quarta-feira, 4 de maio de 2022

O céu não pode ter pressa

Quem de nós nunca reverenciou figuras únicas, incomuns naquilo que faziam? Não falo de pais e mestres, cuja proximidade já nos impactava naturalmente, mas de personagens que nos foram apresentados pela magia do rádio ou do toca-fitas numa época em que a televisão ainda era item de luxo na casa de remediados.

 


Tão distantes de minha casa mas absurdamente próximas de mim, duas dessas figuras singulares foram Rita Lee e Roberto Dinamite. Ela, estrela maior do rock brasileiro, tinha a mania de compor canções cujas letras eu gostaria de ser o autor. Ele, bem, deixa pra lá. Quem um dia sonhou ser jogador de futebol sabe do que falo.

 

Há um ano, Rita foi diagnosticada com câncer no pulmão. Ao descobrir a doença, fechou-se em copas num sítio no interior de São Paulo, ao lado do marido, onde seguiu à risca o tratamento médico prescrito. Deu certo. Mês passado, um de seus filhos anunciou nas redes sociais que ela, aos 74 anos, está curada. 

 

No início de 2022, Roberto Dinamite também revelou estar com um câncer (no intestino). De imediato, iniciou a quimioterapia para enfrentá-lo e, aos 68 anos, 20 kg a menos, concluiu outro dia a primeira sessão. Suportou bem.


“Navigare necesse, vivere non est necesse”. Em latim, essa frase é atribuída ao general romano Pompeu Magno (106-48 a.C.). Teria dito a seus marinheiros, apesar de grande tormenta, que suas naus deveriam partir em direção a Roma, levando o trigo embarcado na Sicília, Sardenha e África. 

 

A sentença rodou o mundo a partir do filósofo e historiador grego Lúcio Méstrio Plutarco (46-120 d.C.),  até chegar a Fernando Pessoa (1888-1935), filósofo, ensaísta, crítico literário e tradutor, mais reconhecido como o maior poeta da língua portuguesa.


Toda vida é provisória, mas, enquanto houver, não faz sentido desistir. É preciso navegar e, na tempestade, reposicionar as velas, vencer os obstáculos e refazer o roteiro da viagem, se necessário. Mesmo numa roda onde brincam de mãos dadas angústia, depressão, incerteza e apreensão, não se pode perder de vista a impermanência de tudo e de todos. 


Após a queda, não é tão simples e poético levantar-se, sacudir a poeira e superar as dificuldades, exceto no samba “Volta por cima”, de Paulo Vanzolini (1924-2013). Seja a perda de um ente querido, do trabalho, da saúde ou até mesmo da esperança, muitas vezes a primeira que morre. Mas todo pescador calejado sabe que é no mar revolto que se separam os homens dos moleques. 

 

Na noite de quinta-feira passada, o estádio de São Januário, no Rio de Janeiro, virou palco para a inauguração no gramado (atrás do gol da ferradura, diante da arquibancada) de uma estátua de Roberto Dinamite. 


O maior ídolo da história do Vasco da Gama recebeu o carinho de 10 mil torcedores numa cerimônia que, além de ex-treinadores, como Antonio Lopes e Joel Santana, reuniu ex-companheiros de time, como Bebeto, Tita, Mauro Galvão, Zé Mário, Acácio, Bismarck, Arturzinho, William, Sorato e Mauricinho. 


Até adversários históricos, feito Zico e Júnior, estiveram lá para aplaudir um comovido Roberto, que agradeceu o afago em meio à turbulência por que passa, em plena luta para derrotar o maior adversário que encontrou pela frente. E foi ovacionado ao referir-se à história de amor que tem com o clube desde moleque.

 

“Para viajar, basta existir”, diria Fernando Pessoa. Por isso me pego navegando – não custa muito e faz bem velejar por mares desconhecidos –, a imaginar como seria tocante, daqui a pouco, ver as duas figuras plenamente recuperadas, por força inclusive do tanto de felicidade que semearam entre seus admiradores. 


Chego a ver Rita Lee, com seu jeito moleque de ser, dedilhando o violão a cantar baixinho pra Roberto ouvir a versão que fez de “In my life”, de Lennon e McCartney: “Tem lugares que me lembram/ Minha vida, por onde andei/ As histórias, os caminhos/ O destino que eu mudei/ Cenas do meu filme em branco e preto/ Que o vento levou e o tempo traz/ Entre todos os amores e amigos/ De você me lembro mais...”



E antes que os olhos de Dinamite acusem o golpe certeiro, ela arremata: “Como vai? Tudo bem? /... As águas vão rolar, não vou chorar/ Se por acaso morrer do coração/ É sinal que amei demais/ Mas enquanto estou viva e cheia de graça/ Talvez ainda faça um monte de gente feliz...” 


Eles ainda fazem um monte de gente feliz. Se a alma é grande, o céu não pode ter pressa. Dirão lá em cima que tudo vale a pena enquanto a vida não se apequena aqui embaixo.

50 comentários:

  1. "O todo da nossa vida/É feito de fragmentos", esta crônica decifra o mote acima com exemplar competência. As ações, os atos e os exemplos fazem a colcha de retalho que é a vida. Ademar Rafael Ferreira

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  2. Nossos ídolos , nossas lembranças , nossas saudades e nossas superações, a crônica mostra um pouco de tudo e mostra que vale a pena viver, muito boa, parabéns!

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  3. Chorei. Não procurei esconder. Todos viram. Pena de mim não precisava. Ali onde eu chorei qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava. Viver é sacudir a poeira.

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    1. Parabéns pelo comentário.permita-me fazer meus seus comentarios

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  4. Excelente lembrança dessa duas figuras tão importantes na nossa cultura.

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  5. Perfeito! Que homenagem linda, Haylton! Como sempre, perfeito!!!!

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  6. Cada qual com seus ídolos. Quem nunca os teve que atire a primeira pedra. Bela lembrança/homenagem.

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  7. Excelente homenagem! Sou fã de carteirinha desses dois. Do Dinamite, mesmo não sendo vascaíno!

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  8. Fomos brindados com uma bela reflexão, nesta merecida homenagem a dois grandes ídolos!

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  9. Simples, poético, sensível, perfeito!
    Mistura de emoções. (JM Rabelo)

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  10. Rita Lee admiro desde sempre! Dinamite fui aprendendo a admirar com o tempo. Hoje sou fanzaço.
    “O mineiro só é solidário no câncer”: a frase foi atribuída a Otto Lara Resende, mas ele negava. Mas que nós todos ficamos sensibilizados quando uma pessoa querida (próxima ou distante) é diagnosticada com câncer, é fato. Parece que sofremos um choque de realidade e passamos a olhar com mais atenção pro doente. Não há como não nos emocionar as lindas vidas de Rita e Roberto! Ainda mais vistas sob a “caneta” de Hayton! (Sergio Riede)

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  11. Magnífica homenagem/lembrança destes dois ícones!

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  12. Uma poesia em forma de prosa!! Lindo texto em homenagem a todos os ídolos que tivemos e que ainda vamos ter! Abs Rogério Lot

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  13. Excelente texto. Navegar é preciso, assim como viver.

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  14. Lindo texto! Emocionante!

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  15. Bela homenagem meu amigo! 👏👏👏👏👏👏👏👏

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  16. Belíssima homenagem ao Roberto D. e à Rita.

    Um canto de esperança.

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  17. Ah! Que linda e justa homenagem!!!
    Pois é: "Um dia quando me sentir saudades não preciso de vaidades, quero preces e nada mais".Quem quiser enviar flores que mande agora. .....Nelson Gonçalves.
    Parabéns !!!

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  18. Caro amigo Hayton, de fato, é provável que todos tivemos (ou temos) nossos ídolos, cujas imagens chegam a nortear comportamentos e atitudes nossas. É bom que essas referências existam, pois nos "confortam" diante de dúvidas...
    Rum é quando descobrimos pontos negativos nesses "heróis". Derrubam nossa estima e fazem-nos pequenos...

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  19. Fernando Pessoa foi perfeito ao dizer da imprecisão de viver e na certeza do navegar, sempre. Navegar é preciso, viver não é preciso. Esses dois ídolos continuarão a navegar e viver. Precisamente isso. Showwwwww!

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  20. Bela crônica e linda homenagem aos nossos ídolos - você está cada dia melhor,
    parabéns.

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  21. Se a vida há de ser provisória, assim como as paixões, então que as vivamos intensamente.

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  22. É a roda da vida… cada um à sua maneira, conforme as suas convicções (ou à falta delas). “Para viajar, basta existir”, diria Hayton Jurema parafraseando Fernando Pessoa. E muito bem dito e contextualizado.
    Parabéns, amigo Hayton.

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  23. Belíssimo, texto...anda se superando meu amigo. Analogia de dois personagens fantásticos!

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  24. Agostinho Torres da Rocha Filho4 de maio de 2022 11:04

    Belo texto! Não se trata apenas de uma simples homenagem a dois grandes ídolos brasileiros, mas um convite à reflexão sobre a própria vida, segundo o relógio do Criador. Desconheço algum registro histórico de que se tenha prometido à criatura o paraíso, em sua trajetória terrena. Pelo contrário! Desde a experiência do Jardim do Éden, a humanidade foi condenada a prover o seu sustento e conquistar vitórias com o suor do próprio rosto. Por isso mesmo, navegar é preciso e o ser humano compreendeu o recado antes mesmo de conhecer o Homem de Nazaré. Como diria Santo Agostinho, "nada estará perdido enquanto estivermos em busca."

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  25. Um belo passeio pelas antigas Grécia e Roma, por ídolos de ontem, hoje e sempre, tudo permeado por reflexões filosóficas.
    Perfeito!!

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  26. Gosto demais da irreverência da Rita. Certeza vez, em um show, ela comentou que demorou oito anos para obter autorização para adaptar "I wanna hold your hand", dos Beatles, para a versão "O bode e a cabra", em ritmo de forró, com chapéu de sertanejo e tudo! Ao comentar essa "saga", Rita, pura irreverência, referiu-se à Yoko Ono como "iococô", talvez por Yoko não ter entendido a singeleza da canção. É assim: para suportar essa vida complicada, só com muita ironia, humor e irreverência!

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  27. Belas referências.

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  28. Da personalidade de futebol não tenho como opinar por falta de conhecimento, embora tenha ouvido muitas vezes o autor dessa crônica referir-se a ele como seu ídolo; mas a Rita Lee, essa sim, fez parte de uma fase da minha vida, destacando-se pela sua irreverência.

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  29. Lindo!!! Me emocionei aqui com exemplos perto de mim!! Parabéns!

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  30. Hayton, texto espetacular, nos leva a boas reflexões, além de mostrar detalhes de ídolos queridos. Show da quarta, de novo! Tiberio 👏

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  31. Hayton, simplesmente, mais uma vez, fabuloso!

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  32. Perfeito!
    Vamos simbora
    Pra vida
    Viver, cair e levantar
    Viver, cair e levantar!

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  33. Dois grandes ídolos num momento cruciente. Casa um a seu tempo e mister, trouxeram sua contribuição a grandes parcelas do nosso Brasil e provavelmte

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  34. ...provavelmente de outros países do mundo. Dizia um amigo meu, que essas pessoas eram os soldados do bom humor. E é isso mesmo

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  35. Bela crônica! Daquelas que você senta num canto aconchegante e vai lendo devagarzinho, como se estivesse tomando um bom café. Hayton deve ter uns 10 anos a mais que eu, mas nossos ídolos são os mesmos...

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  36. Como sempre um texto bonito bem elaborado gostoso de ler algo como impecável
    Parabéns

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  37. Saiu como anônimo mas não é sou eu Rivaldo kkk

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  38. Três acontecimentos maravilhosos. O primeiro sobre a Rita Lee, mulher guerreira de bons momentos musicais. O segundo, o Roberto Dinamite. Quem o assistiu jogando, teve muitas alegrias com o seu futebol. Outro guerreiro, na luta pela vida. O terceiro, foi o meu prazer ele ler esse belissimo texto do Hayton. Além de excelentes homenagens aos dois, Rita e Roberto, um espetáculo cultural, no texto. Obrigado por essas contemplações. Um forte abraço nos três. Fernando Henriques (Gravatá / Pernambuco)

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  39. Classificar o texto como primoroso é novamente incorrer em redundância.
    O mais importante aí é ele ser tão oportuno. Sim, porque chama a atenção para um momento doloroso como o que está vivendo o grande Roberto Dinamite. Citar o caso de Rita Lee também é muito válido, mas ela, felizmente, está curada do mal que a atacou.
    Roberto não, ainda empreende a luta aguerrida pra se curar, uma cura que haverá de vir rápida e plena, como desejamos todos que o admiramos.
    Lembro de um cumprimento que fiz a Roberto, no Bingo do Arpoador, Rio de Janeiro, em uma noite de um sábado já bem distante, quando o avistei à porta do estabelecimento, já de saída e conversando com amigos. Aproximei-me e lhe disse que era seu admirador, mesmo sendo ele responsável por alguns momentos dolorosos pra mim. Ante sua surpresa, revelei que era torcedor do Flamengo, mas a condição não impedia minha admiração por ele, extraordinário jogador e cidadão exemplar. Ele sorriu, agradeceu e até me abraçou. O fato é inesquecível pra mim.
    GRANDE E ETERNO DINAMITE, SAÚDE, SAÚDE, SAÚDE E VIDA LONGA...

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  40. Sempre disse que existem pessoas que deveriam ser imortais. O que fizeram e como fizeram marcaram as vidas de muitos. Resta-nos agradecer o legado que nos deixam. Vida longa a eles.

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  41. Amigo Hayton. Bonita crônica em homenagem aos nossos ídolos. A vida é passageira, mas o legado é eterno. Abraços.

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  42. Meu amigo, você é muito bom em juntar, sem pontas soltas e num único caldeirão, paixões tão diversas como a música, o futebol, a efemeridade da vida, a história e as letras. E mesmo o leitor sem muita afinidade com qualquer dos temas nunca chega indiferente ao final dos seus traços, que ora divertem, ora emocionam, ora transportam no tempo, ora tudo isso e mais um pouco.

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  43. Parabéns pela bela crônica!
    Pena que saiu tanta gente como anônima com bons elogios...
    Emílio.

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  44. Entre roqueira e jogador de futebol, um elegante passeio por filósofos, comandantes antigos e literatos maiores. Além do blog!

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  45. Este comentário foi removido pelo autor.

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  46. Vou acabar me repetindo ao tecer elogios às suas crônicas, meu caro amigo Hayton. Mas não pode ser diferente! Essa beleza de texto, juntando dois ídolos imortais, é uma viagem a um passado não muito distante, mas deliciosamente nostálgico e de uma precisão cirúrgica no trato dos percalços que a vida sempre apresenta. Parabéns, amigo!!!

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  47. Grande verdade, meu Amigo. Vivemos juntando uma bagagem de perdas que, se não tomarmos como aprendizado e desafio a fim de nos fortalecermos, o estoque termina ficando muito pesado para carregarmos. Esses obstáculos que se nos deparam, muitas vezes servem de caminho para alcançarmos objetivos. É uma caminhada desafiadora, mas que nos deixará em bom destino final, com felicidade. "Não se acostume com o que não o faz feliz" (Fernando Pessoa). Parabéns pela bela Crônica.

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  48. Excelentes homenagens ao grande artilheiro do Vasco da Gama e de uma das melhores cantoras do Brasil. Show!

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  49. Show de homenagem, Hayton. Aqueles que tiveram a oportunidade, como nós, de ouvir a voz da Rita Lee e ver os gols do Dinamite, ainda que marcados no meu Flamengo, jamais esquecerão desses dois ícones (da música e do futebol). (Jez Agra)

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