a rota em meu GPS com o desgraçado de um cinturão de couro, me inspirando a escrever mais um parágrafo na crônica de minhas surras inesquecíveis.  

Travei, engoli seco e ali também aprendi, na marra, o que era chantagem emocional e suas implicações diretas e indiretas, durante as cinco semanas seguintes. 

Enquanto isso, passei a vasculhar cada centímetro da casa à procura do famigerado desenho. Até que um dia, folheando “Grande Hotel”, revista de fotonovelas favorita de minha irmã, notei que a protagonista de uma história escondera uma carta comprometedora entre o tampo traseiro e a gravura de um quadro de parede. 

Ao encontrar a “obra”, nem cogitei guardá-la em lugar alternativo, seguro. Matei no ninho o aspirante à sucessão de Picasso (1881 – 1973), o gênio espanhol obcecado pelo erotismo. Picotei o desenho, joguei os pedacinhos no vaso e acionei a descarga para ter certeza de que a agonia realmente chegara ao fim. Ainda bem que não havia fotocópias e a digitalização de papéis não existia nem nas revistinhas de "Flash Gordon".

À noite, vestida e maquiada, pronta para chamar o táxi, minha irmã espantou-se quando eu lhe disse que estava cansado e não iria nunca mais, com direito a um risinho de esculacho. Ela então correu ao local onde escondera o desenho e quase subiu pelas paredes ao descobrir que já não dispunha da “arma” pra me convencer. 

Aqui entre nós, penso que nosso pai, mesmo sem nunca ter desconfiado de que o filho vinha sendo vítima de "condução coercitiva", aprovou a "nossa" decisão de não sair. Para ele, não precisava ser toda semana, deixando-o aflito até que a madrugada nos trouxesse de volta.

Essa experiência só reforçou em mim a percepção de que as mulheres amadurecem antes. A sagacidade de minha irmã foi prova viva disso, deixando claro que certas mulheres dominam artes como a manipulação e a camuflagem de sentimentos muito mais do que os homens, esses inocentes que se acham sabidos.


Homens, como elas mesmo admitem, “nunca deixam de ser crianças”. Deve haver um anjo da guarda de plantão para cada um. Caso contrário, viver torna-se perigoso demais.
 

quarta-feira, 6 de março de 2024

Não é certo

Quem sou eu pra falar dessas coisas, mas resolvi navegar no intrigante universo do insulto, essa prática sofisticada para exibir nossa erudição social. Palavras, gestos e atitudes desrespeitosas, verdadeiros mimos linguísticos com o poder de ferir a dignidade alheia. Afinal, quem precisa de flores quando pode presentear alguém com um insulto afiado, daqueles que cortam o coração da pessoa ofendida?

 

O ser humano, esse bicho seletivo por conveniência, ainda luta para superar conceitos primitivos como a ideia de que homens "garanhões" merecem tapinhas nas costas, enquanto mulheres que têm mais de um parceiro são chamadas de "putas". A dualidade dos sexos, tão incensada pela sociedade, permanece uma figura de retórica. Afinal, quem precisa de igualdade quando pode apontar o dedo apenas numa direção?

 

E o que dizer das pérolas linguísticas utilizadas para xingar o próximo? A palavra "vagabunda", por exemplo, uma verdadeira sinfonia de desrespeito quando dirigida a uma mulher, com uma simples troca de vogal pode virar afago no ego masculino. Chamar um homem de "vagabundo" às vezes é reconhecê-lo como “esperto”, “malandro”, capaz de tocar a vida à custa dos outros.

 

No território do caráter relacional, “egoísta”, "farsante", "mentirosa" são termos que refletem a complexidade das relações interpessoais, com destaque para a exploração de traços físicos. Chamar uma mulher de "gorda" atinge o ápice do ultraje, enquanto atribuir gordura a um homem vira e mexe é um elogio cúmplice. Já vi até machão vestindo camisa onde escrito “um homem sem barriga é um homem sem história”. A incoerência nos insultos realmente nos remete à idade da pedra lascada.

 

Ilustração: Umor

E que tal palavrões em tom de brincadeira? Entre amigos ou amigas, o insulto pode ser apenas uma forma de zombar o outro. Mas, olhe lá! A entonação é crucial, pois no contexto errado, a mesma expressão pode passar de uma piada inofensiva para um ataque de proporções épicas. É o caso dos clássicos “pqp!”, “vtf” e “vtnc!” (evito grafá-los para não vulgarizar o texto), desabafos que levam alguns à catarse no desfecho de uma conversa.

 

E quando a ideia é desferir insultos "funcionais", a diferença entre homens e mulheres atinge níveis cômicos. Se um dos piores insultos para elas é ser chamada de "gorda" ou “velha”, para eles alcança o topo da ofensa ser chamado de "broxa" ou “corno”. Torna-se alto o risco de lesões corporais recíprocas.

 

No futebol, outro terreno fértil para insultos a granel, gírias e expressões são comuns aos dois gêneros. "Chinelinho" (quem faz corpo mole, simula contusão ou se machuca com frequência, e só aparece na mídia usando chinelos), "mascarado" (quem se acha a última pipoca do saco), "pipoqueiro" (quem se esconde nos momentos críticos, quando seu time mais precisa). São verdadeiros coices nas canelas das vítimas.

 

E no meio militar, hein?! Tá o maior bafafá em Brasília desde que um certo general, ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente da República em 2022, foi alvo de uma operação da Polícia Federal que mira articulações ideológicas de extrema direita (gostaram do eufemismo?). 


Mensagens obtidas nos celulares confiscados revelam que o general insultou integrantes das Forças Armadas que não aderiram às “articulações”. Numa delas, ele se refere ao então comandante do exército com o epíteto de “cagão” e pede (não se sabe a quem) que a cabeça dele seja oferecida. 

 

Claro, não falava de um desarranjo intestinal do velho companheiro de farda e quepe. Mas cheguei a pensar que estávamos prestes a assistir a um duelo meticulosamente orquestrado entre ambos, em campo aberto, na presença de testemunhas representativas dos três poderes da República, com armas escolhidas pelo ofendido para desagravo de sua honra. Uma espécie de revival medieval confrontando dois nobres da corte.

 

Descobri, no entanto, que duelos estão proibidos desde a época colonial, uma proibição confirmada logo depois da independência do Brasil, com a constituição outorgada por Pedro I em 1824. Melhor assim, sem melodramas. Afinal, lavar a honra com sangue suja a roupa toda, como diria Stanislaw Ponte Preta (19231968).

 

Soube ainda que, há pouco tempo, num inquérito administrativo contra uma militar mato-grossense acusada de ferir moral, ética e disciplina, os xingamentos proferidos, inicialmente considerados como pressão psicológica sobre um recruta, foram perdoados. 

 

Argumentou-se que certos insultos, extraídos de um dicionário de gírias e jargões militares, são inofensivos e funcionam apenas como meio de animar a tropa a dar o melhor de si. Bisonho, cagão, caga pau, coisa, cu de tropa, mocorongo, morcego, molambo, perebento, pulha, rolha, tapado, entre outros… Ótima forma de incentivar a equipe! Como nunca pensei nisso!?


Convicções pessoais e xingamentos à parte, aos que estranharam a ocorrência verde-oliva em Brasília, recordo aqui um certo personagem criado nos anos 1970 pelos cartunistas Cláudio Paiva, Hubert Aranha e Agner, em tirinhas publicadas na última página de O Pasquim. Avelar, o general que não aderiu ao golpe de 1964  um linha dura que apanhava da esposa em casa –, vivia repetindo, resignadamente: “Não ia dar certo mesmo...”

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Vai passar?

Nomes não vêm ao caso, mas no Carnaval deste ano os mandachuvas de uma grande rede brasileira de TV resolveram escalar influenciadores digitais e apresentadores novatos para a cobertura jornalística na Marquês de Sapucaí, no Rio. E o que aconteceu? Uma enxurrada de críticas devido ao baixo nível da transmissão, com muitas queixas sobre a qualidade das entrevistas, que mais pareciam bate-papos de boteco do que jornalismo sério.


Enquanto a TV se esforçava para entreter a massa carnavalesca, eu surfava na internet em busca de fatos dignos de uma crônica e nada. Na verdade, uma maré de notícias triviais e sem graça. Nem mesmo o vexame da Seleção Brasileira, atual bicampeã olímpica de futebol que ficará fora dos Jogos de Paris, teve algo de novo no feriadão. Só mais um fracasso da CBF.

 

Em meio à monotonia, recebi de um velho amigo um artigo interessante sobre os estudos de um doutor espanhol, de 39 anos, especialista em gerontologia (cuida do envelhecimento nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais), confirmando que uma vida sexual ativa faz um bem danado à saúde. Além de animar o coração, a mente e fortalecer o sistema imunológico, é um verdadeiro elixir para o humor. A intimidade libera substâncias no cérebro que nos deixam mais contentes que cachorro com dois rabos. Claro, não é remédio para a depressão, mas certamente melhora o astral.

Tem mais! Ele garante que reduz o estresse e melhora o sono, tudo isso, bem, com um pouquinho de amor, carinho e as finanças sob controle. Parece até que tem efeito contra o coronavírus. Se é verdade ou não, não me cabe atestar, mas há outros especialistas, iraquianos, sugerindo que relações íntimas três vezes por mês podem nos proteger do coronavírus. 

Falando em proteção, fizeram uma pesquisa com 16 mil participantes em 33 países, divididos em dois grupos. O primeiro mantinha uma frequência de pelo menos três relações por mês, enquanto o segundo não chegava a tanto. Quatro meses depois, viu-se que 77% dos membros do primeiro grupo não foram infectados pela doença, mesmo que o tamanho da amostra estatística não seja lá grande coisa. 

Sobre tamanho, aliás, um ex-ator pornô brasileiro, de 69 anos de idade, conhecido por um atributo bem específico, anda fazendo propaganda para uma das maiores redes de fast food que operam no Brasil. Causou furor, inclusive, ao anunciar uma oferta de dois sanduíches por 25 reais, com o lembrete provocativo de que "tamanho é documento, sim!". 

O assunto dominou os Trending Topics do X (ex-Twitter), no segmento de comidas. Os internautas foram à loucura, uns achando engraçado, outros uma insanidade absoluta, por causa das criaturas inocentes que têm acesso às redes sociais e que ainda acreditam que a principal função de uma bengala é aumentar a base de apoio, melhorando o equilíbrio do vovô.

E sem ter uma escola de samba pra desfilar este ano, uma famosa atriz de novelas, de 44 anos, teceu comentários abertamente sobre o órgão do marido num canal de TV por assinatura. A declaração sobre “quão duro ele é" pode ter atiçado o complexo de inferioridade de muita gente, sobretudo porque a moça arrematou beirando o esculacho, com enorme naturalidade: "Além de grande e grosso, é duro, tipo madeira...". 

Bem, agora imaginem que cena poderia ter virado a grande notícia do Carnaval 2024! Um animado bate-papo num boteco entre o espanhol e o casal de brasileiros. Chope vai, chope vem, croquetes pra cá e pra lá, ao som dos hits “Macetando” e “Perna Bamba”, com a prosa descambando para uma mistura de temas anatomicamente sensíveis. Nisso, alguns fregueses mais sóbrios, com garfos e facas de mesa nas mãos, exigem do trio a suspensão do desfile de "dados científicos" a partir de suas respectivas habilidades, sob pena de ultraje ao pudor em plena apoteose. 

Mas nada disso aconteceu, é claro. Como se vê, não é fácil preparar uma crônica toda semana, havendo ou não temas palpitantes. 


Reprodução/FaceBook

Já quase desistindo de garimpar um fato que me instigasse a escrever, descobri no FaceBook uma charge em que um casal de meia idade passeia com um garotinho numa calçada sem sinais de chuva, suor nem urina. O pai, talvez interessado em avaliar o legado genético-carnavalesco transmitido ao rebento, indaga: 

– Que escola você queria ver campeã? 

– A pública, pai! – responde o inocente.

 

Mas em meio à batucada, os foliões de hoje e os mandachuvas de sempre, irmanados na política do pão e circo, não parecem interessados em discutir meios e modos de virar de vez essa página infeliz de nossa história. "Ai, que vida boa, olerê! Ai, que vida boa, olará! O estandarte do sanatório vai..." – entoam. 


Vai ver, a charge foi publicada por engano, só para me deixar aqui reflexivo, contrariado, pensando no que vem aí e cairá no colo de nossas novas gerações, quando a ressaca geral passar. 

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Teria sido assim

Gilton Della Cella, cantador e compositor dos melhores que conheço, dia desses compartilhou um link de vídeo comigo. Trazia depoimento de Sandro Haick, multi-instrumentista, arranjador, produtor e diretor musical, falando sobre Dominguinhos, figura lendária na MPB. 


Reprodução/YouTube

O trecho final comove. Sandro conta que, com muito tato, consultou Dominguinhos sobre se manteria um baixista que não acertava uma nota sequer para a segunda de três apresentações. O gênio, sorrindo, respondeu “sim”, com uma generosa ressalva: “ele tá precisando...”
(ouça aqui)

 

Lembrou-me de um dito popular nordestino que descreve um político decente que surge de vez em quando, daqueles que existem apenas pra não perdermos por completo a esperança. Os mais humildes o reconhecem: “esse entende de precisão!”. 


Também me veio à cabeça meu sogro, Tertulino, que desde menino, no sertão de Quixeramobim (CE), foi dispensado pelo próprio pai do trabalho no balcão do armazém da família. Por ter o coração mole diante do sofrimento alheio, renunciava parcialmente ao pagamento dos mais necessitados.

  

Compartilhei o vídeo com outros amigos, amantes da boa música instrumental, registrando que Dominguinhos merecia uma biografia escrita por mestres como Ruy Castro ou Fernando Morais, para que nossos netos pudessem conhecer sua história.

 

Dois deles, talvez combinados na brincadeira, sugeriram que eu encarasse a missão, com o argumento meio furado de que conheço a alma nordestina. Um até soltou que poderia ser “o desafio, a obra de minha vida”. O outro, ponderando que “esses medalhões não vão topar”, me recomendou a leitura do livro “A vida por escrito – Ciência e arte da biografia”, onde Ruy Castro divide segredos, técnicas e truques sobre o assunto.

  

Confesso que quase caio na conversa, mas estou seguro de que essa missão exigiria alguém mais dedicado do que eu, disposto a pesquisar a fundo, fazer perguntas difíceis e tirar conclusões lógicas de onde ninguém mais vê lógica.

  

Deus sabe que já fiz a obra da minha vida quando ajudei minha mulher a trazer ao mundo e a criar nossos filhos na justa medida de minhas limitações, cada qual com seus acertos e desacertos, mas todos tocados pela mais nobre das virtudes: a prontidão para servir aos mais frágeis. 


Notei que pouco posso acrescentar ao que já foi dito sobre Dominguinhos, tudo acessível na internet. Desde o fato de que era um dos 16 filhos de um casal de alagoanos, mestre Chicão, sanfoneiro e afinador, e dona Mariinha, que migraram pro agreste pernambucano na primeira metade do século passado em busca de vida melhor.

 

Como tantos meninos pelo interior, Neném, como era chamado, tomou gosto pela música com o pai e aprendeu cedo a tocar pandeiro, triângulo e sanfona. Logo se apresentava com dois irmãos em feiras livres e na porta do antigo hotel Tavares Correia, em Garanhuns (PE), onde conheceu Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que se impressionou com a criança e se ofereceu pra ajudá-la, caso um dia fosse pro Rio de Janeiro.

 

Anos depois, o pai resolveu procurar Gonzagão, no Rio, fugindo das dificuldades enfrentadas no Nordeste, carregando a família, inclusive Neném do Acordeon, aos 13 anos, numa viagem de pau-de-arara que durou 11 dias. 


Foto: Acervo Rio Gráfica Editora

Mais pra frente, já batizado de Dominguinhos por Luiz Gonzaga, voltaria ao Nordeste numa turnê, em 1967, como motorista e sanfoneiro do grupo de músicos. Foi quando conheceu a recifense Anastácia, cantora e compositora com quem foi casado por 11 anos e compôs mais de 200 músicas (as “filhas” do casal, segundo ele).

 

Entrar pro grupo do Rei do Baião deu-lhe maturidade como músico e arranjador. Mais do que aprender, o discípulo inovou a arte do mestre, e se aproximou de artistas famosos (Chico Buarque, Djavan, Gal Costa, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Maria Bethânia, Nara Leão, Roberto Carlos etc.), abrindo a porteira para uma carreira que passeou por vários estilos musicais, de Baião, Forró, Xote, até Bossa Nova, Choro e Jazz.

 

Em Lamento Sertanejo, sua canção preferida, em parceria com Gilberto Gil, consta que, "por ser de lá, do sertão, lá do cerrado, lá do interior do mato, da caatinga, do roçado", era uma "rês desgarrada na multidão". 


Dizem que a solidão é a sorte dos espíritos excepcionais, o que talvez explique um legado (506 obras musicais, 34 LPs e 38 CDs) que transcende gerações, tocando corações em todo o mundo.

 

E o reconhecimento veio também de fora. Em 2002, ganhou o Grammy Latino, com o CD Chegando de Mansinho, e 10 anos depois repetiu o feito, na categoria melhor álbum brasileiro de raiz, com o CD/DVD Iluminado

  

Mas aí chegou 2013 e, aos 72 anos, ele não resistiu à luta travada contra um câncer de pulmão. 

 

Não duvido nada ter encontrado, em outro plano, o Criador de tudo, tendo ao lado Gonzagão, a quem Dominguinhos se dirigiu: 

– Mestre... Dá licença? Tô de volta pro meu aconchego, trago saudade, quero um sorriso, um abraço pra aliviar meu cansaço... 

– Oxe! Precisa pedir? – responderam, sorrindo, os dois.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

A falta que faz uma pomba

Se você espera um texto sobre o luto de alguém, relacionado aos carnavais de outrora, sentindo a ausência de seu cobertor de orelhas "macetando" o apocalipse, bem, sugiro que ajuste seus óculos e prepare-se para uma reviravolta. Não é disso que pretendo falar nesta Quarta-feira de Cinzas.

 

Sábado retrasado, eu seguia pela orla da Pajuçara, de olho nos foliões que se arrumavam para homenagear o “Pinto da Madrugada”, bloco carnavalesco maceioense que acaba de completar 25 anos. Meu passeio me levou até o Memorial Teotônio Vilela, que mais parece uma ode à arquitetura de Niemeyer, com seu vitral patriótico e uma estátua do Menestrel das Alagoas em pleno ato de libertação de uma pomba, símbolo de sua batalha pela pacificação do Brasil após quase 20 anos de ditadura militar. 

 

Esse gesto me fez lembrar da cantora Fafá de Belém, que, um ano após a morte do senador, em 1984, também soltou uma pomba que tinha nas mãos, no histórico comício pelas “Diretas Já”. Tempos duros em que a liberdade era mais valorizada do que dinheiro na cueca ou em paraísos fiscais, onde a sociedade, artistas populares e os políticos de diferentes partidos se uniram em torno de um interesse maior: a redemocratização do Brasil.

Foto: Fafá de Belém, Teotônio Vilela e Fernando Brant (álbum da família Vilela)

 

Falando em pombas, essas criaturas aladas não são apenas mensageiras de paz na Bíblia. São protagonistas de histórias que vão desde a arca de Noé até o batismo de Jesus. Mas, vamos combinar, de uns tempos pra cá elas têm sido rotuladas por muita gente como verdadeiras “ratazanas do céu”.  

 

No palco urbano, onde fazem as vezes de coadjuvantes, seguem ecoando seus arrulhos misteriosos, quer a plateia aprecie ou não o espetáculo. Mas, quem diria, no civilizado Japão da paz (como canta Gil), a trama ganha contornos dignos de uma novela policial, com essas bichinhas alçando voos rumo ao estrelato de vítimas de um crime inusitado.

 

No final do ano passado, Atsushi Ozawa, um taxista de 50 anos, morador de Tóquio, decide que é hora de fazer justiça com as próprias rodas, encenando uma versão motorizada de "O Predador" contra um grupo de incautas pombas. Seu veículo, antes mero meio de transporte, transforma-se na arma do crime contra uma ave que não constava na lista de espécies caçáveis.

 

O enredo se torna denso quando Ozawa, sem uma gota de remorso, declara à polícia que agiu em legítima defesa territorial, alegando que as ruas são domínios humanos e as pombas, simples intrusas que deveriam ter o bom senso de evitar carros, atrapalhando o trânsito. "As estradas são para as pessoas," proclamou, após um episódio de alta velocidade digno de ser narrado por Sílvio Luiz, com direito aos bordões “olho no lance!” e “pelas barbas do profeta!”.

 

O desfecho dessa saga urbana não poderia ser mais dramático. A lei japonesa, pouco acostumada a tratar casos de homicídio avícola, convoca um veterinário para realizar uma autópsia na vítima fatal, buscando evidências de que a morte foi um trágico encontro com o táxi de Ozawa. A conclusão? Um choque cruel, doloso, digno de cadeia.

 

Nas redes sociais, a coisa pega fogo, com pessoas chocadas com o fato de que atropelar uma pomba possa render cadeia, enquanto outras acham que o motorista passou dos limites. Quem diria que esses símbolos pacíficos iriam causar tanta polêmica?

 

A má vontade com as pombas tem explicação: por serem bonitinhas e ordinárias, as pessoas gostam de alimentá-las com restos de comida, algodão doce, pão, pipocas, que são alimentos inadequados e prejudicam a saúde, além de viciá-las.

 

Como já não são mais caçadas por predadores urbanos (os gatos preferem ração de boa qualidade), cresce sem controle a população de pombas e o aumento tornou-se um sério  problema, pois são potencialmente perigosas para a saúde humana. 

 

A Salmonelose, por exemplo, é uma doença infecciosa provocada por bactérias, e a contaminação ocorre pela ingestão de alimentos com fezes (coisa que prefiro acreditar nunca aconteceu comigo ou com você). Ou a Histoplasmose, provocada por fungos que se proliferam nas fezes de aves e morcegos, cuja contaminação se dá pela inalação de esporos (células reprodutoras do fungo).

 

A versão brasileira da novela japonesa será facilitada pela atual concentração da sociedade em dois lados, onde adversários são tidos como inimigos e transgredir as regras é sempre justificável. Quem procura se manter fora desses dois polos, com outras visões e ideias, ou mesmo quem defende que ambas as facções têm acertos e erros, é tratado pejorativamente como “isentão”. E tome insultos e patrulhamento ideológico!




Sem trocadilho, penso que essa gente intolerante e raivosa anda precisando mesmo é de meia hora de pomba (com o relógio parado!). E não estou falando de uma qualquer, mas daquelas que tiveram o privilégio de voar das mãos de Teotônio Vilela e de Fafá de Belém. Se voltaram, não tenho notícia...