quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Do pescoço para cima

Semana passada resgatei aqui breve conversa que tive, há 20 anos, com o jornalista Armando Nogueira, quando  lhe ofereci, em vão, mote para que escrevesse acerca de “rostos do futebol”. Dei exemplos, citando os ex-jogadores Edmundo (“É a cara do sujeito atormentado, confuso, furioso, a ponto de explodir...”), Sávio (“Triste, depressivo, parece que vai desabar no choro a qualquer momento...”) e Dodô (“Vive rindo com as sobrancelhas o tempo todo...). Achei que seria relativamente simples para quem, como ele, conhecera figuras marcantes no universo do futebol, como Heleno de Freitas, Manga, Garrincha, Pelé e Marinho Chagas.


Alguns leitores e leitoras que me cotam bem acima de minhas próprias convicções me lançaram o desafio de desenvolver o assunto sugerido lá atrás ao mestre da crônica esportiva. Um deles, inclusive, em mensagem à parte, propôs que ampliasse o tema para “traços da personalidade de ídolos do esporte em geral, a partir da expressão fisionômica sob a pressão da disputa”. 



De cara – sem trocadilho! –, lembrei-me do sorriso largo e pleno de Daiane dos Santos ao aterrissar de um perfeito duplo twist carpado. E do olhar glacial e oscilante de Mike Tyson, no canto do ringue, com as pálpebras apertadas, cubando sua presa antes do bote fatal. Lembrei-me também das orelhas de Michael Phelps, feito asas de um caça supersônico ajustando-se às correntes de vento na iminência do mergulho definitivo. E ainda do jeitão debochado de Usain Bolt, antes de partir como um míssil em direção à linha do horizonte. 

Por preguiça de pensar ou sei lá o quê, contudo, atenho-me ao futebolzinho que vejo desde os anos 70, ao vivo ou pela tevê. E alerto que meus conhecimentos de psicologia igualam-se pelo rodapé com os saberes primários de certas figuras públicas que, sem o menor pudor, desconhecem o tamanho da poltrona em que sentadas e da encrenca histórica em que podem se meter.


Limito-me a uma abordagem meramente especulativa, daquelas de arquibancada no intervalo de uma partida ou de mesa de boteco onde quase tudo se sabe. Nenhum rigor científico. Tudo a ver apenas com o hábito de rabiscar bocas e caras, enquanto usava telefone fixo, antigamente, para ordenar os pensamentos.

 

Filósofos gregos importantes dedicaram-se ao estudo das aparências. Aristóteles e alguns de seus discípulos, por exemplo, chegaram a elaborar teorias sobre como as feições de alguém refletiam seu estado de espírito. “Cabelos macios são indícios de covardia, enquanto fios mais grossos são um sinal de coragem”, afirmavam. O atrevimento, segundo eles, podia ser lido numa pessoa com “olhos brilhantes, bem abertos e com pálpebras injetadas de sangue”. Já um nariz largo, como o focinho de uma vaca, era visto como indicativo de preguiça. Ideias próprias de sábios de uma época e de beócios de hoje (para ficarmos na mesma geografia).
 

Descobriu-se, por exemplo, que as pessoas com níveis mais altos de testosterona tenderiam a ter rostos mais largos, com bochechas maiores, e personalidade mais assertiva, até agressiva. A relação entre o formato do rosto e a dominância era algo bem aceito, tanto num macaco-prego – quanto mais larga a sua cara, mais chances ele teria de ocupar o topo na hierarquia do bando – como no ser humano.

 

Pois bem. Dos que vi jogar futebol, ao vivo ou pela tevê, impressionava-me o rosto fleumático, soberano, dominador de figuras cintilantes como: Ademir da Guia, Alex (ex-Cruzeiro e Palmeiras), Beckenbauer, Carlos Alberto Torres, Falcão, Figueroa, Pelé, Pirlo, Roberto Menezes (ex-CRB), Seedorf, Sócrates e Zidane. 


De outro ângulo, apesar do indiscutível talento, notava o semblante frágil, conformado, avesso a protagonismo, de craques como: Bebeto, Dirceu Lopes, Iniesta, Jorge Mendonça, Kaká, Luizinho (ex-Atlético/MG), Messi, Modric, Sávio, Silas, Valdo e Zé Carlos (ex-Cruzeiro). 


No vértice final de meu triângulo, retratos de uma loucura mal disfarçada em anjos tortos, leves ou furiosos, como: Dadá Maravilha, Diego Maradona, Edilson, Denner, Djalminha, Dunga, Éder, Edmundo, Marinho Chagas, Pepe (ex-Real Madrid), Serginho Chulapa e Vampeta.

 

De uns tempos para cá, com cirurgia plástica e outros procedimentos afins, tornou-se mais complicado, à distância, especular sobre o rosto humano. Além de alterar a história esculpida na face, as mexidas nos traços originais podem interferir na personalidade. Diz um amigo meu, cirurgião plástico, que “uma leve mudança no ângulo do nariz transmite arrogância ou brejeirice”. E que, com frequência, escuta coisas como: “agora, sim, tenho o meu verdadeiro nariz”.

“Cabeças grotescas”, de L. da Vinci

 

Vê-se agora nos estádios, apesar de vazios, um desfile de rostos desfigurados por retoques cosméticos, cortes e pinturas de cabelo e sobrancelhas, tatuagens no pescoço e piercings em orelhas, línguas e narizes – guardados a contragosto apenas durante as partidas , num desfile de gosto duvidoso que atiça a disputa entre egos inchados e motiva torcedores a reverenciar algumas cabeças grotescas, tanto pela arte que praticam como pela forma de se pavonear. Às vezes, mais pela segunda do que pela primeira. 

Nunca se disse a Bruno Henrique, Cristiano Ronaldo, Daniel Alves, D'Alessandro, Gabigol, Guerrero, Ibrahimovic, Neymar, Sérgio Ramos etc., que, de perto, os olhos sempre serão janelas abertas da alma. Que, de forma mais humilde e madura, podem expressar suas histórias de vida, alegrias, coragem, força, espiritualidade, independência, poder e riqueza. Hoje, eles já nem se imaginam noutro patamar em relação aos colegas de profissão. Têm certeza disso.

Anda difícil enxergar o que vai na cabeça e no coração de figuras dessa cepa. Quer dizer, na cabeça, nem tanto. Armando Nogueira deve rir de mim, talvez comentando com outro cronista genial como ele: “Este rapaz não leu o que você escreveu, meu querido anjo pornográfico, quando disse que só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu”. 

 

O pior é que li. 

45 comentários:

  1. Leu e, com seu estilo, deu asas para pintar com cores nítidas o "rosto" de esportistas tendo como pano de fundo os traços invisíveis. Missão cumprida.

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  2. ANTONIO CARLOS CAMPOS10 de fevereiro de 2021 06:42

    Não podemos esquecer de Mauro Shampoo. Como ele mesmo disse, um jogador de mentira, camisa 10 do IBIS, do pior time do mundo. 10 anos de carreira no cenário futebolístico Pernambucano, autor de 1 (um) gol, que muitos afirmam que foi contra. Ele confessa que foi uma honra essa passagem da sua vida profissional, mas as janelas da alma nos olham com resignação e afirmam: mentira.

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    1. São muitas figuras, meu caro Antônio Carlos. Você me faz recordar de um lance envolvendo o goleiro do Nacional de Patos-PB, nos anos 60, cuja maior defesa na vida teria sido uma bola recuada pelo lateral Perequeté, de seu time, na disputa de uma taça qualquer. Era possível, na época, devolver a bola nas mãos do goleiro. Mas não desse jeito!

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    2. ANTONIO CARLOS CAMPOS10 de fevereiro de 2021 08:02

      Podia ter feito teste no IBIS.

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  3. Dos filósofos Gregos aos cirurgiões plásticos de hoje, do fio do cabelo aos sorrisos , mais uma bela crônica , onde realmente podemos ver em cada rosto a expressão de uma personalidade .

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  4. Acabei traçando um perfil daqueles que eu já trabalhei e tive como exemplo de liderança e mentoria. Uma ótima análise morfopsicológica.

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  5. Muito legal essa sua abordagem, parabéns, mais uma vez.

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  6. Talvez a evolução das transmissões esportivas siga essa trilha de close profundo que você desenhou. Participamos hoje em dia até das opiniões de nossos ídolos. Assim como leitores atiçam seu escritor a ir atrás de um certo assunto. Admirável mundo novo! Dedé.

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  7. Fico imaginando a intimidação causada pela zaga do vascão com Odivan e o bigodudo xerife Pernambuco Ricardo Rocha.

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  8. Perfeito os perfis. Sempre comentei sobre a vocação para o pugilistas do Beijoca e Roberto Rebouças aqui na Bahia. Vocação para árbitro de Felipe (L.E.) e do Dinamite. Enfim seriam muitos a serem estudados.

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  9. Hoje em dia, rabiscam pescocos6, braços e pernas porque é pra lá que querem a atenção. Tatuado está na alma desses "jogadores " de hoje o pobre futebol que praticam. Suas peles são apenas rascunhos daquilo que desejariam ser. Excelente abordagem. Taí, gostei.

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  10. Muito bom. Gostei, também, de ter colocado Roberto Menezes no patamar de grandes craques. Quem o viu jogar sabe do que estou falando.

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    1. Lembrei de outros, mas não consigo encaixá-los nos vértices de meu triângulo de percepções, onde constam: soberanos, coadjuvantes e loucos. Se tivesse imaginado, por exemplo, um pentágono, poderia abrigar outros perfis. Mas aí o leitor não teria saco para ler texto tão longo.

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  11. Que bom que aceitou a provocação do Orlando. Deu certo. Parabéns pela bela crônica.

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  12. Eu também li!
    Achei EXELENTE está crônica fisonomicas com lantejos de feiras e lantejos pornográficos faciais. Não sei se é porque tenho a mania de brincar com arte e desenhos, que me prendo as expressões faciais de todos que estão no meu ciclo de amizades. Levo sim, em considerações a personalidade de cada individou o formato do seu rosto, nariz, cabelo, orelha, sombrancelhas, olhos, queixo, pescoço e cilios. Portanto, eu acredito que a personalidade e a inteligência de cada indivíduo reflete nas fisionomias. Parabéns meu nobre irmão Hayton, pela interessante crônica. Eu li e repassei!!!

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  13. Missão dada é missão cumprida! E que velocidade (da maestria não precisamos nem falar)! A referência aos filósofos gregos me fez lembrar das minhas aulas de Criminologia e do Cesare Lombroso, que no início do Século XX procurava nos criminosos características morfológicas comuns que os definissem. Assim, traçou um perfil físico padrão do homem delinquente: maxilar largo, alta estatura, barba rala, caninos bem desenvolvidos, o que, logo, somava uma aparência desagradável. Ladrões teriam olhar esquivo; já os assassinos, um olhar firme e vidrado, e por aí seguia. Lógico que essa teoria caiu por terra, embora muito do preconceito com os esterótipos sociais prevaleça ainda hoje. Mesmo eu, se não soubesse quem foram os três R's e os visse na rua, nunca diria que o baixinho e marrento Romário, o desengonçado e cabeludo Ronaldinho Gaúcho e o dentuço, careca e barrigudo Ronaldo Fenômeno foram os craques que foram. Golaço de crônica! Parabéns meu amigo!

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  14. Muito bom Hayton!
    Navegamos pelo futebol, pela estética e pela filosofia.
    Tudo costurado com habilidade, traço comum entre o autor e seus personagens! Valeu demais!

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  15. Mais uma bela crônica, precisa e além das "quatro linhas".

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  16. Muito bom - o que me diz do rosto do Amaral, volante do Palmeiras, Vasco e Seleção?
    😂😂
    Marcos Tadeu

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    1. Existem vários, mas não consigo encaixá-los nos vértices de meu triângulo de percepções, onde constam: soberanos, coadjuvantes e loucos.

      Se partisse para um pentágono, poderia abrigar outros perfis. Quem sabe formar um timaço de botões capaz de amedrontar qualquer adversário, com rostos de: Amaral, Biro-Biro, Rosemiro, Ribery, Carlitos Tevez, Fio Maravilha, Ronaldinhos Gaúcho e Fofão etc.

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  17. Bom dia, meu caro Hayton!
    Suas últimas duas crônicas me levaram a reconhecer um hábito, até aqui inconsciente, de prestar atenção às expressões de alguns rostos. Destaco um, para mim icônico, pois você - com brilhantismo universalmente reconhecido - já fez uma ampla abordagem: trata-se do jogador Gabriel de Jesus, cujo rosto sugere que está sempre chorando!
    Abração!

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  18. Bravo! Vou esperar quando entrar no Volley, esporte que eu gosto muito. Kkk

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  19. Excelente!! O desafio agora é você navegar por outros mares. Pena que os rostos se modificam com tanta facilidade que porém enganar o analista. Kkkkk. Marina.

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  20. Rápido no gatilho! Excelente! 👏👏👏

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  21. Muito boa crônica, com sempre! 👏👏👏
    Abs

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  22. Suas crônicas já estão em “ôtro patamá”, como diria Bruno Henrique, citado neste seu texto.
    Parabéns!

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  23. Tentar encontrar o que está estampado na face de cada pessoa é enveredar pelos obscuros caminhos da alma humana. É evidente, porém, que cada um carrega em si traços de sua personalidade que, muitas vezes, parece aflorar no rosto.
    Sem entrar no complexo campo da psicologia social, deixando de lado as grandes obras sobre o assunto, você abordou o tema com simplicidade, maestria e leveza para seus leitores. Se o rosto, especialmente os olhos, é o espelho da alma, nada melhor que o esporte para captar os grandes momentos de emoção expressos nas atitudes dos atletas. Fleuma, fragilidade e loucura são características que os eternizam. Assim foi com Phelps, assim foi com Bolt, assim foi com Tyson, com Roberto Meneses, Bebeto e Maradona. Assim é com Messi, Cristiano Ronaldo ou Neymar, pois o rosto expressa o que vem de dentro da alma.
    Desafio proposto, desafio aceito (e com que rapidez!).
    Parabéns,Hayton!

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  24. Agostinho Torres da Rocha Filho10 de fevereiro de 2021 17:51

    Onde quer que se encontre, o mestre Armando Nogueira deve estar orgulhoso. Já os leitores... radiantes. De fato, não seria possível decifrar todos os grandes craque numa única investida, mas o olhar enigmático do volante Amaral bem que merecia ao menos uma citação. Belo texto!!! Parabéns!!!

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  25. Belíssima construção,Hayton! Gostei do triângulo desenhado com desenvoltura e atrevimento. É impressionante observar a evolução da qualidade dos seus textos, semana pós semana! Parabéns!

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  26. Show de texto, Hayton. Belo passeio pelo popular e erudito. E você abordou os vários pedidos para que abordasse o tema sem obviedade. Show!

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  27. Quando digo que sua cabeça produz energia semelhante à de uma usina nuclear, não exagero.
    Sua memória rivaliza com a do comentarista esportivo PVC. Como você pode ter guardado tantas fisionomias com traços tão singulares??
    Um amigo meu, médium vidente, contou-me que vê a todo momento Armando Nogueira andando pra lá e pra cá, com sua crônica impressa debaixo do braço, mostrando aos amigos e resmungando - "fui desprezar a sugestão do meu leitor e ele se vingou, fez uma crônica melhor que a que eu faria. Vou ressuscitar de arrependimento!!!!!"

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    1. Rindo aqui até o Carnaval do ano que vem com seu comentário! Você que é impagável, meu amigo.

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  28. Que crônica verdadeira. A partir de agora vou observar melhor certas pessoas para ver o que dizem seus rostos hahaha... Excelente texto. Cabra bom, eu queria ter um primo assim!

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  29. Instigado pelos Amigos, Nos deu mais um excelente presente.

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  30. Trabalhar com muitas pessoas vai nos fazendo aprender a ler seus semblantes. Daí a tua expertise se esperou... excelente.

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  31.  

    Vê-se agora nos estádios, apesar de vazios, um desfile de rostos desfigurados por retoques cosméticos, cortes e pinturas de cabelo e sobrancelhas, tatuagens no pescoço e piercings em orelhas, línguas e narizes – guardados a contragosto apenas durante as partidas –, num desfile de gosto duvidoso ...este trecho me lembrou o livro de crônicas do Eduardo Galeano falando de futebol...muito interessante Hayton

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  32. Simplesmente exclente Hayton! Não sei se teria essa sua boa memória. AInda mais tantos nomes e rostos. Simplesmente mais uma crônica espetacular. Um abraço

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