quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Ernesto e seu magote de cornos

Passava das dez da noite de sexta-feira quando Ernesto chegou em casa. Largara às seis. Com cuidado para não fazer barulho, abriu a porta bem devagar, descalçou os sapatos e seguia em direção ao quarto quando da escuridão fez-se a luz. Sua mulher, de origem germânica, forte e brava feito onça da pata torta, sentada no sofá, acionou o quebra-luz:
— Bonito! Isso é hora de pai de família chegar em casa? Que exemplo dá para os filhos, hein?
— Peraí... Quem disse que eu cheguei? Vim só buscar o violão.
— Como é? Quando é que cê vai parar com essa vida?
Minutos depois lá estava ele a fechar o ferrolho do portão do jardim, ganhando a calçada onde os amigos o aguardavam na esquina.

Alto, elegante, cara de cacique apache, na casa dos 45 anos, Ernesto era motorista do gerente de um banco na capital alagoana, ali na metade dos anos 70. Guiava um Chevrolet Opala SS 1974, 6cc, preto, das 8h às 18h de segunda a sexta-feira, vestido num impecável terno azul marinho, sempre bem barbeado e com todos os fios da cabeleira no lugar, retrato dos tempos da brilhantina. 

Quando o conheci, já não bebia uma gota de álcool sequer. “Tomei tudo o que tinha direito na mocidade”, dizia. Lembro-me dele no clube, numa mesa próxima da piscina, o cigarro no canto da boca e as mãos com os dedos compridos a extraírem acordes de violão ou cavaquinho. A seu lado, o copo de soda limonada com gelo e o tira-gosto. 

Numa segunda-feira, era tanta a ressaca decorrente de noites mal dormidas e de petiscos gordurosos que Ernesto, a derreter no vaso sanitário em náuseas e cólicas, assustou-se quando lhe avisaram que o chefe estava de saída para um compromisso externo. Na pressa de vestir as calças, as chaves do carro caíram dentro do vaso e veio o desespero. “Achei que o chaveiro ia descer com tudo para a fossa”, contava.

Não lhe restou alternativa: prendeu a respiração, meteu a mão na massa e conseguiu resgatar o chaveiro com as pontas dos dedos antes de a descarga concluir o seu carrossel sonoro. Demoraria mais uns cinco minutos a lavar bem as mãos antes de encontrar na garagem o chefe, a quem se justificou: “Ontem à noite comi alguma porcaria que me fez mal”. O suadouro não deixava dúvidas quanto à veracidade do fato. 

A mulher de Ernesto, adepta da Igreja Adventista do Sétimo Dia, levava uma vida devotada a Deus nos aspectos físico, psicológico e espiritual. Queria a todo custo, por isso mesmo, convencer marido e filhos a adotarem estilo de vida parecido, com base em oito remédios para ela santificados: fé em Deus, água, alimentação saudável, ar puro, comedimento, exercício físico, luz solar e repouso. 

Demônios da Garoa
Nunca conseguiu, pelo menos em relação ao marido. Por conta das restrições do seu credo religioso, a esposa guardava o sábado sobre todas as coisas. Ernesto acabou se juntando a alguns colegas de trabalho (Nelsinho, no violão; Paulo Neto, no tantã; Alvacyr, no pandeiro; entre outros) e criaram um grupo musical inspirado no famoso Demônios da Garoa.  Sem fins lucrativos e apenas para animar as "reuniões", o nome escolhido era injusto com as respectivas caras-metades: Ernesto e seu Magote de Cornos.

Numa manhã de sábado, um espírito de porco qualquer deve ter telefonado para a casa de Ernesto para dedurar que o grupo musical estaria se exibindo numa farra em Santa Luzia do Norte, pequeno município da região metropolitana de Maceió. Pouco depois, sua esposa chegou num táxi e foi logo armando o maior escarcéu. 

Quase todos os frequentadores do bar se assustaram com a repentina aparição daquela senhora exaltada, de dedo em riste, dirigindo-se ao líder do grupo musical.  Menos Ernesto. Calmamente, ele largou por um instante o cavaquinho, levantou-se do tamborete, pegou uma canoinha de palha de coqueiro, fez um risco no chão com o bico e disparou:
— Volte para casa, agora! Se você passar deste risco, não me responsabilizo por mim.
— Como? Eu não tenho dinheiro para pegar outro táxi — retrucou a esposa.
— Você não veio sozinha me desmoralizar na frente de meus amigos? Então, se vire.
E puxou um longo trago no cigarro, antes de voltar a dedilhar o cavaquinho.

Na segunda-feira, Ernesto apareceu no trabalho com o semblante sereno de sempre, mesmo com escoriações generalizadas no pescoço e nos braços. Parecia que tentara capar um gato com um bisturi cego. Disse que sofrera uma queda ao consertar goteiras no telhado.  

Nenhum dos colegas ousou duvidar do líder. Afinal, o importante era que o grupo Ernesto e seu Magote de Cornos, com chuva ou sol no próximo final de semana, animaria nova farra num boteco qualquer. 

33 comentários:

  1. Bacana, me divirto com as suas crônicas e já faz parte do ritual, aguardar as quartas-feiras.
    E Ernesto caiu na porrada.

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  2. Sem o magote de Ernestos espalhados pelos quatros cantos do Brasil as farras seriam sem os encantos da boa música. A crônica traz as claras o formato das "lives" muito antes da pandemia.

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  3. Lembro muito bem desse casal! Só vem comprovar a teoria de que " os opostos se atraem"!! Aposto que "viveram felizes para sempre"!!rsrsrs

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  4. E tome peia. Eita que deu até saudades de um boteco com músico de bar, tocando Raul. Ou os que frequentava em Vitória da Conquista e Poções, na Bahia, ao entrar no BB. Rolava muitos Ernestos por lá, que animavam vidas cansadas, com suas melodias plagentes. Ernestos para botequeiros são de utilidade pública. Menos pra dona patroa.cacaca Aí é na vara de marmeleiro, noknbo, pra criar tento.

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  5. Conheço todos os componentes, aqui citados, do grupo “Ernesto e seu magote de cornos”. Tuas histórias, como sempre, nos levando a viajar pelo tempo, Hayton. Escreve uma sobre a tua contratação para jogar no Cantareira!!!

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  6. Jez, uma crônica sobre o Cantareira seria interessante demais . Grande sugestão.

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  7. Convivi bom tempo com Ernesto Barbosa Calado e vez em quando, portando o meu violino, deve uma canja ao "Ernesto e seu magote de cornos". Muito educado e bastante experiência de vida.

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  8. Ernesto era o cara! Fiquei imaginando o Opalão guiado pela lenda. Mais uma excelente e divertida crônica.

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  9. Outros tempos em que a esposa aguardava o marido, sentada no sofá. Hoje já teria um pé de pano à espreita. Deu sorte o Ernesto, mas o nome do grupo era uma dica pra ele, hein?

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  10. História saborosíssima! Deu vontade de ouvir Ernesto e sua tchurma! Agora fiquei curioso pela história do Cantareira!

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  11. Esse "Arnesto" - que não morava no Brás, mas que convidava os amigos para o samba - certamente passou por maus bocados com sua Frau germânica. Mesmo com o pescoço arranhado pelas "unhas de gato" em muitas segundas-feiras, não deixou de curtir a vida que ele amava. Parabéns pela crônica.

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  12. Boa... também tenho um amigo que não posso nem devo declinar o nome, pois pode ser comum a algum aqui do grupo, que de vez em quando brigava com o gato. O pior é que o gado tinha uma muqueta pesada que lhe rendia um olho roxo vez ou outra. Mas pelos amigos, por que duvidar do gato né...

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  13. Muito Bom saborear estas belas, alegres histórias da Vida. Quem não viveu algo semelhante, principalmente nos famosos botecos deste interiorzao brasileiro........

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  14. Muito Bom saborear estas belas, alegres histórias da Vida. Quem não viveu algo semelhante, principalmente nos famosos botecos deste interiorzao brasileiro........

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  15. E a mulher do Ernesto voltou como para casa? Fiquei curiosa já que não tinha dinheiro e ele mandou ele se virar. Gostei demais!

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  16. Ernesto e seus "Magote de Cornos" foram farrar logo na minha terra, Santa Luzia do Norte, que fica escondida do outro lado da lagoa, por trás de Coqueiro Seco, ou,indo pela estrada de barro, onde o vento faz a curva. Os "Magote de Cornos", com boa intenção não tavam. Pior, que o Ernesto incorporou a valentia do seu Tonhão, dono do bar, que tempos antes, empunhando sua 12 polegadas, havia botado o Mata
    Sete pra correr. Coitada da "alemã", se ultrapassasse a linha, não sei não. Agora, entre as quatro paredes, certamente a "frau" deu o troco, os arranhões que o digam.
    Muito boa, Hayton.

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  17. Conquanto fascinantes, seus personagens são figuras comuns, dessas que encontramos no dia a dia. Certamente todos nós conhecemos gente com as características descritas.
    Nada obstante, você consegue imortalizá-los com as narrativas nas crônicas indeléveis como esta aí.
    Haja criatividade e brilhantismo!!!!
    Como andaram mexendo aqui, acho que UNKNOWN está de volta, então, aqui é Volney.

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    1. Este comentário, Volney, me remeteu à crônica sobre "Seu Zé", o doido manso, de Aécio Pamponet, explicando a causa da barriga enorme da mulher do policial.

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  18. Excelente! Amo suas crônicas!👏👏👏

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  19. Rindo até agora com a comparação do estado em que ficou o pescoço de Ernesto, "parecendo que tentara capar um gato com um bisturi cego". Já Perpétua, preocupada como a esposa conseguiu chegar em casa sem o dinheiro de volta pro táxi. Crônica boa é assim!

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  20. Sempre sonhei em participar de um conjunto desses. E quem não sonhou? E uma alemã braba assim, sei bem como é... Até já dei meu grito de “independência ou morte”.

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  21. Hideraldo Dwight Leitão19 de agosto de 2020 18:30

    Consegui visualizar até a figura cantando. Delícia de história.

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  22. Muito bom, Hayton, seu texto vai fazendo com que as imagens descritas se formem na nossa mente com riqueza de detalhes. Parabéns.

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  23. Outra excelente crônica! Suas crônicas nos prende a atenção do começo ao fim.

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  24. Essa crônica me fez lembrar de uma estória que contavam sobre um boêmio em Teresina. Reza a lenda que numa madrugada, indo em casa apenas para buscar o violão, a esposa acordada e chateada teria decretado: "Ou o Joaquim ou eu!". Joaquim era o amigo de farra que também tocava e bebia todas.
    Ele com o violão na mão olhou pensativo para a esposa e disse: "Fico com o Joaquim". E saiu novamente pela porta para continuar a farra.
    Nunca mais ela fez esse tipo de pergunta.😀

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  25. 😂👏👏👏muito boa!
    Abs, Manorl.

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  26. Bela crônica! Parabéns Hayton. Eu tive a oportunidade de conhecer um amigo que era o retrato do Ernesto, exceto pela bebida, que era alcoólica, e pela esposa, que não tinha coragem de encostar um dedo nele. Mas o Noé, que tocava sanfona e violão, era uma boa pessoa, assim como o Ernesto, e amado por todos da família e amigos. A viúva queria me doar sua sanfona, mas não me achei digno de tamanha honraria, então aceitei ficar com o pandeiro.

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  27. Eita!!! lembrança boa. Conheci Ernesto já no finalzinho. Mas, sei de sua história, pelo meu Pai. os outros membros do conjunto musical, também tive e tenho a felicidade de conhecer. Como a Vida tem suas "magias", hoje sou eventual parceiro, em algumas causas trabalhista, um dos filhos de Ernesto. Bom de pescaria e de copo. Faz jus ao pai.

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