quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Onde anda Ana Maria?

Voltava ao Sertão paraibano às vésperas do São João de 2002. Havia morado na cidade de Patos a partir de 1961, aos três anos de idade, até mudar para Alagoas sete anos depois, seguindo meu pai em sua jornada nômade de funcionário do Banco do Brasil.

Ele, que nos anos 60 trabalhara na extinta Creai (Carteira de crédito agrícola e industrial) da agência daquele município, seria homenageado pela AABB, cuja diretoria resolveu batizar o ginásio de esportes com seu nome: Agostinho Torres da Rocha. 

Eu teria assim a chance de rever o Colégio Cristo Rei, onde aprendi a ler e a escrever; a rua Bossuet Wanderley, os armazéns da Sanbra (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro) com seus fardos de algodão, próximos à estação ferroviária;  o campinho de futebol da Cica (Cia. Industrial, Comercial e Agrícola), à margem do Rio Espinharas. 


Ao chegar lá, vi que o colégio continua no mesmo local, bem menor, é verdade, do que aquele que guardava na memória. Mas os colegas de infância da rua Bossuet Wanderley sumiram todos. Disseram-me até que alguns se envolveram com drogas, arruaças, e tiveram fim trágico. 

Não encontrei também meus irmãos a fazerem algazarra no quintal ou na calçada da casa onde morávamos. Nem armazéns de algodão ou campinho de futebol. "As coisas mudam no devagar depressa dos tempos" (Guimarães Rosa).

Apesar do calor, soprava um vento morno que deve ter jogado um cisco em meu olho na hora em que ajudava a descerrar a placa de inauguração com o nome dele gravado. Saudade bate, mas a gente disfarça, pensa no que tem por fazer e finge que passa. 



Em breve ritual, fez-se um comovido silêncio entre pessoas que conviveram com aquele trabalhador humilde, calado, de sorriso raro, que nas horas de folga era visto sempre ao lado da esposa e do cacho de filhos. Tinha raros amigos e cabiam todos em sua Rural Willys, mas não gostava de botecos.

O dia passou depressa. Estávamos eu e Magdala, minha mulher, com Sérgio Riede, então presidente da Fenabb (Federação Nacional de AABB). Não havia vagas nos hotéis da cidade, lotados por conta das festas juninas. Fomos então acomodados pelos anfitriões numa casa grande e confortável, com direito a canjica, pamonha, ventiladores e redes no alpendre. 

Caminhamos um bocado após o jantar até o arraial na praça Getúlio Vargas, defronte do Hotel JK, para assistir a apresentações juninas. Exaustos, no entanto, retornamos cedo, por volta das dez da noite. Viajaríamos bem cedinho.

Havia um boteco colado à casa em que iríamos pernoitar. Na porta, um automóvel — bem diferente da velha Rural Willys — com o som nas alturas desde as cinco da tarde. E assim permaneceu até as sete da manhã do dia seguinte, tocando sem parar "Ana Maria" (clique e ouça), carro-chefe do CD "Xote Pé-de-Serra", de Santanna, o cantador. 

“(...) Eu dei um beijo,
Eu dei um beijo,
Eu beijei Ana Maria.
Por causa disso
Eu quase entrava numa fria.

Ana Maria tinha dono e eu não sabia.
Mas quem diria? pra bem dizer
Foi sem querer, mas terminou em confusão.
A solução foi confundir o coração.
Daí então fiquei na vida de ilusão.

Agora adeus, Ana Maria,
Deus te guarde para o amor.
No céu, Santa Maria.
Aqui na terra, o seu amor (...)"

A canção era linda, digna de ícones da música nordestina como Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Nando Cordel, Petrúcio Amorim ou Sivuca. Mas depois de ouvi-la horas a fio, sem conseguir dormir profundamente por 30 minutos sequer, nem tampouco saber onde andava a tal Ana Maria para matar o desejo de um bêbado encharcado de cerveja, aquilo virou motivo de boas gargalhadas entre nós.

Quase 18 anos depois, sempre que nos encontramos — eu e Sérgio Riede , um se antecipa e quer saber do outro: e aí, amigo, saudades de Ana Maria? 

17 comentários:

  1. Caso vocês tivessem asas já teriam encontrado, afinal outra música nossa diz: ... a se eu tivesse asas ainda hoje eu via Ana...

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  2. É, “pegou no breu”, meu amigo! Textos saborosos.
    Sobre o “tamanho” imaginário do colégio: impressionante como nossa memória amplifica as coisas.
    Parabéns!

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  3. Saudades não sei mas que Ana Maria marcou disso tenho certeza. Se fosse nos tempos atuais alguém teria ligado para polícia reclamando do som alto.

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  4. Existem passagens em nossa trajetória, que por mais simples, marcam nossas vidas para sempre. Como é bom recordá-las!!!

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  5. Antonio Carlos Campos12 de fevereiro de 2020 08:36

    E um fato que quando retornamos a um local que fez parte da nossa infância, não é mais o mesmo lugar. Tudo está mudado.
    O que não podemos esquecer é que a pessoa que lá viveu também não é a mesma. Todo mudado.
    Mas que é prazeroso isso é.

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  6. Ah, a saudade... amiga das horas. Bom ter recordações como essas. Texto bom de ler e viajar por entre os cenários por ele desenhados. E Ana Maria, essa danada, por onde anda, será?

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  7. Devia mesmo era ter aproveitado pra caír no forrozinho pé de Serra... " ANA MARIAAA...como eu queriiiiaaa..." BOM DEMAAAIS!!

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  8. Voltar ao passado é muito gostoso!
    Ouvir essas músicas nos deixa uma saudade!!!

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  9. Ana Maria deve ter sido especial mesmo, pois até Juca Chaves fez uma música para ela... mas o som alto, típico do norte e nordeste... mas também, pra que dormir? Com tantas lembranças para serem processadas, uma noite não era nem um ano...

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  10. Santana é o legítimo herdeiro de Gonzaga e dominguinhos, apesar da safadeza que o corno fez de estragar Ana Maria, que pra mim lembra com prazer uma mulher que eu tive, mas a vida é assim: bulindo com nossas memórias e emoções, cada ser com cada coisa.

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  11. Sorte sua que foi Santana cantando Ana Maria. Já pensou se fosse hoje em dia, talvez um Pablo Vittar...Kkkkkkkk

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  12. Lembra-me o povoado Guardiano, na época do Sputnik, céu estrelado, a radiola em último volume tocando o disco da Marinês até altas horas da noite: "Seu Malaquias preparou cinco pebas na pimenta ..."

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    1. “...Ai, ai, ai seu Malaquia
      Ai, ai, você disse que não ardia
      Ai, ai, tá ardendo pra daná
      Ai, ai, mas tá me dando uma agonia
      Ai, ai, ai seu Malaquia
      Ai, ai, mas tá fazendo uma arrelia
      Ai, ai, que tá bom eu sei que tá
      Ai, ai, mas tá me dando uma agonia...”
      Nem lembrava mais, Orlando, o tanto que meu pai ouvia esta canção. Só que eu pensava que era obra de Jackson do Pandeiro, por conta da verve, do duplo sentido ingênuo, brincalhão.
      Valeu, meu amigo, a belas lembranças.

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  13. Na véspera da publicação desta crônica, eu estava pensando na viagem que venho adiando: visitar a cidade, no noroeste do PR, onde passei parte da infância. Seu texto deu mais um empurrãozinho na direção de concretizar essa ideia.

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  14. "Saudade bate, mas a gente disfarça, pensa no que tem por fazer e finge que passa." Uauuu. Teu estilo de narrar é que nem ir dirigindo, numa bela região, e numa curva qualquer se descortinar algo mais belo ainda. Daquelas belezas que queremos parar no acostamento para registrá-la. Estou vivendo isto, ao passar o maior período de tempo na minha cidade natal, desde que dela migrei em 1997. Tudo muda, nada eterniza, e talvez seja esta a maior pegadinha da mãe Vida. A efemeridade dos tempos que nos faz tomar tento e ficar mais presente ao agora.

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  15. Que passeio gostoso Hayton!!! Você consegue nos fazer andar por onde andou!!! E sentir o que imaginamos que vc sentiu!!

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  16. Como já te disse, tuas crônicas fazem a gente viajar junto - há sempre uma Ana Maria na vida de cada boêmio.
    Quanto a disfarçar a lágrima, sou contra. Sempre que abraço um amigo ou amiga que chora, de alegria ou tristeza, falo baixinho ao ouvido, chore, solte tudo, chorar faz bem...
    Abraço forte.

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