abril 29, 2026

A próxima dança

A PRÓXIMA DANÇA

Hayton Rocha

 

O apelido é Dinho porque seu pai, lá no Ceará do começo dos anos sessenta, resolveu homenagear o elegante Orlando Peçanha, zagueiro vascaíno campeão do mundo em 1958 que desarmava os atacantes adversários sem sujar o calção. 

 

Dinho migrou para Brasília com sua família. Era desses meninos que chegam cedo demais às coisas ruins e tarde demais às boas. Hoje diriam que tinha altas habilidades. Naquele tempo, diziam que era superdotado. E ser assim significava ser empurrado para um lugar onde ninguém espera por você.

 

A escola decidiu promovê-lo dois anos. Aos catorze, já estava no terceirão, cercado de rapazes com barba rala, meninas que fumavam escondido, usavam batom, sabiam cruzar as pernas e destruir a autoestima de alguém com um simples “você é tão bonitinho”.





 

Dinho discutia futebol, literatura, música e política, mas não sabia o que fazer com as mãos quando uma garota passava. Ficava duro, não por valentia, mas por pânico. As meninas de dezessete olhavam para ele como quem olha para o irmão caçula da amiga: com absoluto desinteresse.

 

Ninguém teve a delicadeza de explicar a ele que talvez fosse melhor socializar com meninas mais próximas da sua faixa etária. Jogaram o menino na pista de dança onde todos já sabiam o dois-pra-lá-dois-pra-cá, enquanto ele ainda tropeçava sozinho.

 

Rejeitado, Dinho refugiou-se onde podia: nos livros, revistas e sonhos. Lia compulsivamente.  De almanaque a bula de remédio, passando por enciclopédia e receita culinária. Lia porque os textos eram mais generosos que as pessoas. Nunca riam dele.

 

Também desenvolveu uma relação íntima com algumas musas que posavam para revistas masculinas. Uma cantora nortista, aliás, ocupava lugar de honra no altar de seus afetos. Nela tudo era perfeito: a voz, o riso, os peitos, as coxas. Era a idade em que um rapaz se apaixona até por propaganda de sabonete.

 

Foi quando apareceu em sua vida alguém com peso e temperatura. Cearense como ele, corpo cheio, olhos claros, sorriso fácil e um jeito de andar que chegava antes do resto do corpo. Cozinhava na sua casa e havia qualquer coisa de perigoso no modo como preparava molhos, no jeito de mexer a panela e depois levar o dedo à boca, como quem prova mais do que o sal.

 

Dinho notou que ela o olhava de uma forma diferente. Não era olhar de professora ou tia. Demorava um segundo a mais. E um segundo, naquela idade, é quase um passaporte.

 

Ela ria das piadas dele. Passava perto demais. Encostava o braço. E ele, que até então conhecia intimidade apenas em orgias pessoais à base de fotos e sonrisal, vivia em estado de iminente combustão.

 

Numa tarde em que sua mãe deu uma saidinha, Dinho ouvia na vitrola “Café da Manhã”, de Roberto Carlos. De repente, a moça aparece na sala, cantarolando de olhos cerrados, dançando com uma vassoura como se fosse gente. Girava devagar, levantando a barra da saia o suficiente.

 

Dinho se aproximou. Sentia o cheiro dela, do alho e da cebola refogada. Ela passou por ele e cochichou que ia tomar banho porque estava suada. Não olhou para trás. Nem precisava. Certos convites são feitos de costas. 

 

Mesmo oito anos mais novo, ele foi atrás. Parece guardar a lembrança daquela tarde como quem guarda um fósforo riscado dentro da gaveta: não ilumina mais nada, mas ainda cheira a fogueira.

 

Aos quinze anos Dinho começou a trabalhar como office-boy de um banco. Usava farda, ganhava pouco mais de um salário mínimo e andava pela cidade com a arrogância inocente de quem já pode pagar o próprio lanche e comprar discos, livros e revistas sem pedir dinheiro aos pais.

 

Mais tarde, já adulto, pintou uma namorada de verdade. Daquelas de mão suada, beijo de língua no escurinho do cinema, ciúme bobo e rascunho de poema no bolso. Dinho apaixonou-se com a fome de quem passou muito tempo olhando vitrines.

 

Como quase toda a sua geração, aprendeu cedo que o amor não era coisa pequena. Bastava uma canção, dessas que misturam Deus, poesia e promessa, para fazer alguém ajoelhar sem perceber e trocar alianças. 

 

Vieram dívidas, dúvidas, filhos e fadiga que ocupam mais espaço que qualquer discussão. Hoje, quando fala disso, Dinho ri. Reconhece que passou a vida inteira chegando cedo demais para umas coisas e tarde demais para outras.

 

Outro dia confessou que já nem sabe se perdeu o tempo das coisas ou se foi o tempo que perdeu a vontade dele. Ainda assim, não desiste. Persiste no salão.

 

Porque há quem passe a vida toda aprendendo os passos. E há aquele que, quando finalmente acerta, percebe que a música já foi embora.


abril 22, 2026

A volta do Chupa-cabra

A VOLTA DO CHUPA-CABRA 

Hayton Rocha

 

Uma série de mortes de porcos tem intrigado moradores da zona rural de São Brás, no agreste alagoano, onde a noite costuma ser tão calma que até o vento tem preguiça de varrer os sítios.


O caso se deu no Povoado Lagoa Comprida. Segundo os criadores, alguns porcos foram encontrados mortos de maneira incomum: cortes circulares, furos redondos na barriga, na cabeça, no pescoço e, o que mais causa espanto, sem uma gota de sangue.


Morte com cortes e furos, sem poças de sangue, sempre parece esquisita em qualquer lugar. O mais assustador, dependendo da imaginação de quem relata, é que ninguém ouviu nada. Nenhum latido ou correria. Nenhum grunhido de porco indignado com a sorte. E, na manhã seguinte, o mistério estendido no chão.


Como todo mistério que se preze, logo surgiram teorias. Primeiro vieram as hipóteses razoáveis: cães selvagens, raposas, algum predador noturno que a ciência ainda não teve tempo de catalogar.


Mas a razão tem pouco fôlego quando encontra a madrugada do agreste. Logo alguém lembrou de um velho conhecido do folclore do interior: o chupa-cabra.

Depois de ler a notícia, meu pensamento não foi diretamente ao sobrenatural. Só me veio à cabeça a fauna política.


Ilustração: Uilson Morais (Umor)


Na tradição oral e em algumas ressacas coletivas, o chupa-cabra aparece nas sombras, suga o sangue de animais domésticos e desaparece sem deixar pegadas. Comportamento que, a gente sabe, também descreve boa parte dos operadores de licitação de obras públicas.


Dizem que a criatura parece um cachorro grande, metade demônio, metade lobo. Anda ereto, tem garras enormes e uma disposição  incomum para transformar galinheiros tranquilos em assunto para o programa matutino de rádio.


No caso de Lagoa Comprida, porém, nem pegadas foram encontradas. O que só adubou a fertilidade da imaginação popular. Então alguns moradores cogitaram chamar um biólogo. A ciência, afinal, costuma ser convocada quando o folclore começa a criar asas.


Ocorre que o chupa-cabra, com sua habilidade para sugar sangue e deixar carcaças vazias, sempre me pareceu um parente distante, ou próximo demais, de certas figuras íntimas do orçamento público.


Se ele suga o sangue dos animais, há também quem sugue a seiva vital do dinheiro público. O primeiro deixa cabras, galinhas e porcos pelo caminho. Os outros deixam ambulâncias sem combustível, funcionários com salários em atraso e hospitais sem remédio.


No caso do chupa-cabra, a vítima é bicho de terreiro. No caso dos sanguessugas do orçamento, a vítima é algo maior porém mais indefeso: a sociedade.


O modo de agir também tem diferenças. O chupa-cabra age de madrugada, sem testemunhas, instalando o horror. Já os outros preferem a luz branca dos corredores palacianos. Trabalham em cima de contratos, licitações, superfaturamento de notas fiscais e pareceres técnicos redigidos numa linguagem tão incompreensível que ninguém sabe exatamente quem chupou o quê. 


O resultado, no entanto, é parecido. O corpo social acorda mais pálido, tonto. Como alguém que perdeu sangue demais e ainda recebe a conta salgada do hospital na manhã seguinte.


A diferença é que o chupa-cabra ainda não teve sua existência comprovada. Já os sanguessugas ganharam até nome em operação policial. O monstro é mito. Os outros têm CPF, passaporte, RG e, às vezes, foro privilegiado.


Enquanto um pertence ao folclore rural, os outros frequentam gabinetes climatizados, fazem discursos sobre ética e aparecem na televisão falando em responsabilidade fiscal com a placidez de quem acaba de drenar uma lagoa.


No fundo, a comparação entre os dois é apenas uma tentativa de explicar safadezas usando imagens que até o galinheiro entende. Se o Estado funciona como um organismo, o dinheiro público é o sangue. E quando alguém vive de sugá-lo, não demora e o corpo começa a cambalear, zonzo, como galinha que anda em círculos no quintal antes de cair.


Quem sabe por isso histórias de monstros sobrevivam no interior. Elas ajudam a nomear aquilo que a lógica não explica, aquilo que a lei não alcança e aquilo que a vergonha não pega pelo rabo.


Tomara que a investigação descubra algo menos feio do que as sem-vergonhices de sempre. Já basta porco morto, sem sangue no chão e povo sem dormir. Seria uma pena estragar um mistério tão caprichado com mais uma safadeza.


No país onde o surreal trabalha inclusive em feriados e fins de semana, é possível que o verdadeiro mistério não esteja nos porcos de Lagoa Comprida. Mas no fato de que, enquanto procuram monstros no meio do mato, os verdadeiros vampiros já circulam livremente em mais uma pré-temporada eleitoral.


E, pior de tudo, pedindo voto.

abril 15, 2026

O banco de trás do fim do mundo

O BANCO DE TRÁS DO FIM DO MUNDO

Hayton Rocha

 

No começo do mês, alguém que se acha dono do mundo resolveu brincar de motorista do fim dos tempos. Postou numa rede social, como quem assovia “Over the Rainbow”, que uma civilização inteira morreria naquela noite, para nunca mais ser ressuscitada. 



Ilustração: Uilson Morais (Umor)



 

A ameaça pairou sobre a Terra por alguns dias como nuvem de tempestade, só que, em vez de chuva e vento, prometia destroços, fumaça e radioatividade contaminando a atmosfera.  

 

Bem verdade que somos uma espécie que sempre flertou com a própria extinção. Que todo dia aprimora bombas, drones e mísseis, mas não consegue organizar uma fila decente para socorrer quem precisa de água, comida e teto nos escombros do próprio Planeta.

 

Somos também a única espécie que inventa a Internet, envia sondas a Marte e passa o jantar discutindo em família se vacina funciona ou se Ancelotti deve levar Neymar à Copa.

 

A arte de morrer com dignidade, porém, continua sem tutorial no YouTube. Sabe-se apenas que nada nesta vida é certo, exceto a linha de chegada e o desconto na fonte do imposto de renda. E que há três tipos de morte: a cardíaca, a cerebral e a perda do celular desbloqueado.

 

Na mesma semana do ultimato do dono do mundo, um velório no estado de Veracruz, no México, terminou em confusão. Duas mulheres descobriram, diante do caixão aberto, que amavam o mesmo homem.

 

Uma delas se aproximou para uma despedida mais emocionada. A outra estranhou o excesso de intimidade. Em segundos, a cerimônia virou uma espécie de UFC sentimental, com gritos, empurrões, puxões de cabelo e tapas de fazer o morto cogitar um retorno temporário.

 

Pensei na ressureição do falecido por alguns minutos só para pedir um pouco de compostura. Se desconfiasse de que seria velado naquele clima, certamente teria preferido a cremação. No mínimo, seria mais calorosa.

 

Morrer, de fato, parece aborrecido. Algo entre a dor no terceiro molar na gengiva inflamada e o atendimento de seguradora no domingo à noite.

 

O ideal é não ter participação ativa na morte antes da hora. Mas ninguém sabe quando é a hora. Embora haja quem diga que fulano morreu prematuramente, como se existisse um balcão no Purgatório encarregado de distribuir horários e formulários.

 

Salvador Dalí dizia ter uma longa amizade com a morte. Quando ela chegasse, mandaria sentar-se, relaxar e ofereceria uma taça de champanhe. Não sei se cumpriu a promessa. A morte não costuma ser muito dada a esses afagos preliminares.

 

Sabe-se pouco sobre ela. As mensagens no WhatsApp somem, talvez o primeiro sinal concreto. Cabelos e unhas de quem suspira pela última vez continuam crescendo por algum tempo. Para quem pretende adiá-la um pouco mais, respirar segue indispensável. Parar continua sendo um erro grave de planejamento.

 

Ainda assim, há suplícios piores: fila no Detran com o sistema fora do ar, cancelar TV a cabo ou ter que escutar alguém tentando nos convencer a mudar de time, de religião, de ideologia ou de carro. Pode ser, inclusive, a forma mais dolorosa e lenta de extinção. Em alguma medida, tudo isso constitui uma espécie de ensaio geral para a inevitável das despedidas.

 

Confesso que não me sinto preparado para morrer. Não concebo um futuro sem mim. Acho uma falta de consideração o mundo continuar existindo sem ouvir minha opinião.

 

Nascer já foi traumático. Cheguei chorando, nu e cercado de gente dizendo que eu era até gordinho, mas feio. O fim da estrada pode ser pacífico. A travessia, nem sempre. Volta e meia é confusa, repleta de decepções e sobressaltos.

 

Dizem que, quando alguém está morrendo, vê toda a própria vida passar diante dos olhos. Será? Deve ser a melhor maratona de séries já produzida, embora não existam críticas disponíveis sobre o assunto na web. 

 

Mas, se algum lunático apertar o botão, lançar o primeiro míssil e transformar a Terra numa grande churrasqueira radioativa, espero morrer como o motorista que adormece ao volante de um pau de arara: sem perceber direito o tamanho da tragédia. Não gritando, apavorado, como os passageiros espremidos nos bancos de trás da carroceria.

 

Porque sempre há um rezando, outro chorando, outro culpando o governo, outro responsabilizando a oposição e outro perguntando se ainda dá tempo de saltar e seguir a pé. 


Desde o começo, aliás, quase sempre estivemos todos no banco de trás do fim do mundo.

 


abril 08, 2026

Os que amanhecem por dentro


OS QUE AMANHECEM POR DENTRO
Hayton Rocha


Quase todas as manhãs, enquanto caminho pelo calçadão da orla, passa por mim um senhorzinho que parece ter escapado de uma fotografia antiga esquecida na parede da memória. Deve ter seus noventa anos, talvez mais. É franzino, miúdo, com pouco mais de metro e meio, desses que o tempo vai esculpindo devagar, como a maré faz com as pedras dos arrecifes: tira uma quina aqui, arredonda outra ali, mas preserva o essencial.


Fotografia: Magdala Veras


O que mais chama atenção nele, porém, não é o corpo quase portátil. É o sorriso. Um sorriso leve, daqueles cuja fabricação foi descontinuada há décadas, junto com os discos de vinil e os jeans boca-de-sino.

Ele me deseja um bom-dia toda vez que passa. Mas não é um bom-dia qualquer, distribuído a granel. O dele vem inteiro. Vem na boca, nos olhos e no braço levantado devagar, como quem espalha pequenas bênçãos de bolso para desconhecidos.

E como se desejar bom-dia uma vez só fosse pouco, na volta ele repete o ritual. Talvez para garantir que seu desejo realmente aconteça. Ou porque desconfie, com razão, que o mundo anda tão distraído, tão ocupado em contar calorias e discutir política, que precisa ser avisado duas vezes de que ainda vale a pena amanhecer.

Não sou o único destinatário daquela gentileza quase artesanal. Ele faz isso com quase todos que encontra pelo caminho. Há pessoas que se atualizam logo cedo com notícias sobre guerras, previsões do fim do mundo ou receitas milagrosas para emagrecer. Ele distribui a teimosa esperança de um dia bom.

Deve ser feliz. Ou, pelo menos, alguém que descobriu um segredo mais raro: parecer feliz sem fazer propaganda disso.

Vai ver aprendeu que a alegria mora nas coisas miúdas, nessas que passam despercebidas pelos apressados, pelos poderosos. Coisas como se sentar à beira-mar, pedir uma água de coco, um chope gelado ou qualquer líquido que refresque a alma, e depois enterrar o dedão do pé na areia úmida, como quem tenta medir a temperatura da eternidade.

E o que dizer de uma rede depois do almoço. Rede boa é uma espécie de útero para desocupados como eu. A gente se deita, cobre o rosto com um lençol ainda impregnado de cheiro de netos ou de sábados, e desaparece do mundo por meia hora. Cochilar numa varanda, a esta altura, talvez seja a forma mais sutil de dizer à vida: espere um pouco, vou ali e volto já.

Hoje cedo ele foi além. Aproximou-se de mim, repetiu o bom-dia e perguntou minha idade. Sessenta e oito, respondi. “Um menino!”, ele pontuou.

Descobri então que se chama João Batista, é manauara radicado em Maceió, contador aposentado, casado há 64 anos “com a mesma mulher”. Falou disso com um entusiasmo quase indecente, como se descrevesse um romance clandestino, escondido atrás de uma moita ou no banco de trás de um Aero Willys.

Sessenta e quatro anos com a mesma mulher. Em tempos de amores descartáveis, aplicativos de encontros e casamentos que duram menos que o prazo de validade dos ansiolíticos da moda, aquilo me pareceu quase um milagre.

Enquanto ele falava, o espírito de porco que vira e mexe se apossa do cronista sugeriu perguntar se ele teria visto e o que achou de um vídeo que circula nas redes sociais em que o ator Nelson Freitas diz que, depois de certa idade, já não doem mais as falsidades, as mentiras ou as traições. O que dói é a cervical. É o joelho. É a lombar. A dor, depois dos cinquenta, vira uma espécie de síndica do corpo: cobra taxa extra quando menos se espera, muda de apartamento, mas nunca vai embora do condomínio.

Tem dia em que é a panturrilha. No outro, a coluna. Depois aparece uma bursite, uma labirintite, uma tendinite, como se o corpo passasse a se comunicar em latim. Tudo cai. Cai o cabelo, cai o colágeno, cai a bunda, cai a ficha. Só não caem a pressão, os triglicerídeos e o preço da mensalidade do plano de saúde.

Diz o vídeo ainda que tem gente que frequenta academia não para ficar sarado, mas para não emperrar. É manutenção preventiva. Velho que não anda, desanda. Caminha-se não para reduzir a gordura da barriga, mas para continuar aparando as unhas dos pés e entrando no carro sem barulho de armário com dobradiças desgastadas.

Pensei ainda em perguntar se João Batista sentia essas dores migratórias, essa ferrugem ambulante que a idade espalha pelos ossos e juntas sem piedade.

Mas tive juízo e fiquei quieto. Quem sou eu para falar sobre decadência diante de alguém que atravessa a velhice distribuindo bom-dia como quem distribui flores?

Despedi-me com pena de mim mesmo. Porque há gente, como eu, que apenas envelhece. E há gente que continua amanhecendo por dentro.

abril 01, 2026

O segundo naufrágio

O SEGUNDO NAUFRÁGIO 

Hayton Rocha

O mar é um cartório sem balcão: registra tudo, tem seus segredos insondáveis, mas nem sempre fornece certidão. Salga e guarda datas e nomes ou os apaga de uma vez por todas. Às vezes devolve um corpo como quem entrega um processo fora do prazo, com folhas amassadas e assinaturas ilegíveis.



Reli outro dia a notícia de uma dessas devoluções improváveis. O salvadorenho José Alvarenga saiu para pescar no litoral do México com Ezequiel Córdoba, parceiro mexicano de ofício. Bastou o motor do barco pifar, a ventania rugir por quatro dias, e a vida virou aquilo que o mar faz com a gente nessas horas: uma linha tênue entre o desespero e a fé, riscada em águas revoltas.

E o que começa como pescaria termina em oração. O peixe vira sobrepeso. Quatrocentos quilos ao mar pro barco não afundar. De repente, só há o oceano deserto onde a sede tem gosto irônico: água por todos os lados, nenhum gole que mate a falta dela.

Às vezes chovia. Milagre menor. Desses que não fazem brotar nada, apenas mantêm alguém vivo. A vida se reduzia a um ritual primitivo: olhar o horizonte, beber o que caía do céu, comer o que o acaso oferecia, suportar o que a agonia ainda consentia.

José aprendeu a virar bicho sem deixar de ser homem. Pegava peixinhos com a concha das mãos, como quem reza. Deitava imóvel no casco, fingindo-se morto, para iludir pássaros e agarrá-los pelas pernas. Puxava tartarugas quando vinham respirar e nelas encontrava carne, sangue e um resto de água escura que a necessidade chama de líquido. Quem tem fome não filosofa: mastiga e pronto.

Ezequiel foi perdendo o apetite. A depressão transforma até a lua e as estrelas em algo sem graça. A carne crua virou ofensa ao estômago revirado. Dois meses depois, restaram apenas José e o horizonte. E silêncio no mar não é ausência de som. É excesso de vazio.

Quando o amigo morreu, José ainda guardou o corpo por quatro dias, na esperança de que a morte fosse só mais uma onda. Depois o entregou às águas, e os tubarões fizeram o que o mundo costuma fazer aos mais frágeis, ligeiro, sem cerimônia. José ficou com o pior castigo: não a fome nem a sede, mas a ausência de testemunhas. Às vezes, o que nos salva do absurdo não é água nem alimento, é alguém que diga: eu vi.

Um navio passou perto. Tão perto que um marinheiro acenou, como quem cumprimenta um doido qualquer. Deve ter pensado: mais um que confunde coragem com loucura. O mundo não reconhece a tragédia quando ela não vem nos telejornais com legendas.

José seguiu. Aprendeu a ler nuvens como mapas. Viu o sol mudar de lugar, esse relógio abrasador que também mede a resiliência. Até que surgiram manchas no horizonte. Chegar à terra foi uma ressurreição. Desabou na areia, quase nu, como se o mar o tivesse devolvido por engano.

O segundo naufrágio veio em terra firme, onde a fome é outra: fome de suspeita. O homem que atravessou milhares de quilômetros à deriva foi recebido com a desconfiança: qual foi o truque? Em vez de herói, suspeito. Em vez de abraço, interrogatório. Queriam um pecado para tornar o milagre aceitável. Preferiram a hipótese do canibalismo à ideia de uma sobrevivência épica.

Vieram os especialistas e suas explicações. Correntes invisíveis, rotas improváveis, contas que fechavam melhor do que a história em si. Máquinas tentaram medir o que restava daquele homem e concluíram o óbvio com atraso: ele ainda estava vivo e dizia o que lembrava. 

Mas a dúvida já tinha encontrado porto. E porto, às vezes, é só outro nome para não seguir viagem. Ressuscitar exige teimosia. A memória coletiva não devolve tudo o que se passou. Reconstrói o que convém.

Veio um livro. Vieram também os processos, movidos por familiares de Ezequiel, como se a dor pudesse ser quantificada e o sofrimento rendesse direitos autorais.

E agora, José?

A dúvida drummondiana o atravessa. O continente também é oceano, cheio de correntes invisíveis, tubarões famintos e tempestades que não molham, mas afogam.

A embarcação ficou para trás, doada a quem o resgatou, como quem tenta exorcizar o próprio casco. Mas há barcos que continuam dentro da gente, balançando. E há perguntas que não encalham.

Talvez o mar tenha sido mais honesto: tentou matá-lo de frente. 

Em terra firme, quase ninguém mata de frente. Só solta a corda da âncora.


As palavras passam

AS PALAVRAS PASSAM  Hayton Rocha Soube que   Aurélio Buarque de Holanda , alagoano cujo nome virou sinônimo de dicionário, numa entrevista h...