fevereiro 11, 2026

Fitas que se multiplicam

FITAS QUE SE MULTIPLICAM

Hayton Rocha

 

Ao publicar aqui Três fitas, semana passada, não pensei em alcance, algoritmo ou estatística. Antes de qualquer coisa, quis resgatar uma cena que trago na gaveta de meus achados mais caros: uma criança observando o gesto materno e descobrindo, sem saber, uma forma de lidar com o mundo. Nada épico. Nada digno de placa. Só o cuidado quando ninguém está olhando, que justamente por isso costuma durar mais.



Imagem: M.E. Ateliê da Fotografia



Escrevi como quem fala consigo mesmo. Um texto sem discurso armado, sem a pretensão de ensinar a quem já viveu mais ou menos do que eu. Talvez por isso tenha passado ileso pelo alarme das grandes certezas e encontrado leitores desarmados.

 

O que não calculei foi o depois.

 

Vieram comentários. Vieram muitos, variados, carregando histórias nos bolsos. Uns falaram de ciência, outros de fé, outros misturaram as duas coisas como quem não vê contradição entre medir os batimentos cardíacos e rezar. Houve quem risse, houve quem lembrasse de quedas — das que o corpo acusa e das que a vida disfarça.

 

E fui lendo tudo com um espanto bom.

 

Vi que o texto tinha escapado das minhas mãos. Já não me pertencia como pertence uma frase bem-acabada ou um parágrafo resolvido. Pertencia agora a quem o atravessava com a própria memória. Cada comentário era uma fita nova amarrada onde eu nem sabia que havia pulso.

 

Teve leitor que se viu no pai. Teve leitora que se reconheceu mãe, na filha. Teve quem lembrasse da avó, de um gesto antigo que só agora ganhava sentido. Gente que nunca tinha pensado muito sobre cuidado e, de repente, percebeu que passou a vida inteira cuidando — sem aplauso, sem plateia.

 

No sábado, recebi uma mensagem do mestre Artur Roman falando da repercussão. Conheço bem o ritual da fera: estudioso e metódico, enxerga sempre com olhos de lince. Falou de números, de proporções, de impacto. Quatro mil caracteres de crônica gerando quarenta mil em comentários.

 

Fiquei contente. Não pelo volume, mas pelo belo descompasso entre causa e efeito. Um barulho íntimo produzindo ecos inesperados. Uma fita puxando outra, que puxava outra, até virar um novelo enorme, impossível de abraçar.

 

Ele lembrou que, na vida acadêmica, impacto se mede por citação. Sob outra régua, impacto se mede por ressonância. Pelo tempo que o texto fica rondando alguém depois que a tela apaga. Pelo comentário escrito dias depois, já frio, mas ainda pulsante.

 

E os ecos foram muitos.

 

Alguns chegaram suaves, tímidos. Outros vieram emocionados, sem pedir desculpa pelo excesso. Vieram também os bem-humorados — esses que lembram que o riso é uma respeitável forma de inteligência. Todos legítimos. Todos necessários. Porque o texto não pretendia convencer ninguém. Queria apenas fazer companhia.

 

Depois da aposentadoria, passei a trabalhar de outro jeito. Sem horário fixo, sem metas mensuráveis. Trabalho de escutar, observar, não atropelar os fatos. Três fitas nasceu nessa praia: um lugar onde o tempo anda mais devagar e detalhe vira protagonista.

 

Talvez seja por isso que tenha tocado tanta gente. Porque não falava de heroísmo, mas de algo bem mais raro: o cuidado cotidiano. O que não aparece em currículo, não rende selfie, não vira discurso. Esse que só se nota quando faz falta.

 

Ao ler os comentários, restou a impressão de que a crônica virou conversa de fim de tarde. Daquelas em que ninguém quer ter razão, só permanecer mais um pouco. Escrever, ali, deixou de ser ato solitário e virou roda. Virou espaço de escuta mútua. Um lugar onde cada um chegava com sua fita, seus nós, sua maneira de segurar o mundo para que ele não caia no vazio.

 

As fitas, afinal, não estavam apenas no pulso daquele pai. Estavam nas mãos de quem comentou. Estavam também em quem leu e não escreveu nada. Estavam na memória de quem fechou a página e ficou olhando para o nada, como quem procura alguma coisa que ainda não sabe o que é.

 

Fitas invisíveis, sustentando uma ideia simples e quase subversiva: ninguém atravessa essa vida sozinho, embora finja não saber disso. 


Aprendi com Artur Roman: a crônica termina quando acaba o texto, mas começa de verdade quando encontra outro. E Três Fitas deixou de ser apenas uma história minha para virar um lugar de encontro.

 

Talvez seja por isso que ainda escrevo. Não para explicar o mundo — isso eu já desisti —, mas para amarrar fitas por aí. Quem sabe ajudam alguém a atravessar mais um dia, mais uma semana.

28 comentários:

  1. Que maravilha de desabafo literário, não no sentido de algo que incomoda, mas no sentido de algo que te dá prazer. Observador de cotidianos, garimpeiro de lembranças, "olheiro de tainhas" do bom, do belo e do virtuoso, tu amarra em nós as três fitas, e, pela letra debulhada, cria em nós possibilidades, possibilidades de infinitos. Na minha longevidade, tenho as 3 fitas do não fazer nada e tá tudo bem; a do buscar curiosidades bobas, como qual tipo de areia serve pra fazer moldes de fundição, e a última fita a de colecionar momentos. Sim, amigo a Hayton, as fitas nos conectan, como um pai a uma filha, como uma pessoa consigo mesmo, como outra a uma causa... Obrigado por nos lembrar do místico, do laço, do vínculo, de afetos rebeldes e subversivos, em tempos tão desaforados.

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  2. Muito top Haytin.
    Esta crônica dentro da crônica reafirma o amor, a generosidade e a empatia, mantendo vivo o desejo de alegrar, descontrair e emocionar.
    Sua crônica *Tres Fitas* tornou-se milhares de fitas lançadas e amarradas ao coração das pessoas, e fica evidente que o tripé da sustentabilidade do ser reside na essência de um lar equilibrado, onde família, espiritualidade e trabalho harmonizam-se em prol do conjunto da obra.

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  3. Caro Hayton, sua crônica inspirou muitos comentários emocionantes. O principal, claro, foi de dra. Lídia, uma linda declaração de amor filial. Outro muito especial, mas não publicado, foi de minha filha Laís, que mora longe, leu sua crônica e me fez o melhor comentário que um pai pode ler. Sua crônica e os comentários ajudam um pouco a entender a pergunta de Caetano : " Existirmos, a que será que se destina?" Para além de questões filosóficas ou espirituais, nossos filhos são o que mais nos aproxima da eternidade; eles e seus descendentes contarão nossas histórias, amarrarão novas fitas e, com sorte, disseminarão nosso DNA e nossos valores pelo mundo a fora.

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  4. Fitas que multiplicam carinho e gratidão por tantas crônicas que cutucam ricas memórias e nobres emoções. Obrigado Hayton !!!

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  5. ADEMAR RAFAEL FERREIRA11 de fevereiro de 2026 às 06:29

    O sucesso das crônicas tem origem na contundência leve de cada texto, na linguagem poética, na sensibilidade. Nada é superficial, alcança a alma de forma indolor. Vamos seguindo em frente, com fitas, fé e muito zelo em casa texto produzido. Sucesso.

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  6. Bom dia Caríssimo Parahyba!
    Especial esse seu trazer a nós, leitores/admiradores, esse desabafo com poesia e emoção das boas.
    Lhe confesso uma coisa: eu, como você bem conhece, gosto de espalhar coisas boas, coisas que me tocam, me emocionam, que deixam o meu coração feliz. E foi justamente assim com a crônica das fitas.
    Não me fiz de rogado. Espalhei para um gordo punhado de amigos/familiares, esses que conheço bem e que vertem lágrimas doces ao chorar com o coração.
    Espalhei em larga escala para a Bahia, em moderada escala para o Brasil e, em escala familiar para a Península Ibérica. E, sem exceção, recebi feedbacks umidamente açucarados.
    Fraterno amplexo!

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  7. ROBERTO SANTOS FERNANDES11 de fevereiro de 2026 às 06:45

    Leveza e simplicidade na escrita, na minha maneira de pensar, aproxima o autor de seus leitores, pois não precisa ser culto para entender sua mensagem.
    Parabéns mais uma vez pelo seu trabalho!

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  8. Ser escritor é fazer por onde merecer escrever.
    C. Caldas.

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  9. Enquanto há fita, há vida.

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  10. Hayton, suas "fitas", assim como suas crônicas, nos atam aos mais profundos e humanos sentimentos de compreensão, respeito e amor ao próximo! Forte e fraternal abraço. Lacerda Jr.

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  11. Ler as crônicas de Hayton já tá fazendo parte da minha vida. Virou um encontro semanal com pessoas que conheço e que há muito tempo não encontro fisicamente e também um encontro com pessoas que não conheço fisicamente, mas que todas as semanas reencontro nos comentários. Começo a achar que Hayton passou de bancário para aranha e começou a tecer uma infinita teia que vai nos prendendo aos textos e ligando pessoas conhecidas e desconhecidas na eternização e identificação com todas essas histórias e as incontáveis fitas que estão amarradas e amarrando nossos braços em uma saudável rede virtual.
    Maurício

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  12. Parabéns Hayton, você merece tudo isso e muito mais. Obrigado por nos ofertar esses escritos maravilhosos.
    Davi - Cooperforte

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  13. Amigo Hayton, viajar pelos seus textos às quartas-feiras já se tornou um agradável vício. “Três Fitas” nos presenteou com esse verdadeiro *lugar de encontro* — uma *conversa de fim de tarde*, em tão boa *companhia*. Que bom ter, a cada quarta-feira, esse espaço onde cada um se reconhece em suas crônicas, com seus nós e seus laços.

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  14. O resultado genuíno, de tocar e envolver, guardar na memória, influenciar nas ações, pessoas, tem origem na vida, na expressão do coração e da alma. Além é claro da leveza, qualidade, verdade que Nos tocam e traz reflexão.

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  15. O gratificante é que todos fitaram as fitas amarradas no braço que pulsa o sangue da esperança e da proteção dos pedidos de melhores dias para toda a humanidade, através da DIVINA FÉ.

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  16. Ler e viver essa trilogia das "03 fitas", me levou a memórias da minha trajetória pessoal, em especial ao meu saudoso pai. E a emoção aflorou com o texto da sua amada filha. Com certeza esse novelo não terá fim, pois o desdobramento dele em nossos corações será eterno. Essas suas 03 fitas precisam ser compartilhados com o mundo inteiro.

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  17. Depois da apoteose de emoção com o texto anterior, Hayton agora ataca de metacrônica!
    E é muito oportuno reconhecer e valorizar cada letrinha dos seus leitores que se juntam pra tecer palavras, ideias, visões de mundo, sentimentos universais e paradoxalmente únicos.
    Essa “festa de Babette” de emoções não pode ter fim. Façamos nossa parte, sempre!

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  18. O texto lançado é uma fita que vc não sabe quem a pegará na outra ponta e nem o que a pessoa vai fazer com ela. Se algum parágrafo a tocou mais profundamente, pode-se dizer que deu um nó? E fez um pedido? Penso que refletir sobre um parágrafo seja como querer “desatar o nó” de uma dúvida, ou desembaraçar uma fita presa em muitas outras no balaio dos aviamentos.. E, assim, desfazendo cada nó da vida, ao fim teremos uma fita digna de um laço bem bonito, Nelza Martins

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  19. Hayton, a crônica de hoje - FITAS QUE SE MULTIPLICAM - é um verdadeiro diagnóstico das suas crônicas, em razão delas transcenderem a abrangência puramente literária, pois se reverberam de várias formas, intensidades e sentimentos, repercutindo com tantas outras reflexões, de acordo com a percepção de cada leitor.

    Os comentários às crônicas, realmente produzem verdadeiros novelos enormes, pois quando também os lemos, provocam outros pensamentos e reflexões, simbolizado pelo que você bem disse: “Uma fita puxando outra, que puxava outra…”

    As suas crônicas podem até parecer que viram conversa de fim de tarde, podendo ajudar “alguém a atravessar mais um dia, mais uma semana,” mas também podem ser essências para debates de estudos acadêmicos dos comportamentos sociais.

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  20. Parabéns, amigo. Sempre inspirador ler cada texto. Simples, direto e que traduz emoções que nos movem sem alardes.

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  21. É a primeira vez que vejo uma crônica sobre outra crônica e que não fica monótona, ao contrário, ensina.
    Ela vai num crescendo como a a música de Ravel.
    Que delícia.

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  22. É a primeira vez que vejo uma crônica que fala sobre outra crônica e que não fica monótona, ao contrário, ensina.
    Ela vai num crescendo como a a música de Ravel.
    Que delícia.

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  23. Caro Hayton, agora você incursionou pela metafísica do cotidiano, revelando que o verdadeiro alcance de um texto não se mede pela frieza das métricas, mas pela profundidade da ressonância..
    Está crônica "Três Fitas" deixou de ser um relato pessoal para se tornar um espelho coletivo, onde o gesto simples de cuidado da infância transmutou-se em um novelo de memórias partilhadas.

    Ao observar o "belo descompasso" entre a brevidade da escrita e a imensidão dos comentários, você nos mostra que a literatura, quando desarmada de pretensões, recupera sua função mais nobre: a de fazer companhia e amarrar fios invisíveis entre estranhos. Parabéns, uma vez mais !

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  24. Tem as que duram tanto quanto uma fita no braço (talvez até mais). A frase de uma das minhas preferidas, “mais ontens que amanhãs”, ecoa na minha mente até hoje.

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  25. FRANCISCO OITAVO PINHEIRO FERNANDES11 de fevereiro de 2026 às 12:53

    Prezado Hayton,
    Se para falar com Deus é preciso “...folgar os nós dos sapatos, das gravatas, dos desejos, dos receios...” enfim, livrar-se de todas as amarras que nos prendem, essa situação é diametralmente oposta quando se pretende falar de sentimentos.
    Esses, ao contrário daqueles, precisam estar bem amarrados, bem apertados. “Sentimentos ilhados, mortos e amordaçados”, presos no passado, esses sim precisam ser desamarrados. Não é simples, nem é fácil.
    Dá para perceber que para a crônica primeira fluir como fluiu, inexistiam sentimentos aprisionados. Pelo contrário, eles estavam e continuam mais atados do que nunca. E como isso é bom.
    Agora, tu vens e coloca laços de fita nos braços de todo mundo. Nós bem dados, nós de marinheiro, com a feitura que só aqueles nós têm. Nós que unem, e, nesse caso, não precisam ser desatados.
    Ainda bem que não deve ter dado um nó na cabeça de ninguém.
    Desses um nó de oito, simples e eficaz.

    Chico Oitavo.






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  26. Perfeito! Que boa energia gerou e continua a gerar.

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