quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Juntando os cacos

Há menos de três semanas ela e eu traçávamos planos modestos para a noite de Natal de um ano pra lá de medonho, ano que não acabará tão cedo em nossas cabeças torturadas pela agonia de cada dia.

Tudo dentro do que planejamos, comida apenas para um casal resignadamente confinado há nove meses: frango com recheio de quatro queijos, arroz de lentilhas, cuscuz marroquino e batatas ao murro. Ela e eu, pela primeira vez em quase 49 anos de mútua tolerância, sem pais, irmãos, filhos, netos nem amigos por perto, diante de nossa ceia de Natal, tocados pela esperança de que duas picadas em cada um de nós possam redesenhar este cenário com cores, sons e cheiros diferentes no ano que vem. 

Nem a pressa ditada pela fome de quem almoçara ao meio-dia me impediu de, antes da primeira colherada, esquentar os pratos no forno por volta de nove da noite. Enquanto isso, conversávamos com filhos e netos debruçados nas janelinhas do aplicativo de encontros virtuais dos dias de hoje, satisfazendo, no que possível (imagem e som), o desejo de revê-los em carne, osso e pele.

 


O celular me alertou de que, rapidamente, transcorreram quinze minutos. Entretido na prosa, demorei-me, se muito, mais dois ou três minutos, certo de que nada de relevante aconteceria em tão pouco tempo. Esqueci de que havia preaquecido o forno, a 200 graus centígrados. 

 

De luvas, ao retirar os pirexes, o primeiro deles explodiu em minhas mãos, espalhando frango, molho, queijo derretido e estilhaços de vidro de tudo que é tamanho sobre o que havia nos arredores: outros pratos, fogão, pia, chão da cozinha, da sala de jantar, além de minhas canelas cada vez mais finas e lisas.

 


Não sou bombeiro nem especialista em resistência de materiais, mas creio que a causa provável do estouro tenha sido o acúmulo de gordura fervendo num dos lados do recipiente, que estava desequilibrado na única prateleira do forno. A roldana da segunda prateleira quebrou-se há três ou quatro meses e resolvi não consertá-la, por enquanto, para evitar terceiros na bolha asséptica em que se transformou o apartamento na quarentena. Quando chacoalhei e quis distribuir o molho no refratário como um todo, devo ter provocado um choque térmico. 

Na hora, me veio à cabeça tentar dar um jeito na situação e aproveitar o que fosse possível de nossa tão cheirosa e esperada ceia de Natal. A julgar pela aparência crocante do frango borbulhando no chão da cozinha, eu não via a menor chance de ali existir ativo o já nem tão novo coronavírus. Logo, quem sabe fingindo que nada ocorrera...

 

Mas existiam cacos de vidro por todos os cantos no raio de dez metros do epicentro da explosão, inclusive em meus pés onde brotavam gotas de sangue. A primeira providência de minha mulher foi passar água e sabão nos ferimentos, seguidos de algodão e desinfetante. As luvas que eu usava certamente me protegeram de ter que ir a um hospital para suturar algum corte mais profundo, com todos os riscos de contágio que nos assombram nestes tempos traiçoeiros e sombrios.

 

Ela e eu, pela primeira vez em quase 49 anos de mútua tolerância, sem pais, irmãos, filhos, netos nem amigos por perto, tivemos que nos contentar com as sobras requentadas do almoço, com o nada luxuoso reforço de algumas fatias de pão com manteiga na chapa. Era o que tínhamos para o jantar, isso duas horas após intensa atividade braçal-natalina à base de vassoura, pá, aspirador de pó, água sanitária, desengordurante, pano, rodo e alguma paciência que ainda nos resta. 

 

Logo, matávamos o que nos estrangulava aos poucos – a fome! –, quando pensei: quantas pessoas dariam um dedo (mindinho, vá lá que seja!) para comer aquilo que jogamos no lixo, independentemente do risco de ingerir estilhaços de vidro ou de contaminar-se com a sujeira do chão? Mas como sair e procurar alguém se lá fora uma besta-fera invisível e cruel ainda nos espreita e obriga a ficar em casa? Daria para argumentar com a desgraçada que era Natal ou teria que entornar o caldo de vez, partir para a briga e ver em duas semanas o resultado disso? O medo de nocaute no primeiro assalto me venceu.

 

Voei mais alto em minhas elucubrações e me perguntei: quantas pessoas dariam um rim para ter ao lado a sua cara-metade que essa ventania que varre o mundo carregou sem piedade para bem longe daqui, sem direito nem mesmo a merecidos adeuses? Muitas, imagino, ainda que essas pessoas tivessem que passar pelo mesmo sufoco que passamos neste Natal, ela e eu, juntando cacos de vidro por todos os cantos, agora no raio de vinte metros do epicentro da explosão, numa luta que parece não ter fim. 

 

Vidas e vidros que seguem. “Vai que dá certo ano que vem”, diz um velho conhecido meu que, toda noite, me encara no espelho e me cobra coragem e fé para juntar os cacos e seguir adiante no dia seguinte.

 

48 comentários:

  1. Homi! PACIÊNCIA foi a palavra mais ouvida no decorrer desse ano!! " Mais longe já esteve "!! Quem chegou até aqui e não precisou recorrer aos famosos " tarja preta" para manter a sanidade mental, já já terá muita estória pra contar!! QUE VENHA 2021!!! " VAMU QUI VAMUS"!!!!!

    ResponderExcluir
  2. É, meu amigo, esse ano deixou-nos tal qual o pirex, emocionalmente. Partiu-nos diariamente, em centenas de pedaços de angústias, mas, felizmente, também de esperanças. Vamos torcer para que esse velho conhecido seu, feito à sua imagem e semelhança, tenha razão e ano que vem dê certo.

    ResponderExcluir
  3. Então... "vidas e vidros que seguem"... até o próximo Natal ou em nova aventura gastro-reclusônica desse ex-quase-futuro Master-Chef !
    Boa sorte na próxima aventura (Reveillon ?) - rsrs.

    ResponderExcluir
  4. Narrativa tão perfeita de realismo que me vi nessa situação... haja paciência e sabedoria. Feliz e venturoso Novo Ano neste novo normal.

    ResponderExcluir
  5. Segundo estudos da Universidade da Vida o problema nao foi o frango, se fosse peru teria explodido do mesmo jeito. No ano anormal, nem o Natal escapa. Feliz ano novo.

    ResponderExcluir
  6. Que pena amigo.
    Sempre penso nos imprevistos que podem acontecer.
    Fazendo um segundo prato na eventual situação, quem sabe um Rosbife com molho madeira e champignons.
    Mas como sempre digo "Tudo passa"
    Feliz ano novo. Dayse Lanzac

    ResponderExcluir
  7. Situação inusitada relatada com precisão e bom humor. Parabéns.

    ResponderExcluir
  8. Pootz! Fazendo do limão uma bela crônica, meu amigo! Parabéns pela leveza!
    Já passei por um “drama” parecido: o melhor bacalhau que eu NÃO comi teve destino semelhante. Lembro-me do susto e da minha cara de Pazuello ao ver a cozinha transformada num laboratório da Faixa de Gaza dos piores momentos.
    Melhor “tirar de letra” mesmo! Top!

    ResponderExcluir
  9. Que susto!!! Ainda bem que entre machucados e quebrados vocês se salvaram, não foi? Não podemos dizer o mesmo coitado do frango... Em frangalhos! Kkk

    ResponderExcluir
  10. só imagino a fome...mas até de um evento assim você "assa" uma bela crônica...

    ResponderExcluir
  11. Conhecendo os dotes do chef, posso imaginar o quão saboroso estava o menu. Outras oportunidades amigo virão. Tenho certeza que apesar do incidente vocês viveram um Natal de paz e com muito amor. Feliz 2021!

    ResponderExcluir
  12. Para fechar com chave de ouro.Que venha 2021 com a vacina e a chave da liberdade

    ResponderExcluir
  13. Então é Natal,
    um raio de luz:
    um frango voando,
    com queijo e cuscuz!
    Desculpe, mas você me fez rir muito com a narrativa da sua tragédia natalina. Adorei a crônica, embora vc não deva ter adorado nadinha a sua jantinha. Grande abraço e um 2021 com vacina!

    ResponderExcluir
  14. ...e ainda, imagino, como foram gratos a Deus, nesta data de Graças, por não ter tido um desfecho que tivesse que buscar um atendimento médico de urgência tendo que desviar da "besta fera". Este deve ter sido o maior alívio. Estamos num ponto, nós de risco, principalmente, que pensamos 2 vezes sobre algum afazer de casa que pode ocasionar "algum contra tempo"... Mas vc descreveu de forma perfeita, os sentimentos que lhe passaram naqueles segundos, minutos frente ao inesperado. Que venha 2011 com duas picadas. Abraços

    ResponderExcluir
  15. Muito Bom, reflexão que este momento permite fazermos, exigindo de Nós resiliência, PACIÊNCIA. Muita calma nesta hora, vai passar, esperamos. Amanhã vai ser outro dia, com nosso compromisso e ação. Vamos que Vamos!!!

    ResponderExcluir
  16. Que beleza, de um momento que era pra ter muita raiva, aproveitou para fazer reflexões sobre o ocorrido e de contrapeso ainda produziu mais uma bela crônica do cotidiano.

    ResponderExcluir
  17. Juntou os cacos e montou um constrói-cabeças!
    Só cronistas feras conseguem extrair do cotidiano aparentemente mais banal textos tão bem engendrados. Parabéns, meu amigo!

    ResponderExcluir
  18. É isso aí, juntar os cacos e ir em frente. Isso já aconteceu com a maioria dos “pilotos” de fogão, inclusive comigo. Mas na noite de Natal fica mais difícil digerir. Parabéns pela crônica e feliz 2021.

    ResponderExcluir
  19. Juntando os cacos foi tudo bem, graças a Deus, e parabéns ao cronista-poeta! Por isso é que sempre tenho no freezer peitos de frango desfiados p/ fricassê no micro-ondas. Outra opção: ferver por 30min dez gomos de linguiça p/ churrasco (a razão é dois gomos por pessoa). Espere esfriar. Dê uns cortes no sentido vertical nos gomos, sem separar. Assar no forno ou air fryer p/ 10min. Preencher os cortes (dos gomos) com tomate, pimentão e cebola picados. Colocar, por cima, orégano e queijo muçarela em fatias. Voltar à air fryer por 5min. Serve para almoço, jantinha ou tira-gosto...rsrsrs. Feliz Ano Novo!

    ResponderExcluir
  20. Segundo Freud, devemos conhecer nosso inconsciente, de modo a não chamar de acaso ou destino o que ele causa. Creio que neste Natal todos transitamos de alguma forma entre a vontade de quebrar a porra toda ou de agradecer pelo que ainda nos nutre.
    Você descreve de forma tão deliciosa esse diálogo e é um prazer imenso ter sua crônica como harmonização de meu café da manhã.
    Dedé Dwight

    ResponderExcluir
  21. Levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima. E com elegância.
    Bela crônica.
    Que venha 2021 com mais alegrias.
    Abração.
    Zezito

    ResponderExcluir
  22. Mais um exemplo de resiliência e empatia!!! 😂
    Feliz 2021... para todos!

    ResponderExcluir
  23. Mas, acabou tudo bem!!!
    No dia seguinte, comeu meia dúzia de "tarecos" e ficou tudo de boa!!! Kkkkk grande abraço.

    ResponderExcluir
  24. Enfim sós, como no princípio..., mas quanta saudade das crianças! Era como deveria ser o Natal do casal, até que o imponderável aconteceu e que ficará em suas lembranças para sempre.

    Aqui cabe um conselho para o Ano Novo, meu caro Hayton:
    Não mais dê uma de maitre. Encomende um bacalhau à Gomes de Sá, no Portugália, abra uma garrafa de vinho premiado (não precisa ser pelo menos três prêmios - kkkkk) e brinde a entrada do novo ano. Antes, porém, tome uma cachacinha e dê outra pro santo, para esquecer o desgraçado 2020 e fazer fé em 21. E, como registrou sua irmã, vamos que vamos.

    ResponderExcluir
  25. Com a idade chegando, não dá pra aliviar com a. memória. 9h se transforma em meio dia e a gente nem vê. Todo cuidado é pouco ano que vem

    ResponderExcluir
  26. O conselho certo: não dê uma dê uma de chef.

    ResponderExcluir
  27. Meu caro, para a ceia do ano novo, deixe a cozinha para Magdala! A propósito, uma no maravilhoso (com vacina para todos!) ao querido casal!

    ResponderExcluir
  28. Bela crônica! Não aconteceria comigo de forma alguma, pois não possuo dotes culinários e tenho medo do forno de fogão. Tudo passa e dias melhores virão. Abs afetuoso em vc e Magdala

    ResponderExcluir
  29. Só quem tem veia artística consegue transformar cacos de vidro em bela narrativa. Milton, por exemplo, fala em cacos de vida no chão...
    Feliz ano novo!
    Forte abraço

    ResponderExcluir
  30. Este Natal de 2020 é pra (também) entrar na história!
    Que bela - e cruel - história de vida, digo, de cozinha...

    ResponderExcluir
  31. Isso mesmo Hayton! Juntar os cacos e seguir em frente... e sempre pra frente!!! Que venha o tal 2021 já vacinado! Parabéns pela bela crônica e pela postura sempre positiva! Abs.

    ResponderExcluir
  32. Mas acredite, poderia ser pior.
    2020 mostrando pra quê veio.
    Que 21 seja próspero e saudável.
    Paz e luz para vocês.
    Um beijão

    ResponderExcluir
  33. Mais uma bela crônica. E mais um exemplo de resiliência, resignação e sabedoria!
    Apesar de tudo, do isolamento, da saudade e do tão sonhado jantar, atravessamos 2021!
    Tempo de reflexão por tudo que enfrentamos.
    Contudo, chegamos com saúde no Ano Novo com energia e esperança renovadas.
    Obrigado amigo por ter tornado meus dias melhores no ano que passou. Sem vc e seus escritos seria bem mais difícil.
    Feliz Ano novo!

    ResponderExcluir
  34. Que a sua noite de ano novo te recompense com boas notícias, um novo e maravilhoso jantar e a certeza que 2021 será, com certeza, um ano de grandes reencontros e realizações. Um forte abraço, querido amigo!!

    ResponderExcluir
  35. Hayton,
    Só você, conseguiu transformar um momento tão difícil em uma bela crônica...
    Parabéns!
    Que 2021, seja de muita paz, saúde, alegria e prosperidade para vc e Magdala.
    Forte Abraço,
    Maria de Jesus Almeida Rocha.

    ResponderExcluir
  36. Pra me adiantar ao apagar das luzes, apresso-me aqui.
    Com certeza o imponderável - quem sabe o SOBRENATURAL DE ALMEIDA, de que falava Nélson Rodrigues - conspirou aí pra o acidente.
    Claro que ele não iria aprontar com um mortal comum pois assim sua obra se perderia como um percalço comum do dia a dia. Então, deve ter pensado em deixar imortalizada sua façanha e acertou, pois agora ela está aí registrada indelevelmente para os pósteros nesta inesquecível crônica - até falta adjetivos para qualificá-la.
    Meu mais forte desejo pra você em 2021 é que não ouse tentar melhorar nada em seus textos, seria impossível conseguir, está naquele patamar - pra usar uma palavra da moda - em que, se melhorar, estraga.
    Continue nos brindando no novo ano, grande abraço.

    ResponderExcluir
  37. ANTONIO CARLOS CAMPOS31 de dezembro de 2020 10:07

    Bem, desconheço essa situação de isolamento. Nunca passei por ela. Continuei trabalhando, meus filhos continuaram trabalhando, continuamos nos reunindo todo final de semana para o tradicional churrasco, continuamos indo aos restaurantes, ao mercado, a padaria, ao posto de combustível etc. Não sei qual o certo e qual o errado, mas prá nós fez um bem danado. Mas andamos mascarados e com um tubinho de álcool em gel.
    "Vai que dá certo no ano que vem".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nosso Natal também foi comemorado em família. COVID-0

      Excluir
  38. Apesar de lamentar o acidente gastronômico,ele transformou-se nessa bela última crônica do Ano que ficará para a História. Aproveito para desejar um Feliz Ano Novo junto com Magdala.

    ResponderExcluir
  39. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  40. Como diriam nossos pais: você fez arte! E nessa arte, apesar da tragédia de parte tradicional da ceia de Natal ter sido perdida, você ainda nos faz rir dessa situação ao imaginarmos o trabalho da limpeza! Se olharmos o significado de pequenas coisas que nos acontecem,foi um momento de exercício da resiliência, quando buscou a superação ao improvisar a nova ceia! Assim também foi 2020! Nossa resiliência nos mantém na esperança de um 2021 melhor! Feliz Ano Novo!

    ResponderExcluir
  41. Mais um belo conto, “fechando” 2020! 👏👏👏
    Foi ano de aprendizado, mais convivência com a Família, cuidados com nossa saúde, proteção, ano de novidade é mais estímulo ao “home office”, de estudo, leituras e mais convivência com os Amigos via WhatsApp, além da descobertas de novas vacinas ... Apesar de tudo isso, foi Ano Bom! Não tive a triste notícia do falecimento de Amigos por causa dessa terrível doença, o COVID-19, que matando muita gente, infelizmente!
    Ano Novo de muita saúde, paz e felicidades, pra Você, pra Todos, e suas Famílias!

    ResponderExcluir
  42. Nunca imaginávamos passar por uma situação dessa... na hora da confraternização a solidão. Quantos abraços e sorrisos não existiram. Graças ao celular, pequeno analgésico, a dor foi menor. Ver com vontade de pegar é triste. Quanto ao pequeno incidente, daqui pra frente tornar-se-ão mais presentes... idade é um negócio sério. Só dá pra se concentrar em uma coisa. Mas dará certo.

    ResponderExcluir
  43. Hayton, apesar do pequeno acidente, graças a Deus não foram de proporções piores, lamento que tenha sido planejada sua noite natalina de um jeito e se deu de outra. Importante é que tudo terminou bem, e realmente foi fantástico esse fechamento de ano com chave de ouro com essa crônica. AInda bem. Vai que dá certo o ano que vem. Um forte abraço

    ResponderExcluir
  44. Meu Deus, obrigado por esta lição de vida. Obrigado Senhor! Tu usou o querido Hayton para falar hoje em minha vida. Que composição literária tão profundamente humana e inspiradora. Amigo Hayton, eu fiquei babando com o galináceo que foi ao chão. Vivi casa cena. Mas, quando tu descreve a relação de cumplicidade com a patroa, aí confesso-lhe que tu mexeu comigo, positivamente falando. Talvez tenha sido o maior presente de Natal que vocês dois receberam. O cuidado com os ferimentos, a limpeza do caos, e feita a dois. O se contentar com o que tinha nos fundos da geladeira, ali num canto esquecido. Todo o Natal de Jesus ocorreu nas horas que se seguiram ao acidente. Pois, quanto amor irradiou no teu lar-ninho. Estou só. Nestes 10 meses de Pandemia, divido minha vida com um cachorro. Não tenho visitado, com a frequência recomendada, os filhos, netos, e família. Quando os vejo, é em raros eventos que todos ficamos desconfiados, com medo e logo nos despedimos. Então, ter alguém para dividir estes dias, tão difíceis e únicos que vivemos, é algo muito legal. E foi isto que me encheu o coração de paz e alegria, ver o amor de vocês, ali no dia a dia, juntando os cacos de vidro, limpando a bagunça e feridas, e até rindo da situação. Este é um dos teus textos que precisa integrar o segundo livro, pois embalado nele, há um chamado à escolha do lado bom da vida e do viver. Um convite à gratidão. Parabéns amigo.

    ResponderExcluir
  45. Meu natal e extensão de 2020 guardaram alguma similitude com sua angústia e também diferenças. Não tenho "cara metade". Então, me conformei, mesmo, com o "espelho de Sampa"; não fui à cozinha: limitei minha alimentação a três doses de cachaça e a dois pedaços de frango grelhados numa fritadeira sem óleo. Gastei um bom tempo respondendo às costumeiras mensagens de WhatsApp (a maioria, por preguiça ou o que seja, encaminhamentos de mensagens e cartões, sem sentimentos, pré-formatados, de algum lugar da internet). Pela hora em que você esquentava os pratos eu já me recolhia. Aquele símbolo (natal) passou como passaram os demais dias. Quando você publicou este artigo-conto-experiência-desabafo ainda era 30/12/2020. Pois bem. Um dia a mais e se daria 2020.3; extensão de 2020; 2020, a vingança ou qualquer expressão que queira pensar. Nessa continuação de 2020 a cor preta foi meu lema. Enquanto familiares e pessoas mais chegadas insistiam em me ver, vestidas de um branco reluzente e, quem sabe, uma roupa íntima amarela, eu, só de ranço, era a falta de esperança em indumentária, a versão "Zé do Caixão" da permanência de 2020. Por que não colocar o preto no branco? "Pra que essa angústia, essa ansiedade?", poderia perguntar um certo especialista em logística de "finais" (notadamente os finais de vidas humanas). Nada físico quebrou-se em minha casa. Contudo, estou em cacos muitos finos, espalhados dentro de meu ser, desconexos, perplexos, desgovernados (tal qual este país), "retorcendo-se confusos, confusos, em delgados entremeados, feito moscas inconclusas" (perdoe-me o Milton por perverter, um pouco, sua bela canção). No mais, os sentimentos que o dominam também são parte de meu cotidiano, um pouco mais carregado em tintas, talvez. Não há beato em vida. Porém, opero (tal qual muita gente) o milagre da clausura! Só por isso, Francisco deveria enviar-me indulgências em profusão.

    ResponderExcluir
  46. Fatos cotidianos de nossas vidas, que passariam apenas como fatos. Porém, quando observados com o coração e sensibilidade, se transformam em ensinamentos, e nos levam a reflexões muito boas. É um exercício de nós mesmos. Vidas e vidros que seguem. Me toca de forma bem particular, tal reflexão, pois penso muito nessas variantes, quando me vejo envolvido em situações como tais. Quantos não dariam um rim...um grupo musical de que gosto bastante, os Titãs, cantam uma música chamada Epitáfio, que muito bem traduz esse sentimento que nos envolve, quando nos permitimos ir além do fato em si.

    ResponderExcluir