quarta-feira, 13 de abril de 2022

Tá duro de aguentar

Quem já passou dos 50, como eu, deve lembrar de “General”, personagem do humorístico “Viva o Gordo”, criado por Jô Soares e exibido pela TV na década de 80. 


Amigo do então presidente Figueiredo, “General” literalmente teria caído do cavalo e passou seis anos em coma. Ao acordar, conectado a um respirador artificial, descobriu que já não havia ditadura e que seu colega milico não mais ocupava a presidência. Pior: quem agora se sentava na poltrona era o bigodudo Zé Sarney, um reles civil. "General" ficava louco toda vez que era contrariado pela realidade dos fatos: “Me tira o tubo! Me tira o tubo!” 

 

Todos nós, viciados em futebol, estamos prestes a reagir como o inconformado militar de Jô Soares. Melhor a morte do que aguentar o que vemos. Ou buscar algo que nos poupe de AVC ou infarto fulminante, tipo: dama, dominó, gamão, porrinha etc.

 

Para Graciliano Ramos (em “Traços a esmo”, crônica publicada do começo do século passado), aliás, o Brasil nem deveria ter introduzido o futebol por aqui. “Reabilitem os esportes regionais que aí estão abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé (tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas), a pega de bois, o salto, a cavalhada, e, melhor que tudo, o cambapé, a rasteira... Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros...”

  

Sim, reconheço que ando irascível. Tenho motivos e se abro o jogo aqui é para que vocês não creditem minha implicância à rabugice da idade ou à cruz (de malta) que carrego sobre os ombros.

 


Não se trata do futebol em si, mas de uma penca de situações que refletem o caráter nacional, a cultura de um povo que era tido como alegre, cordato, inteligente e solidário. Vejam:

1 – Goleiro que insiste em fazer “cera”, mesmo após ser advertido, certo de que o árbitro não irá expulsá-lo nem acrescentará o tempo perdido.

2 – Atacante que pressiona o zagueiro adversário pelas costas, na linha de fundo ou lateral, mesmo sabendo que ele simulará falta e o juiz, fingindo-se enganado, apitará.

3 – Treinador que cobra maior “pegada” de quem atua, a cada três dias, viajando de lá para cá num gigantesco e tórrido país tropical.

4 – Atleta atingido pela mão do adversário (na altura do peito) que cai, rola, estrebucha, como se tivesse sido agredido no rosto e quebrado o nariz e dois dentes incisivos.

5 – Técnico que reclama o tempo inteiro da arbitragem junto ao 4º árbitro, como se isso “sensibilizasse” o juiz principal para sua causa.

6 – Jogador em impedimento que finaliza um ataque e, ao ser advertido, diz que não ouviu o apito.

7 – Comentarista de TV, que nunca amorteceu uma bola no peito, tirando conclusões “geniais”: “Tá faltando o último passe” ou “ganhou porque aproveitou melhor as chances que teve”.

8 – Árbitro que, alegando que houve simulação, adverte jogador que realmente sofreu falta.

9 – Ex-atleta, hoje comentarista de TV, sugerindo que “o time toque mais a bola" ou "jogue pelas pontas”. 

10 – Jogador que celebra gol com os dedos apontados para o céu, como se Deus vestisse a camisa de seu clube.

11 – Atleta que, no último minuto do jogo, com seu time perdendo, bate falta na barreira ou distante da meta adversária.

12 – Ex-árbitro, agora comentarista de TV, que não reconhece o cochilo na análise de um lance e, após o “replay”, tenta convencer daquilo que só ele teria visto.

13 – Jogador que, nos acréscimos do tempo regulamentar, comemora gol cobrando silêncio dos torcedores.

14 – Torcidas (ou facções) organizadas de clubes em má fase, invadindo centros de treinamento e ameaçando atletas e comissão técnica, para dar um “sacode” no grupo.  

15 – Justiça desportiva que não determina o liminar banimento do futebol de agressores de árbitros, sobretudo quando a vítima é do sexo feminino. 


Chega! Já defendi até a extinção da regra mais difícil de ser aplicada: a do impedimento. Mudei. Seria chato ver um “poste” grudado no goleiro adversário durante toda a partida. O ideal seria que a regra valesse apenas a partir de linhas intermediárias, a serem demarcadas entre as linhas de fundo e divisória do campo. 


 

Quanto a outro foco crônico de chatice, o Árbitro Assistente de Vídeo (VAR, em inglês), reconheço: é a credibilidade do esporte que está em jogo. O problema não é a ferramenta. É quem está dentro de campo com um apito na boca, quando falta coragem para decidir sobre o que viu a poucos metros de distância. 

 

Penso que deveria ficar a cargo dos treinadores, como no vôlei, a prerrogativa de acionar o olho eletrônico. Cada time teria o direito de acionar o VAR por duas vezes a cada tempo. 


Deve ser afrodisíaco o poder de deixar meio mundo de gente em transe, por alguns minutos, enquanto, sob os holofotes da mídia, decide se mexe ou não no curso natural da história.

 

Tá duro de aguentar. Mas se o Vasco voltar a ser Vasco (mesmo vice-campeão, como o Flamengo, ultimamente), juro que tiro de letra minha rabugice. Se não, é melhor tirar o tubo.  

30 comentários:

  1. E treinador, "demitido de comum acordo", na primeira rodada do campeonato?
    Foi o que aconteceu com meu Furacão da Baixada no último domingo...
    Tá mesmo difícil suportar o que anda acontecendo com o esporte bretão por essas bandas.
    Dá mesmo vontade de pedir pra tirarem o tubo.

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  3. Fabrício Di Pace13 de abril de 2022 06:23

    Ou seja kkkkk apesar de enumerar várias situações, o maior problema ainda é assistir o time do Vasco dos últimos anos kkkk Texto excelente que retrata o "martírio" que é assistir jogos do futebol brasileiro e sulamerincano, com destaque negativo para os comentaristas kkk ontem mesmo tive que aguentar os comentários de Júnior Baiano, é demais kkkk

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  4. Muitas verdades sobre um esporte que virou mentira. Como todo bom vascaino o "sarro" no FLA não pode ficar de fora.

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  5. Sobre o VAR, matei a charada da demora. Veja que o uniforme do árbitro e seus auxiliares tem a logo de um patrocinador. Aí...já viu né?

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  6. Seu texto é um fiel retrato do pobre futebol brasileiro e também expressa parte da realidade do País. É possível fazer múltiplas analogias entre o futebol e o atual estágio de nossa sociedade, especialmente na política. Aliás, teremos mais um Fla x Flu em outubro…

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    1. Bem a propósito, Beto, eis o que um dia escreveu, profeticamente, o grande tricolor Nelson Rodrigues: “O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade”.

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  7. Texto excelente! reflete a realidade de nosso futebol decadente. Assistir jogos nacionais é um martírio para os apreciadores de um bom espetáculo pebolístico.

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  8. Perfeito Hayton, está, a cada torneio, mais chato de assistir.

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  9. Verdade verdadeira, com extensão a outros campos e áreas. Aliado a pretensão de Nos fazer aceitar como correto e justo. Infelizmente!

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  10. Mesmo sem entender de futebol, seus comentários são de quem conhece muito, aliás como sempre, acho bom você virar comentarista. Kkk

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  11. Realmente, seguindo a chatice de outras chatices que vivenciamos cotidianamente o futebol, também, não poderia ficar de fora. E agora temos futebol todos os dias da semana. Só faltou enumerar os comentários dos "especialistas" dizendo que o time precisa ser "mais agudo", ter mais "agudeza" no desempenho e por aí vai. É preciso muita paciência para não pedir a tirada do tubo. Sobre o nosso Vasco, ah! digamos como outro personagem da tv: - prefiro nem comentar.

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  12. Tenho visto pouquíssimos jogos, exatamente pelo desencanto que o esporte tem-me criado. Pelo menos de vez quando vibro com uma alegria, como a conquista recente do tricolor das laranjeiras.

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  13. Eu compactuo com todas as críticas que o Hayton fez. A maioria delas se aplica ao futebol jogado ou anti-jogado em qualquer época. Tenho quase certeza que fiquei mais ácido desde dezembro de 2019, quando o meu Cruzeiro caiu pra segunda divisão.
    Nem acho mais graça em assistir jogos da Série A! Kkkkk

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  14. 16 - Torcedor que se acha técnico e fica pedindo para o técnico escalar o time do jeito que ele deseja. Uns "Zés da Galera" - que pedem. "Bota ponta Telê!"

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  15. Você me representa, meu caro Hayton!
    Só a falta de autoestima (ou coisa pior) me faz ver (na TV!) uma partida do futebol brasileiro.

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  16. Falar de futebol é, certamente, uma boa forma de se manter "sociável"... O isolamento forçado, em razão da pandemia, deixou-nos um tanto alheios a muitas coisas e o futebol, mesmo "decadente", ainda traz motivação, mesmo que seja por pouco tempo...
    Forte abraço.

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  17. Blz, Hayton, retratou bem o nível do futebol brasileiro! E essa "10 – Jogador que celebra gol com os dedos apontados para o céu, como se Deus vestisse a camisa de seu clube"... É terrível...todo jogador virou cristão tatuado de carteirinha...haja chatice! Outro show de bola seu!
    Tiberio

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  18. Está a Champions League a provar que o futebol não é uma chatice. Quanta emoção!
    Agora concordo que sem o Vasco gigante, o futebol brasileiro não é o mesmo, pelo menos para mim, recuso assistir a um futebol tão medíocre.

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  19. Kkkk! O bom da crônica que começa reflexiva termina nos fazendo rir. Só faltou falar do clube empresa (tema para outro texto, talvez). Quem sabe agora o nosso Vasco arriba?!

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  20. Também tenho uma lista. Começo pelo VAR.
    1) Por que não AAV? Por que a mania do estrangeirismo? Se é pra copiar, por que não copiar a qualidade do futebol estrangeiro?
    2) Os comentaristas são insuportáveis: muitos nunca chutaram uma bola, mas se acham capazes de ensinar técnicos e jogadores. Se são bons, deveriam ser técnicos da seleção!
    3) Orações e "dedinhos voltados para o céu". Como todos - ou quase todos - fazem isso, fico a imaginar o dilema de Deus: pra que lado fazer o gol???
    4) Quando assisto (raramente!!) algum jogo nacional, desligo o som da TV - o que sempre dá briga com minha mulher. Não dá pra explicar que, no estádio, não ouço comentaristas "buzinando" bobagens nos meus ouvidos!
    ... e por aí vai.
    Abração!

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  21. Desde os 7 x 1 que não assisto nem acompanho mais futebol. Nada contra quem o faz. Só desisti de sofrer por um time ou seleção sem ter participação nos lucros e resultados (bons ou ruins), enquanto os principais interessados, bem pagos que são, além de não fazer mais nada da vida, muitas vezes não estão nem aí. Poderia até fazer apostas esportivas para tornar a torcida mais emocionante, mas sabendo que até mesmo os resultados de grandes partidas são, ainda hoje, comprovadamente manipulados, melhor mesmo tirar o tubo de vez.

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  22. Magnífico texto! Da lista enumerada ri muito desse tópico "Jogador que celebra gol com os dedos apontados para o céu, como se Deus vestisse a camisa de seu clube." Genial a relação!!!!

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  23. Oportuno, brilhante e cirúrgico seu comentário.
    Realmente, é um verdadeiro descalabro o que acontece hoje nos jogos de futebol em nosso (?) Brasil.
    Chega a irritar, enojar mesmo o que estamos assistindo. Aquela cena corriqueira de jogador se atirar ao chão com as duas mãos ao rosto, gritando, esperneando como se tivesse sofrido uma agressão mortal, quando vemos logo depois na imagem que o braço do adversário sequer lhe tocou, apenas passou perto, é de indignar mesmo.
    Há muitos outros absurdos, mas vou parar por aqui porque se fosse citá-los, certamente este comentário seria mais longo que sua crônica.
    Pra não dizer que não falei de flores, esta sua crônica me alertou que sou aqui um "peixe fora d'água", isto aqui é uma colônia de vascaínos.
    Mas não falo com queixa, até curto a gozação, como a que você faz aí ao final com o meu Flamengo, a quem nomeia como campeão de vice-campeonatos, título que até então era do seu Vasco. Só que aí me ocorre uma curiosidade. É que assim, o Vasco, que era tido como o campeão da modalidade, passa então a ser VICE nela.
    Grande abraço.

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  24. No Brasil de sempre, vice não vale nada. A não ser quando o inesperado prega uma surpresa, não é mesmo? 😂

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  25. Kkkkkk. Tirar a rabugice eu duvido, mas... a única preocupação que tenho é que alguém vá educar um filho tendo o futebol, ou os jogadores, como fonte de honestidade. Tá difícil.

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  26. Está mesmo difícil de ver futebol, com muitos jogadores fracos e, consequentemente, jogos ruins. E ainda têm as arbitragens com marcação de pênaltis que é um absurdo. Regra feita por quem nunca chutou uma bola. Só pode ser. E temos que aguentar os comentaristas de arbitragem com um tal de "abriu os braços aumentando o espaço corporal", "fez um movimento antinatural", quando sabemos que é uma questão de equilíbrio. Antes era mais fácil: mão na bola e bola na mão.

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