Tudo aquilo que o ser humano ignora não existe para ele. Por isso, o universo de cada um se resume ao tamanho de seu conhecimento, dizia Einstein.
Luiz, 4 anos, e sua irmã Eudócia, 8 anos – minha mãe, tempos depois –, tomavam banho no Rio Paraíba, próximo à casa de taipa e de chão batido onde moravam no Sítio Jacaré, zona rural de Pilar(PB), quando Nina, a irmã mais velha deles, chegou aos gritos:
– saiam daqui, vão embora pra casa que o mundo vai acabar agora!
De repente, o dia começou a escurecer, o calor diminuiu, os pássaros silenciaram, as galinhas buscaram os poleiros e duas crianças em pânico correram assustadas com o que viam.
– José, corre aqui que Luiz desmaiou! – gritou Carmelita para o marido ao ver a filha, de olhos arregalados, tentando reanimar o irmão.
José, que ordenhava no estábulo, chegou depressa, examinou o filho desacordado e balançou cabeça.
– Adianta não. O menino tá morto. O que aconteceu, Doça!?
– Foi Nina, pai! Luiz me chamou para buscar ovos de guiné na beira do rio e depois tomar banho. Ela chegou dizendo que o mundo ia acabar... começou a escurecer...
– E aí?
– Luiz começou a tremer. E a gente correu pra casa, com medo...
“A lua começou a invadir o disco solar às 8 horas, 20 minutos e 6 segundos...
Às 9 horas , 30 minutos e 1 segundo já se sentia a temperatura bem mais baixa e a escuridão já era quase total, impedindo a visão perfeita à distancia de cinquenta metros. Pouco depois surgiram as primeiras estrelas ante o entusiasmo curioso dos locutores e jornalistas que pela primeira vez puderam observar com uma perfeição indescritível o espetáculo que a natureza lhes oferecia.
O eclipse total começou às 9 horas, 34 minutos e 8 segundos. O globo solar ficou inteiramente coberto, observando-se sobre o firmamento um resplendor impressionante, como se houvesse um grande luar sobre o horizonte visual. A temperatura no primeiro minuto do eclipse baixou a 19 graus centigrados. Às 9 horas e 38 minutos começou a clarear rapidamente, notando-se então os contornos dos corpos sobre o solo, à medida que a lua foi baixando...”
De volta ao Sítio Jacaré, José estava enfurecido. Desceu do cavalo, tirou o cinturão das calças e deu a maior surra que Nina levaria na vida para que nunca mais assustasse aos irmãos daquele jeito. E ainda alertou outra filha, que a tudo assistia:
– Você abra o olho e deixe de fazer medo a Doça, ouviu?
Semana passada quis saber de Eudócia, agora com 80 anos, 24 netos e 23 bisnetos, qual teria sido a reação de minha avó Carmelita, “Mãe de Jacaré”, ao receber a notícia de que o filho estava morto, naquela manhã há 72 anos.
– Chorou, mas quase todo ano morria um anjinho, meu filho. Doía mais quando já era crescido, como Luiz – respondeu.
Eu nasci 11 anos depois que o mundo acabou para Tio Luiz. Não pude ouvir a sua voz me dizendo coisas como: “Deus te abençoe, meu sobrinho!”
Se hoje lhe pedir notícias do mundo de lá, como na canção de Milton e Brant, talvez me fale sobre dois lados de uma mesma mesma viagem. Que o trem que chega é o mesmo trem da partida e que a hora do encontro é também de despedida. Que todos os dias é um vai-e-vem e que a vida se repete em cada estação. E tem gente que vem só olhar.
Eita que ele hoje foi looonge! Já ouvi essa estória mais de mil vezes, mas nunca com tantos detalhes!! Até me emocionei...
ResponderExcluirÉ só puxar pela pela memória de Dona Eudócia que ela conta tudo. Eu apenas anoto.
ExcluirHistória verídica tão bem contada que parecia que eu estava ali na que li momento.
ResponderExcluirDegustar suas crônicas com as riquezas de detalhes nos propicia uma leitura agradável. Parabéns Hayton por mais um excelente texto.
ResponderExcluirBela narrativa. No final dos anos 60 eu quase "me lasco" numa queda de um cavalo fugindo com medo de um fenômeno semelhante que aconteceu no sertão do Pajeú onde eu morava.
ResponderExcluirImpressionante, não conhecia essa história vivida por Dona Eudócia, tem que respeitar viu ���� Parabéns por mais essa narrativa Hayton
ResponderExcluirViajou mano, que susto da boba, essa crônica da pra fazer um filme.
ResponderExcluirAdorei o titulo, adorei a bacia de barata, gostei do enrredo. Muito bom!
Pior seria o colar de sapos no pescoço, não?
Excluireu não conheci a essa história. no começo pensei que não fosse real. parabéns por saber usar as palavras!
ResponderExcluirEita, essa é antiga! Bem contada!!!
ResponderExcluirParabéns Hayton,bela narrativa! Cada crônica mais interessante.Lembro que minha mãe comentava sobre esse eclipse,mas não lembro como aconteceu.Eu deveria ter nessa época 8 anos, pois creio ser 3 anos mais nova que Eudocia.Saudades de todos!
ResponderExcluirCoitada da Nina, que certamente não tinha qualquer outra intenção a não ser avisar aos irmãos sobre o que estaria por vir e assim proteger a todos... (pelo menos era no que acreditava)..
ResponderExcluirPois é, Avelar, os ajustes educacionais do velho José de Brito Jurema passavam pelo cinturão de couro no espinhaço dos filhos. Os tempos mudaram.
ResponderExcluirMuito bom... lembrar a ingenuidade das pessoas, suas crenças... viviam felizes assim... pena o desfecho...
ResponderExcluirDeu pra imaginar cada cena(pela riqueza de detalhes).
ResponderExcluirParabéns pelo belo texto, com direito a oscilação de sentimentos...
Geraldo Leao.
Crônica das boas. Essa foi novidade para mim. Vovó e suas histórias. Um baú.
ResponderExcluirE você, cada vez mais afiado.
Beijos, meu tio.
Acabou para o menino Luiz, subitamente, por um susto que seu coração não teve forças para resistir!
ResponderExcluirLembranças de eclipse do sol menino bem pequeno em Marília. Talvez não, pelos apenas três anos. Vivíamos de crendices.
ResponderExcluirSensacional! Não conhecia esse fato, mais ao ler, senti como estivesse no momento, tamanha riqueza de detalhes!!!
ResponderExcluir👏👏👏 Bravo
Melhor, Susy, é saber que Artur daqui a pouco vai poder conhecer detalhes de sua própria origem.
ExcluirSerá difícil para nós agora, não lembrarmos dessa história quando vier o próximo eclipse.
ResponderExcluirMaravilha! Quantos detalhes! Me arrepiei só de pensar no colar de sapos, dos quais tenho verdadeiro pavor. Não consigo encarar nem mesmo em fotos
ResponderExcluirHistória verídica, rica em detalhes e carregada de emoção. Parabéns!!!
ResponderExcluirAgostinho Torres.
Jair Rodrigues já dizia que o sertanejo aprende a ver a morte sem chorar. Minha vó Doça, de coração forte, colocou nosso destino no lugar.
ResponderExcluirE quantas histórias daqui para frente, Leopoldo, os 24 netos e 23 bisnetos (por enquanto!) de Dona Eudócia haverão de escrever para os novos descendentes da "Juremada"que vem por aí.
Excluir"Chegou de repente o fim da viagem" - Vento de Maio. Já que você lembrou os mineiros.
ResponderExcluirFoi o que aconteceu com o menino Luiz.
Hayton, excelente crônica com um belo fechamento.
Parabéns!!!
Marival
Booommm Diiiaaaa!!!
ResponderExcluirÓtima, Abençoada, Produtiva e Feliz Segunda! Excelente Semana!!!
Lê esta crônica logo pela manhã, que coisa Boa. É o retrato da vida, narrado com muita clareza, sentimento, retrato da Vida. PARABÉNS.
Vamos que Vamos!!!
Ótimo texto! Coração fraco como causa mortis foi demais...
ResponderExcluirFoi assim que deram a notícia pro velho José de Brito Jurema, foi assim que ficou para todos da família naquele tempo, quando a terra sepultava outras causas prováveis para a morte de tantos anjinhos indefesos.
ExcluirQue memória rica e tocante, Hayton!
ResponderExcluirE narrada com muito talento!
Hayton, no texto que enviei para você -- Primeiras Lembranças -- escrevi que minhas primeiras lembranças datavam do final da década de 40. Lembrei-me desse eclipse, pois os mais velhos diziam que quem o olhasse a olho nu poderia ficar cego.Alguns diziam que era o fim do mundo. Você me fez recordar umas das minhas lembranças mais antigas e ao maior eclipse que vi. Tinha 4 anos.
ResponderExcluirGostei demais da crônica.
Parabéns!
Um abraço do Orlando.
Obrigado, meu caro Orlando. Ainda bem que você pode guardar essa recordação e compartilhar com filhos e netos. O que não deu pro Tio Luiz.
ExcluirMeu caro Hayton, marejei os olhos e alma. 👏👏👏
ResponderExcluirUnknow = Roberto Ferreira
ResponderExcluirSinal de que a história está bem contada, meu amigo Roberto.
ResponderExcluirO. K.
ResponderExcluirSensacional a crônica! Histórias verídicas mas contadas de modo afetivo. Estou feliz por acompanhar seus escritos, primo!
ResponderExcluirNossa, no começo pensei que fosse ficção! Dá pra imaginar o pavor das pessoas que não tinham conhecimento do eclipse, imagina!
ResponderExcluirAmigo Hayton, Bela história, boa crônica. Prendeu minha até o final. Pena que meu xará com “z” tinha coração fraco.
ResponderExcluirAmigo Hayton, Bela história, boa crônica. Prendeu minha atenção até o final. Pena que meu xará com “z” tinha o coração fraco.
ResponderExcluirNão conhecia essa. Adorando acompanhar por aqui.
ResponderExcluirQue bela história e pelo seu jeito interessante de narrá-la.
ResponderExcluirQue bela história e parabéns pelo seu jeito intetessante de narrá-la.
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