quarta-feira, 22 de abril de 2020

O Ícaro da hora


Foi logo após a Copa do Mundo de 1966. O pai do menino largara no sofá a revista semanal O Cruzeiro e, curioso, depois de ver a reportagem sobre a vitória do time inglês, achou de ler a última matéria, que o deixou em pânico: “Ícaro, a morte que ronda o espaço”.

Ícaro era um asteroide que havia sido descoberto no final dos anos 50 pelo astrônomo alemão Walter Baade (1893 – 1960). Foi batizado assim em homenagem ao mito grego que voou próximo ao Sol na tentativa de fugir da ilha de Creta.

A reportagem tratava do possível choque de Ícaro com a Terra caso não fossem utilizadas armas atômicas para interceptá-lo e evitar a colisão, livrando o planeta de consequências devastadoras como a que dizimara os dinossauros há milhões de anos.

Aos nove anos incompletos, o menino quase morre do susto. Não contou nada a ninguém mas logo lhe apareceram febre e dor de cabeça. “É gripe mais forte”, deve ter pensado sua mãe, ao tratá-lo à base de chá de eucalipto e colcha de chenille para o suadouro. De quebra, a terapia tinha o efeito colateral bom de deixar a mãe mais perto do filho. 

O menino passou uns cinco dias sem pôr os pés fora de casa nem para ir à escola. Temia ser esmagado na calçada pelo asteroide sem poder mexer pela última vez em seus brinquedos e cadernos, embora da janela pudesse ver alguns amigos soltos na rua como se houvesse fartura de amanhãs. Eles não eram de ler.

A agonia só desapareceria na semana seguinte, quando a revista deixou claro que não era daquela vez que a humanidade sumiria da face da Terra com seus sonhos, ambições e esperanças, voltando tudo à estaca zero.

Apesar das profecias apocalípticas dos astrônomos, os cálculos foram refeitos e chegou-se à conclusão de que Ícaro passaria ao largo, como tantas vezes já havia passado, sem causar maiores danos ao nosso grãozinho de areia sideral.

Os adultos continuariam a discutir futebol, política, religião, cinema, música ou simplesmente a desejar o Simca Chamboard – sonho de consumo produzido pela indústria automobilística nacional – sem o risco de serem transformados em poeira cósmica a qualquer momento.

Restou entre eles a convicção de que não eram tão grandes diante do universo. Pouco tempo depois, como diria o emergente poeta Caetano Veloso, o sol do país do futuro se repartiria em crimes, espaçonaves, guerrilhas. E cada tribo, a seu modo, desfrutaria da nova safra de amanhãs.

O Cruzeiro, tal como o sol, continuaria nas bancas de revistas. E em caras de presidentes, em dentes, pernas e bandeiras, adultos prenderiam e arrebentariam irmãos até que se ouvisse falar em “distensão lenta, gradual e segura”, uma década depois. 

o menino, que a tudo assistia sem entender direito o que se passava no país do futurocom os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores, ainda sem lenço, sem documento, também sonhava com um lugar ao sol.

Pouco mais de meio século depois, o menino vê o seu passado a passar por ele na criança dos dias de hoje, confinada por conta de um asteroide invisível que aterroriza a humanidade, a ameaçar de morte por asfixia quem ousar desafiá-lo.

O que se passa pela cabeça dessa criança, isolada com seus pais, que já compreende que pode ser portadora do novo coronavírus (mesmo sem sintomas) e vetora de sua propagação entre indefesos velhinhos de sua família ou da vizinhança?

Será que essa criança, em sua perplexidade, também ficará muda de pavor, não contará nada a ninguém e lhe aparecerão febre e dor de cabeça? Será que sua mãe lhe trará chá de eucalipto e colcha de chenille para o suadouro? O mundo se move em círculos.

Mas agora, sob a ameaça do "Ícaro" da hora, não faltará quem aconselhe a essa mãe o uso em seu filho de máscara, analgésico, antitérmico, antes de procurar a emergência de um hospital qualquer. Que tenha UTI e respirador mecânico, claro. 

Tomara que essa criança e sua mãe, mesmo sem o chá de eucalipto e a colcha de chenille, respirem fundo, desacelerem seus corações e consigam enxergar na escuridão que "a neve e as tempestades matam as flores, mas nada podem contra as sementes" (Kahlil Gibran). 

Daqui a pouco brotará no ventre da Mãe-Terra o grão – remédio ou vacina  de uma nova safra de amanhãs, para que a vida atualize seu software instalado numa nova versão. Tem sido assim desde que o mundo é mundo.

28 comentários:

  1. Uma poderosa semente de esperança acaba de ser plantada nos corações e mentes de seus leitores, tenham eles vivido 9 ou 90 outonos.

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  2. Temos lido diversos textos sobre esse momento de pandemia e não imaginava ler algo tão bonito, cheio de poesia, esperança e graça! Que essse Ícaro não nos destrua para que possamos, nos nossos amanhãs, aproveitarmos melhor a nova versão da Terra.

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  3. Que bom ler algo leve partindo da revista O CRUZEIRO, assim como aconteceu com o Ícaro tudo se acomodará em breve.

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  4. Que excelente amarração de contextos, trazendo um passado de 54 anos atrás aos dias atuais, nesse ciclo permanente da vida, e traduzindo de forma poética a sensação real desse momento que estamos atravessando, dia após dia. Brilhante crônica

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  5. Amigo,
    Comparações sempre são perigosas. Às vezes fico pasmo com comparações entre times e jogadores de épocas diferentes. Especialmente quando alguém, feito um onisciente de plantão, diz com pretensa certeza que sabe quem ganharia um hipotético e impossível jogo entre, por exemplo, a seleção de 70 e a seleção de 82.
    Por isso também é difícil comparar as suas crônicas, umas com as outras.
    Mas essa do Ícaro é uma das melhores que já li. E não é só porque Ícaro é o nome de um dos meus filhos! Nem porque ela fala da revista que tem o nome do meu time do coração (mesmo na segundona!).
    Tem prosa e verso; tem a sacada de contrapor o asteroide ao vírus; tem o gancho com os lindos e instigantes versos de Alegria, Alegria, que pra quase todo mundo virou Sem Lenço e Sem Documento.
    E, mesmo diante das incertezas que nos rodeiam, ainda acredita na fartura de amanhãs.
    Genial, meu caro!
    Prossiga nos deleitando com seus textos!
    Abração

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    1. Eu apostava que seu time de coração fosse o Athlético PR ou Coritiba. Deve ter deixado a Lapa muito cedo!

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  6. É meu amigo... triste ver o olhar de minha neta, que pelo menos posso vê-la pelo WhatsApp, com aquele ar de pergunta: por que o vovô não vem me ver? por que não posso ir ver a vovó? E ficamos à mercê dos "ícaros" que ainda aparecerão. Tomara que possamos assistir shows do Iron Maiden e não do Jimi Hendrix...

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  7. Hayton, bem colocada sua reflexão. Mais impactante ainda, quando sabemos que o “meteoro” atual já acumula muitas vítimas.
    Haverá uma(s) gerações a dizer “eu vivi, e sobrevivi!”.

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  8. Ah, que bom ler algo leve nestes tempos de Icarus Virulentus a espalhar nas calçadas gotas de seu veneno, onde meninos brincavam tranquilos sem a ameaça de restos venenosos de asteróides microscópicos. É ainda foi bom lembrar do Tostão -que, na realidade sempre teve seu valor em dólar - na capa da nossa querida Cruzeiro do País que hoje vale menos que isso. Showwww. show de esperança.

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  9. Excelente analogia! “Ícaros” passam e nos remetem a reflexão de amor ao próximo e a finitude da vida.

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  10. Não só as crianças, mas os adultos tb.Varias pessoas tomando remédios, para não surtar. Mas Deus sempre tá no comando de nossas vidas.

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  11. É, Ícaro falhara de novo...
    Bela reflexão!
    E ainda me corrigiu um erro de décadas: sempre cantei “o sol se reparte em trilhas” (acho que pelo vício da rima fácil e pobre).

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  12. Muito bom seu texto,quando só vemos notícias desanimadoras. Faz renascer a esperança de dias melhores.

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  13. Crônica poderosa e alentadora. Depois deste Ícaro invisível a humanidade terá a oportunidade de melhoramentos contínuos.

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  14. Excelente. Que venham os "Icaros" e que tenhamos sabedoria para entender os avisos que eles Terazem.

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  15. Em tempos de escassez de liberdade, por conta dos riscos da pandemia e dos ataques a democracia, crônicas como essa nos ajudam a continuar vivendo "como se houvesse fartura de amanhãs". Obrigado, Hayton, por plantar mais uma semente em solo fértil.

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  16. Uma crônica poética e uma mensagem de esperança. Obrigado.

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  17. Hideraldo Dwight Leitão22 de abril de 2020 13:37

    Que lindas lembranças. O Mundo se acaba a cada segundo enquanto tememos que algo acabe com ele.

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  18. Se a história de "Ícaro", aí, não é exatamente a sua, com certeza até inconscientemente você se inspirou nela.
    Belíssima crônica, mais uma, com que você nos brinda - com a singularidade do momento.
    Marcante também o comentário de Sérgio Riede aí acima - lembro dele lá no DESED, em meus tempos de instrutor, sempre brilhante.
    De resto, mentalizemos sempre a filosofia do Kahlil Gibran.

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  19. Eita Hayton!!!
    Mais uma daquelas caprichadas crônicas! Muito grato por esse presente!
    Viajei tanto na poesia do texto que me lembrei de uma música do Paralamas do Sucesso chamada “Tendo a Lua”.
    Diz assim:
    ...“O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu.
    E lendo teus bilhetes, eu lembro do que fiz...
    Querendo ver o mais distante e sem saber voar.
    Desprezando as asas que você me deu.
    Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua.
    Merecia a visita não de militares
    Mas de bailarinos
    E de você e eu...”

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    1. Pois é, Beto. E o segundo verso desta bela canção fala justamente daquilo que sinto ao ver a perplexidade das crianças de hoje: “Eu vi o meu passado passar por mim...”

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  20. Os minions defensores da direita de plantão são Ícaros perigosos e que me assustam mais que um vírus real que daqui a pouco terá uma vacina! Aqueles estão sempre voltando e nos obrigando a estar alertas, mesmo sem lenço e sem documento! Valeu!!!

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  21. Muito Bom, isto aí, o mundo é sempre o mundo. É a Vida com sua ondas, que vai e vem.

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  22. E, mesmo diante das incertezas que nos rodeiam, ainda acredita na fartura de amanhãs. Hayto, depois desses tempos difíceis e de tanta escassês, até de valores que vilipendiaram nossa nação, chega você de mansinho, nos enchendo de alegria e esperança. Um abraço

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  23. Realmente uma crônica de profundo teor histórico em contrapartida com a nossa atual luta insana contra esse Covid. Mas vamos vencê-lo...

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