quarta-feira, 29 de junho de 2022

Pulga Prenha

Descobri que o nome “Jason” tem origem grega (vem de Iáson ou Eáson). Significa “aquele que cura”, “Deus é o auxílio”. Refere-se também a uma pessoa dinâmica, embora desorganizada, que gosta de ocupar-se com estudos e leituras, mas não tem muito tato quando expressa suas convicções.

O que conheci na segunda metade dos anos 1970 era bastante espirituoso e irreverente. Baixinho, robusto, calvo, com olhos graúdos sobre um bigode espesso. Tornou-se profissional respeitado – o escriba dos chefes! – na principal agência do Banco do Brasil em Alagoas por conta do tanto que sabia de português e inglês. 

 

Em cada pavimento que chegava mexia com um, com outro, fazendo uma zoada medonha. Nem bem me conhecia quando indagou, com a cara mais séria do mundo: “Por que fizeram isso com você, meu filho? Um nome tão britânico merecia um sobrenome decente. Mas Jurema, hein!?”. E riu de juntar gente.

 

Crítico impiedoso e mordaz de qualquer deslize gramatical que tomasse conhecimento, não raro telefonava à redação dos jornais da cidade para apontar vacilos. Fazia o mesmo quanto a instruções circulares e correspondências que a agência recebia da Sede. Acabou recebendo dos colegas de trabalho a alcunha de “Vetusto Mestre”.

 

Não gostava. Mexia com todos mas não queria que mexessem com ele.  Tentou inclusive convencer os “burros” de que o termo “vetusto” não se aplicava a pessoas. Só à museologia, pontuava. Não adiantou: teve que engolir calado até aparecer outro apelido bem mais cruel: Pulga Prenha. A barriga roliça, a careca escura e reluzente e os olhos boleados foram decisivos para a aderência da alcunha.

 

Tinha lá suas esquisitices. Algo meio aristotélico. Diz-se que não existe uma grande inteligência sem uma veia de loucura. Ou newtoniano: pode-se calcular o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.

 

Jason “Pulga Prenha” amava lecionar, nem tanto pelos trocados que amealhava, mas pelo gosto de compartilhar saberes. Organizava inclusive turmas de colegas para ensinar gratuitamente gramática e redação. E deixava claro na primeira aula que os exemplos conteriam expressões chulas, sobretudo as de múltiplo uso que podem servir de adjetivo, substantivo, verbo, interjeição etc. "Ninguém esquece", dizia. 

 

Uma noite, chegou do trabalho cansado e comentou com a esposa que iria tomar banho, comer alguma coisa e cair na cama. Fazia muito calor e, como de costume, espalhou pela casa roupa, gravata, sapatos e meias. Pegava o rumo do banheiro quando faltou energia. Vestiu então uma sunga e avisou que iria caminhar até a praia, enquanto a energia não voltava.

 

Saiu pelas ruas do bairro do Poço em direção à praia num breu danado. Nem automóveis circulavam. Suando muito e confiado na demora do blecaute, tirou a sunga e seguiu como veio ao mundo – talvez tenha vindo um pouco mais apresentável! – até que, de repente, a energia voltou. 


A correria foi grande até chegar em casa e passar o cadeado no ferrolho do portão. Se parasse para cobrir as partes pudendas, poderia ser apedrejado pela molecada do bairro, que gritava no seu encalço.

 

Avesso a qualquer forma de bate-boca, quando por algum motivo se desentendia com a mulher, evitava discutir na frente dos filhos. Nessas ocasiões, porém, na hora de dormir, procurava a garagem com um travesseiro debaixo do braço, colocava-o entre os eixos do carro, empurrava-o com um cabo de vassoura e ali mesmo pegava no sono até o sol raiar. 


Ilustração: Umor



Sua santa esposa sempre foi bem mais cuidadosa do que ele na administração das finanças domésticas. E com as economias de anos, comprando e vendendo confecções e bordados que trazia do Ceará, ela juntou o suficiente para adquirir um fusquinha, devidamente licenciado para uso como táxi nas ruas de Maceió.
 

Ato contínuo, combinou com um velho conhecido da família, aposentado, que passou a trabalhar com o táxi, mediante comissão. Assim, toda noite ele levava o apurado líquido do dia, além do veículo para guarda na casa da proprietária. Às sete da manhã seguinte, retomava a rotina.

 

Uma noite o motorista não apareceu. A dona relevou, segura de que poderia ter acontecido algo imprevisto. Um dia depois, a mesma coisa. No terceiro dia, de novo.  A paciência já estava no limite e o motorista não tinha telefone nem havia orelhão nas proximidades de casa. O quarto dia foi a gota d’água:

– Marido, vamos agora na delegacia! Ele roubou meu carro!

– Calma, mulher! O cara é gente boa...

– Se você não for comigo, eu vou sozinha!

– Veja... Você lembra que na semana passada eu lhe pedi para assinar um documento, dizendo que era a renovação do seguro?

– Lembro. E daí?

– Aquilo era o documento de transferência do veículo. Passei pro nome dele. O homem tá velho, cansado, criando netos, com os filhos desempregados dentro de casa...  

– Você ficou louco!?

– Só agora você descobriu?


Tinha lá seus motivos, óbvio. Mas teve também que passar nova temporada pernoitando na garagem, desviando-se de gotas de óleo queimado, a vazarem de juntas do motor mais relaxadas do que ele.

22 comentários:

  1. Ademar Rafael Ferreira29 de junho de 2022 04:13

    Sem dúvida a inteligência é um vírus da loucura que invade o HD da memória humana para fazer esquisitices. Algumas a dose corrompe o arquivo. No caso citado a lucidez voltou na doação do carro. Viva São Pedro.

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  2. Hayton cada vez mais afiado pra contar com maestria histórias do cotidiano, com personagens impagáveis! E trazendo de brinde reflexões valiosas sobre a vida que se leva enquanto se leva a vida.

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  3. Mais uma prova de que, no Banco, tem de tudo um pouco. Do médico ao louco.

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  4. Mais uma crônica verdadeira , parece conto de novela, uma Santa esposa, um cara bagunceiro, brincalhão, mas inteligente , e “ não existe uma grande inteligência sem uma veia de loucura.”

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  5. Excelente! Estilo leve ,suave e bom de se ler ,conheci e trabalhei com os dois , autor e prtagonista..

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  6. José Afonso Queiroz29 de junho de 2022 08:05

    Matéria prima nunca faltou no Banco, mas cronistas perspicazes, que escrevem com a leveza e elegância do Hayton são raros!

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  7. Fiquei curiosa para saber o resultado do motorista do táxi, o que teria acontecido? Rsrs

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  8. Nunca ouvi dizer"pulga prenha"engraçado. Dayse Lanzac

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  9. Mais uma figura incrível, a descrita pelas tintas sensíveis do escritor. Pulga Prenha brincava com todo mundo. Era bondoso, também. Pois dividia saber. Bem como, por justiça, repartiu bens. Que descrição maravilhosa. Mais um personagem ímpar. Daqueles que valem à pena conhecer.

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  10. Pois é... "Pulga Prenha", de fato, é um apelido inédito. Embora tivesse bondade no coração, tinha aquela "veia de loucura"... Aliás, parece que essa característica é muito mais comum do que se imagina... Só que, em alguns, essa "veia" é bem grandinha... Mas, vivamos, cada um com a sua... Forte abraço.

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  11. A loucura é um compartimento do cérebro onde a entrada só é permitida aos diferentes: poetas, escritores, pintores, inventores e outros tais.
    Segundo Gabriel Garcia Marques, os loucos mansos antecipam o porvir.
    Parabéns pela crônica em homenagem a um deles.

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  12. A gorjeta para o taxista foi generosa. Gostei do Pulga prenha.

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  13. Mais uma excelente crônica com o toque refinado do humor e da sabedoria. Parabéns!

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  14. Por um momento achei que se tratava do meu primeiro sogro, também gerente do BB e sisudo... até então dizíamos que seu nome era originado das iniciais dos meses Julho, Agosto Setembro, Outubro e Novembro. Isso na gozação dos colegas. Mas nada melhor do que ler as boas histórias do Hayton pra agregar cultura com conteúdo descontraído.

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  15. Como sempre, muito bom.

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  16. Crônica inédita aqui no blog, mas quem leu seu último livro - O benefício da dúvida - pode desfrutar da bela história do Pulga Prenha ainda no ano passado, em primeira mão. Bom relê-la, meu amigo.

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  17. Este comentário foi removido pelo autor.

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  18. Esse meu primo rico é uma espécie de HD humano, no qual tem arquivado todas as suas belas memórias. Nunca vi nada igual. Sou fã.

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  19. Kkkkkkk. Excelente. Vetusto Mestre ou Pulga Prenha correndo nu, vaiado pela garotada, foi ótimo. Histórias do BB. Forte abraço

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  20. Uma das coisas que se noite me fazia rir era a capacidade dos colegas em colocar um apelido adequado... e vingava. Pulga Prenha é muito bom. Quanto às qualidades e defeitos de todos, tudo valia, até quem não sabia nada querendo ensinar. Felizmente os que sabiam mereciam créditos.

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  21. Mais um texto incrível. Era generoso o pulga prenda. Deborath

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