quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Golaço de ombro

Mal começa o ano e Roberto Dinamite, com o rosto pálido, olhos sem brilho, anuncia o início de tratamento para tentar derrotar tumores no intestino. E na onda de solidariedade que se forma, aparece Zico, no Instagram: “Bob, amigo... Você sempre foi um guerreiro e vai vencer mais essa luta fazendo um gol de placa... Queremos você sempre com o seu sorriso...”


Conheci Dinamite na noite de 06/10/2013, no Aeroporto JK, em Brasília. Ele, presidente do Vasco da Gama, chefiava a delegação do clube, que acabara de empatar em 1x1 com o Flamengo, no estádio Mané Garrincha. Eu participaria de uma reunião de trabalho na manhã seguinte, no Rio, e aguardava o embarque quando ele se sentou ao meu lado. 

 

Tomei a iniciativa de me apresentar. Logo, ele quis saber se havia como a “minha” empresa patrocinar “seu” clube sem a exigência de certidões negativas requeridas pela Caixa Econômica. Esclareci que a regra valia para todas as estatais envolvidas com marketing esportivo. E tocamos a conversa com amenidades, eu fingindo ser natural estar diante do maior ídolo esportivo de minha vida. 

 

A prosa ganhou cores e dores quando recordei momentos marcantes de sua trajetória profissional – boa parte extraída nas transmissões esportivas da Rádio Globo, no Jornal dos Sports ou na revista Placar. Alguns fatos nem ele lembrava, a ponto de brincar comigo: “Você sabe mais sobre minha carreira do que eu!” E sorriu largo, marca registrada do lendário artilheiro com mais de 700 gols em 1.110 jogos com a camisa vascaína, entre 1971 e 1989. 

 

Não era um centroavante técnico como Tostão, Reinaldo, Careca ou Romário, mas, de sua geração, nenhum fez tantos gols, graças ao porte físico privilegiado, à capacidade de colocar-se bem na área adversária, de antecipar-se aos marcadores e à potência explosiva do arremate, além de, a custo de muito treino, transformar-se em exímio batedor de faltas e pênaltis. 

 

Para Waldir Amaral, ícone do rádio esportivo, era “Dinamite... A camisa com cheiro de gol!”. Para Zico, "o atacante com quem melhor me entendi em jogos da Seleção". Os deuses do futebol, no entanto, tinham outros planos. Não permitiram que a dupla sequer tentasse evitar o fracasso nas duas Copas do Mundo em que estiveram juntos. 



 

Em 1978, na Argentina, Zico sentiu o peso dos gramados castigados pelos rigores do inverno e, substituído pelo esforçado Jorge Mendonça, viu do banco de reservas Dinamite balançar três vezes as redes adversárias, inclusive na vitória contra a Áustria, que livrou o Brasil de voltar para casa ainda na primeira fase.


E em 1982, na Espanha, Roberto descartado pelo treinador Telê Santana – que apostou no tosco Serginho Chulapa –, assistiu das arquibancadas o Brasil perder para a Itália sem ter a chance de atuar 10 ou 15 minutos ao lado de Zico, Falcão, Sócrates, Leandro e Júnior, craques que em um palmo de campo e uma fração de segundo poderiam com Dinamite explodir a muralha italiana e desviar o rumo da história.

 

A conversa flanava por aí quando ele se referiu a Zico. Os dois são amigos há mais de meio século. “O Galo foi o maior jogador de meu tempo. Nós começamos na mesma época, no juvenil. Não foi só a relação Roberto e Zico. Os pais dele, seu Antunes e dona Matilde, iam sempre ao Maracanã vê-lo jogar na preliminar e os meus pais também iam me ver jogar”.


Disse mais: “Eu não o chamo de Zico, chamo de “Galo”. E ele não me chama de Roberto, mas de “Bob”. É uma relação diferente e a gente até brinca que não precisávamos falar mal um do outro para levar 100 mil, 150 mil pessoas ao Maracanã. Crescemos assim. Adversários em campo, mas, acima de tudo, amigos”. 

Evitei tocar num ponto quase trágico. Em 1972, aos 18 anos, Dinamite apaixonou-se por Jurema, viúva e com um filho, seis anos mais velha que ele. A família dele não aceitou o romance e isso o atormentava bastante. Um dia, então, quase marca um gol contra, segundo a revista Placar: engoliu de uma vez vários comprimidos que sua mulher usava. 


“Eu vinha guardando aquela angústia só para mim. Tomei uma dose reforçada de calmante, mas não tinha a intenção de me suicidar... Só queria dormir uns dois dias seguidos para me desligar do mundo” – declarou à Placar. Jurema, que o levaria às pressas ao hospital naquele dia, morreu em 1984, precocemente, vítima de insuficiência renal crônica, deixando órfãs três crianças.

 

Quase tudo passa. Dinamite casou-se de novo e, mais adiante, em 1993, fechou a carreira de futebolista, virou político (vereador e deputado estadual) e dirigente esportivo. Hoje, aos 67 anos, ocupa cargo honroso e intransferível: avô de Valentina e Bento.

 




O Galo, querido amigo de meu ídolo, sabe quanto um ombro é importante para o gol de placa pelo qual ele torce. Quem sabe assim o velho Bob volte a sorrir largo com as cores, as dores e os sabores da prorrogação do jogo. E aí iremos todos cantar de coração...

37 comentários:

  1. O encontro do fã com seu ídolo é sempre um momento ímpar, levar detalhes desse encontro para uma cronica é a glória, parabéns. Breve recuperação Dinamite. O mundo do futebol lhe deve muito.

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  2. Excelente crônica! Que o nosso craque Dinamite se recupere o mais rápido possível.

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  3. Admiro a forma como você consegue falar das suas paixões - no caso o futebol -, de um modo tão intenso que consegue envolver seus leitores e transformá-los em parceiros nas suas dores, cores e sabores.

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  4. Caro amigo Hayton, Bom Dia. Acredito que todos, em algum momento da vida, tiveram seus ídolos... Ter a oportunidade de estar próximo, fisicamente, engrandece essa admiração...
    A referência que o ídolo representa em nossas vidas faz com que tenhamos hábitos e comportamentos semelhantes. Saber que essa "referência" passa por dificuldades, causa tristeza e certa frustração, mas sempre será um exemplo, uma espécie de modelo a ser seguido...
    Que o grande Bob, de fato, consiga vencer as imperfeições desse "gramado"...
    Forte abraço.

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  5. Ampliando o texto daquele comercial de cartão de crédito, seria um "Encontrar com um ídolo não tem preço". E sem programação prévia deve ter-lhe feito sentir-se como estando em um lugar privilegiado de um Maracanã lotado e vibrante, na hora de um gol de placa em uma decisão. Mesmo torcedores contrários ao Vasco da Gama, como meu caso de tricolor das Laranjeiras, reconhecíamos a categoria de tantos craques,a exemplo de Zico e Dinamite, na época dourada em que acompanhávamos as narrações clássicas de Waldir Amaral e Jorge Cury. Torçamos para que o "Bob" vença mais esse desafio. Registrou fotograficamente o momento ou conseguiu manter-se sem demonstrar explicitamente a aceleração palpitante?

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    1. Li ontem que Dinamite fará esta semana sua terceira sessão de quimioterapia, de um total de 10. Segundo seu filho Rodrigo, tá suportando bem. De fato, Chagas, as alegrias que o cara me proporcionou, atuando pelo Vasco ou pela Seleção, fizeram dele mais que um ídolo. Confesso que, quando adolescente, quis ser ele.

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  6. O Chagas percebeu um grande detalhe. Não registrou esse encontro numa fotografia ? Nem Pele, lhe escapou de uma. A emoção deve ter sido muito grande, além de qualquer expectativa. Parabéns pelo texto.

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    1. Na hora, pedi a Éder Luiz, ponta direita, que registrasse o encontro com meu celular. Deixei para conferir o resultado mais adiante e só depois vi que, como fotógrafo, ele era perna-de-pau. A imagem ficou desfocada.

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  7. Existem verdadeiros ícones que não poderiam morrer. Músicos, artistas, jogadores... a natureza tinha de preservá-los. A vida não é justa, trata a todos de forma igual. Sorte podermos encontrar um ou outro e matarmos a saudade, única que restará.

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  8. Em sua estreia no Maracanã, Roberto entrou no segundo tempo, pegou a bola na intermediária e saiu levando, cortou o zagueiro e soltou uma bomba que carregou a rede do gol, que na época não erra tão esticada e presa como é hoje, um fotógrafo registrou o momento e o Jornal dos Sports estampou “o garoto dinamite explode o Maracanã”. Assim se consolidou o apelido do maior goleador do brasileirão de todos os tempos. 21 anos jogando pelo vasco em 1.110 partidas. Só outros dois jogadores jogaram mais de mil jogos em seus clubes (Pelé e Ceni). Ao retornar do Barcelona para o Brasil, depois de recusar a oferta do Flamengo, e voltar para casa cruzmaltina, enfrentou o Corinthians e marcou 5 gols nesta partida no Maracanã lotado. Fazia milagres. Fez até o Zico vestir a camisa do Vasco em sua homenagem.
    Que mais uma benção aconteça em sua vida.

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  9. Bela crônica, Hayton! Capturou com maestria a fusão do passado do craque com o seu encontro com ele e mais a recente notícia de que ele está combatendo um câncer!
    Se você quis ser Dinamite, eu era Tostão na adolescência. E ria intimamente porque as pessoas não “descobriam” isso. Acho que só eu achava Tostão melhor que Pelé!

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  10. Acompanhei a trajetória do Zico e do Dinamite. Lembro das vezes que o Dinamite balançava as redes do mengão e fazia a nação rubro-negra sofrer. Em relação à fantástica seleção de 82, acredito que o destino daquela geração poderia ter sido outro, caso o Telê Santana tivesse optado por escalar o Dinamite para aquela fatídica partida contra a Itália.

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  11. De fato, o Mundo merecia ter visto os dois jogarem juntos. Era um pesadelo pra qualquer flamenguista ver o desespero de Rondinelli tentando acompanhar quando Dinamite cortava pro lado para chutar. Sempre o admirei demais. Torço para que vença mais essa batalha.

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  12. ... e a cruz de malta é o teu pendão!

    Espetacular o fechamento dessa maravilhosa crônica, que aborda, com leveza e esperança, um tema pesado para qualquer ombro.

    Que possamos cantar, juntos e de coração, mais uma vitória do seu maior ídolo!

    Parabéns!

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  13. Parabéns, bela crônica. O Dinamite nos deu muitas alegrias e com as bençãos de Deus vai marcar mais esse golaço.

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  14. O bom é que ele tem amigo e netos, além de milhares de fãs pelo Brasil nessa torcida que é mesmo da fuzarca.

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  15. Que bela carreira tiveram, tanto Zico como Roberto Dinamite.
    Nos tempos em que viaja para bater bola em qualquer lugar, e como não bebo, os “biriteiros” sempre queriam ir comigo.
    Numa dessas viagens, ao passar por Feira de Santana, avistamos no alto de um morro o BAR ROBERTO DINAMITE, todo pintado em preto e branco e com a inconfundível Cruz de Malta.
    O meu”irmão” Antônio Fernando Raposo de Freitas, o Fernandão, ou simplesmente My Boy, um carioca, ferrenho torcedor do Vascão da Gama, despertou de um cochilo e disse, imperativamente: “volta, vamos tomar uma”.
    Sem alternativa, fiz a volta e os “bebuns” foram satisfazer as suas vontades.

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  16. Meu pai era vascaíno doente! Acostumei-me a ouvi-lo contar as grande jogadas desse craque! Que ele se recupere logo! Bela crônica, Hayton!

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  17. Que "DINAMITE" DE GRANDES GLÓRIAS,ENCONTRE A SAÚDE O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL, PARA CONTINUAR CONTANDO SUAS HISTÓRIAS E CURTINDO A VIDA COM AMIGOS, FILHOS E NETOS.PARABENS MEU AMIGO, GRANDE HOMENAGEM A UM DOS MAIORES ARTILEIRO DO FUDEBOL BRASILEIRO.ABRAÇO!

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  18. Posso imaginar sua frustração com a foto sair fora de foco logo com Dinamite. Rsrs

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  19. Na primeira foto, na parede, atrás do Dinamite, estão estampadas fotos de um dos gols mais bonitos do Maracanã. Nos últimos minutos, após cruzamento do Zanata, Roberto mata no peito e aplica um lençol ( ou banho de cuia ou chapeuzinho ) no Osmar do Botafogo decretando a vitória do Vascão por 2x1 sobre o Botafogo.
    Me fez lembrar as memoráveis narrações do Waldir Amaral e Jorge Curi à época: " Tem peixe na rede" " Indivíduo competente o Roberto".
    Dinamite também sempre foi meu ídolo no futebol. Torço por sua plena recuperação. Parabéns Hayton por mais uma bela crônica.
    Saudações Vascaínas,
    Nelson Pascoal

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  20. Ademir Menezes, Vavá, Roberto Dinamite e Romário, grandes centroavantes do meu querido Vasco da Gama. Lembro-me muito bem de você ainda muito jovem, no SETOP da Centro Maceió, comemorando mais uma vitória do Vasco com gol de Roberto Dinamite, de quem você já era o maior entusiasta e o chamava de Bob Dinamite. Isso lá pelo final dos anos 70, começo de 80.

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  21. Agostinho Torres da Rocha Filho9 de fevereiro de 2022 16:55

    Justa homenagem ao maior artilheiro da história do Campeonato Brasileiro. A propósito, por iniciativa do presidente vascaíno, Jorge Salgado, e aprovação unânime da diretoria do clube, Roberto Dinamite será indicado para receber o título de benemérito e uma estátua sua será construída em São Januário. Quem dera o tempo pudesse ser menos implacável com os nossos ídolos e entes queridos. Parabéns pela crônica!

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  22. Caro amigo são indiscutíveis as suas virtudes em retratar como poucos esses momentos de magia que a vida insiste em nos presentear. E para os vascaínos a emoção é imensa ao relembrar tudo que esse ícone do futebol fez pelo Clube da Colina. Que Dinamite exploda essa doença assim como fazia com as redes do Maraca. Parabéns pela bela e justa homenagem desta crônica.

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  23. Bela e emocionante história, contada com a maestria de costume.
    Contra, a favor ou neutro (meu caso: torço por um único time - melhor nem dizer!), não há quem tenha vivido aquela época e não se lembre com muita saudade dos dois maiores ídolos de Vasco e Flamengo.

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  24. Bela crônica!
    Apesar de ser botafoguense, sempre admirei e gostava do Dinamite.
    Abs
    Zezito

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  25. Interessante, amante do futebol e flamenguista que torce com paixão, mas sem jamais brigar por futebol, sempre tive a maior simpatia pelo Dinamite, considero-o um exemplo de jogador e esportista, quase um lorde jogando futebol.
    Disse isto a ele uma vez que o encontrei no Bingo do Arpoador e fui cumprimentá-lo, no Rio de Janeiro. Ele, sem surpresa pra mim, tratou-me com a maior delicadeza.
    Até hoje tenho indignação pelo fato de nunca terem-no deixado jogar na Seleção ao lado de Zico. Não tenho dúvida de que o sucesso seria retumbante, com lembranças eternas.
    E você, Hayton, sempre extrapola, mais uma vez consegue registrar um fato da maior importância de uma forma que se eternizará.
    Confesso que é forte a emoção que de que sou tomado e tenho certeza de que nem o mais consagrado cronista conseguirá lhe superar, se resolver escrever sobre o assunto.
    Roberto merece tomar conhecimento de sua crônica, tenho certeza de que será um forte aditivo a fortalecer a luta que está empreendendo - e minha mais forte e aguerrida torcida por sua vitória.

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  26. Sou Flamengo mas sempre admirei o Roberto Dinamite porque era um senhor centroavante, posição que eu também jogava, e pela sua simplicidade. Pude constatar isso de perto quando jogava no Bangu e fomos enfrentar o Vasco em São Januário. Logo depois do jogo estávamos em um grupinho quando se aproximaram Gaúcho e Roberto e se integraram em nossa conversa, porque tinha um jogador nosso, Carbono, que fez parte do juvenil do Vasco junto com eles, quando foram campeões em 71. Fiquei olhando aquele cara que demonstrava uma simplicidade ímpar. E já era, estouradamente, o maior nome do time. Não fazia pose, não tinha máscara nem empáfia. Este comportamento pode ser constatado até hoje em suas entrevistas.
    Sobre o jogo? 0 x 0 no primeiro tempo, segundo tempo 2 a 0 Vasco.
    Não precisa dizer quem fez os gols.
    O ano 1974.

    Torço para que Roberto Dinamite saia mais uma vez campeão.


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  27. Fiquei tão emocionado com sua crônica que esqueci de registrar, em meu comentário acima, a mais forte impressão e convicção que ela me causou.
    Seu fechamento, o parágrafo final, é de um brilhantismo tão singular que deveria constar da maior enciclopédia que se pretendesse criar com crônicas eleitas como pérolas . Mais, deveria também fazer parte de cursos de mestrado, doutorado e pós, da área de jornalismo das melhores Universidades.
    Nenhuma intenção de te agradar, é exercício de senso crítico.

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  28. Belo texto Hayton. Que o Roberto, ou Bob (como Zico o chama) tenha sucesso no seu tratamento.

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  29. Dinamite é das raras unanimidades nesta vida, assim como Zico. Bela crônica, pra variar.

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  30. Nosso Craque Hayton retratando o enorme Dinamite, ícone dos tempos em que meu Vasco jogava bola de verdade. 👏👏👏👏👏👏

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  31. Belo texto! Época Romântica do futebol.

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  32. Nunca li uma homenagem tão grande ao maior ídolo do Vasco da Gama e um Deus do futebol da família Rocha, lá do Maranhão. Mais uma vez o autor brindou-nos com um texto irretocável, dedicado a um monstro sagrado do futebol.

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