quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Perdão, delegado!

Na primeira sexta-feira do ano, um Zé qualquer invadiu e furtou uma escola estadual no Morro Grande, zona norte da capital paulista. O furto só foi percebido na manhã de segunda-feira, quando os empregados chegaram ao local e ainda encontraram um bilhete, possivelmente escrito por ele.



Numa folha de caderno, com os deslizes gramaticais de quem não teve o ensino fundamental obrigatório e gratuito assegurado pela Constituição de seu País, ele fez singelo apelo: “Me desculpe mesmo, de coração, por fazer isso, não tive escolha, [foi] precisão [necessidade]”, diz trecho do recado, assinado por “desesperado”. 
E a mensagem prossegue, com o autor pedindo “misericórdia” e “perdão” ao “senhor Jesus”.


No boletim de ocorrência de furto e vandalismo, registrado no Distrito Policial, relata-se que uma porta foi arrombada e foram levados três televisores, um computador e uma panela de pressão. Enquanto apuravam extensão dos prejuízos, encontrou-se o bilhete com o pedido de desculpas ao lado de uma Bíblia. Além do furto, registrou-se ainda que todas as câmeras do sistema de monitoramento da escola foram quebradas.

 


Ao ler a notícia, pensei na hipótese do chamado furto famélico, praticado por quem, em estado de extrema penúria, é arrastado a contragosto pela mais elementar carência de todos os seres vivos: alimentar-se. Se configurado o estado de necessidade, tido como uma das causas capazes de excluir a ilicitude da conduta, não há, sequer, que se falar em crime. Tá lá no corpo do art. 24 estendido no Código Penal.

 

Pensei também na sentença curta e certeira do escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de As veias abertas da América Latina: “a justiça é como uma serpente; só morde os pés descalços”. Há várias formas de se dizer isso, porém, para mim, ninguém o fez com tanto veneno e precisão. Na mosca! 

 

Quem é o delegado responsável pelo inquérito policial? Não sei. Certamente outro brasileiro – com nome, sobrenome e um pouco mais de sorte do que o autor do bilhete  que tentará por todos os modos descobrir a autoria do furto e como foi praticado. Tomará depoimentos, reunirá provas e fará seu relatório ao órgão encarregado de promover ou não a denúncia.

  

Aqui entre nós  e o resto do universo , o que representam três televisores, um computador e uma panela de pressão em terra de mensalões, sanguessugas, petrolões e rachadinhas? Que país é esse cujos homens públicos se aproveitam do pânico instalado por um monstro que já engoliu sem palitar os dentes mais de 211 mil vidas e, à luz do dia, roubam com sofreguidão em obras e compras emergenciais de bens e serviços?

 

O abominável vírus das trevas, que nos assombra desde o começo do ano passado, além de desmascarar a insensatez daqueles que subestimaram o seu potencial de letalidade, acordou aos berros um ancestral com múltiplas cepas variantes (admitindo-se que dormia, o que é controverso, reconheço) que se reproduz por aqui desde a descoberta e o sucesso do pau-brasil no mercado consumidor europeu: o vírus da corrupção. 

 

E em meio à avalanche de brasileiros infectados e mortos nos dias de hoje, escorrem pelo esgoto bilhões de reais em contratos investigados pelas polícias Federal e Civil e pelo Ministério Público, com indícios peludos de apropriação indébita, desvio de recursos públicos, estelionato, extorsão, falsidade ideológica, formação de quadrilha, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, prevaricação e outras práticas já corriqueiras.

 

Pois bem. Volto ao Zé qualquer – por certo, um dos 14 milhões de brasileiros na fila em busca de trabalho – que será identificado e chamado a depor sobre furto e vandalismo, ainda que, sem qualquer hesitação, tenha, na mesma hora, demonstrado arrependimento ao pedir desculpas, sobretudo às crianças, imagino, que ficariam sem os favores e os sabores da panela de pressão. Os aparelhos de televisão e o computador já não têm tanta serventia nestes tempos sombrios sem atividades em sala de aula. 

 

A pronta decisão do Zé qualquer de se desculpar, pressionado apenas pela própria consciência, deve ser filha do propósito de não reincidir. Talvez isso, quem sabe, desperte no delegado a sede por um copo onde se misturem, ainda que em doses mínimas, cautela, compaixão, coragem, intuição e senso de justiça. Sem gelo, claro. 

 

Se o delegado levar em conta as sutilezas e o contexto em que os vacilos foram cometidos, reconhecerá que não há, sequer, que se falar em crime. Dará o assunto por encerrado e lavará as mãos com álcool em gel. No máximo, aconselhará o Zé qualquer a não se envolver com certas figuras públicas que circulam por aí livres e leves – afinal, pouco pesam as tornozeleiras que serpenteiam alguns pés muito bem calçados. 

 

E se aceitar um conselho do enxerido aqui, que mete a colher numa caçarola cujo desfecho parecia fadado a repetir-se, o delegado deveria pedir desculpas por amolar mais um sobrevivente – não sem arranhões!  da caridade de uma minoria que o detesta. 

 

Arrepender-se e pedir perdão, delegado, não tem nada a ver com humilhar-se. É gesto de gente grande. Gente que não quer só comida, quer saída para qualquer parte, quer prazer para aliviar a dor. Quem sabe possa até inspirá-lo a doar à escola uma nova panela de pressão


Aí basta torcer para que a Máfia da Merenda, velha conhecida na região, não meta a sua colher imunda no caso, furte a panela nova e o que resta de esperança nos que têm fome desde criança, inclusive de justiça.

39 comentários:

  1. A pandemia escancarou, a olhos vistos, a grande desigualdade existente que passava paralela e um tanto encoberta. O caso citado é mais um, entre tantos que provavelmente tenham sido fruto desse período sombrio. Diante do histórico anterior, duvido muito que haverá sensibilidade em sua sentença e, assim, permanecerá viva a frase de Galeano.

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  2. Uma ocorrência desta joga luz sobre a treva que vivemos, escolas com grades nos prédios e amarras nos conteúdos que repassam. As reflexões sugeridas no texto são pertinentes e carecem de amplo debate.

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  3. Quem tem lido as crônicas todas as quartas-feiras, torna-se desnecessário dizer que é mais uma pra entrar pros anais da história! Deveria ser lida na Câmara dos Deputados, transmitida na Voz do Brasil(rádio) e noutros meios de comunicação.

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    1. Concordo e gostaria que assim fosse. Divulguem. Parabéns amigo. Mais uma vez

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  4. Só mesmo os belos versos de nossa MPB tão bem engendrados por você para tornar essa realidade tão cruel do Brasil em uma prazeirosa leitura matinal e uma reflexão obrigatória do momento em que vivemos.
    Que País é este?

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  5. Já vi esta estória é antiga. Rouba mas faz.E ainda pede desculpa. Esfarrapada.
    Quem acreditou?
    Dayse Lanzac

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  6. Estimado Hayton, nosso Estado e, especial, o Recife, convive com tais situações costumeiramente, inclusive, existem processos em curso na busca dos larápios das comidas das crianças. Tem gente poderosa que pensa que jamais será fisgado. Vejamos!!!

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  7. Dá pra chorar ao se colocar no lugar do Zé. A felicidade não é deste mundo.

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  8. Olá Hayton, a redação primorosa, que é uma característica de suas crônicas, coloca uma bela moldura em uma reflexão triste, densa e trágica.

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  9. Pobre Zé, nascido no País onde os maiores ladrões são os juízes, deputados e senadores.

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  10. Bela reflexão! A corrupção, em todas as suas formas, é um mal que deve ser sempre combatido. Mas eu tenho preocupação também com as medidas tomadas “dentro da lei” - e que, portanto, não são vistas como corrupção - que igualmente assassinam a justiça social em nosso País. Exemplos? A lei que congela gastos com saúde e educação por 20 anos pra deixar margem pra pagar juros aos banqueiros e especuladores; o perdão de dívidas às grandes empresas; a estrutura tributária que permite que qualquer um de nós deste blog pague mais Imposto de Renda que grandes bilionários ... e assim por diante.

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  11. Se o problema fosse tão simples assim, seria fácil de resolver,escrever belos textos pra torcida é fácil, respeito todos os comentários,esse Zé, pode está em estado famélico,mas porquê não roubou comida, gêneros alimentícios, se esse Zé não for tão "Zé"assim, é muito fácil quando as coisas não acontecem nas nossas proximidades ou com nós mesmos, aí muda-se todo nossa compreensão dos fatos,eu gosto de ajudar pessoas quando precisam e me sinto bem,e se eu um dia tivesse poder, esses canalhas do colarinho Branco de toda espécie, seriam executados a bem da humanidade,desde quem rouba de merenda escolar a qualquer outro bem público,e quem furtasse pra matar a fome, o tratamento seria diferenciado,mas temos que analisar os fatos, porquê todo grande corrupto, ladrão,traficante e outros facínoras, começaram em parte ,subtraindo uma caneta, uma borracha na escola,e nós os "Zés", continuamos elegendo os grandes corruptos e ladrões desse país, na minha humilde opinião, respeitando as demais

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  12. A meu juízo nunca precisamos de pandemia pra ver a desigualdade neste País. O que talvez a pandemia tenha mostrado, sim, descolado, é a quantidade de gente insensível às desgraças humanas que estão ali ao seu lado. Este texto primoroso da Hayton, traçando este paralelo profundo, certamente é o melhor que li dele até hoje.

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  13. Eu olho para o comentário anônimo que essa senhora faz ali e releio a crônica.
    Vejo que ela não é sobre o que é crime ou não, nem sobre que crime é maior ou menor. Não é sobre justiça social.
    O texto é sobre vergonha na cara. Sobre em que momento da estrada entre um erro e um crime a pessoa perde a vergonha.
    Enquanto temos um governante que se sustenta alimentando seu Gado com mentiras que ele sabe ser mentiras, vemos o bilhete de um ladrão que está em um contexto tal em que afirma que é capaz de roubar.
    Mas não é capaz de mentir!

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  14. Bela reflexão! Inclusive sobre os comentários. Precisamos sim, de justiça social, jurídica, de vergonha na cara. Sou otimista, acredito seremos um país melhor! Tomara que não demore muito! Temos patinado, derrapado, perdido oportunidades.

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  15. A crônica serve como uma bela reflexão para um assunto muito complexo.

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  16. Entre tantas opções para roubar, o ladrão escolheu uma escola; local sagrado que acolhe nossas crianças e jovens
    para a missão mais importante de um país: a de educar. Imperdoável o ato do facínora!
    O bilhete, ao invés de inspirar compaixão, mostra o cinismo e seu caráter doentio.

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  17. Entre tantas opções para roubar, o ladrão escolheu uma escola, local que simboliza o que é mais importante para país: a educação de suas crianças e jovens.
    O bilhete ao invés de perdoá-lo pelo ato, demonstra o seu cinismo e caráter doentio.

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  18. Difícil ler e não refletir sobre injustiça social, desigualdade, corrupção, abandono, autoritarismo, vandalismo e outras mazelas da nossa sociedade. A podridão é grande! Entretanto, penso, também, que os "Zés" não podem sair roubando por aí, nem panelas de pressão. Ontem meu sobrinho teve a sua bicicleta roubada por um "Zé". Meu sobrinho (portador de necessidades especiais), esperou dois anos para ter a bike dos seus sonhos. E é muito difícil explicar pra ele que quem roubou precisava mais.

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  19. Um lindo e preciso texto que nos relembra nossa triste realidade. E neste momento de esperança, em razão da chegada da vacina - muito lentamente, é importante registrar – logo ouviremos e leremos relatos de “ótóridades” que, aproveitando-se de sua condição, vão furar a fila para serem imunizados. Infelizmente...

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  20. Hayton, você está cada dia melhor, ao ler o texto , me deparei com a sensação de estar conversando contigo num evento social qualquer, ouvindo a história acima. Parabens. grande abraço

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  21. Hayton, que pintura. Belo texto e grande reflexão.......sem maiores comentários.....
    PARABÉNS!!!

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  22. Muito bom! Tudo nesta vida tem dois lados (no mínimo). O problema maior é a opção que se faz pelo lado errado (e não falo necessariamente do meu xará...).

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  23. Muito realista e demonstra com a sutileza de sempre que apesar dos tempos difíceis nesta pandemia, a corrupção é o grande mal que nos assola desde sempre. Infelizmente sem muitas perspectivas de cura.

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  24. Conquanto incorra em redundância, não há como deixar de citar o brilhantismo de seu texto.
    E neste você até ousou - e incomodou alguns, conforme um ou outro comentário acima - pois deixou o perfil de cronista pra escrever um artigo contundente, com tomada de posição mais que explícita - e com que proficiência o fez!
    Concordo "ipsis litteris" com seu ponto de vista.
    De resto, oportuníssima a citação do pensamento do grande Eduardo Galeano, assim como o encaixe da frase da música de Cazuza.
    Vale um brinde, irmão, TIM TIM...

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  25. Muito boa crônica! Espelha a realidade de nosso País.

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  26. O texto fala de um tema da esquerda, que cita as desigualdades sociais, como causa da delinquência e violência, rechaçada pela direita empoderada atual. Como é mais lúcido, atualmente, sair da dicotomia esquerda/direita, não se pode separar causa e efeito, nesse caso. Bem lembrado, Eduardo Galeano, nosso livro de cabeceira do tempo de rebeldia política!!!

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  27. Muito bom!!
    Aqui vai uma observação sobre a escrita do Zé.
    No papel tem participação de duas pessoas, a do arrependido e de quem escreveu
    SENHOR JESUS
    TE MISERICORDIA.

    São duas grafias bem distintas, a última é de gente mais estudada. Será um comprador dos objetos furtados?
    O inquérito policial deve identificar quem fez aquilo com uma escola. Mas o faminto e sua família precisa comer.
    Quem tem razão?
    O que fazer?
    Só sei que o escritor tem muita sensibilidade social.

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  28. Agostinho Torres da Rocha Filho22 de janeiro de 2021 17:14

    Numa pequena cidade do interior, o prefeito decidiu que seria ele o primeiro a receber a coronavac. Ao ser flagrado furando a fila, argumentou que, na condição de maior autoridade do município, queria apenas dar exemplo à população local. Pergunta: quem cometeu maior delito, o bom ladrão ou o mau gestor? Resposta: a justiça é como uma serpente; só morde os pés descalços. O texto nos remete a uma reflexão sobre a justiça, num país onde as desigualdades são abissais. Bela crônica, irmão!!! Mais uma vez, parabéns!!!

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  29. Que dizer? Estamos irremediavelmente condenados, desde o nascedouro como pátria, a ser essa sociedade de nota de rodapé que tenta explicar o inexplicável? Já me faltam palavras para descrever meus sentimentos em face do inominável cenário atual, no mundo e, notadamente, no Brasil. Assisto, pasmado, ao filme que nos conduz à antessala do inferno, querido por quem deveria, dele, proteger a nação. Acordar e suportar o dia tornou-se um exercício de morto-vivo. Explico-me: vivo, porque "o pulso ainda pulsa"; morto, porque a esperança foi-se distanciando e de pouco tempo para hoje não consigo divisar seu rastro. Se temos uma classe política abjeta; um sistema endêmico de corrupção em todos os pontos cardeais; um descaso que vai do desamparo que gera a situação por você relatada até a macabra intenção de efetivamente manter uma desigualdade que mata; uma parcela não desprezível da população que não apenas não refuta, mas incentiva, apoia e se comporta de modo destrutivo. O Brasil não está só nessa "cruzada" pelo retorno às trevas. QAnons da vida espalham-se como covid, infectando almas no sórdido objetivo de dominação de muitos por poucos, de supostas primazias que deveriam jazer no passado longínquo. Ah! meu caro, seu pungente relato expõe antigas feridas ulceradas nos últimos tempos por quem quer um mundo às antigas, escravizado, dominado por castas e por falsos moralismos em que o império do misticismo seja a regra, a bruxa das bruxas (a ciência) à fogueira junto com quem mais professe valores humanistas. Brasil, país do futuro. Do pretérito.

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  30. Esses furtos são corriqueiros em escolas. Muitas vezes os próprios alunos, por conhecerem tudo. A educação de baixa qualidade instiga talvez?

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  31. Valeu Hayton um texto profundo que nos levará à reflexão, e como bem disse seu mano Agostinho, estas desgualdades são abissais há muito tempo. Enquanto o vírus da corrupção não for banido do nosso país, algo quase impossível, essas desigualdades perpetuarão, infelizmente. Um abraço

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