quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Quase deu certo

Quase tudo já foi dito sobre os 80 anos de Caetano Veloso, celebrados em grande estilo na noite do último domingo, ao lado dos filhos Moreno, Tom e Zeca e da irmã Maria Bethânia, no palco da Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. 

 

Ao assistir à live, lembrei-me de Claudionor Viana Teles Veloso, mais conhecida como Dona Canô, mãe e avó deles, que desde o Natal de 2012 virou estrelinha cintilante no céu da pequena Santo Amaro da Purificação, berço do samba de roda no Recôncavo Baiano. 

Matriarca da família, sua influência não se limitava ao clã, mas a tudo que se mexia na aldeia, sob o ponto de vista cultural, político e religioso. Não à toa, a novena de Nossa Senhora da Purificação virou a “novena de Dona Canô” e os atabaques dobravam à sua passagem. Não por acaso, ela mantinha relações amistosas com figuras antagônicas como Luís Inácio Lula da Silva e Antônio Carlos Magalhães, sem perder a ternura jamais.

 

Quando cheguei à Bahia para coordenar a rede de agências do Banco do Brasil, em 1999, me contaram que em algumas regiões havia pelo menos 60% de analfabetos – zona rural de Jacobina, por exemplo. Enquanto isso, dormia empoeirado na prateleira da empresa um remédio poderoso para abrandar a dor desse flagelo social: o BB Educar, programa de alfabetização de adultos, criado em 1992 pela área de RH do bancão com base no método mundialmente reconhecido do filósofo e pedagogo brasileiro Paulo Freire.

 

Sem as plataformas de comunicação de hoje em dia, era importante escolher uma fada-madrinha de peso (e leve, ao mesmo tempo!), para despertar o interesse geral pelo BB Educar na Bahia e esclarecer a opinião pública sobre o seu propósito, bem mais amplo do que simples retorno de imagem para o patrocinador.

 

Quem poderia ser essa fada-madrinha? Daniela Mercury? Ivete Sangalo? Zélia Gattai? Optamos por convidar Dona Canô, que, no entusiasmo de seus 92 anos, topou na hora: “É isso mesmo que estou ouvindo? Vocês querem que eu seja a madrinha de um programa lindo como esse?!”

 

No dia do lançamento, ela atiçava seus “afilhados”, a maioria na casa dos 40 anos, constrangidos por não saberem ler nem escrever: “Minha gente, vocês têm mais é que agradecer a Deus por essa oportunidade, porque quem aprende, mesmo depois de velho, deixa de tentar ‘adivinhar’ o que está escrito nos livros e nos jornais...”

 

Antes de pegar os 80 km da rodovia BR-420 de volta para Salvador, eu e Magdala, minha mulher, recebemos um gentil e inesperado convite de Dona Canô:

– Quero que voltem aqui na minha casa, em agosto, quando iremos comemorar o aniversário de Caetano. Posso contar com vocês? 

– Claro, Dona Canô!

 

Seria a oportunidade de ver de perto o sorriso iluminado de sua caçula, uma abelha-rainha a cantarolar descalça, na sala ou no quintal, versos do irmão aniversariante como: 


“...Eu sou o cheiro dos livros desesperados,

sou Gitá gogoia, seu olho me olha, mas não me pode alcançar.

Não tenho escolha, careta, vou descartar:

Quem não rezou a novena de Dona Canô,

Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor,

Quem não amou a elegância sutil de Bobô,

Quem não é Recôncavo nem pode ser reconvexo...”


 

Era a chance de conhecer de perto o cara que, quando menino, de tanto ver o rio de sua aldeia desaguar na Baía de Todos os Santos, construiu imagens de infinita beleza:

 

“...Reza, reza o rio, córrego pro rio, o rio pro mar.
Reza a correnteza, roça, beira, doura a areia.
Marcha o homem sobre o chão, leva no coração uma ferida acesa,
Dono do ‘sim’ e do ‘não’ diante da visão...”

 

“Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer...”

 

“Existirmos: a que será que se destina?”

 

“Você diz a verdade e a verdade é o seu dom de iludir”.

 

“O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece...”

Imaginem só o tamanho da frustração lá em casa – quase sai divórcio... Litigioso! – quando, na véspera do retorno a Santo Amaro, tive que me desculpar junto a Dona Canô, pois teria que me deslocar a outra cidade, por força de obrigação profissional. 


Muitos anos depois, em 2012, pouco antes de Dona Canô ser intimada por todos os santos a brilhar no céu da Bahia, encontrei Bethânia, nos bastidores do Teatro Nacional, em Brasília, após a realização de um espetáculo em que interpretou a obra de Chico. Até cogitei contar o que conto agora e quase deu certo, mas desisti. Afinal, o tempo não para… Nem volta.

A verdade (no caso, o dom de me iludir!) é que ainda não chegou o dia de conhecer Caetano. Ainda bem que, feito o tempo (“compositor de destinos, tambor de todos os ritmos”), o filho de Dona Canô nunca envelhece. 

 


44 comentários:

  1. Com a proteção de Todos os santos. Parabéns.

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  2. Belas recordações, Jurema!
    Em relação ao golaço que foi o BB Educar na Bahia, até 1999, o programa havia beneficiado cerca de 1.300 jovens e adultos em todo o estado.
    De 1999 a 2001, sob as bênçãos de D. canô, foram mais de 18 mil novos alfabetizados… muito legal!!! 👏🏼👏🏼

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    1. Bem lembrado, Avelar! Renovo aqui minha gratidão a você e a Vânia Venâncio, criadores de uma poderosa networking, envolvendo líderes comunitários de todo o estado, numa época em que não existiam FaceBook, Twitter, Whatsapp etc.

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  3. Eu gosto muito do lema do BB Educar: ler, aprender, libertar-se.
    Em uma oportunidade de encerramento de uma das turmas do BB Educar em Ipirá-BA, ouvi de uma senhora, dos altos dos seus 70 e poucos anos…. “Agora eu posso ler a bíblia!”

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  4. BB Educar, D Canô, muitos voluntários nessa boa causa, milagres foram feitos, rsrs . “O filho de D Canô não envelhece “ e os bons propósitos também não. E compromisso de um funcionário dedicado falou mais alto do que um belo encontro com a cultura na casa dos Veloso.

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  5. Pela bela crônica, já deu muito certo… cultura, sensibilidade, afinidade sobram entre vocês!

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  6. DEBORATH DE ALMEIDA10 de agosto de 2022 08:22

    Texto maravilhoso, à altura da genialidade Caetana, da doçura Conôense e da potência Betânica. Eu tinha muita vontade de ter conhecido a mãe Canô, de ventre sagrado, que gerou pérolas raras. Como teria apreciado a sua frigideira de maturi, de ter ouvido suas histórias, contos e causos . Ela foi e segue sendo referência de ativismo pacifico e sábio. Caetano é poesia e resistência, um camaleão. O vi pela primeira vez num show em defesa da Lagoa do Abaeté. Moço lindo, leve e livre. De corpo franzino e mente infinita. Ele é uma das mais fortes e belas expressões da nossa música e poesia. Adorei saber que seu projeto de futuro é voltar pra Bahia. Espero que volte logo e possamos curtir muito o rugido do nosso eterno leãozinho.

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  7. Só tem histórias que as vive. Se Caetano vive, a história tá vivida. Valeuuuuuu

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  8. Muito bom artigo. Parabéns!

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  9. BB Educar, um belíssimo programa. Parabéns pela crônica. Abração.

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  10. Educação: essa é a saída para o nosso Brasil. Um país que está entre as maiores economias do mundo não pode se conformar com indicadores vergonhosos nessa área. A sensibilidade do Banco do Brasil, contando com colegas formados pra ministrar aulas a pessoas analfabetas fez a diferença em muitas comunidades. A sua escolha da madrinha do Programa na Bahia, D. Canô, foi de extrema felicidade.
    Aliás, Hayton, você foi um dos executivos do BB que se destacou em prol da educação, da formação dos profissionais do BB. Parabéns!

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  11. O comentário acima que aparece como anônimo é do Haroldo Vieira

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  12. Quando esses luminares das artes e desse período se forem (saudades do Jô), frutos de uma época de produção que dificilmente se reproduzirá à altura, um grande vazio se abaterá sobre a cultura brasileira. Tive o privilégio de abraçar Bethânia e Gil, no ano 2000, no camarim pós show. "O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece" e "Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não para". Um blend de Caetano e Cazuza, (um CaeZuza?), monstros sagrados da música e do belo!

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  13. Me lembro da repercussão que foi o BbEducar na sua gestão da Super-BA. A escolha de D.Canô foi uma benção, pois escolhestes, entre tantas outras personalidades da mídia, uma que apesar de ser conhecida não costumava ser notícia.
    Parabéns por mais esta.
    Perpétua

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  14. Bom Dia...
    Hoje a sua baianidade superou os muros da cultura nordestina e brasileira.
    PARABÉNS, pelo texto, que faz seus leitores viajarem a Santo Amaro da Purificação, especialmente aqueles que já pisaram naquele solo sagrado. Quem teve oportunidade de conhecer D. Canô sabe o tanto que ela vibrava com tudo que valorizava o ser humano... Sem falar de sua paixão pelo BB (quando seu frágil corpo ainda permitia, visitava , quase que com frequência diária, nossa "loja" em Santo Amaro)...
    Que motivação de D. Canô pela vida inspire a todos...

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  15. Nessa bela crônica, Hayton, você caetaneia o que há de bom no BB - ou será havia?: o BB Educar, uma das mais belas iniciativas de desenvolvimento social implementadas pelo BB.
    Parabéns!!

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  16. E A SEDA AZUL DO PAPEL QUE ENVOLVE AS MACAS. Indescritível experiência com o BB EDUCAR. Só de lembrar os olhos daqueles pequenos que uma vez por mês levava algumas lembrancinhas para sorteios, acompanhado de guaraná salgados e doces. Me envolvi em 3 oportunidades. Afloram meus instintos mais puros só de lembrar. Forte abraco Mestre.

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  17. Maravilha!!! A vida que o Banco nos permitiu foi maravilhosa!!!! Bela história!!!

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  18. Mais uma vez brilhante na arte de contar histórias que passeiam pela sua vida, pelas nossas e pelo que importa para todos, afinal!

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  19. Que história tão importante! Escolher D. Canô para madrinha desse rico trabalho de alfabetização na Bahia através do BB Educar foi um “gol de placa”, Hayton! Parabéns a você e a todos que fizeram isso acontecer.

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  20. Esses “quase acontecimentos” criam uma mística superior aos fatos em si. O gol que Pelé não fez, o pênalti perdido pelo Zico, o encontro frustrado com Caetano…
    Ele deve estar lamentando até hoje!

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    1. Se tivesse acontecido, talvez não rendesse uma crônica. Às vezes, uma bola no travessão gera mais resenha do que um gol. A vida como ela é, como diria Nelson Rodrigues.

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  21. "O tempo não para"...
    Nem para os SAGRADOS, o que pensar de nós, meros profanos...
    Imaginei que sua crônica de hoje, 80 Carnavais depois de muito Caetanear, viria como de hábito: recheada e permeada de encantos. Bingo !! (pra mim).
    Parabéns, meu velho.

    Caê, por não conhecê-lo, "não sabe o que tá perdendo". Eu sei.

    👏🏼👏🏼👏🏼

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  22. Emilio Hiroshi Moriya10 de agosto de 2022 17:04

    Bela crônica. Em Brasília o BB Educar foi muito bem de 2002 a 2007, quando a FBB tirou apoio material e enfraqueceu o programa.
    Mesmo assim, nossos voluntários continuaram, com outro nome: Programa Alfa, coordenado por mim. Beneficiou 4 mil pessoas.

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  23. Parabéns! Que recordação agradável.

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  24. Hayton, como sempre bela crônica! O BB Educar, um show… Acho que se checar a lembrança dessa bela iniciativa do Banco, ao Fausto, pelo jeitão dele, é bem provável que ele encampe a idéia de turá-la novamente do papel!
    Abs

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  25. Belíssima crônica tecendo um bordado cultural, pedagógico e emocional entre Dona Canô, seus filhos e um dos mais belos programas de inclusão que o BB já teve! Parabéns!

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  26. Fala maravilhosa e também poética sobre figuras tão destacadas no nosso cenário pátrio. Causa grande inveja o fato de o escritor ter tido a felicidade de relacionar-se com pessoas tão destacadas. Seu sorriso largo em muito rivaliza com o do citado cantor e compositor baiano. Sem dúvida, uma grande felicidade ter feito parte dessa história. Cujas trajetórias cruzadas tiveram o condão de levar as letras para um sem-número de pessoas, antes atadas à escuridão do analfabetismo. As poesias citadas em cortes, servem para avivar e dar mais brilho a essa sempre interessante lida. Que semanalmente nos servem como fonte de saber e conhecimento. Bem contada como foi, deixa-nos satisfeitos, enquanto leitores ávidos por ter acesso a causos sempre interessantes e pitorescos. Contados com extrema maestria e genialidade.
    Roberto Rodrigues

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  27. Super interessante você trazer pra gente, amigo Hayton, recordações tão bonitas e mais distantes da época em que tive a alegria e a honra de ser o superintendente do BB naquele estado gigante, num momento em que se agigantou ainda mais ao incorporarmos quase 300 mil novos pagamentos do governo do em nosso portfólio, negócio antes conduzido pelo banco vermelhinho concorrente! Naquele instante, o Bradesco, em estratégia ousada de “retenção de clientes”, resolveu contratar uma atriz global, bonitona e poderosa à época, o que nos provocou e, para nossa alegria, Dona Canô foi a “garota propaganda” do BB para nos ajudar a fazer esse “contra-ataque” necessário! E deu super certo!!! Além do apoio que tivemos de todos os colegas de quase todos os estados do país!! Movimento de guerra verdadeira que enfrentamos, à época! Além disso, no dia que cheguei para tomar posse no estado, em 2018, ao desembarcar, já fui direto do aeroporto para a festa de 100 anos de nossa querida Dona Canô! Ou seja, ela sempre querida e presente na vida do BB e, claro, também nossa! Obrigado, Hayton, por mais essa sua linda história e memória!!!

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    1. Pela “caligrafia”, dá pra perceber que se trata do grande Rodrigo Nogueira! Valeu, meu amigo!

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    2. Desculpe amigo, mas minha sabedoria eh pouca para essas modernidades digitais!!! Hahaha sou eu mesmo!! Hehehe

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    3. Essa emoção também tive a oportunidade de viver, dessa vez, liderado por esse grande amigo RSN, na minha segunda passagem pela Bahia, estado sempre muito acolhedor. Mais uma oportunidade em que o BB escreveu algumas páginas da história daquele grande e cheio de magia… “um estado chamado Bahia”.

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  28. O golaço foi tAo espetacular, que pensei ter sido sua criação. Nunca soube que dormia empoeirado nas prateleiras do BB. Mais uma vez parabéns pelo golaço.
    Aguilar

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  29. Que lembrança fantástica! Cheguei na Fundação em 2001 e lembro da ex-presidente Heloísa Helena falar dos seus feitos à frente da Rede Bahia. Parabéns por construir tantas conquistas de valor para o BB!!!

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    1. Bons tempos, Paulo Bouças e Hayton Rocha!

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  30. "Quem não amou a elegância sutil de Bobô.
    Quem não rezou a novena de Dona Canô..."
    .
    Em todos os campos, a elegância sutil de Bobô faz um enorme falta
    .
    E, pelo jeito, diante de tanta intolerância - religiosa inclusive -, muita gente também não foi à missa da dona Canô. Infelizmente.
    .
    Fiz parte do BB Educar no Rio Grande do Norte e tive o privilégio de conhecer Paulo Freire quando a cidade de Angicos o homenageou. Em "Cartas a Cristina" ele relata essa homenagem. Escrevi na página do livro: Eu estava lá.
    .
    Parabéns!

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  31. Bela lembrança de mais um programa fantástico do Banco, parabéns.

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  32. Bela crônica. BB EDUCAR deu vida a muitos. Horizontes foram descobertos... bons momentos

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  33. Você brinca de escrever crônica, não tenho como não pensar assim. Fica em mim a sensação de que você "liga um brinquedo" e começa a se divertir com ele.
    Só assim consigo entender como você consegue tanta leveza, qualquer que seja o tema sobre o qual discorra.
    Essa crônica aí precisa chegar ao conhecimento de Caetano - tem que haver alguém, entre seus leitores, com acesso a ele, para enviá-la.
    Tenho certeza de que ele se inspirará e produzirá uma nova pérola, em forma de poesia e música, à altura de sua obra.
    Efusivos parabéns e grande abraço.

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  34. Quando trabalhei em Salvador tive a oportunidade de conhecer Dona Canô em sua residência em Santo Amaro.
    Nesse dia, por ocasião das festas, a Fundação Banco do Brasil foi patrocinadora de um grande show de Caetano e Bethânia em palco instalado na praça, tendo como convidado Milton Nascimento.
    Tudo alí respirava cultura!
    Lendo o texto, relembrei todo o meu passado pelas terras baianas que tanto amo.
    Obrigado por mais essa pérola!😊

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  35. Rapaz, como você consegue guardar tantas memórias, tantas fotos, tantas situações? Que delícia de texto!

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  36. É Hayton, o bb educar produziu muitas histórias lindas de se contar assim lindamente. Parabéns

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