janeiro 28, 2026

O gol que marca

O GOL QUE MARCA 
Hayton Rocha


Em ano de Copa do Mundo, a fronteira entre herói e vilão é estreita como as traves em disputa de pênaltis. Um chute torto, uma arrancada perfeita, e a História decide quem sobe ao pedestal e quem desce para o porão. Uns viram lenda — Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo. Outros viram cicatriz — Barbosa, Cerezo, Felipe Melo, Dante. A pressão é cruel: idolatra ou condena. E quase sempre faz isso em míseros noventa minutos.


Pensava nisso quando lembrei de João Batista de Almeida, amigo querido, vascaíno, que partiu há cinco anos. Ele costumava dizer que certas histórias só continuam existindo porque alguém insiste em contá-las — como cartas velhas que se recusam a sumir em dia de mudança.


Segundo João, em julho de 1958, uma menina de dez anos se recuperava de uma cirurgia na perna, no apartamento da família, no Rio de Janeiro. Vítima da poliomielite desde bebê, aprendera cedo que o corpo também pode ser território em disputa. Para enganar o tempo, montava um álbum de recortes dedicado a Bellini, zagueiro vascaíno e capitão da seleção campeã do mundo na Suécia. Um pequeno altar doméstico para um ídolo que não precisava se anunciar.


Num fim de tarde, a porta se abriu. “Boa noite”. Era Bellini.





Alguém lhe falara da menina. Entre compromissos, treinos e a ressaca do título recém-conquistado, ele foi. Sentou-se, contou histórias da Suécia como quem exagera uma pescaria. A menina ficou muda, travada. Alguns encontros dispensam palavras.


Dois anos depois, Bellini a reconheceu na rua, em Copacabana. Ela já andava melhor, carregando no corpo a esperança de voltar a andar sem esforço. Contou que faria a segunda e última cirurgia. Dias depois, Bellini ligou para o hospital, soube que tudo correra bem e apareceu para visitá-la. Levou bombons. Nada além disso. Um gesto simples, desses que não rendem manchete nem curtidas, mas sustentam uma emoção por semanas — às vezes por décadas.


O tempo passou. A menina virou Célia Vaz: cantora, maestrina, violinista. Em 1972, ganhou bolsa para estudar na Berklee College of Music, em Boston. Formou-se em Arranjo e Composição em 1976. Reconhecida no Japão, na Europa e nos Estados Unidos, tornou-se mais celebrada fora do que aqui — destino recorrente de talentos brasileiros que precisam atravessar oceanos para serem escutados em casa.


Em pouco mais de meio século, Célia foi a São Paulo visitar Bellini, aos 81 anos, e a mulher, Giselda. Deu-lhe um beijo. Também levou bombons. Entre um afago e outro, um filme silencioso atravessou a sala. As lágrimas caíram livres sobre os rostos, sobre a memória, sobre a caixa aberta. Há coisas que o tempo não estraga. Sabem esperar sem alterar o sabor.


Sei que o jogo mudou, como tudo muda. Ainda assim, custa imaginar uma cena dessas se repetindo hoje. Nem os clubes mais vitoriosos conseguem produzir ídolos admirados até por torcidas adversárias, como foram Ademir da Guia, Zico e Roberto Dinamite. O futebol moderno fabrica atletas precisos, eficientes, monitorados por métricas. Fabrica desempenho. Raramente fabrica encontros.


O jogo virou xadrez em alta velocidade. Tático, físico, estudado até o último centímetro do gramado. Os jogadores se encaixam em engrenagens rígidas, como peças substituíveis. O improviso — primo irreverente da genialidade — passou a ser tratado como risco.


Clubes e atletas viraram marcas. O escudo divide espaço com patrocinadores; o amor, com o mercado. A carreira virou portfólio. A fidelidade, um item opcional. Relações que antes levavam décadas para se formar hoje duram o tempo de um anúncio.


As redes aproximaram demais. O ídolo, antes distante e misterioso, passou a caber na palma da mão. Aproxima, mas desgasta. O encantamento não resiste ao excesso de luz. Aprende-se a posar, a editar, a se proteger. Vira personagem de si mesmo.


Talvez vivamos a fase mais imediatista de nossas vidas. Não toleramos falhas. Tudo é descartável. Será que aplicamos essa lógica também aos ídolos? Não suportamos a derrota, a queda. Esquecemos que dentro de toda grande conquista moram alguns fracassos — e que são eles que nos engrossam a casca.


Pode ser que o passado fique mais generoso visto à distância. Ainda assim, algo se perdeu no caminho: o gesto gratuito, o tempo doado sem agenda, a visita sem assessoria de imagem, a caixa de bombons entregue sem câmera.


Bellini não precisou ser gênio do futebol. Salvou uma tarde, uma menina, um álbum de recortes.


Isso não entra em estatística nenhuma. Mas atravessa décadas sem perder o brilho. Com o mesmo sabor.

9 comentários:

  1. Parabéns amigo ! Num mundo cada vez mais estranho relembrar o passado em suas cores e sabores traz conforto a alma .

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  2. ADEMAR RAFAEL FERREIRA28 de janeiro de 2026 às 04:55

    A Lei da Reciprocidade não tem métricas ou regras pecuniárias, tem como marco legal outros fundamentos. Alguns deles são tratados nesta crônica, cada leitor perceberá o quantitativo com sua luta da sensibilidade.

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  3. Excelente história, não tão comum atualmente e bela reflexão sobre alguns valores perdidos no tempo.

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  4. Mais um presente para quem cedo madruga contrapondo os heróis de nosso tempo com os “ditos” heróis da atualidade. Os gestos do passado sequer eram registrados. Hoje, qualquer gesto, normalmente acontece com um gigante aparato digital e espalhado ou vulgarizado nas redes sociais.

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  5. Excelente reflexão Hayton. "O futebol imita a vida" ou vice-versa? Alguns dizem que após a pandemia nos tornamos mais individualistas e egoístas, receio em discordar, acho que isso já vinha acontecendo há muito tempo. Abs

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  6. Nada melhor que dizer de reminiscências que cuidam da humildade e da reciprocidade.
    Que duas atitudes mais lindas vimos nesta crônica do Hayton - o mestre das quartas-feiras, um amigo que ganhei sem jogar na loteria - insculpidas nos gestos de dois ídolos, cada um a seu tempo, a seu modo e a seu círculo profissional ou artístico!
    Aquela menina fora surpreendida pelo seu ídolo, levado até ela pela notícia d'algum também admirador daquele atleta exemplar, que tantas alegrias nos dera erguendo a então famosa Taça Jules Rimet. O ídolo dos gramados nacionais e extranacionais, fora, certamente, surpreendido pela sua fã, já não mais a menina atônita, sem voz, mas uma artista nobre no campo da música, reconhecida nos palcos além fronteira, aplaudida por onde se apresentara; regera a Sinfônica da gratidão que guardara em si como um troféu, tal qual o da Copa do Mundo de Seleções de Futebol, conquistado em definitivo pela Seleção Brasileira de 1970.
    Há atitudes que nos fazem sentir ao longe o carinho que nelas se acumulam.
    Ave Palavra!
    tonhodopaiaia.org

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  7. Nada melhor que dizer de reminiscências que cuidam da humildade e da reciprocidade.
    Que duas atitudes mais lindas vimos nesta crônica do Hayton - o mestre das quartas-feiras, um amigo que ganhei sem jogar na loteria - insculpidas nos gestos de dois ídolos, cada um a seu tempo, a seu modo e a seu círculo profissional ou artístico!
    Aquela menina fora surpreendida pelo seu ídolo, levado até ela pela notícia d'algum também admirador daquele atleta exemplar, que tantas alegrias nos dera erguendo a então famosa Taça Jules Rimet. O ídolo dos gramados nacionais e extranacionais, fora, certamente, surpreendido pela sua fã, já não mais a menina atônita, sem voz, mas uma artista nobre no campo da música, reconhecida nos palcos além fronteira, aplaudida por onde se apresentara; regera a Sinfônica da gratidão que guardara em si como um troféu, tal qual o da Copa do Mundo de Seleções de Futebol, conquistado em definitivo pela Seleção Brasileira de 1970.
    Há atitudes que nos fazem sentir ao longe o carinho que nelas se acumulam.
    Ave Palavra!
    tonhodopaiaia.org

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  8. Bellini visita Célia
    Ajuda a salvar sua vida
    Célia Vaz é grande artista
    Pessoa no mundo querida
    Esse é o resultado
    Dentro e fora do gramado
    Quando o tempo é a medida.

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