quarta-feira, 31 de março de 2021

Goiabinha, o doce teimoso

A professora Inacinha ouviu baterem palmas à porta de casa, próxima à Praça da Faculdade e ao Cemitério São José, no Prado, em Maceió. Lá fora, deu de cara com Baiano e Fumanchu quicando bola na calçada, a recrutarem interessados no racha das quatro da tarde:

– Goiabinha tá aí? – quis saber um deles. 

– Aqui não mora nenhum Goiabinha! – respondeu uma zelosa tia – O nome é Paulo Fernando Paraíso de Carvalho, por sinal, um bonito nome.


Órfão de mãe, criado pela tia com açúcar, afeto e seus livros prediletos, Paraíso queria ser jogador de futebol, como tantos meninos que ouviram pelo rádio o maior drama do Brasil até o vexame de 2014: a derrota para o Uruguai por 2 a 1, na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. 


Anos depois, já funcionário do Banco do Brasil, lembrava disso toda vez que seu nome completo era mencionado no ambiente de trabalho e os colegas – inclusive alguns comparsas de infância – completavam numa só algazarra:

– Por sinal, um bonito nome! 


Aposentado há 28 anos, Paraíso não sabe a origem do “Goiabinha” que lhe tatuaram quando endoidecia os zagueiros do Universal, de Pai Manu, como atacante do Arsenal, de Zé do Biu. Talvez o gosto pelo fruto da goiabeira, árvore típica da América tropical, muito comum naquele tempo de pardais, de verde nos quintais. 

  

Teimoso como poucos, sim, mas nunca deu motivos para queixas sobre pontualidade, lisura ou desempenho no trabalho, embora não tolerasse usar gravata. Como não podia mudar o padrão de vestuário estabelecido pelas normas da empresa, cortava-a pela metade, a tesoura, e amarrava o resto ao pescoço sem o menor compromisso com a elegância. 

 

Fazia sentido. Por que alguém, lutando pela sopa de cada dia numa cidade litorânea, com temperatura média de 26ºC, deveria macaquear um hábito europeu? A gravata (cravate, que no idioma francês significa “croata”) surgira na França do final do século 17. Os gauleses, conhecidos pela afeição à moda, adaptaram uma indumentária do regimento croata, de passagem por Paris em 1668. Usava-se cachecol de lã ou linho para aquecer o pescoço nos dias de inverno. 

 

Goiabinha, porém, já fora bem mais teimoso. Contam antigos companheiros – com quem dividiu uma república em Viçosa, interior de Alagoas, no início da carreira profissional – que certa noite, após o jantar, ele se preparava para descascar a sobremesa quando começou a discutir com alguém sobre política ou futebol, com a banana em riste. O tempo passava e nada. Pouco antes de dormir, ele ainda argumentava balançando a fruta, àquela altura imprestável até para vitamina com farelo de aveia.  

 

Sindicalista de fibra – louve-se, sem qualquer filiação político-partidária com agenda de interesses particulares –, daqueles que escaparam por um triz de cassetetes, choques elétricos e paus-de-arara, nem a gagueira lhe inibia de proferir inflamados discursos nas assembleias dos bancários. Quando subiam a temperatura e o tom, então, batia duro com a língua na perereca móvel sem medo de terminar banguela ou de perder o cargo de confiança que exercia. 

 

A fama de teimoso tornou-se lendária quando Goiabinha, contrariando a opinião de vários amigos, decidiu não assinar o termo de opção pelo Fundo de Garantia de Tempo de Serviço (FGTS), sob o argumento de que sua liberdade não estava à venda por dinheiro nenhum no mundo. “Dinheiro só compra pessoas baratas”, pregava.

 

Resgato que o FGTS foi criado em 1966, a pretexto de assegurar ao trabalhador demitido sem justa causa certa segurança financeira (cada ano trabalhado equivalia ao salário de um mês). Em contrapartida, o empregado abriria mão da chamada estabilidade decenal (quem atingia 10 anos de trabalho só podia ser demitido por justa causa) prevista na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), regra que só seria extinta em 1988. 

 

Algo que deixava Goiabinha furioso eram as chamadas propagandas enganosas que infestavam jornais, rádios e tevês, na segunda metade dos anos 1970. E uma livraria e papelaria famosa na Rua do Livramento, além de popularizar slogan de terrível mau gosto (“se no Recife tem, na Casa... também tem”), pisoteando os calos de quem vivia numa capital de menor porte, orientou as balconistas a nunca admitirem a falta de um produto. Quando se pedia uma mercadoria em falta, respondiam sem qualquer pudor: “não tem, mas vai chegar”. 

 

Aborrecido com aquilo, um dia dirigiu-se ao balcão da famosa loja e falou alto a ponto de ser escutado por outras pessoas presentes:

– Aqui tem o livro Anatomia Patológica?

– Qual o autor?

– Paulo Fernando Paraíso de Carvalho.

– Não tem, mas vai chegar! – disse a atendente, quase acrescentando "por sinal, um bonito nome".

– Vai chegar uma porra! – protestou Goiabinha, para espanto geral – Quem lhe disse que escrevi algum livro?! 

 

Com o passar dos anos, perdi o contato com ele. Há duas semanas, contudo, um amigo em comum compartilhou comigo áudio-mensagem onde Goiabinha, visivelmente comovido, celebra ter escapado das garras cruéis da covid-19. Teimou tanto, imagino, que o abominável vírus das trevas desistiu. 

 

Dá para imaginar o desfecho da encrenca no hospital, ele relutando com a besta-fera, com o dedo indicador da mão esquerda em riste:

– Nem vem que ainda tem querosene em minha lamparina!

– Deixe de ser teimoso! Quem você pensa que é?

– Não sou ninguém, mas não abro nem para um trem sem freio quando entro numa briga! Sai pra lá, fi-da-peste, infeliz-das-costas-ocas! Tá aqui pra você! – e encerra a prosa com uma banana daquelas de estalar a palma da mão direita na dobra do antebraço esquerdo, de punho cerrado. 


 

Domingo que vem, 4 de abril, Goiabinha completa 82 anos muito bem vividos. Deve almoçar com a mulher Lúcia, os filhos Paulo, Eduardo, Andreia e Adriana; as netas Caroline, Beatriz e Larissa, além dos três bisnetos Lucas, Téo e Dante. Por sinal, bonitos nomes, como diria tia Inacinha.

 

Antes do cafezinho, com os bisnetos no paraíso da sala de estar, cairia bem uma colherada de doce de goiaba em calda com creme de leite. Sobremesa mais que merecida. 

47 comentários:

  1. Eu não conheci Goiabinha, mas depois desta bela crônica, passei a gostar do teimoso sindicalista e criador do “ não tem, mas vai chegar”.

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  2. Essa do "não tem, mas vai chegar" é sensacional, mas tb não é perfeita, o próprio Goiabinha provou isso.

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  3. Que delícia. Quem não gosta de um bom bocado de doce de goiaba?

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  4. De repente, no supermercado, ouço um discurso inflamado. Era o goiabinha, ou melhor, o Paulo Fernando Paraíso de Carvalho - - por sinal um bonito nome -- protestando contra a retirada dos embaladores de nossas compras, deixando o serviço a cargo da caixa. Argumentava, o Paraíso, que tal atitude, além de provocar o desemprego, era prejudicial à saúde das caixas do supermercado.
    Essa é a grande figura humana com quem convivi na Agência Centro de Maceió nas décadas 70/80.
    Belíssima homenagem, Hayton, com o estilo e a beleza de sua pena.

    Orlando Salvador de Lima

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    1. Valeu! Seu comentário, Orlando, só reforça aquilo que sabemos sobre Goiabinha. É do tipo que para toda vez que o coração dispara e, se puder, repara.

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  5. Isto é que pode ser chamado pelo bonito nome de "crônica biográfica". Informação precisa, direta e completa sobre uma figura humana.

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  6. Grande Paraíso, homem bom e justo. Só tenho lembranças boas dele. Lendo o texto me vem a mente as histórias que nos divertiam muito. Fico feliz em saber que ele está bem e rodeado dos seus.
    Fernando Ribeiro

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  7. Que legal! Vou ficando íntimo de seus personagens, tão bem retratados.
    Imagino que ele não gostasse muito do “cheque goiaba”...

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  8. Grandes personagens de nossa história. Num momento em que vivemos uma tragedia que acumula tantos números, como é bom poder mergulhar na riqueza que existe por trás de um nome. Por sinal, um bonito nome. Dedé.

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  9. Figuraça o Goiabinha. Lembro muito bem da meia-gravata. Foi meu chefe no setor do telex. Um cubículo q ficava, se à Covid não prejudicou minha memória, no quarto andar. Figura humana, como diz essa outra figuraça, o craque Orlando, extraordinária.
    Bom reencontrar os amigos, ainda que nos ambientes virtuais.👏👏👏👏

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  10. Bela homenagem biográfica ao colega. Fazia tempo que não via referência àquele infeliz slogan da casa comercial e que também sempre achei de um complexo vira-lata da maior qualidade, como diria Nelson Rodrigues

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  11. Mais uma figuraça desse celeiro chamado BB. E com um bonito nome!

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  12. Tive a honra e a alegria de trabalhar com este grande e inesquecível colega. Vida longa ao Goiabinha.

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  13. Impressionante como Hayton, em poucos parágrafos, faz seus leitores - que não conhecem o personagem - formarem uma ideia bastante palpável sobre a admirável figura! Talento para poucos!!

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  14. Cabra Bom este Goiabinha, embora tenha ficado explícito a sua teimosia, ficou também a imagem de um Bom Companheiro. Fica, ate um vazio, para quem não teve a oportunidade.
    Hayton, em 04/04, acrescente os nossos Parabéns. Bom ariano.

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  15. ANTONIO CARLOS CAMPOS31 de março de 2021 10:48

    Será que foi curado pela Goiaba? Pode estar nascendo mais uma receita caseira contra o COVID-19. Brincadeiras a parte, esse Goiabinha tem um bonito nome.

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  16. Muito bom saber notícias desse casal amigo Lucia/Goiabinha. Meu marido J Martins costuma dizer que no dia do casamento deles, o Padre teve que fazer a pergunta no negativo, para garantir o sim de Goiabinha: Paulo Fernando, não aceita Lucia como sua futura esposa??

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  17. Estamos muito felizes com a recuperação do vovô!
    Somos muito orgulhosos do homem bom e honesto que é.
    Suas teimosias continuam, inclusive algumas parecidas com as minhas, como bons arianos que somos.
    Felicidade em saber que meu filho pode conviver com o biso.
    Beijos,
    Carol e Lucas

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  18. Parabéns por mais uma bela crônica homenageando um colega, exelente, abraço amigo.

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  19. Alexandre Ferreira Gomes31 de março de 2021 12:39

    Tio Fernando participou diretamente da minha infância e adolescência. Esperava ansioso as férias, para me hospedar na sua casa e me divertir bastante com meus primos. Figura ímpar, engraçado e de excelente caráter, ele e tia Lúcia tem um lugar especial no meu coração. Não que seja teimoso, mas defende com paixão as suas convicções e opiniões. Graças a Deus ele e Tia Lúcia se recuperaram, saúde e vida longa aos dois. Abraço

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  20. História emocionante. Que bom que Goiabinha superou a terrível desgraça que estamos vivendo.

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  21. Mais um personagem que conheço e passo a admirar. Crônica saborosa como uma boa goiaba. Branca ou vermelha, tanto faz. Vida longa ao goiabinha e família.

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  22. Caríssimo Hayton,

    Agradeço, de todo coração, a muito bem escrita e mais que merecida homenagem a meu Tio Fernando, o Goiabinha!

    As histórias contadas por ti fazem parte das lembranças da infância e adolescência minha, de meus irmãos e primos! Tenhas certeza são devidamente repassadas às novas gerações, quiçá sem brilho do teu texto, mas são devidamente repassadas.

    Grande Abraço!

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  23. Grande Paraíso, companheiro das lutas dos bancários nos anos 90, sua personalidade irreverente marcou de forma definitiva as calorosas assembleias do sindicato dos bancários de Alagoas.

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  24. Paraíso ou Goiabinha, uma das melhores figuras que conheci em meus 15 anos de BB. Forte abraço para ele e para você, do Sidney Wanderley.

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  25. Bonita crônica Hayton, envolvendo uma pessoa com um bonito nome e bonita história!

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  26. Muito legal você se lembrar de amigos assim e agora perpetuar essa lembrança por ser compartilhada. Felicidades ao Goiabinha...

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  27. Que texto saboroso, Hayton! O personagem é interessante, mas você se superou! Parabéns, meu caro!

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  28. Hayton, Você traçou o perfil de
    Goiabinha com uma precisão absoluta.
    Fui seu colega na Ag.Centro-Maceió.
    Parabéns !! Péricles

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  29. Ao ser transferida para Maceió, em 1981, tive a grande sorte de ser alocada na Uniaf, cujo chefe era o querido Goiabinha. Era mais que um chefe, era como um pai para nós, todas mulheres, que dele recebíamos um tratamento justo e paternal. Ainda hoje mantemos contatos. É um ser humano ímpar.

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  30. Parabéns por tão bela homenagem, Hayton, interessanto seu carinho por cada personagem aqui descrito. Mais uma pérola de texto. Um abraço

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  31. Se bem que gosto de um doce de goiaba com creme de leite.

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  32. Quem trabalhou no BB, encontrou vários “Goiabinhas” durante a trajetória, figuras ímpares, com as suas características, peculiaridades e habilidades.
    Tenho saudades dessa convivência.

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  33. Haja personagens!!!!!
    "Com açúcar, afeto e seus livros prediletos", afinal, doce não é tão recomendável... - O Chico ficaria lisonjeado lendo sua crônica, tenho certeza.
    Aínda a erudição que quase tripudia sobre "nosotros".
    Acho que o problema pra os que são seus personagens é a possibilidade de ficarem tão tocados por suas crônicas que passem a achar que seu ciclo se encerrou, nada mais há a esperar da vida. Mas, enfim, tudo tem um preço.
    Por fim, Sérgio Riede sintetizou com brilhantismo o efeito maior de suas crônicas, parece que todos vivenciamos as passagens que você descreve.

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  34. Não conheci no BB, mas deve ter sido “gente fina” esse Goiabinha!
    Abs

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  35. Mais uma vez excelente texto, Hayton! Você é ótimo!

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  36. Hoje é aniversário deste meu avô, que me criou como um pai. Com quem aprendi sobre economia, logo ele que é econômico até na idade, hoje faz 83 anos, mas por questão de não pagarem multa para seu registro de nascimento, quando infante foi registrado como nascido em 1939 ao invés de 1938. Conhecido ainda por se precavido, pois um dia durante o atendimento ao público no seu Banco do Brasil sua "chapa" caiu e ele prontamente sacou outra do bolso e repôs o sorriso (ela estava lá por mero acaso, mas isso não desfez a piada). Teimoso como ele só, mas com um coração tão amoroso e cheio de emoção que já teve de passar por uns reparos... longa vida ao vovô Fernando e a vovó Lúcia, sua companheira de vida!

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  37. Agostinho Torres da Rocha Filho5 de abril de 2021 11:03

    Que Deus conceda ao goiabinha saúde, paz, equilíbrio e muita teimosia para encarar com disposição a próxima metade de sua trajetória terrena. Ótimo texto!!!

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  38. Que vontade me deu de conhecer o Goianinha...me lembrou o Bira, colega que era caixa em Tapejara em 1981 e ao ser obrigado a usar gravata sempre a tirava da gaveta p guardar novamente ao final do expediente. Detalhe: era preta com flores enormes em rosa choque.

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  39. Bira perdeu a luta para o Covid há uns 3 meses...baita amigo.

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  40. Tive o prazer de trabalhar com essa figura ímpar. Não no mesmo setor mas no mesmo andar, onde vários setores ficavam lado a lado e os funcionários interagiam entre si.

    Vi, várias vezes, Paulo Fernando Paraíso de Carvalho - por sinal um bonito nome - em seus inflamados discursos. E na suas falas uma palavra não podia faltar: ignomínia. "Isso é uma ignomínia!" Era dita com tanta ênfase que a dentadura artificial mas popularmente chamada "chapa", muitas vezes ameaçava voar longe.
    Esse é o grande Paraíso muito bem retratado pelo Hayton.
    Parabéns, Hayton, pela crônica!

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  41. Parabéns Hayton! Não conhecia esse seu maravilhoso dom de escrever, e bem! "Seu Paraíso" como nós chamávamos sempre foi exemplar em tudo, até na teimosia! Saudades daqueles tempos em que o BB era a continuação de nosso lar e os colegas, grandes amigos!

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  42. Paraíso, querido chefe que fez parte de nossa história. Criatura singular, de caráter ilibado e coração generoso. Saudade dos bons tempos de BB, onde a convivência era fraternal, e formavamos uma grande família.
    Que bom ter vc recuperado, Paraíso!
    Ao Hayton, nossos parabéns e gratidão por nos alegrar com o resgate de tão boas memórias.
    Seus textos sao carregados de leveza e expectativa. Gratifica-me as leituras.
    Parabéns.

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