quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Embalos de um sábado à noite

Desde cedo dava para ver que o dia não acabaria bem após um desarranjo daqueles que acontecem de três em três anos, com chispas, faíscas e cólicas lancinantes, obrigando-me durante toda a manhã a não me afastar mais que 20 metros do banheiro. Aprendi a duríssima  pena que não se deve comer na rua com congestão nasal, resfriado. Que convém nunca esquecer de que antes da primeira garfada, olfato é sentido mais importante do que paladar. Qualquer animal sabe disso, menos os tidos como racionais.

 


À base de chá de camomila, soro caseiro, maçã e torradas sem fibras, fiz de tudo para me recuperar a tempo e não perder o casamento de uma velha amiga. De tardezinha, apesar das olheiras e da tontura resultante da dieta, lá estava eu belo e perfumado, de terno e gravata, sapatos engraxados e pronto para a noitada. Foi só chamar minha mulher, certificar-me de que estava de posse do kit “c”  (carteira, celular e chaves) e partir no rumo do Lago Sul.

Próximo ao local da cerimônia e dos cumprimentos aos noivos, embora fizesse aquele friozinho típico de julho no Planalto Central, já brotavam em minha testa algumas gotas de suor quando fui abordado numa blitz por um policial:

— Documentos, por favor...

— Boa noite... — respondi, ao repassar a papelada, seguro de que estaria no salão de festas em pouco tempo, com um banheiro limpinho, cheirando a lavanda ou eucalipto, à minha disposição. 

 

De nada desconfiei quando o policial que me abordou recorreu ao que parecia ser o líder da patrulha e começaram uma conversa cheia de gestos e olhares em minha direção. Aguardei o desenrolar da prosa ainda convicto de que os documentos estavam em ordem, embora uma parte importante de meu organismo, àquela altura, cobrasse celeridade no desfecho. Logo em seguida, os dois se aproximaram e o chefão foi direto ao ponto:

— O senhor não deveria ter feito isso... 

— Do que o senhor tá falando? — perguntei, já acionando o botão de culpa presumida que todos nós carregamos no subconsciente, mesmo sem motivo.

— O que significa este cheque aqui junto à CNH? 

 

Tive dificuldade em convencê-los de que, dois dias antes, para evitar que um colega de trabalho perdesse a chance de fechar a compra de um imóvel que negociava havia meses e que recebera ultimato para pagar a entrada, emprestara aquela quantia. Ele, inclusive, já pedira resgate de um investimento cuja liberação se daria em uma semana e, para não abrir mão dos rendimentos da aplicação financeira, solicitou-me antecipar o montante de que precisava, sob a garantia do cheque pré-datado, cruzado e nominal em meu favor. 

 

Prestes a ser injustamente acusado de crime de suborno — o que só agravaria o desarranjo contra o qual já se prenunciava o reinício de minha guerra visceral —, eu poderia, de molecagem, esclarecer aos policiais que uma "ajuda de custo" daquele tamanho só faria sentido se todos os estofamentos do carro, o porta-malas e o porta-luvas, estivessem abarrotados de cocaína e outras drogas alucinógenas como maconha, haxixe e ecstasy. Ou se escondessem armamentos pesados de uso privativo de traficantes e milicianos, com farta munição a granel. Afinal, além dos traços do arquiteto, até hoje tudo é possível sob o céu de Brasília. 

 

Poderia também ponderar o que se aprende em qualquer apostila básica de técnicas bancárias para concursos públicos: o cheque nominal, cruzado, só poderia virar dinheiro se fosse depositado numa conta bancária, em meu nome ou sob minha ordem. Portanto, seria pouco inteligente duvidar da quantidade de neurônios deles e pagar propina com cheque rastreável até por um velho bancário como eu, ali cada segundo mais apressado por conta de chispas, faíscas e cólicas lancinantes que reapareciam a todo vapor.

 

Com os embalos intestinais em franca evolução, lembrei-me de um conselho de um amigo meu, advogado em Alagoas, que certa vez foi abordado por um agente público que insistia em encontrar razão para lhe multar ou até mesmo reter o veículo, mas não conseguia. Ele só foi liberado ao dizer o que muitos querem ouvir quando se instala impasse nesse tipo de blitz

— Tá coberto de razão... Me desculpe! Em seu lugar, eu faria a mesma coisa. Com tanto bandido solto por aí, o que seria de nós sem profissionais como o senhor.

 

Optei, porém, por dizer a verdade: que não tinha, como de fato nunca tive, cofre onde pudesse guardar o cheque e preferi mantê-lo em lugar seguro e de fácil acesso (meu bolso), para não correr o risco de escondê-lo e não saber depois onde fora parar quando chegasse a data do depósito. 

 

O ventinho cada vez mais congelante da noite, contrastando com o suadouro que já me encharcava, deve ter soprado dúvidas sobre meu argumento, o que levou o chefão da blitz a perguntar se poderia telefonar ao emitente do cheque e averiguar a veracidade do que eu afirmara. Creio que minha resposta, de tão direta e honesta, acelerou o desfecho do caso:

— Por favor, faça isso, mas corra senão quem vai fazer algo urgente aqui sou eu... — disse-lhe, segurando a barriga, dando pista de que o mais comum dos apertos a que sujeito qualquer animal estava prestes a produzir seus efeitos líquidos em plena via pública.

 

Deu certo. Dispensado, fui-me embora e mal cheguei à toalete do salão de festas, fiz o que precisava e deveria ser feito. Lá dentro, aliviado, deu para ouvir a  marcha nupcial embalando o desfile ao altar de minha velha amiga, a quem mais adiante me expliquei por deixar para trás o melhor daquele 17 de julho de 2004: 

— Ninguém merece... — balançava a cabeça minha mulher, a caminho de casa, com pena de mim ou, o que é mais provável, a lamentar a perda dos embalos de um sábado à noite inesquecível. 

38 comentários:

  1. Agonia da "gota serena" sob o céu de Brasília. Ainda bem que deu tudo certo. Vão-se os anéis e fica tudo bem, inclusive o estômago. Parabéns!

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  2. Quem nunca passou um aperto desses? E não me refiro à blitz, rs

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  3. Me desculpe amigo mas, minha solidariedade, neste momento, vai para a Magdala!
    Imagino ela, muito linda, arrumada, elegante e... Voltar pra casa, tendo como o ponto alto da noite uma blitz!
    Ninguém merece. Kkkkk

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    1. Ok, Marina. A histórica solidariedade de gênero manifesta-se mais uma vez. Rsrs

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  4. Aí caro amigo é como diria um colega do Pajeú: "Pior do que isso só trocar um pneu, sem chaves de roda, numa estrada deserta e caindo um chuvinha fina". Pense num aperto.

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  5. Hahahahahahaha!
    Aperto total!
    Se não me engano, você é reincidente: há uma história de pastel com caldo de cana, não?
    O resultado, porém, é positivo: um perrengue = uma crônica.
    É, “ninguém” merece mesmo...

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    1. Bem lembrado, Zé! Se bem que tá pra nascer o sujeito que só terá dor de barriga uma única vez.

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  6. Um velho conhecido, pai de uma colega de trabalho, dizia sempre que o que sustenta um homem em pé é m*. Basta ela começar a sair em debandada que as pernas tremulam e não sustentam mais a posição vertical. Certamente cada um de nós já passou por uma experiência sufocante dessas, só que a sua teve um fator adicional, para dar bem mais emoção ao episódio. Que bom que terminou de forma "limpa".

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  7. Que situação! Lindos, arrumados e perfumados, e o que mais queriam naquele momento era um toalete, valia mais do que aquele belo cheque. E minha amiga Magdala perdeu a entrada da noiva.rsrs


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  8. Já passei por calafrios semelhantes, meu caro amigo. Numa hora dessas, o melhor, como você disse, é estar a, no máximo, “20 metros de um banheiro”.
    Em relação a esta crônica, o que mais gostei foi o suspense, aliado ao senso de humor, duas características que me cativam quando estou diante de textos literários.

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  9. ANTONIO CARLOS CAMPOS27 de janeiro de 2021 09:20

    Só quem já precisou arrochar o esfincter por muito tempo é capaz de entender o Autor. O difícil mesmo e quando ele é solto em ambiente silencioso. Exemplo: recepção de consultório médico.

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  10. Pelo que entendi acabaram não ficando para os embalos; assim sendo, sinto muito pelo aperto que passastes, mas sinto também por nossa amiga não ter feito o que tanto gosta: dançar.

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  11. Que sufoco......,,,,,e bite sufoco nisso

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  12. Ainda bem que deu tudo certo. Tive um amigo que dizia sempre: Nada de coração, fígado, pulmão, ou outro órgão qualquer do corpo humano, quem manda mesmo é o Esfíncter. Quando ele chama, deve ser atendido. Por isso é conhecido também como “O Rei do Corpo”.

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  13. Pela lei geral das probabilidades das cólicas de barros em erupção, sempre o elevador vai tá no sexto andar, vai aparecer alguém dirigindo bem devagar à sua frente, o único banheiro do local vai tá ocupado, ou, o pior, na hora de desatar-se das amarras o botão da calça cisma em dificultar a liberdade. Outro dia tive uma presepada desse naipe, cujo danos foram o sumiço de uma cueca, e a limpeza do estofamento do carro. Literalmente, uma merda. Agora, se sentir um rei, ouvindo ao longe a marcha nupcial, deve ser algo muito transformador. rsrs Mas, tu saiu no lucro. Vai que o amigo do cheque não atende o telefone, que a merda iria virar boné, e ainda poderia ser preso por desacato fecal às autoridades. Cacacaca, não resisti à piada.

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    1. “Desacato fecal às autoridades”... Essa é boa. Devidamente anotada para futuro aproveitamento.

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  14. Sensacional. Passei por situação ainda pior, kkkk.

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    1. Hayton, você teve um desfecho melhor do que o meu.
      Quando tomei posse no BB em 1975 fui trabalhar em São Félix, distante 100 km de Salvador.
      Eu já estava na faculdade e para não interromper os estudos me deslocava diariamente, às vezes de carro outras de ônibus.
      Numa destas viagens, de ônibus, indo trabalhar, passei o maior sufoco, inclusive pedindo ao motorista do ônibus papel higiênico emprestado e que o parasse na estrada, sob pena de fazer o número 2 ali mesmo.
      Mas o pior ainda estava por vir.
      Quando chegamos em Cachoeira, o ônibus não pode atravessar a Ponte Rodoferroviária D.Pedro I, pois o trem estava manobrando.
      Aí a danada da cólica começou a incomodar e eu não tive dúvidas, saltei e encarei a pé a travessia da ponte.
      Porém, o que eu não contava era com a má conservação da ponte.
      Eu caminhava movendo somente as canelas, pois do joelho pra cima tava tudo travado.
      Pois é, no meio da ponte tinha um vão sem o piso de madeira de aproximadamente um metro, distância que não consegui vencer usando somente as canelas, kkkkk. Quando abrir as pernas para pular, senti algo quentinho escorrendo pela “bunda” indo em direção às pernas.
      Foi muito constrangedor, começei a correr, mas não poderia ir para o Banco naquela condição.
      Fui para a Pensão de Antenor, aonde alguns colegas moravam.
      Na Pensão, não encontrei ninguém, fui para o banheiro, tomei banho e sai para o varal á procura de um short, calcão, bermuda ou mesmo uma calça.
      Aí dei sorte, encontrei uma calça cor de vinho do colega Domingão, para minha felicidade, do meu tamanho.
      Que sufoco.
      Não desejo a ninguém o que passei.

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    2. Desculpa nem lhe conheço, mas aqui morrendo de rir..kkkkkk...que aperto caro Blóton!

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  15. Assim como seu esfíncter, você também continua afiado. Crônica com tudo que é preciso: humor, suspense, reflexão sobre a m... que ronda todos nós! Na volta da festa você poderia ter recompensado Magdala colocando pra tocar no rádio a singela canção Ana Maria, que atormentou ela certa feita por mais de 18h ininterruptas em Patos! Rsrs

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  16. Mas rapaz, aonde você vai chegar????
    Uma simples caganeira - quantas cada um de nós não teve na vida!! - e você a transforma numa história deliciosa, com um texto refinado!!!
    Se bem que deveria haver um depoimento aí da doutora Magdala, pois certamente você omitiu alguma passagem menos nobre do episódio.
    E você terminou ganhando um concorrente de aventura - a história do Blóton aí acima é mais que inusitada e hilária, digna de um filme ou peça teatral, haja cagões!!!
    Por fim, minhas desculpas pela linguagem chula que usei, não vou ser politicamente correto diante de uma história dessa.

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    1. Pois é, só publiquei a minha “caganeira” após o incentivo de Hayton, não queria ser um concorrente.

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  17. Nossa Senhora!!! Pensa num sufoco desses! Tentar segurar o que não se segura!!! Kkkk! Mas o alívio deve ter sido gigantesco!

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  18. Hayton, mais uma das suas prá relaxar nesse isolamento! Muito bom! tiberio 👍

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  19. Esse seu talento pra transformar um limão numa limonada, meu caro amigo, me dá a certeza de que teremos um novo “Vai que dá certo...” muito em breve.

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    1. Espero que sim, meu caro UMor, tanto mais se merecer novas ilustrações suas e se puder lançar o livro não com pompa, mas com o carinho de amigos reunidos. Claro, depois da vacina!

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  20. Sem dúvida que poderá com os nossos rabiscos. Pra mim, uma satisfação e uma honra poder mais uma vez juntar-me às suas imaginativas e criativas crônicas.

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  21. Sem dúvida que poderá com os nossos rabiscos. Pra mim, uma satisfação e uma honra poder mais uma vez juntar-me às suas imaginativas e criativas crônicas.

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  22. Maria de Jesus Rocha
    Caracas!
    Que sufoco!!!
    Sinceramente,não desejo pra ninguém.
    Kkkkk

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  23. Imagino sua agonia ... se o Guarda segurasse mais um pouquinho, ai do Amigo ... 😂😂😂
    Gostei, como sempre!
    Abs

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  24. E quem mais saiu perdendo nessa fui eu! Rsrs! Que não pude ter a companhia de vocês durante toda a festa do meu casamento!

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  25. Fico imaginando a agonia... kkk esse negócio é mais rápido do que a eletricidade. Não dá tempo de acender a luz... duro é querer falar trancando a parte de baixo.

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  26. Quem nao passou por isto ou por algo parecido que atire a primeira pedra. No caso, ainda foi vitorioso, realizando a contento a atividade, pelo menos assim descreveu. Kkkkkkk...

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  27. Rindo alto aqui imaginando a cena da Blitz... Hahaha

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  28. kkkkkk...desculpa Hayton, mas como sempre suas crõnicas nos tiram do sério. Eu também já passei um desses apertos e como o sufoco do seu amigo Blóton; que agonia de vocês dois! Que maravilha seu poder de transformar um limão em limonada, como bem falou seu amigo. Eu trabalhei 9 anos na SEDUC daqui de São Luis, e num desses desarranjos, eu trabalhava no 5º andar de um prédio velho, onde ficava a supervisão que eu estava lotada, tive que descer às mil por hora, até o segundo andar, o único local do banheiro; ainda bem que deu tempo de me safar....ufa...o sufoco também foi grande, ainda mais num banheiro onde era bastante frequentado. Depois só sair depois da última pessoa que estava ali....kkkkkk

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