A COLEIRA INVISÍVEL
Hayton Rocha
Terça-feira da semana passada, sete e meia da manhã. Ouvi de longe ela conversando com a amiga por videochamada. A voz era trêmula, mas com aquele tom de quem pede socorro e, ao mesmo tempo, espera compaixão:
– Depois do que passei, já dei por encerrados os Halloweens deste e dos próximos anos! Quase infarto ou sofro um AVC...
– O que aconteceu, criatura? – perguntou a amiga, já imaginando luzes e sirenes cortando o ar, ambulância, bombeiro e polícia disputando espaço na rua.
– O “Velho” iria participar de uma reunião. Chamei o neto pra caminhar, ele não quis. Fui sozinha. No meio do caminho, dois cães enormes – um boxer e um rottweiler – me atacaram, latindo alto e salivando. Paralisei. Só deu tempo virar de costas e rezar três segundos pra Nossa Senhora de Guadalupe levar minha alma pro céu, sem escalas.
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Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
Ouvindo aquilo, só não me assustei porque ela estava ali a poucos metros, vivinha, contando o ocorrido à amiga. Seria castigo cruel: logo ela, que cuidou de Lobão – um poodle cardiopata e nefropata que nos fez companhia por 18 anos – até o último suspiro, com direito a funeral com “honras de Estado”.
E ela prosseguiu, já convertendo o susto em roteiro de cinema:
– As mãos tremiam como se eu estivesse batendo palmas. Quem já sonhava com a mala nova da viagem de volta ao Brasil... Pensei no pior. Não precisaria mais de mala nenhuma: voltaria noutra, no bagageiro do avião...
Do outro lado da tela, a amiga fazia sinais da cruz como se a internet transmitisse bênção em tempo real. Eu, de longe, sorri diante do exagero. A imaginação não tem limites: basta um latido mais grosso e já escolhe a foto do velório, a roupa e até o salmo da missa de sétimo dia.
Quando chegou em casa e contou o episódio, todos riram. Disseram que já conheciam as feras. São controladas por uma tal “cerca invisível”. Um fio enterrado no jardim transmite sinal para a coleira: primeiro um apito, depois um choque. Nada letal – ao menos para cães maiores.
Nós, humanos sem coleira, andamos cercados por barreiras invisíveis mais impiedosas: contas que nos assombram, impostos que não param de nos morder, senhas que escapam da memória. Às vezes penso que essa tecnologia devia ser adaptada para certos políticos: bastava um apito sempre que rondassem os cofres públicos e, se insistissem, o choque viria não da tomada, mas da vergonha acesa na ficha policial.
Ela, porém, não se deu por satisfeita. Quis voltar ao campo de batalha onde quase me deixou viúvo.
– E você, não diz nada? Não acha que deveriam nos avisar dessas feras assassinas?
– Nós não combinamos sair só após a reunião?
– Mas achei que você iria demorar!
– Pois é...
Logo ela, que gosta de caminhar de mãos dadas para evitar que uma queda nos entregue de bandeja à ortopedia – joelhos, tornozelos ou o que restar de nossas juntas enferrujadas. Eu, com mais de 100 quilos, não creio que seus 52 me segurem. Mas finjo que acredito em milagres.
Ainda assim, reconheço: mãos dadas é como corda de segurança no abismo. Não evita o salto, mas reduz o pânico. Caminhar lado a lado é nosso pacto contra a pressa do tempo – essa fera inquieta que avança sem apito, sem aviso prévio e sem coleira.
– Posso não ter sido engolida viva, mas quase tive um troço. Vamos lá comigo, agora... – propôs.
– Tudo bem, vamos. Vai ver essa onda de prender estrangeiro e deportar tá mexendo com o humor de alguns cães por aqui.
– Lá vem você com suas...
– Calma! Agora você tá protegida pelo seu padroeiro oficial das caminhadas no vale de lágrimas.
E fomos. O sol já atiçava o verde das árvores do condomínio, e os cães, indiferentes, cochilavam sob a sombra, quem sabe rindo do susto que haviam causado.
Olhei para ela e pensei: há perigos maiores do que boxers e rottweilers. O maior deles é viver sem se dar as mãos, sem fé na coleira invisível que nos protege da pior das feras: a solidão.
E ali, no intervalo entre o susto dela e minha bravata mal ensaiada, pensei: cães latem, mordem e se cansam. O tempo, não. É o único rottweiler que nunca cochila — e quando avança, não há apito, cerca, coleira ou oração que o segure.
Caro Hayton,
ResponderExcluirLi a crônica e fiquei pensando em como você consegue, toda semana, pegar algo tão pequeno do cotidiano e transformar numa crônica dessas. O que me pegou de verdade foi a parte dos cachorros e da tal "cerca invisível". Isso me fez lembrar de um amigo que falava sobre uma "barreira de conveniência". Ele dizia que a gente vive cercado por essas barreiras, sabe? Aquela preguiça de sair do sofá pra ir caminhar, ou a "falta de tempo" que usamos pra não ligar pra um amigo que não vemos há anos.
A crônica me fez enxergar que, assim como o seu personagem, a gente se assusta com os perigos visíveis — um cachorro latindo, uma conta a vencer —, mas ignora a ameaça invisível que avança sem fazer barulho: a falta de tempo, a solidão, a pressa que nos afasta. E é aí que está o seu talento, Hayton, em nos fazer olhar para o óbvio de um jeito novo.
Sinceramente, acho que o seu esforço em manter essa qualidade de escrita semana após semana é o que faz a diferença. Essas crônicas não são só histórias; são pequenas janelas para a gente refletir sobre o que realmente importa. E por isso, meu caro, o seu trabalho é um presente.
Não se vive sem se dar as mãos. Essa segurança que vem do amor é que nos traz a paz
ResponderExcluirExcelente. Só imaginando o drama…
ResponderExcluirEspetacular esta crônica. Atiça-nos a reconhecer e remover as diversas barreiras que tolhem nosso bom viver e Instiga-nos para um novo olhar sobre o avançar da idade, o companheirismo e o real sentido de dar as mãos em busca de um afago em nossa breve caminhada.
ResponderExcluirHayton, sua crônica me fez lembrar da música:
"Segura na mão de Deus e vai
Se as tristezas desta vida quiserem te sufocar
Segura na mão de Deus e vai
Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus
Pois ela, ela te sustentará..."
Simbora, sem coleiras, sem barreiras e com Deus no comando.
E a vida humana se tornando cada vez mais uma ilha digital, com IA aprisionando o cérebro, mídias sociais enganando o coração e o corpo empacado numa cadeira na frente da tela. Até vida de cão fica melhor na crônica espetacular do amigo Hayton.
ResponderExcluirHayton, peço permissão ao Izaias Araújo, para fazer minhas suas precisas e sinceras palavras sobre mais uma reflexiva e bela crônica, que você acaba de oferecer a todos nós
ResponderExcluirLacerda Jr.
Mais uma crônica para começarmos a quarta-feira sendo sugados para nossa realidade reflexiva. O texto nos instiga a pensarmos quantas coleiras estão à nossa volta, além das evidentes, também as que nem percebemos, até quando tentamos nos desvencilhar de uma situação e vemos que estamos presos de alguma forma. E o penúltimo parágrafo atinge no âmago da ferida, quando registra que "o maior dos perigos é viver sem se dar as mãos, sem fé na coleira invisível que nos protege da pior das feras: a solidão". Sensacional!!!
ResponderExcluirQue crônica deliciosa! Minha mãe me ensinou desde pequeno que se um cão aparecesse e me assustasse, eu deveria invocar São Roque que ele me protegeria. Nos tempos de menor aprendiz lá em Uberlândia, eu tinha que levar todos os dias os canhotos das contas da “CEMIG” no final do dia para o escritório deles, que ficava há uns dois quilômetros do banco. Você não imagina o trabalho que eu dava para o São Roque! Não sei se funcionava, mas que me acalmava isso pode ter certeza! Adorei sua escrita de hoje, me fez relembrar como somos influenciáveis! Um dia falei disso com minha mãe e ela disse que nunca tinha me falado sobre São Roque! Aí é que fiquei cabreiro… Será que criei essa história na minha cabeça?Nunca saberei…
ResponderExcluirQuanta coisa interessante numa crônica só: as licenças hiperbólicas que nos autoconcedemos pra relatar nossos “dramas”; as cercas invisíveis que travam nosso crescimento e mesmo nosso desfrute do mundo; a importância de uma mão que apoia, que dá referência, que acalanta só por estar entrelaçada por outra…
ResponderExcluirSinistra a crônica de hoje, meu amigo!!!
Invisível mesmo fica a coragem diante do latido de duas feras, eu que tenho pavor até de cachorro que cabe numa caixa de sapato 32 não confio na lealdade canina.
ResponderExcluirQue pintura de crônica. Grande Hayton, Você transforma o cotidiano em um presente para nossa leitura, e reflexão sobre a vida. Parabéns
ResponderExcluirParabéns, Hayton. De fato, existem perigos maiores que essas feras da crônica. Nós mesmos, nossos principais sabotadores. Nossos medos e ansiedades nos aprisionam dentro de uma cela invisível, nos privando de viver essa vida maravilhosa que Deus nos deu, da melhor forma. Vamos em frente, meu amigo. Forte abraço!!
ResponderExcluirMe coloquei no lugar dela e nem tive resposta de como agiria, mas acho que teria s mesma reação? Pois correr(que seria o normal em outra idade) já não me seria mais possível disputar com os cães, rsrs
ResponderExcluirAo se ver de frente com dois cachorros de má fama, será que dá pra pensar em coleira eletrônica? Ou em uma “mãozinha protetora” ? Creio que não. Mas, dá para um bom deboche da situação, através de uma crônica, escrita numa sala com ar condicionado, longe de qualquer perigo, e antegozando a reação e gargalhadas dos leitores, conforme seja o nível de medo ou de coragem de cada um. Mas, mãozinha nenhum irá oferecer á vítima indefesa. Nelza Martins
ResponderExcluir"O essencial é invisível aos olhos" e nos protege de qualquer tipo de "cão". Sem mãos dadas, sinto-me igual a passarinho fora do ninho.
ResponderExcluirA vida, do primeiro sopro ao último suspiro, é atravessada por instantes que nos fazem estremecer — a dor da perda, a surpresa da sorte, o susto que vem sem aviso. Nunca estaremos totalmente prontos para esses encontros, mas podemos, ao menos, aprender a acolhê-los.
ResponderExcluirHayton, cada crônica sua nos leva a esse exercício de reflexão. E sei que, de mãos dadas, o peso do inesperado sempre se torna mais leve. Parabéns 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Os latidos da vida nos causam tantos ganidos que só de mãos dadas com o companheiro de sempre pra suportar. Show!
ResponderExcluirMãos dadas ao caminhar, ou só o caminhar lado a lado, como se fossem apoios prontos para segurar o balanço do outro... sentar num sofá e massager os pés do companheiro ou companheira, são elos, não apenas das partes que tocam... mas, da união entre corações.
ResponderExcluirMais uma ótima crônica!
Tempo de experiência, tempo de idade bem vivida, que começa a faltar à agilidade, tempo de lembranças, o que resta é os sobressaltos corriqueiros do dia a dia: animais estressados avançando nas pessoas distraídas, hum, fica o humor e à gozações familiares.. é como diz o velho ditado: “É mió calar”, não relatar. Bom, relato de experiências corriqueiras concorre com os sobressaltos das obrigações financeiras, essas não têm escapatória, manter um sistema perverso de cobranças financeiras para manter um status quo de poucos, sempre aumentando. Sr. Hayton, como sempre crônica do dia a dia, excelente lembrança, vou ficar mais atento as cachorradas do cotidiano. James, Maceió, Al; de Okotoks, CA.
ResponderExcluirQue "viagem" bem animada tivemos hoje nesta crônica que nos fez refletir sobre a vida, sobre as "coleiras invisíveis" e ainda acusou o tempo de vilão... Os elos que nos juntam ou impedem que escapemos, a mágica da boa convivência e os enredos que a vida nos impõe, fazem com que os cenários se multipliquem nesse palco de dimensões sem fim... Parabéns, caro amigo Hayton, por mais essa crônica impecável.
ResponderExcluirEu que não confiaria nesse negócio de coleira invisível. Se der defeito, ninguém vê...
ResponderExcluirEu também peço licença ao Izaías Araújo pra me louvar no comentário dele, afinal fica difícil acrescentar algo.
ResponderExcluirSó me afirmo, envaideço até, por ter postado aqui, desde o começo de sua "trajetória" , que qualquer que seja o tema - de parto, a atracação de navio -, você consegue produzir algo que sacode fortemente a nós, seus leitores, fazendo-nos refletir bem sobre tantas coisas da vida.
Haja talento!!!!!
Rapaz!
ResponderExcluirIsso da coleira invisível eu conheço bem!
Só não sabia que tinha esse nome…
Oi, Hayton!
ResponderExcluirQue crônica mais verdadeira! Essa tal "coleira invisível" a gente carrega mesmo, não é? E ainda bem que sua companheira escapou ilesa da investida dos cães, e ainda ganhou uma história e tanto para contar!
Fiquei pensando aqui: se os políticos usassem essa coleira, como você sugeriu, talvez o mundo fosse um pouquinho menos bagunçado. Mas confesso que ri com a parte da mala nova e do “bagageiro do avião”, ela tem um dom pra dramaturgia, hein?
No fim das contas, é isso: enquanto a gente puder dar as mãos e rir dos sustos, ainda estamos um passo à frente do tal rottweiler do tempo.
Excelente crônica. Mais uma vez parabéns.
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