quarta-feira, 17 de agosto de 2022

E se a cor do gato fosse outra?

Desde quando me entendo por gente (ainda não estou muito certo disso!), uma das discussões mais improdutivas que vejo diz respeito ao papel do Estado na sociedade. Empresários, estudantes, militares, políticos e religiosos, todos opinam sobre quais devem ser as atribuições e os limites do Estado, mas nunca se chega a um consenso.

 

A queda-de-braço política que toma conta da nação – danação também não estaria mal – torna mais difícil avançar nesse terreno minado. Há menos de um ano, por exemplo, um certo ministro colocou mais uma vez o Banco do Brasil, a Petrobras e todas as demais estatais no folder da liquidação. 

 

“Um plano para os próximos 10 anos é continuar com as privatizações... Todo mundo entrando na fila, sendo vendido e sendo transformado em dividendos sociais”, declarou ele, em 27 de setembro de 2021, ao participar do encontro “O Brasil Quer Mais”, organizado pela International Chamber of Commerce (ICC).

 

Pode ter razão, mas não será dele, nem isoladamente de ninguém, a decisão final. 

 

Isso me leva a pensar sobre os graves problemas na educação pública brasileira, onde ainda existem crianças no 6º ano do ensino fundamental que não sabem ler nem escrever. Só para falarmos das matriculadas. Imaginemos aquelas fora da escola! 

 

Para mim, é o retrato da estrutura educacional do país: um círculo vicioso que vai da baixa remuneração, passa por despreparo de professores e diretores, instalações precárias, evasão escolar, e deságua na omissão de pais na educação de seus filhos, como se a tarefa fosse exclusivamente da escola.

 

Sem desmerecer o papel histórico do Banco do Brasil no desenvolvimento econômico nacional, me pego divagando: e se D. João VI, de ressaca, depois do indefectível frango assado e de algumas garrafas de vinho na noite anterior ao dia 12 de outubro de 1808, ao invés de um banco, tivesse decretado a abertura de uma escola pública que chamarei de BoraBrasil? Explico-me mais adiante.

 

Claro que poderia também pensar na abertura de uma confraria tropical de agiotas para atender às demandas de uma nova economia, mas já existiam banqueiros europeus estabelecidos que enxergavam boas perspectivas de negócios no Brasil com a chegada da família real. E duvido que fossem à falência por conta dos saques realizados quando do retorno de D. João VI a Portugal, como aconteceu duas décadas depois, em 1829. 

 

E se durante os últimos 213 anos todos os recursos públicos e privados investidos no banco (humanos, materiais e tecnológicos) fossem direcionados para a educação, de primeiro e segundo graus, em “agências” de ensino-aprendizagem estruturadas do Monte Caburaí, na nascente do rio Ailã, em Roraima, até o Arroio do Chuí, no Rio Grande do Sul?

 

Tem mais: e se os professores e diretores dessas agências fossem capacitados não para distribuir crédito rural subsidiado na abertura de fronteiras agrícolas — um dos motivos da brutal concentração de renda no país —, mas sim para discutir no meio rural coisas como: manejo de águas e solos, controle de pragas, diferença entre plantar para vender e vender para plantar?

 

É pouco? E se outros funcionários fossem treinados não para abrir contas correntes ou fazer pagamentos e recebimentos, e sim para disseminar nas cidades coisas como: mapeamento de ameaças e oportunidades de negócio, gestão de recursos escassos, redução de desperdícios, diferença entre causa e consequência de problemas econômico-financeiros?

 

Livre pensar é só pensar, dizia Millôr Fernandes. Pois bem: E se a proposta didático-pedagógica da BoraBrasil tivesse por pano de fundo as ideias de Frei Betto abordadas em seu artigo A escola de meus sonhos? Para ele, na escola ideal não haverá temas tabus. “Todas as situações-limites da vida devem ser tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade... o texto dentro do contexto: a matemática busca exemplos na corrupção... o português, ...nos textos de jornais; a geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a física, nas corridas da Fórmula 1 e pesquisas do telescópio Hubble; a química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a história, na violência de policiais a cidadãos, para mostrar os antecedentes na relação colonizadores-índios, senhores-escravos...”

 

Com esse caldo de cultura engrossando em fogo baixo ao longo de dois séculos, uma escola teria contribuído bem mais que um banco para alçar o país a degraus mais elevados de desenvolvimento socioeconômico.

 


E quando alguém cogitasse privatizar a BoraBrasil, a própria sociedade estaria preparada para dizer se vinha sendo bem servida, ou não. Afinal, como disse Deng Xiaoping (1904 — 1997), líder político que fez da China o país de maior crescimento econômico do planeta, “não importa se o gato é preto ou branco, desde que pegue os ratos”.

 

Para os conformistas, restaria imitar resignadamente Avelar, o general que não aderiu ao golpe (personagem dos cartunistas Hubner, Cláudio Paiva e Agner, em tirinhas, nos anos 1970, na última página de O Pasquim): 

— Não iria dar certo mesmo... 




30 comentários:

  1. Como sugere Millôr é livre pensar, desse pensamento extrair joias é mais difícil. Bela reflexão não privatizável.

    ResponderExcluir
  2. Bela divagação. Talvez, se meu ilustre xará, nessa ressaca criativa, tivesse criado as duas versões dos “BBs”, nosso país fosse outro. Mas e o Brasil, que tanto amamos, como seria?
    BoraBrasil, por quê?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Porque “Bora” é o grito da torcida que escuto desde criança, vindo das arquibancadas, querendo que um time tenha coragem, supere as adversidades do jogo e lute para vencer até a última gota de suor.

      Excluir
  3. Concordo . Mas haveria que se encontrar um meio de motivar , enganjar efetivamente os professores , o servidores públicos , não poderia ser como hoje em qur não estão verdadeiramente compromissados com o ensino. Há muito que mudar .

    ResponderExcluir
  4. E se D. João VI não tivesse fugido, covarde, daquela que Napoleão chamou de orelha de terra. Se não tivesse, amaldiçoadamente, lapidado as minas gerais e enchido de ouro o clero comprado de então? Se ao invés de portugueses fossemos uma nação nascida da liberdade, igualdade e fraternidade de Immanuel Kant, Jean-Jacques Rosseau, John Locke e Montesquieur? Se tivessemos mulheres às ruas a bradar por "pão, pão, pão" ? Teríamos nascido da luta e não da misericórdia, seríamos nação, não colônia, seríamos fortes, não os que dizem que o governo precisa fazer algo por nós, seríamos inconformados e não currais eleitorais de discursos fáceis de auxílios e mais auxílios a comprar nossas bocas famintas e cérebros fracos. Enfim, D. João, você foi a danação da nação brasileira. e o Bora Brasil virou hoje apenas um braseillllll, de Gil do Vigor. Triste.

    ResponderExcluir
  5. Hayton, que reflexão danada! Como seria começar tudo de novo, e fazer tudo diferente, como sugere o Marcos Marques - que, por sinal, foi fundo no seu comentário?

    ResponderExcluir
  6. Excelente imaginativa, para nos fazer refletir.

    ResponderExcluir
  7. O Brasil só tem 2 correntes políticas, que só divergem em 2 questões: o tamanho do Governo e o número de convidados para o banquete do desenvolvimento.
    Um quer o máximo possível e o outro o mínimo necessário. Para as 2 questões. Dedé Dwight

    ResponderExcluir
  8. Belo texto. Fiquei a imaginar esse Brasil do BoraBrasil. Parabéns!
    Ass.: Diogo Braz

    ResponderExcluir
  9. Excelente reflexão! O bom humor permite falar sério, fingindo que está brincando.
    Parabéns!

    ResponderExcluir
  10. Bom Dia. Complexa situação que não permite, a curto prazo, modificar estruturas e nem implementar mudanças de cunho social...
    Não resta dúvida que a escola formal perdeu qualidade. Ao mesmo tempo, a população foi "empurrada" a absorver as modernas ferramentas da comunicação. Isso tudo forçou o cidadão comum a correr para as "modernidades culturais" e, nem sempre, acompanhadas de melhor qualidade de vida...

    ResponderExcluir
  11. Oba! Vamos começar tudo de novo e de forma diferente.

    ResponderExcluir
  12. E se a gente não gastasse quase um terço do PIB com pagamento de juros ao capital especulativo? E se os grandes “empreendedores” deixassem de socializar os prejuízos (pedindo perdão de dívidas e abatimento de impostos quando os negócios vão mal) e parassem de privatizar os lucros quando tudo vai bem? E se a gente deixasse de comprar leite condensado e próteses penianas pra certos segmentos e remunerasse melhor os professores? E se a gente deixasse de nomear pra presidência do BB alguém que trabalhou intencionalmente pra desqualificá-lo perante a sociedade? E se a gente, como nação, respeitasse alguém como Paulo Freire (aliás,respeitado no mundo inteiro), que desenvolveu um método de aprendizagem prático na linha do pensamento de Frei Betto e hoje é execrado por certos segmentos tupiniquins? E se …

    ResponderExcluir
  13. Lendo, internalizando e aprendendo sempre. Precisamos ter coragem para ser a força propulsora das mudanças que o Brasil precisa.

    ResponderExcluir
  14. Novamente, dá gosto saborear os pensamentos do autor. Cuja criatividade extrapola todos os limites conhecidos. Que país seríamos com uma educação que realizasse o fim de transformar vidas? Capacitar os gatos para, com técnica apurada e desenvolvida, capturar os ratos que pululam por toda parte. Quão diferente seria. Muito provavelmente seríamos nós a grande locomotiva que puxaria o mundo. Mas, qual o quê? A realidade é cinza. O atraso ainda grassa e impede o exercício pleno da cidadania. É sempre muito bom sermos chacoalhados a pensar. Analisar criticamente. Nisso Hayton é mestre. Por ele, com sua brilhante escrita, divagamos por mundos pouco prováveis. Só podemos agradecer pela oportunidade.
    Roberto Rodrigues

    ResponderExcluir
  15. Sobre esse tal ministro, teve um tal presidente que defendeu o prêmio 'Nobel' de Economia para ele. Nesse caso é melhor acreditar nas profecias de um certo ex-BBB. "tamo lascados".
    .
    Mas, para ficar no lado sério da crônica, e, pra tentar entender o banco que todo mundo quer tirar uma lasquinha, Jorge Caldeira, em Mauá - Empresário do Império, já nos conta o que aconteceu com o banco fundado por D. João VI. Vale à pena a leitura.

    ResponderExcluir
  16. Ótima reflexão! Valendo para análise de todos, independente de posição. Pensar, considerando, as opiniões, caminhos e possibilidades, sempre valerá a pena.

    ResponderExcluir
  17. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  18. O BoraBrasil ainda tem chance. O problema é a covardia do estado em relação à educação. Vai que ia dar certo...

    ResponderExcluir
  19. Eu vou me permitir não colocar opinião pessoal sobre o assunto, porque é um tema que tem despertado paixões mais alucinadas que as geradas pelo futebol.
    Só que confesso que fico estarrecido com o que tenho observado, até acho que o maniqueísmo nunca foi praticado, em nenhum lugar ou época da história da humanidade, como acontece hoje em Pindorama, com os adeptos de Lula e Bolsonaro.
    Por isso, abstenho-me, certamente eu ofenderia os dois lados com uma opinião apenas baseada em fatos comprovados.
    Quanto a sua crônica, mais uma vez você extrapola - já é quase uma lugar-comum - , mais uma vez acerta no alvo, é cirúrgico.
    Não me surpreenderei se um dia você abordar a REBIMBOCA DA PARAFUSETA. A conferir...

    ResponderExcluir
  20. Hayton,

    Minha formação se deve muito mais ao Banco, onde iniciei aos 14 anos e 6 meses, do que ao estudo formal nas escolas e faculdade, inquestionavelmente. Em decorrência, meu desempenho sempre foi acima da média e eu agradeço aos ensinamentos recebidos na empresa.

    De Cristóvão Buarque, quando candidato à Presidência da República, se dizia que só tinha um programa de governo: Educação. Creio que da falta dela decorrem todos os outros problemas brasileiros. Sou pessimista quanto ao futuro por notar que a cada legislatura piora a qualidade dos nossos políticos (os do legislativo, principalmente, já dizia Ulisses Guimarães). Vejo-os como um câncer corroendo as esperanças de dias melhores. São os primeiros a não se interessar por uma educação de qualidade. Afinal, um povo esclarecido faria escolhas melhores. Não sei até que ponto o autor concorda comigo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você tem razão, Silas. O conjunto de forças com larga influência decisória dentro da sociedade brasileira (grandes agentes econômicos, políticos, pessoas com elevado poder aquisitivo, grupos midiáticos e religiosos etc), o chamado “establishment”, não demonstra qualquer vontade concreta de mudar radicalmente o nosso quadro de indigência educacional. Não consegue enxergar que, a médio prazo, estamos todos bovinamente marchando para o brejo. Ou para o matadouro da civilização.

      Excluir
  21. Agostinho Torres da Rocha Filho18 de agosto de 2022 16:08

    Aprendi ainda nos primeiros anos do ensino fundamental que a ordem dos fatores não altera o produto. Conversa fiada! Cinco décadas após, descobri que o produto interno e bruto de qualquer país depende fundamentalmente da ordem de prioridade que se dispensa aos seguintes fatores: educação, saúde, segurança, transporte e moradia. No Brasil, o que menos importa é o tamanho do Estado, até porque os nossos representantes de todas as matizes políticas estão mais interessados é no número de convidados para o banquete, como diria Swayer. Não me surpreende que a cerimônia de posse do atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ministro Alexandre de Moraes, realizada na última terça-feira, tenha sido a mais concorrida da história republicana. O mais grave é que nenhuma das autoridades presentes mencionou uma única vez a palavra "educação". Que Deus tenha piedade de todos nós! BoraBrasil!!! Parabéns, meu irmão! Texto suave e criativo que nos remete a uma profunda reflexão sobre o passado, o presente e o futuro da sociedade brasileira.

    ResponderExcluir
  22. O BoraBrasil ainda é possível. O BB rende bilhões por trimestre. Por que não usar esse lucro na educação? NÃO…. Vamos vender o Banco. Desfazer do que dá lucro. (Vide caso da Vale). “Eles” só pensam em destruir. Infelizmente isso é Brasil….
    Não sou nem político nem economista!
    Aguilar

    ResponderExcluir
  23. Nossa, o texto rebuscado fez meu HD interno esquentar e quase explodir! Foram tantos "e se" que fiquei tonto pensando e se esses "e se" tivessem acontecido?

    ResponderExcluir
  24. Amigo Hayton, suas considerações nos conduz a um novo Brasil, socialmente justo, humanizado e desenvolvido. Imagine a estrutura educacional do nosso país modernizada, com docentes bem remunerados e profissionalizados, com aulas em tempo integral e com pais comprometidos com a formação dos filhos. Se isso ocorresse, creio que em uma década muitos problemas sociais e econômicos estariam resolvidos. E veja que é factível, pois muitos países já o fizeram. Para o Brasil falta a vontade política.
    Abraços

    ResponderExcluir
  25. O que falta no Brasil é caráter em muitos níveis, inclusive no trato da educação.

    ResponderExcluir
  26. Um texto provocador...e se...e se...a criação fosse de bancos e escolas com interesse público? Não, não são excludentes...

    ResponderExcluir