quarta-feira, 1 de abril de 2020

Nobel da paz

Carnaúba é uma palmeira comum do Semiárido nordestino, conhecida como a árvore da vida longa. Da folhagem se extrai uma cera natural com que se produz batons, sabonetes, vernizes etc. Seu nome deriva do tupi e significa planta que arranha, por conta de espinhos em seu caule. 



Mas a árvore longeva de que falo aqui, no auge de seus 82 verões, veio de outra galáxia, não arranha nem possui espinhos. É leve, do bem e da paz, espirituosa, dotada de rara inteligência. 

Nos anos 70, quando pediam a Humberto Carnaúba horas extras após a rotina diária de seis horas de trabalho, negava-se sob argumento simples e objetivo: ganharia bem mais, sob todos os aspectos, na mesa de sinuca apostando com alguns amigos.

E quando entrava em férias, em questão de minutos era visto com sua inesquecível Selma na estação ferroviária, onde subiam com destino incerto no primeiro trem que ali parasse. Na bagagem, apenas três ou quatro mudas de roupas, escovas de dentes e sandálias. Voltaria em um mês, horas antes do começo do novo ciclo de trabalho.   

Conheço-o há quatro décadas, desde que ancorou em Maceió. Ao lado de nossas mulheres (a minha e a dele, claro!), foram várias noitadas a ouvir e a dançar forró pé-de-serra — o hino era "Feira de Mangaio", de Glorinha Gadelha/Sivuca, na histórica interpretação de Clara Nunes. Na mesa, muita cerveja gelada e carne-de-sol com feijão-de-corda e creme de leite, ainda sem o risco dos bafômetros estraga-prazeres nas madrugadas da Ponta Verde.

Amante de motes e glosas (tipo de poema comum no Nordeste que responde a um desafio lançado sobre um tema qualquer), Carnaúba sempre foi emérito contador de "causos". E se isso não fosse bastante, era onicófago convicto (roedor de unhas)! Admiro esses seres porque nunca vi nenhum deles fazendo o mal a ninguém, pelo menos enquanto ocupados no hábito.

Sou testemunha de que Carnaúba, sem querer, conseguiu a proeza de ser protagonista da paz entre dois sujeitos que travavam uma guerra particular a 600 km de distância da capital alagoana, mais precisamente em Salvador.  

Ele ainda trabalhava no Agreste de Pernambuco quando teve que intervir numa iminente troca de sopapos entre dois fazendeiros ignorantes, truculentos, no dia do aniversário de um deles. 

O coronel Carvalho resolvera comemorar idade nova oferecendo uma memorável buchada de bode. E para dar uma demonstração de poder e força, convidou meio mundo de gente, inclusive um vizinho com quem vivia às turras por conta de disputa terras.

No dia do rega-bofe, embora sofresse dores horríveis por conta de uma crise de gota, coronel Carvalho recebia os convidados na porta de casa com os pés descalços para evitar o desconforto das botas.

Gota, para quem não lembra, é uma forma de artrite caracterizada por dor intensa, vermelhidão e sensibilidade nas articulações, por conta de uma grande quantidade de ácido úrico ali cristalizado.

Ao meio-dia, chegava o vizinho com sua esposa a alguns passos atrás —  prevalecia na região o jeitão machista de andar à frente da mulher, a pretexto de protegê-la. Na pressa em seguir os passos largos do marido, a coitada acabou pisando nos pés do anfitrião. 
— Você vem cega, miserável?! — urrou o coronel, cerrando os dentes de dor.

O vizinho, ao ver a confusão instalada, fechou a cara e falou grosso:
— O que tá acontecendo, mulher!?
— Eu... eu pisei no pé do coronel Carvalho sem ver... — justificou-se, constrangida. 
— Oxente, mulher, Carvalho sem “v” é “baralho” — gracejou o vizinho, usando termo chulo que aqui escrevo com "b" para não ferir olhos mais sensíveis. 

Fechou o tempo em relâmpagos e trovões! Não fosse a pronta intervenção do “embaixador” Carnaúba, o final teria sido outro, com cenas de pugilato explícito. Poderia até descambar para punhaladas e tiros que ninguém ali iria a um festão daqueles sem estar devidamente precavido. Mas salvaram-se todos. E os vizinhos puderam voltar para casa, diplomaticamente escoltados por meu velho amigo. 

Anos depois, Costa, que havia migrado de Alagoas para a Bahia e tinha conhecimento do ocorrido por intermédio de Carnaúba, enchia a paciência de um colega, coincidentemente chamado Carvalho, com aquele tipo de pergunta que tira do sério qualquer cristão:  
— O seu Carvalho é com “v” ou sem “v”?

Ao ser apresentado a Carvalho, encontrei-o com o semblante tenso, chateado. Curioso, não resisti e quis saber:
— Diga aí, por que você tá desse jeito?
— Para ser sincero, não aguento mais ouvir Costa me fazer aquela pergunta besta. Vou acabar fazendo merda!
— Que pergunta? 
Contou-me o que se passava e pude então compartilhar com ele a origem de tudo.

Nisso, me veio à cabeça outra narrativa de Carnaúba, agora envolvendo o próprio Costa, que no começo dos anos 80 resolveu candidatar-se à presidência de um clube social em Maceió e andava em campanha, a pedir votos a todos os associados que encontrava.

Ao ver o esforço eleitoral do colega, Carnaúba, que nunca se incomodou com sua reluzente calvície, embora a todo momento tentassem provocá-lo por conta disso, indagou com a cara mais lisa do mundo:
— Por quê você não cria um slogan para a campanha?
— Boa ideia! Tem sugestão, careca?
— Não. Vamos pensar?
— Você é que é bom nisso! Bote essa careca pra funcionar.
— Muito bem, primeiro anote aí: se cabelo fosse importante não nascia no... sovaco (o termo utilizado não foi bem esse, mas escrevo “sovaco” preocupado, de novo, em não ferir olhos mais sensíveis).
— Peraí, Carnaúba, tô brincando!
— Sei disso. Eu também. Já tenho até o slogan para campanha: “Bosta por bosta, vote no Costa!”

Carvalho caiu na gargalhada. Tinha agora o antídoto para o veneno que vinha lhe matando aos poucos. E na primeira oportunidade, diante de vários amigos em comum, contou o caso tintim por tintim, para riso geral da plateia.

"A guerra só pode ser abolida com a guerra. Para que não existam mais fuzis, é preciso empunhar o fuzil", dizia o líder chinês Mao Tse-Tung (1893 — 1976). A paz, enfim, foi restabelecida por obra e graça, ainda que sem querer, de meu amigo Carnaúba.

Se depender de mim, os velhinhos de Oslo, na Noruega, deverão ser notificados desses fatos para que lhe outorguem o próximo Prêmio Nobel da Paz, na presença do rei Haroldo V. É mais que justo!



Como a cerveja naquelas bandas é de primeira qualidade, tenho certeza de que Carnaúba irá gostar de conhecer a região escandinava, a terra dos vikings. Claro, assim que a paz voltar a reinar nesse mundão assustado de meu Deus.

28 comentários:

  1. Mesmo trazendo histórias do Carnaúba, acho que esta ficará conhecida como a crônica do "baralho"... Ela me fez viajar ao ano de 1975 e relembrar o boteco que havia ao lado da agência do BB em Loanda, onde a turma que vestia camisa branca se reunia ao redor da mesa de sinuca, ao final do expediente. Se eu disser que fui bom jogador de sinuca, alguém que me conhece diria imediatamente: primeiro de abril.

    ResponderExcluir
  2. Com histórias deste "naipe", a quarentena fica mais branda.

    ResponderExcluir
  3. Bela história meu amigo! Deitado na minha rede em aldeia vem na minha cabeça outras tantas histórias boas com pessoas que convivemos e marcaram nossas vidas.
    Recordar é viver.

    ResponderExcluir

  4. Boas lembranças!
    Lembro que tinha um regional bigodudo na Bahia que gostava de pegar no pé do seu par Carvalho.... com essa história de Carvalho sem “v”..
    E ao buscar curtir e celebrar cada minuto da vida (e das férias) quem pode dizer que o Carnaúba estava errado!?

    ResponderExcluir
  5. Que crônica do baralho. Ótimo acordar nesses dias com uma leitura como essa. Obrigado.

    ResponderExcluir
  6. Muito bacana poder ler um texto que nos remete ao amigo Carnaúba, também chamado, carinhosamente, por sua eterna companheira Selma e alguns amigos mais próximos, de “demente”. Não há como esquecermos dos finais de semana na AABB Maceió, onde tínhamos encontro marcado no Bar da Selma, cuja marca era a cerveja bem gelada e petiscos deliciosos, ao som de uma seleção de músicas carinhosamente preparada por ele. E claro, não faltava o “langanho” para acompanhar as doses de aguardente de cana!

    ResponderExcluir
  7. O mundo digital conseguiu; destruiu as relações sociais. O Coronavirus só está colocando a última pá de terra. O mundo não voltará ser o mesmo. E a mudança não será pra melhor
    ACCampos.

    ResponderExcluir
  8. Estava com saudade de leitura como esta. Lembro do Carvalho que Avelar se referiu.

    ResponderExcluir
  9. Excelente crônica para iniciar essa data considerada por muitos como dia da " pegação de mico" ( termo bem atual para designar os trotes aos amigos). Conheço o protagonista e sei de sua admiração por ele. Fico imaginando o dia a dia desses bem humorados companheiros de jornada, empenhados em suavizar a sobrecarga de trabalho. Bela homenagem!

    ResponderExcluir
  10. Excelente, Haylton! Nada melhor que um texto assim, com humor inteligente, pra nos fazer rir nesse tempo sisudo e sombrio. Valeu!

    ResponderExcluir
  11. Que texto saboroso!
    Isso é que é um bom dia!
    Hoje o dia vai ser leve com toda a certeza!

    ResponderExcluir
  12. Muito boa...rs. tá vendo, a paz se faz com guerra!!! é só dar munição.

    ResponderExcluir
  13. Bela homenagem a alguém que marcou a época de ouro do nosso BB.

    ResponderExcluir
  14. Excelente narrativa. Conheço as figuras da crônica. Com pouca convivência com Carnaúba, mas conhecia sua fama e astral.

    ResponderExcluir
  15. Muito bom o texto, que além de nos descontrair um pouco nesses dias mais tensos, faz uma bela homenagem à figura ímpar do Carnaúba.

    ResponderExcluir
  16. Momento ímpar para lê um texto desta qualidade. Preenche nossa vida com histórias de primeira, reconhece uma figura ímpar: Carnaúba.

    ResponderExcluir
  17. Em tempos de bombardeio de informação monotemática, essa crônica é colírio para os olhos e diversão garantida.

    ResponderExcluir
  18. Eita que Carnaúba, além de tantos produtos que faz, também promove a paz, kkkkkkkk

    ResponderExcluir
  19. Que maravilha!! Esta crônica salvou minha tarde!!!

    ResponderExcluir
  20. Hayton, a verdade é que, qualquer que seja o tema e a linguagem, você domina com maestria o dom da escrita! 👏👏👏

    ResponderExcluir
  21. Taí, frustração grande de não conhecer o Carnaúba.
    Crônica deliciosa, é "vero", mas ele certamente diria que você está sendo politicamente correto pra "baralho", ou quem sabe mandasse você enfiar sua "corretice" no sovaco...

    ResponderExcluir
  22. Que pitoresco! A presença de espirito do Sr. Carnaúba é tão grande que lembra os nativos do Pajeú.

    ResponderExcluir
  23. Bela história! ��������
    Manoel Pinto

    ResponderExcluir
  24. Meu Caro Hayton, não esqueça de "causos" em Pernambuco, Estado rico de fábulas e aventuras vivenciadas. "O homem não é obrigado a prometer, mais uma vez que faz, fica obrigado a cumprir...". Abraços.

    ResponderExcluir
  25. Merecida homenagem a essa grande figura que é o nosso amigo Carnaúba.
    Grande abraço.

    ResponderExcluir
  26. Lembro-me do Carnaúba nos intervalos das grandes festas da AABB-Maceió, papel e caneta na mão, pedindo um mote para desenvolver suas glosas.Algumas soavam como verdadeiras poessias.

    ResponderExcluir
  27. Lembro-me do Carnaúba nos intervalos das grandes festas da AABB-Maceio,papel e caneta na mão, pedindo-me motes para ele desenvolver suas glosas; na verdade pequenos poemas, tal a colocação das palavras e a sonorização das rimas.
    Parabéns Hayton pelo texto e a merecida
    homenagem ao Carnaúba.

    ResponderExcluir
  28. Tenho muitas e hilariantes de Humberto Carnaúba Aciole, natural da Viçosa-al. A melhor de todas quando armou um barraco no vagão onde estava no trem que o levava ao Recife para prestar o concurso do BB. Hayton, quando eu me encontrar com você me cobre pois você vai rir, e muito. Abraço.

    ResponderExcluir