quarta-feira, 17 de julho de 2019

Cabeça de mãe


Faltava energia às 10 horas da noite de terça-feira, 26 de fevereiro de 1958, quando ele nasceu na maternidade do Hospital São Vicente de Paulo, em Itabaiana, na Paraíba, berço de grandes artistas como Zé da Luz, Sivuca e onde vive, atualmente, o grande Jessier Quirino. 

Era uma criança tão feia que assim que a energia voltou o médico foi conferir se por acaso não teria jogado no lixo o pimpolho e deixado a placenta nos braços da mãe que, aos 19 anos, exausta, recuperava-se do esforço sobre-humano feito para expulsar aquela respeitável caixa craniana. 

Nas 48 horas seguintes, aguardou-se para ver se não brotava algum apêndice caudal na figurinha cabeluda de pouco mais de 4 kg, chorona e de olhos tristes, que começava a bisbilhotar o universo em sua volta, sem entender de onde vinha nem para onde estava indo.

Era humano! Uma santa teria soprado aos seus ouvidos: “Calma! Só dói assim na descida e na subida; aproveite o vôo e boa viagem.”

A mãe jura que exageram quando tocam nesse assunto. Cabeça de mãe é tudo igual. Ela mesmo contou outro dia que, ao receber o filhote para amamentá-la pela primeira vez, indagou da freira responsável pelo berçário se não teria ocorrido alguma troca de bebês quando a luz apagou. O correr do tempo, o mingau de amido de milho, a tapioca, o cuscuz, o futebol e as braçadas em açudes e rios, melhoraram bastante a proporção entre cabeça, tronco e membros daquela criatura. 

É claro que a mãe até hoje é grata ao filho porque sem querer facilitou a chegada suave dos sete irmãos seguintes. Interessante notar que não havia nada hereditário que justificasse o cabeção da criança. Nem mesmo uma possível ascendência cearense, região pra lá de distante do Oeste maranhense e do Agreste paraibano onde viveram seus ancestrais paternos e maternos. 

Passados os dois primeiros dias, o pai foi ao Cartório Santiago Bandeira fazer o registro do nascimento tendo em mãos um documento fornecido pela maternidade onde escrito que se tratava de uma criança de cútis morena. Anos depois, um cunhado seu, pouquinho mais moreno, achou de perturbar o juízo da sogra exibindo o próprio registro onde consignado que nascera de cútis branca. A resposta foi curta e afiada feito coice de porco: “pelanco de urubu também nasce branco!”. De novo: cabeça de mãe é tudo igual.

O costume execrável de misturar nomes de pai (Agostinho) e mãe (Eudócia) para nominar recém-nascido aqui não daria certo mesmo: Agostócio ou Eutinho seria cruz de pau-ferro, pesada demais para os ombros do inocente. O pai até poderia homenagear — não quis assim — dois ídolos chamados Orlando: o quarto-zagueiro vascaíno, que integrava a seleção brasileira que viria a ser campeã mundial na Suécia meses depois; e o Silva, o cantor das multidões da época de ouro do radio, grande intérprete de “Aos pés da cruz”, “Carinhoso” e  “Rosa”.

“Hayton”, na verdade, é sobrenome lá para as bandas do Reino Unido. Já o primeiro sobrenome é na verdade nome próprio nativo, de raiz: “Jurema”, que em tupi significa “arvore de espinhos de cheiro desagradável”. É planta comum no Nordeste, cujas folhas podem dar origem a um chá narcótico e alucinógeno. “Rocha”, último sobrenome, seguramente veio da Península Ibérica com os expatriados para Pindorama.

Ao resolver homenagear um colega de trabalho (Hayton Vidal dos Santos) que fora seu guru-orientador nos passos iniciais da carreira no Banco do Brasil, o pai não imaginava que o filho seria chamado de várias formas pelos professores a cada primeiro dia de aula nas escolas em que estudou: Ail-ton, Ei-ton, Rai-ton, Rei-ton, Uai-ton etc. Menos de Hayton (ái-ton). Só depois de breve explicação ninguém mais esquecia daquele nome, bem mais complicado, por exemplo, do que: Ciço, João, Raimundo, Tonho ou Zé. 

O nome esquisito e o crânio levemente avantajado eram pratos cheios para "bullying", mas desde cedo o menino aprendeu a se defender de quem se atrevesse a lhe apelidar. Dotado de altura e força acima da média dos moleques de sua idade, possuía, além disso, respostas afiadas e cruéis na ponta língua para calar os buliçosos, a quem faltava coragem e imaginação para lhe chamar, por exemplo, de: Caixa d’Água, Estoura Gola, Lua Cheia ou Maçã do Amor.

Conseguiu atravessar ileso a infância e a adolescência, sem que lhe colassem nenhum apelido digno de nota. Mas, início dos anos 90, num belo dia em que acabara de mergulhar na piscina da AABB Salvador, uma irreverente cidadã carioca, tia de grande amiga sua, depois de uns bons goles de cerveja resolveu cutucar o gatão felpudo no esplendor de seus 33 anos para ver o que acontecia: “e aí, Cabeção, a água está boa?”

Ele fez cara de besta mas respondeu com outra pergunta, na lata: “com qual delas a madame está falando?” A própria sobrinha Sílvia, com o marido, vulgo Gasolina, ambos numa mesa com pelo menos dez pessoas, quase racham as costelas de tanto rir da coitada da Tia Odete. E entre acarajés, pilombetas e vatapás, a cerveja gelada rolou até a pôr do sol. Ainda não havia bafômetros estraga-prazeres a espreitá-los pelas ruas da Bahia.  

A vida é assim mesmo.  Quem tem orelha de abano, nariz de batata, olho de jipe ou boca da noite não escapa da zoação geral. Ser cabeçudo, porém, é o que mais tira um sujeito do prumo, principalmente depois de velho, quando a barriga cresce, os pelos caem e as canelas afinam.

Mas chega a hora em que o sujeito se dá conta de que tudo isso não passa de coisa de sua própria cabeça. É quando a vida lhe dá de presente mais um neto geneticamente perfeito, parecendo um pirulito cabeludo. E a mãe acha lindo. Tudo igual.


54 comentários:

  1. Muito bom. Autocrítica fabulosa...rsrs... mas maçã do amor é demais. Mas acho que Deus faz a coisa certa. Tinha que ter espaço para tanta inteligência. Abraço, amigo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É aquilo que sempre falo, Mazine: a cabeça do ser humano deve ser medida das sobrancelhas para cima. O resto é similar aos primatas.

      Excluir
  2. Breve história do tempo. Boa e elucidativa. Ainda em andamento, o que é importante. Parabéns.
    ACCampos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bem devagar, Acc. Não tenho a menor pressa hoje em dia.

      Excluir
  3. Bom Dia,
    Grande Amigo, lê seus textos é exercer uma otima leitura; ter o prazer, viver, reviver a dia o dia, a construção da vida.
    Parabéns.
    Vamos que Vamos!

    ResponderExcluir
  4. Kkkkkkkk
    Impagável! Entendo um pouco disso (sem ter tido o físico avantajado, para desencorajar as investidas sarcásticas).

    ResponderExcluir
  5. Eu também pratiquei bastante esse exercício de soletrar diariamente o nome na escola, Hayton. Afinal, Jezreel não é tão fácil de se ler corretamente e meus professores, invariavelmente, tropeçavam ao tentar pronunciá-lo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nenhum nome é tão complicado que não haja algum mais complicado ainda, meu caro Jezrel.

      Excluir
  6. Cabeça proporcional ao coração.

    ResponderExcluir
  7. Concordo com Leopoldo. Tia Odete tinha que aparecerme lembro muito das suas conversas com ela, dávamos boas risadas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu avisava a Tia Odete: quem briga com gato pode até ganhar a disputa, mas sairá arranhado!

      Excluir
  8. Caro Hayton, mais um ótimo texto, parabéns! Eu é que sei o estrago que faz o “bullying “, me chamavam Chico Tripa. Me consola pensar que se pudesse ter a média do peso da infância com o de hoje, faria inveja a muitos famosos manequins...hehe... Abs Miranda

    ResponderExcluir
  9. Só você mesmo pra me fazer rir as 7 hs da manhã eu não sabia desses apelidos. Mais uma crônica boa de ler.parabens

    ResponderExcluir
  10. Ficou pequena para abarcar tanto conhecimento.

    ResponderExcluir
  11. Maravilha de crônica, Hayton. Vou compartilhá-la agorinha mesmo com meus dez ou doze leitores. O sempre forte abraço do Sidney.

    ResponderExcluir
  12. Hayton, ser diferente do "padrão" do grupo, pode trazer bulling, mas se trabalharmos isso como uma força motora pode impulsionar a força interior que todos nós temos, parabéns por mais uma crônica sensacional . Imagine quanto bulling passei com o meu nome ao longo dos anos ? Abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Posso imaginar, Gueitiro, a sacanagem da molecada com você na hora da chamada no primeiro dia de aula. Pior seria se a cabeça fosse um pouco maior, não?! Criança, como diz Jessier Quirino, “é nação do desassossego”.

      Excluir
  13. Mãe invariavelmente, é tudo igual ....

    ResponderExcluir
  14. Excelente, Hayton! Texto saborosíssimo! Gostei muito!

    ResponderExcluir
  15. Boas risadas no nascimento dessa criança.
    Cabecinha avantajada e nome complexo. Mas Leopoldo tem razão, cabeça proporcional ao coração.... e da sabedoria.
    Ah... antes que esqueça! Preciso concordar: MÃE, TUUUUUUDO IGUAL!

    ResponderExcluir
  16. Kkkkk Aqui morrendo de rir! Tenho direito porque sou testemunha de que realmente ninguém conseguiu fazer " bulling" com você. Esperto e inteligente tinha sempre uma " tacada" na ponta da língua. " Pirulito cabeludo" foi demais! Seu neto é lindo! Parece apenas " um pouquinho " com o avô... Versão melhorada. Na segunda foto desse Post, lá atrás, aparece uma menininha que já demonstrava gostar fotografias...kkkkkkk

    ResponderExcluir
  17. Belo texto. Eu fico com “maçã do amor “ pelo ineditismo do apelido.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Se fosse na minha fase ácida e sarcástica, faria na lata uma perguntinha bem simples: isso é uma declaração de amor, Mané?

      Excluir
  18. Posso dizer que sei bem do que você está falando e até acrescentaria alguns requintes de crueldade, mas o que está no parágrafo final é muito mais importante.
    Passamos s vida inteira para aprender a não dar demasiada importância aos outros e saber aguar nossa raiz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Problema, Dedé, é que quando o caroço é grande, não tem água que chegue. Só apelando pro volume morto!

      Excluir
  19. Bom dia Hayton. Eu pronuncie seu nome até agora no oitavo encontro da família Tôrres em Colinas, de (aíton), rsrsrs. Aí tia Cristina disse que é (áiton). Interessante sua crônica. São belas narrativas que retratam fatos vividos. É o mais engraçado é a resposta na ponta da língua para a inconveniente convidada da piscina. Hilários, até demais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A primeira vez é sempre assim. Tudo igual. Abração, Hayton (lê-se “ái-ton”)

      Excluir
  20. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  21. Como diz o povo do alto Pajeú: "Desse modelo.". Certa vez sobre as mães escrevi: "O coração de uma mãe/Não cabe em outro espaço/O amor que dele brota/Escorre por cada braço/Banhando o corpo do filho/No momento do abraço."

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hayton, suas belas crônicas, também trazem a nós, poesias como esta de seu amigo Ademar. Linda! Você é tão positivo, que atrai outras beldades literárias. Tenho que concordar com seu amigo, 'MÃE, TUDO IGUAL". Um abraço.

      Excluir
  22. Falar de suas próprias desventuras. Você é muito bom nisso, além de mostrar que a superação é sua marca registrada.
    Mas quem não sofreu gozação pelos caminhos da vida, numa época que fazia parte integrante das brincadeiras de rua? O importante era não ligar para isso e responder com um apelido ainda pior.
    Parabéns pela excelente crônica.

    Um abraço do Orlando.

    ResponderExcluir
  23. Meu cumpade Hayton

    É de frontispício o assunto.

    Aqui em Itabaiana tem duas nações de Jurema. Os Jurema ricos e os pobres. Pra alegria deste Quirino, minha compadragem diária é com um dos pobres. Sois tu Cabra Véi. Um Everest de pessoa, dono de vitoriosa história de vida.
    Quanto ao nome meu cumpade, poderias ser um Eudagos, ou um Juremildo Jurema, que Deus o livre!
    No colégio, poderias ser um Cabeça-de-nós-todos; Hotel de piolho; ou mesmo Rebentão.
    Felizmente sois um Hayton sabido que só macaco de feira, traquejado, que não perde a cabeça; não é de dar com a cabeça na parede; nem anda com a cabeça no ar.
    No mais, é como diz o matuto. Besta é coco quem tem três olhos, dá um pra furar e a família é quenga.

    Grande abraço JESSIER

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eita! Tem um poeta de primeira lendo meus escritos. E ainda mexendo com minha cabeça. Assim eu não durmo! Abração, caba véi...

      Excluir
    2. MARMININO!! Tá demais " mermão "!! Com um cumpade dessa IMPORTÂNCIA!! Sou fã " por demais" desse poeta, cujo show tive o prazer de assistir em uma de suas passagens por Maceió!!!

      Excluir
    3. Já virei fã desse outro poeta arretado, ora fazendo "parea" com esse nosso cronista gênio! Hayton, saiba que além das suas belas crônicas, leio todos os comentários, por sinal muito bons e estimulantes. Um abraço

      Excluir
  24. Crônica espetacular. Lembro-me bem daquela farra. A Tia Odete, grande exemplo de vida, continua muito ativa, alegre e irreverente da mesma forma. Hoje com 96 anos mora sozinha no Rio de Janeiro e toma sua cervejinha com alguma regularidade. É uma garota marcante em sua essência. Parabéns por nos permitir reviver momento tão marcante de nossas histórias.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De fato, Gasolina, uma adorável figura. Com seu bom humor permanente, faz qualquer cristão perder a cabeça. Mesmo quando é grande.

      Excluir
  25. Kkk. Tive a oportunidade também de conhecer essa senhora maravilhosa, Tia Odete. Inteligente, perspicaz e sempre sacaneando com alguém. Gasolina que o diga. Rsrsrs

    ResponderExcluir
  26. Mais outro excelente texto amigo!! Ri demais lendo esta história. Ainda bem que vc se casou com Magdala para “limpar o sangue”(Sr Jolibel) e ter uma prole bonita e com membros proporcionais kkkkkk. Abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não mexe com quem está quieto, Homer Simpson, senão serei forçado a lembrar daquele ponta-esquerda horroroso que o pessoal chamava de Bucho de Geléia... kkk

      Excluir
  27. Concordo, cabeça proporcional ao coração e precisaria de espaço para tanta inteligência. Hereditariedade também conta, não conheceu alguns tios que também tinham a cabecinha meio avantajada.Mas as diferenças é que nos levam ao conhecimento das qualidades diferenciadas. Parabéns pela bela crônica. Já havia corrigido a Leda sobre a pronúncia do seu nome...Certamente ela entendeu.

    ResponderExcluir
  28. Como escreveu alguém, ler os comentários de suas crônicas já faz parte do "pacote". Trata-se da "sobremesa" obrigatória e deliciosa, logo depois de saborearmos mais um belo e divertido texto. Continue assim, cada dia melhor!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De pleno acordo, Andreola. Bom mesmo são os comentários que a crônica suscita na versão que cada um enxerga. São instantâneos. Por isso é valioso o recurso ao blog para publicá-la.

      Excluir
  29. Sensacional kkk! Ri muito! Antigamente bullyng já existia e era muito pesado e das pessoas que eu conheço da época, nenhuma metralhou colegas da escola ou se matou por isso... Hoje, se alguém chamar o outro de feio é motivo para processo, pois a criança estará sofrendo bullyng. Gostei do humor constante da crônica! Nota 1000!

    ResponderExcluir
  30. Beleza de crônica, Hayton! Recheada de muito humor.

    Um colega, ex-gerente de uma agência de Maceió, por sinal cearense, possui uma caixa craniana avantajada; mas não se podia tocar no assunto por que azedava qualquer conversa. Num evento com colegas do banco, vendo-o passar alguém gritou "Zé Gotinha". Aí ele deu a gota!

    O nosso amigo Gasolina, fiquei sabendo do apelido através do Cristiano, foi meu gerente após eu retornar de Belo Horizonte. Gente finíssima. Era o nosso ponta direita no Cantareira. Conheci Sílvia, a esposa dele, e algumas histórias da Tia Odete.

    Grande abraço.
    Marival.


    ResponderExcluir
  31. Uma prosa gostosa, maneira e fecunda. Que nos remete àquela piscina, àquela mesa, à tua vida.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tudo o que a gente precisa num sábado como o dia de amanhã, meu amigo. Valeu!

      Excluir
  32. Bela crônica, Jurema!
    Cada dia melhor!

    ResponderExcluir
  33. Hayton (te conheci ái-ton, porque já era muito bem falado), cada relato teu nos remete às nossas próprias histórias e momentos bons e difíceis e de como os superamos (ou não...). Muito bom!!!!

    ResponderExcluir
  34. Rir de si próprio é a suprema bem-querência! Despojar-se das vestes pesadas da vaidade, desnudando-se em forma de humor é das almas nobres e da sabedoria de quem bebeu do elixir da vida! E assim se vai, colhendo e compartilhando reminiscências, com boas tiradas, muito humor e bondade n'alma. Abraço cordial.

    ResponderExcluir