JARDINEIRO DA REPÚBLICA
Hayton Rocha
Circula nas redes sociais um vídeo sobre um sujeito que aparece ajoelhado entre pás, mudas e sacos de terra, no centro de São Paulo, como quem se desculpa junto ao chão antes de tocá-lo. Já ganhou o apelido de “Jardineiro da República”, título um tanto injusto, porque lembra cargo público e não é nada disso.
Pensei tratar-se de mais um desses vídeos de voluntariado que a gente assiste entre um sopro de esperança e a próxima decepção. Mas prestei atenção melhor e notei que ali havia algo diferente: parecia um homem negociando a paz com o concreto.
| (Fotografia: Leo Martins/Veja SP) |
Eduardo Paziam foi designer têxtil. Dos bons, dizem. Desses que circulam em desfiles internacionais apalpando tecidos e conversando em inglês técnico sobre tendências e texturas. Um dia, no entanto, decidiu trocar tudo por enxadecos. Foi plantar ipês no centro de São Paulo.
Parece enredo de filme alternativo. Criou o Projeto Pazipê, iniciativa dedicada a restaurar pequenos pedaços de biodiversidade no coração cinzento da cidade. Nada de arbustos exóticos nem de plantas decorativas importadas. Apenas espécies nativas da Mata Atlântica, como se pretendesse reconectar a cidade ao idioma original daquele pedaço de terra antes da chegada do asfalto.
Até agora já plantou mais de três mil mudas. O trabalho se concentra na região da República e ao longo da Avenida São Luís. Ali surgiram os chamados “jardins de chuva”, pequenas ilhas verdes capazes de absorver água e aliviar a fúria das enchentes urbanas.
Enquanto arquitetos e engenheiros discutem drenagem em gabinetes refrigerados, o jardineiro resolve parte do problema debaixo de chuva e sol, com ferramentas, paciência e mudas.
Cuida de dois desses jardins de chuva e de outros cinco canteiros espalhados pela avenida, mantidos com apoio de comerciantes locais e de um programa municipal chamado “Adote uma Praça”.
A ideia é simples e ambiciosa a um só tempo: transformar cada canteiro da Avenida São Luís numa pequena e insistente floresta. Corredores verdes atravessando o deserto de concreto para lembrar à cidade que a natureza não foi sepultada de vez.
Assistir ao vídeo me trouxe de volta algo que aconteceu há quase três décadas.
Estive numa cidadezinha pernambucana de oito mil habitantes no Alto Sertão do Pajeú, chamada Tuparetama, a trezentos quilômetros do Recife. Lugar de clima surpreendentemente ameno, a quinhentos metros de altitude, onde o vento chega mais animado que no resto do sertão.
Ali notei um fato curioso: diante de quase todas as casas havia uma árvore. Algumas robustas, outras ainda tímidas, como crianças aprendendo a existir. Perguntei ao prefeito como aquela arborização havia sido financiada. Imaginei convênios com ONGs, verbas estaduais, essas coisas. Ele riu:
— Não custou quase nada. Cada casa tem uma criança responsável por “sua” planta.
Funcionava assim: todo mês, a meninada recebia uma ajuda simbólica (algo equivalente a dez por cento de um salário-mínimo) para cuidar de “sua” planta. Regar de manhã e de tarde, arrancar ervas daninhas, colocar estrume, improvisar cerca quando necessário. A árvore crescia. E a criança também.
Percebi outra coisa em Tuparetama: quase não havia muros pichados. Em vez de slogans eleitorais ou retratos de candidatos sorridentes, as paredes caiadas exibiam versos de poetas populares.
Nada sofisticado. Apenas poesia enxuta, fruto da alma sertaneja. Como a de Manoel Xudu:
Mamãe me dava papa,
Me deu leite, me deu bolo,
Ela que me deu consolo,
Me deu carinho, garapa.
Mamãe que me deu um tapa,
Mas depois se arrependeu.
Beijou aonde bateu,
Desmanchou a inchação.
Quem perdeu mãe tem razão
De chorar, porque perdeu.
Ou a de João Furiba, talvez inspirada numa paixão mal resolvida, ou apenas numa galinha que migrou do quintal para a panela:
Eu também estou tristonho
Porque perdi minha bela.
Eu quisera arrumar outra
Pra botar no lugar dela.
Nem precisa ser bonita
Basta ser igual a ela.
Nunca mais voltei a Tuparetama. Mas às vezes me pego pensando no destino daquelas crianças sertanejas que cresceram entre árvores e poesia nos muros. Onde estarão hoje? Quantas ainda se comovem com o cheiro da terra molhada quando cai a tarde?
Deve ser por isso que o vídeo do Jardineiro da República me deixou pensativo. Quem sabe, em algum canto do Brasil, ele era uma daquelas crianças encarregadas de cuidar de uma planta.
Este País ainda não virou um grande deserto, inclusive de ideias, porque vira e mexe aparece alguém disposto a plantar esperança no lugar onde muita gente só enxerga asfalto e cimento.

Caro Hayton.
ResponderExcluirDesta vez temos uma lúcida reflexão sobre a resistência da delicadeza e da natureza frente ao endurecimento dos centros urbanos.
É muito rica e interessante a trajetória de Eduardo Paziam, que trocou o mercado têxtil internacional pelo plantio de espécies nativas no centro de São Paulo, agindo como um mediador que busca restabelecer o diálogo entre a biodiversidade da Mata Atlântica e o asfalto da metrópole.
Na realidade , a figura do "Jardineiro da República" acaba sendo um símbolo de esperança, pois onde muitos só enxergam cimento e deserto, ainda existe espaço para cultivar ideias e manter viva a essência da terra. Excelente .
Que texto lindo, Hayton. Você fez do Eduardo Paziam um poeta do asfalto, e eu saí daqui querendo ajoelhar também diante de alguma terra esquecida. A forma como você descreve o homem que negocia paz com o concreto é tão delicada quanto as mudas que ele planta: é um gesto silencioso, quase uma prece invertida, onde o chão não é pisado, mas acolhido. O que mais me toca é a maneira como você costura esperança sem pieguice. Porque não há nada ingênuo em seu olhar: há, sim, uma aposta firme no que insiste em brotar. Você mostra que este País ainda não virou deserto porque há gente que planta ipês e há crianças que recebem dez por cento de um salário mínimo para regar o futuro. E há você, Hayton, que vê nesses gestos modestos uma revolução silenciosa. É bonito demais quando a escrita consegue ser afeto e pensamento ao mesmo tempo.
ResponderExcluirA imagem final é uma pergunta que você deixa no ar como uma semente: quem sabe o jardineiro foi um dia aquela criança? É de uma ternura filosófica. Você não precisa responder tudo; basta plantar a dúvida e nos fazer olhar para cada voluntário de cidade grande como quem carrega, sem saber, a infância inteira de um sertão que um dia lhe deu árvores e versos. Obrigado por esse texto, amigo. Ele é um jardim também. E eu saio daqui regado. Há um "Pazipê" em mim e em você que também foi tocado pela poesia do Hayton.
Como é bom começar o dia com um texto sobre esperança! Obrigada amigo por nos refrescar a memória do cheiro da terra molhada e da paz que o verde traz.
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ResponderExcluirLegal, meu amigo!
Ainda bem que ainda tem gente no mundo que se preocupa com a natureza.
Gostei das imagens.
Bom dia. Um forte abraço
Que crônica inspiradora. Parabéns
ResponderExcluirBom dia, Caríssimo Parahyba!
ResponderExcluirExcelente!
Sou fiel observador de cidades. Crítico contumaz dos gestores municipais que gostam de cidades despidas. Acredito que não por apreciarem o erotismo, porém, como me relataram alguns, não gostam de plantar árvores 🌳 porque dão trabalho. É a poda, é a varredura das folhas 🍂 que caem… é a preguiça, é a falta de visão lúdica 👀
Este baiano aqui, em toda cidade que foi gerente do BB, deixou pelo menos uma árvore plantada na frente da casa em que morou. Oficio que aprendi com o exemplo do meu pai, paraibano do Vale do Piancó.
A mais recente àrvore que plantei, em frente à nossa casa em Nova Soure, um magnífico Outizeiro 🌳, trouxe de Formosa do Rio Preto, migração arbórea do Oeste para o Nordeste da Bahia.
Abraço 🤝