segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Meu pai um dia me falou...




De natureza triste, sorriso raro, franzino e míope, Agostinho, meu pai, logo cedo percebeu  que não teria braços para fazer o que meu avô, Pai Simente, fazia junto com meus tios, agricultores de subsistência na zona rural de Colinas, no Oeste maranhense. Por isso, nem mesmo o choro sentido de minha avó, Mãe Sussu, conseguiu evitar que deixasse o sítio “Maravilha” ainda criança e fosse morar com tio Enoch (um de seus irmãos mais velhos) em Caxias, cidade onde estudou do ensino primário ao antigo científico. 

Bastante dedicado e estudioso, a ponto de vangloriar-se diante dos filhos, anos depois, de nunca haver perdido o “trono” de melhor aluno das salas de aula que frequentou durante a infância e a adolescência, quando se tornou adulto não teve condições financeiras para cursar uma faculdade - coisa de ricos, à época -, mas conseguiu ser aprovado no concurso do Banco do Brasil e, em 1954, aos 23 anos, iniciou sua carreira profissional bem distante de casa, na cidade de Itabaiana, na Paraíba.


Lá encontrou Eudócia, minha mãe, na flor dos 15 anos de idade, filha também de pequenos lavradores do Brejo paraibano, com quem casou e nunca mais deixaram de fazer filhos. Sem contar um abortamento, foram nove em 13 anos (entre 1956 e 1969, Haydeé, eu, Agostinho filho, Hélio, Hélder, Girlene, Zuleide, Kléber e Dayse), os dois últimos nascidos em Alagoas, para onde a família migrou no final dos anos 60, apoiando sua trajetória profissional até então ascendente - depois de algum tempo como chefe da carteira de crédito agrícola e industrial do BB em Patos, no Sertão da Paraíba, foi nomeado administrador do BB em União dos Palmares, Zona da Mata alagoana.

Trabalhador compulsivo durante a semana, relaxava nas horas de folga lendo revistas e livros, inclusive de fábulas, até os filhos adormecerem. Sentia prazer em sentar à mesa com toda a família para comer “Maria Isabel”, arroz puxado no alho com carne de sol picada. Gostava também de “passear” com a enceradeira pela casa, aos sábados, lustrando mosaicos enquanto ouvia Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Trio Irakitan. Não perdia por nada o “Repórter Esso” nem jogos do Vasco, ouvindo transmissões de rádio numa época em que a TV não fazia a menor falta. E ainda arranjava tempo para dedicar às roseiras que cultivava no jardim com o mesmo carinho que devotava à musa inspiradora que criou a possibilidade de uma vida em família que a vida lhe negara quando criança.

“A honra e a dignidade de um homem devem ser preservadas a todo custo. Na escalada da vida, um escorrego é preferível que seja fatal”. Era o que estava escrito em curto bilhete que meu pai deixou para os colegas de trabalho, na gaveta de sua mesa, na penúltima sexta-feira de maio de 1972, quando decidiu que não voltaria a encontrá-los nunca mais. Naquele dia, recebera o contracheque do mês zerado, por compras antecipadas em supermercado, farmácia, lojas etc., com consignação em sua folha de pagamento. Onde arranjar forças para seguir em frente, humilhando-se a cada novo empréstimo feito junto a agiotas e dando cheque pré-datado em garantia? E se acabasse demitido por conta da emissão de cheques sem fundos?

Deprimido e não suportando rolar a bola de neve de dívidas que se formou desde que, em 1969, perdeu o cargo de confiança que ocupava no banco, reduzindo a menos da metade o salário até então bem ajustado com a numerosa família que formou, meu pai certamente pediu perdão a Deus, na missa de domingo à noite, na capela da Gruta de Lourdes, pela decisão de precipitar por conta própria sua partida, aos 41 anos de idade.

Até hoje nenhum de nós, mamãe, filhos e filhas, conseguiu esquecer por completo o grito coletivo de horror naquela manhã de segunda-feira, 22 de maio de 1972, quando deparamos com seu corpo inerte, tendo ao lado óculos, relógio, aliança e uma carta em que pedia: “Para Eudócia... No bolso de meu paletó preto tem uma relação de minhas dívidas... quero que avise a todos os meus credores que receberão o que lhes devo assim que o seguro for liberado pela Previ... Hayton e Agostinho Filho agora serão os homens da casa... perdão pelo que não pude fazer de bem... “ 

Ele sabia que o seguro de vida e a pensão vitalícia que deixaria seriam suficientes para, pelo menos, garantir o bem-estar material da esposa e filhos. E eu, aos 14 anos, revoltado sem motivo com o Banco do Brasil naqueles dias de luto, já contava com o apoio e o carinho  de Magdala, minha namorada até hoje, mas não conseguia ouvir no rádio uma certa canção sem encher os olhos d’água

"Meu pai um dia me falou /Pra que eu nunca mentisse/Mas ele também se esqueceu/De me dizer a verdade/Da realidade do mundo/Que eu ia saber/Dos traumas que a gente só sente/Depois de crescer/Falou dos anjos que eu conheci/No delírio da febre que ardia/Do meu pequeno corpo que sofria/Sem nada entender/Minha mulher em certa noite/Ao ver meu sono estremecido/Falou que os pesadelos são/Algum problema adormecido/Durante o dia a gente tenta/Com sorrisos disfarçar/Alguma coisa que na alma/Conseguimos sufocar/Meu pai tentou encher de fantasia/E enfeitar as coisas que eu via/Mas aqueles anjos agora já se foram/Depois que eu cresci/Da minha infância agora tão distante/Aqueles anjos no tempo eu perdi/Meu pai sentia o que eu sinto agora/Depois que cresci."

Quem poderia imaginar que, dois anos depois, aos 16, eu iniciaria minha própria trajetória no Banco do Brasil  (menor aprendiz para serviços gerais), lá permanecendo por mais de 40 anos? Meu filho certo dia me perguntou se durante todo esse tempo de banco eu não estava, na verdade, à procura de meu pai. Na hora, não soube o que responder, mas, hoje, eu não tenho nenhuma dúvida.



39 comentários:

  1. Todos vocês são exemplos para todos nós de muita dignidade,honra,coragem e muito AMOR .Isso chama-se a verdadeira FAMÍLIA. Abraço amigo.

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    1. Como sempre, suas histórias me leva a uma época nunca esquecida e me emociona .

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  3. Não tenho palavras para descrever o misto de sentimento lendo tudo isso. Sem dúvidas, o texto mais tocante e expressivo de todos. Mesmo longe durante muitos anos, você sempre foi luz para a sobrinha feijão! E, sabe... você nem imagina... mas era em você que eu "encontrava" o meu pai. Era não, é! Não apenas a semelhança física. Mas... ora sério, ora divertido. Dono dos conselhos mais firmes. Como Lica sempre foi. Obrigada por tantos ensinamentos. Você não tem noção do orgulho que tenho em ser sua sobrinha!

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  4. Parabéns Hayton, triste, mas muito bonita essa história.

    Abraços,
    Marcos Tadeu

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  5. Eita tio Hayton!!!! Blogueiro saudosista, resgatando o passado da família Jurema, descobrimsd o que se esconde por tras de um tio gigante, bem sucedido, nem sempre bem humorado, mas que tem espontaneidade com o discurso e a escrita bem elaborada e romântica... Podemos observar quanto saudosismo e tristeza que fez o homem resistente que é! Deus tem cuidado de tudo desde o principio, é muito claro como somos amados pelo criador! Que conservou nossa integridade física e mental, permitindo viver novos tempos sem o peso do passado, mas apenas com a cicatriz de um vendedor!

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  6. Outro belíssimo texto fácil de ser devorado, Hayton. Confesso que este me tocou o coração, acho que pela forma que narras algumas passagens não tão fáceis de serem expostas. De certa forma, ao ler o nome do Kléber, lembrei do tempo em que estudamos juntos no Sagrada Família, onde ele se destacava como o melhor aluno da turma e um dos melhores daquele colégio. Forte abraço!!!

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  7. Hayton, uma história muito tocante e que mostra o grande vencedor que você é em todos os sentidos.

    Você é grande, meu amigo!

    Marival.

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  8. Adoro ler todos os seus textos, principalmente pela clareza e emoção como contas. Esse, confesso, me arrancou as lágrimas!

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  9. Que belo texto, tio! Me arrepiei do começo ao fim. Mais uma vez, muito bom conhecer essa época que não vivi através do seu olhar.

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  10. Como disseram Susy e Manoella, tocante, a melhor de todas as crônicas até agora! Texto sentimental e cirúrgico. Definitivamente, aposente o já velho bancário; viva o novo escritor!!! Grande abraço!

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  11. Relato emocionante, que toca no coração de cada um (ainda mais com um tema que é tabu). Texto muito bom.

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  12. Emocionante, chorei! Lembrei-me de nossa Mãe Sussu, Não teve lágrimas para chorar, quando soube da triste notícia, mas ficou deprimida por muito tempo, principalmente por não poder estar presente ao lado dos netos, com quem pouco tinha contato, nem para o sepultamento do nosso Pai Simente, Agostinho teve condições de vir, que foi um ano antes. A dor foi muito,ninguém pode avaliar.
    Abraços, Cristina.

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  13. Muito emocionante a sua história Hayton. Nao tem como não derramar lágrimas de emocao e de admiracao pelo o que o Tio Agostinho foi em vida: Um exemplo de Pai e de marido. Já contei muito a história dele com muito orgulho!!! Um abraço, fique com Deus!!!

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  14. Tinha ouvido da boca do autor essa história que agora lida, emociona muito mais.

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  15. Meu DEUS!!!
    Acabando de chegar ao Rio de Janeiro para o niver de tia Odete de 96 aninhos,e a caminho lendo está coisa linda!!!!
    Emocionadérrima!!!!
    E depois de tudo que passaram,só deram orgulho a este pai!!!!
    Parabéns amigo e parabéns para mamãe Eudócia!!!!

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  16. Lembro nitidamente do dia em que cheguei na porta da sua casa e vi muita gente e uma garota me falou o acontecimento.
    Fiquei transtornado e muito triste. Não sabia o que fazer. Tentei falar com você e a Hayden mas vocês estavam com a Dona Eudocia, que estava arrasada.
    Não consigo me lembrar de mais nada a não ser o local onde o Sr Augustinho foi encontrado. Isso lembro nitidamente. Acho que cheguei na hora que os legistas chegaram. Não lembro de mais nada amigo. Acho que meu cérebro resolveu deletar toda aquela cena triste. Realmente, ser Pai é coisa muito séria meu irmão.

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  17. Esse relato só fortalece minha admiração por você e pela sua trajetória de vida Hayton, dedicada a familfa e ao BB.

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  18. Quis dizer no comentário anterior que Agostinho não teve condições de vir ao sepultamento de nosso pai é um ano depois foi-se também.

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  19. Cada relato tem seu "peso"da história da vida. Mas falar de pai é sempre emoção pura. Muita admiração! Sem mais palavras.

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  20. Pensei que já sabia tudo da família Jurema da Rocha! Detalhes bem lembrados! Valeu!

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  21. Hayton, sempre me emociono com tudo o que escreve sabendo que seu coração comanda sua mente. Mas, esse relato, especialmente foi lá no fundo e trouxe lágrimas emocionadas. Marina.

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  22. Cada dia aumenta a minha admiração!
    Hayton grande pai de família, amigo e um grande presidente da nossa CASSI.

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  23. Hayton, não há como deixar de se emocionar com esse texto!!
    Parabéns amigo, você é um exemplo de superação na caminhada da vida!
    Tens a minha admiração!
    Forte abraço!
    Sandro

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  24. Amigo Hayton,
    História de Vida que merece ser dividida, Superação a ser seguida.
    Parabéns por mais um belíssimo relato.

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  25. A mais tocante de todas que eu li. Pai é uma lembrança que não apaga. O meu se foi em 1 de novembro de 1997, mas até hoje divido com ele minhas dores. Dirigindo, converso com a certeza que ele está sentado no banco do carona.

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  26. Parabéns amigo/irmão pelo belo artigo! Quem lê com certeza se emociona. Já o admirava e lendo que vc aos 14 anos, junto com Magdala, ajudou sua família aumenta meu carinho e admiração pelo casal. Abs, Canindé

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  27. Apesar de já conhecer parte do relatado no artigo, me emocionei. Haja coração!

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  28. Fiquei muito feliz com o exercício de memórias que vc me proporcionou Hayton. A foto batida na calçada do BB de Itabaiana-PB, onde tomei posse 3 anos após, pois julgo que foi tirada em 1958,provavelmente o ano que vc nasceu, me trouxe velhas recordações de colegas que me recepcionaram quando ingressei no Banco. Pelo que sei apenas um continua neste plano, Francisco de Assis Luzo, maranhense de Caxias. Outros que consegui distinguir, seu Amaro, Gerente, não trabalhei com ele, Raimundo Thier, subgerente, idem, José se Souza Morais, José Bernardino de Lucena, Quirino Gomes dos Reis e o seu pai, ao lado de Thier. Muito bela sua narrativa e parabéns pela vocação.

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  29. Bela história de família onde se mescla todos os tipos de sentimentos. Não se pode negar a força do alicerce que deu base a essa bela família.

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  30. Emocionante história.

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  31. Gostei muito do blog do Haylton! Bem escrito, com histórias que emocionam, além de bem diagramado. Parabéns ao autor.

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  32. "De natureza triste, sorriso raro, franzino e míope, Agostinho, meu pai, logo cedo percebeu que não teria braços para fazer o que meu avô, Pai Semente, fazia junto com meus tios, agricultores de subsistência na zona rural de Colinas, no Oeste maranhense. Por isso, nem mesmo o choro sentido de minha avó, Mãe Sussu, conseguiu evitar que deixasse o sítio “Maravilha” ainda criança e fosse morar com tio Enoch (um de seus irmãos mais velhos) em Caxias, cidade onde estudou do ensino primário ao antigo científico." Como tu consegue, num parágrafo, nos levar por anos de história, e com maestria e simplicidade? Parabéns. Também já estive muito endividado no BB e com três filhos e um monte de dívidas me açoitando. Obrigado por dividir tamanha emoção conosco. É impossível não se conectar contigo, ao navegar nas ondas de letras e palavras, nem sempre fáceis de terem sido assimiladas, à época. Obrigado por existir!

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  33. Parabéns, Caro Hayton! Texto maravilhoso, história muito emocionante.

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