abril 01, 2026

O segundo naufrágio

O SEGUNDO NAUFRÁGIO 

Hayton Rocha

O mar é um cartório sem balcão: registra tudo, tem seus segredos insondáveis, mas nem sempre fornece certidão. Salga e guarda datas e nomes ou os apaga de uma vez por todas. Às vezes devolve um corpo como quem entrega um processo fora do prazo, com folhas amassadas e assinaturas ilegíveis.



Reli outro dia a notícia de uma dessas devoluções improváveis. O salvadorenho José Alvarenga saiu para pescar no litoral do México com Ezequiel Córdoba, parceiro mexicano de ofício. Bastou o motor do barco pifar, a ventania rugir por quatro dias, e a vida virou aquilo que o mar faz com a gente nessas horas: uma linha tênue entre o desespero e a fé, riscada em águas revoltas.

E o que começa como pescaria termina em oração. O peixe vira sobrepeso. Quatrocentos quilos ao mar pro barco não afundar. De repente, só há o oceano deserto onde a sede tem gosto irônico: água por todos os lados, nenhum gole que mate a falta dela.

Às vezes chovia. Milagre menor. Desses que não fazem brotar nada, apenas mantêm alguém vivo. A vida se reduzia a um ritual primitivo: olhar o horizonte, beber o que caía do céu, comer o que o acaso oferecia, suportar o que a agonia ainda consentia.

José aprendeu a virar bicho sem deixar de ser homem. Pegava peixinhos com a concha das mãos, como quem reza. Deitava imóvel no casco, fingindo-se morto, para iludir pássaros e agarrá-los pelas pernas. Puxava tartarugas quando vinham respirar e nelas encontrava carne, sangue e um resto de água escura que a necessidade chama de líquido. Quem tem fome não filosofa: mastiga e pronto.

Ezequiel foi perdendo o apetite. A depressão transforma até a lua e as estrelas em algo sem graça. A carne crua virou ofensa ao estômago revirado. Dois meses depois, restaram apenas José e o horizonte. E silêncio no mar não é ausência de som. É excesso de vazio.

Quando o amigo morreu, José ainda guardou o corpo por quatro dias, na esperança de que a morte fosse só mais uma onda. Depois o entregou às águas, e os tubarões fizeram o que o mundo costuma fazer aos mais frágeis, ligeiro, sem cerimônia. José ficou com o pior castigo: não a fome nem a sede, mas a ausência de testemunhas. Às vezes, o que nos salva do absurdo não é água nem alimento, é alguém que diga: eu vi.

Um navio passou perto. Tão perto que um marinheiro acenou, como quem cumprimenta um doido qualquer. Deve ter pensado: mais um que confunde coragem com loucura. O mundo não reconhece a tragédia quando ela não vem nos telejornais com legendas.

José seguiu. Aprendeu a ler nuvens como mapas. Viu o sol mudar de lugar, esse relógio abrasador que também mede a resiliência. Até que surgiram manchas no horizonte. Chegar à terra foi uma ressurreição. Desabou na areia, quase nu, como se o mar o tivesse devolvido por engano.

O segundo naufrágio veio em terra firme, onde a fome é outra: fome de suspeita. O homem que atravessou milhares de quilômetros à deriva foi recebido com a desconfiança: qual foi o truque? Em vez de herói, suspeito. Em vez de abraço, interrogatório. Queriam um pecado para tornar o milagre aceitável. Preferiram a hipótese do canibalismo à ideia de uma sobrevivência épica.

Vieram os especialistas e suas explicações. Correntes invisíveis, rotas improváveis, contas que fechavam melhor do que a história em si. Máquinas tentaram medir o que restava daquele homem e concluíram o óbvio com atraso: ele ainda estava vivo e dizia o que lembrava. 

Mas a dúvida já tinha encontrado porto. E porto, às vezes, é só outro nome para não seguir viagem. Ressuscitar exige teimosia. A memória coletiva não devolve tudo o que se passou. Reconstrói o que convém.

Veio um livro. Vieram também os processos, movidos por familiares de Ezequiel, como se a dor pudesse ser quantificada e o sofrimento rendesse direitos autorais.

E agora, José?

A dúvida drummondiana o atravessa. O continente também é oceano, cheio de correntes invisíveis, tubarões famintos e tempestades que não molham, mas afogam.

A embarcação ficou para trás, doada a quem o resgatou, como quem tenta exorcizar o próprio casco. Mas há barcos que continuam dentro da gente, balançando. E há perguntas que não encalham.

Talvez o mar tenha sido mais honesto: tentou matá-lo de frente. 

Em terra firme, quase ninguém mata de frente. Só solta a corda da âncora.


O segundo naufrágio

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