quarta-feira, 5 de maio de 2021

Água do mesmo pote

Descobri que a água do pote que bebia Raimunda e seu irmão Tonho Tertulino era a mesma que matava a sede de Hilda, prima deles e mãe de uma certa criança que nasceu pouco antes da metade do século passado e, aos 11 anos, deixou a pequenina Quixeramobim para morar em Fortaleza, capital cearense. 

 


Mais adiante, o filho de Hilda cursaria faculdade e, a partir de 1971, viveria entre Brasília, São Paulo e Rio, tornando-se, além de arquiteto e professor universitário, um infatigável operário das artes.

 

Tal como a prima Hilda e a irmã Raimunda, Tonho Tertulino (avô de meus filhos, mais tarde) trazia dentro de si uma alma generosa e modesta desde a mais tenra idade entre pedras que cantam, colinas escuras e quentes no Alto Sertão de seu Ceará. 

 

Ainda moleque, Tonho Tertulino foi dispensado pelo pai de trabalhar no balcão do armazém da família. Movido pela compaixão com o estado crônico de penúria de alguns conterrâneos, ele andava isentando de pagamento os mais frágeis que não tinham como levar o essencial. 

 

Buscou guarida no Seminário Diocesano de Quixadá, onde quase virou padre. Mas se deu conta de que a carne não era tão forte assim e destoava do sacerdócio exigido pela Igreja Católica. Resolveu então prestar concurso para o Banco do Brasil, migrando em seguida para Alagoas.

 

Lá encontrou sua cara-metade, com quem se casou, teve um filho e duas filhas. Desapegado de bens materiais e sem maiores ambições em termos profissionais, nunca correu atrás de cargos e poder. Foram 30 anos como simples escriturário até se aposentar, em agosto de 1975.

O aconchego da família, os cuidados com a comida e a bebida, a missa nas tardes de sábado, o riso frouxo com Os Trapalhões nas noites de domingo, a prosa com cachorros e gatos da vizinhança e o lenço branco, para assoar o nariz ou enxugar o suor, completavam seu kit felicidade.

Depois que se aposentou, houve até quem lhe prevenisse que não sobreviveria muito tempo, habituado que estava à rotina do trabalho bancário. Apenas sorriu a seu modo contido. Em silêncio, porém,  já havia costurado um arrojado projeto para a nova etapa: dar vida ao solo arenoso do quintal da casa em que morava no bairro do Farol, na capital alagoana, reciclando todo o lixo orgânico ali produzido. 

Menos de uma década depois, oferecia aos netos a fartura de cocos-da-baía, carambolas, goiabas, jambos e pitangas, além de roseiras e antúrios à sombra do pé de piriquiti. Isso sem perder de vista os cuidados com os filhotes de cágados que, tão distraídos quanto ele, a cada primeira trovoada de janeiro se arrastavam sem pressa de chegar.

 

Seus netos, hoje adultos, reconhecem que ele personificava o legítimo avô-raiz. Daqueles que, distante dos olhos da esposa-avó, lhes consentia correr pequenos riscos como alimentar cães e gatos de rua, trepar na goiabeira, tomar banho de chuva e acender fogueiras nas noites juninas.

 

Tonho Tertulino não quis acordar numa manhã de agosto de 2005, aos 86 anos, 30 depois de se aposentar. Tinha o rosto leve de quem fez quase tudo o que gostaria de ter feito. Sua alma, generosa e modesta, virou passarinho e bateu asas rumo ao céu, onde mais tarde reencontraria a irmã Raimunda e a prima Hilda. 

 

Semana passada descobri que o filho de sua prima Hilda está morando em Fortaleza. Chama-se Fausto Nilo, compositor, poeta e arquiteto, que entre as estrelas de meu drama foi anjo azul e parceiro de gente como Amelinha, Armandinho, Belchior, Dominguinhos, Elba Ramalho, Fagner, Gal Costa, Geraldo Azevedo, Moraes Moreira, Simone e Zeca Baleiro. A caravana do deserto que atravessa o coração dos migrantes lhe carregou de volta aos sete mares do seu Ceará. 

 


Descobri ainda que, mesmo sem ter convivido com os primos Tonho Tertulino e Raimunda, o filho de Hilda também bebeu água de pote, comeu pão e poesia, de um jeito todo quixeramobinense de ser:

 

“... Felicidade é uma cidade pequenina,
é uma casinha, é uma colina,
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar.

 

Se a vida fosse trabalhar nessa oficina,
fazer menino ou menina, edifício e maracá,
virtude e vício, liberdade e precipício,
fazer pão, fazer comício, fazer gol e namorar...” 

 

“... Numa paisagem entre o pão e a poesia,
entre o quero e o não queria, entre a terra e o luar.
Não é na guerra, nem saudade, nem futuro,
é o amor no pé do muro sem ninguém policiar...”

 

Agora me pego aqui numa dúvida danada: e se a proximidade silenciosa entre eles tivesse sido maior? Pena que o “se” não conta nos encontros e desencontros pelo mundo afora. Nem mesmo para aqueles que beberam água de pote em Quixeramobim.

39 comentários:

  1. Acordei cedo, muma maratona de uma vida reclusa, recebo para saborear esta bela crônica. Dando prazer, viver, um bom dia. Vamos que Vamo

    ResponderExcluir
  2. Precisamos desfiar histórias de gente anônima que, fiéis aos seus princípios, ajudaram a construir um país, dividindo pão e poesia, deixando exemplos e testemunhos às novas gerações. Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. O lirismo deste texto mitiga, um pouco, esses tempos de angustias intermináveis.

    ResponderExcluir
  4. Conhecemos seu sogro e a sogra. Foi uma grande honra.
    Dayse Lanzac

    ResponderExcluir
  5. ANTONIO CARLOS CAMPOS5 de maio de 2021 06:51

    Acho que nossa geração é aquela que separa a vida simples dos mais antigos e a vida atribulada dos mais novos. Portanto, somos o resultado dessa mistura. Talvez por isso, mesmo vivendo cá, nos pegamos saudosos da vida de lá.

    ResponderExcluir
  6. Texto bacana demais!
    Sou fam de Fasto Nilo desde 1979.
    Agora, não sabia que era arquiteto. E dos bons.
    Abração
    Zezito

    ResponderExcluir
  7. Que alegria recordar do meu vô.
    Foi uma surpresa descobrir a história de Fausto…
    https://youtu.be/Ph0hrqaL1Ac

    ResponderExcluir
  8. Maravilha de crônica.
    A propósito, sou fã de Fausto Nilo.
    Ele é o letrista de muitas das melhores musicas de carnaval, seja em parceria com Moraes , seja com Armandinho.
    Chão da Praça, Bloco do Prazer, Vida Boa e Zanzibar (aliás, esta tem uma história impagável) estão entre as minhas preferidas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Armandinho e Fausto estavam compondo Zanzibar, é a coisa ia muito bem: " No azul de G3zebel, no céu de Calcutá...." até que empacou em "oh mina, aperta a minha mão Alah, meu only you no azul da estrela".
      Passa semana, passa outra, e nada.
      Semanas depois, Fausto estava andando pelas ruas do Rio e, sem querer ouviu duas pessoas conversando, quando um dos interlocutores diz "aliás...".
      Ma hora, correu para o orelhão e ligou empolgadíssimo para o parceiro: Armandinho, Armandinho, é aliás, é aliás.
      Assim foi concluída essa maravilha que foi grande sucesso em A Cor do Som e no Trio Elétrico.

      Excluir
  9. O entremeado de linhas de história, entre o que foi e o que podia ter sido é inebriante. Fausto Nilo é um fantástico artista de obra tão linda como a tecida pela simplicidade do quintal de Seu Totonho. Dedé

    ResponderExcluir
  10. Movido pela energia solar de sertão central do Ceará e energia eólica do litoral alagoano nosso cronista nos dar novo presente. É bom ler o que presta e tem sentido.

    ResponderExcluir
  11. Hayton, esse texto me trouxe muitas lembranças de minha própria história. 👏👏👏

    ResponderExcluir
  12. E assim vamos conhecendo quem você conheceu/conhece e percebendo que é um privilegiado por Deus.

    ResponderExcluir
  13. Mais uma do nosso ilustre cronista.... obrigado...

    ResponderExcluir
  14. Tonho é meu apelido na família até hoje! Ler a inventiva costura entre a vida pacata e sábia de Tonho Tertulino e a criatividade expansiva de Fausto Nilo não tem preço. Adoro a letra de Pequenino Cão:
    “ Se a vida abraça a redenção das amarguras
    Você não faça a eternidade na tortura”

    ResponderExcluir
  15. Querido amigo, esta parte do texto me comoveu bastante, lemberi muito de meu pai: "O aconchego da família, os cuidados com a comida e a bebida, a missa nas tardes de sábado, o riso frouxo com Os Trapalhões nas noites de domingo, a prosa com cachorros e gatos da vizinhança e o lenço branco, para assoar o nariz ou enxugar o suor, completavam seu kit felicidade." Creio que a maior evolução do ser humano e alcançar os benefícios da simplicidade-complexa. O quintal do Tonho, é o nosso melhor quintal. Somos todos quintais. Ou, deveríamos ser. Ter um quintal pra chamar de seu nos possibilita alimentar os cinco algos: algo a cuidar, algo a fazer, algo a celebrar, algo a esperar e algo a contemplar. Meu quintal, aqui na Asa Sul, é um corredor de cobogós, para o qual a porta da cozinha se abre. E, no qual fiz meu canteiro de plantas. É o meu espaço do cuidar, fazer, celebrar, esperar e contemplar. Mais um belo texto para a antologia sobre Aposentadoria. Show!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, meu caro Ricardo, "Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho" (Clarice Lispector)

      Excluir
  16. Água cristalina de cacimba, esfriada em pote de barro, servida em caneca de alumínio é o segredo do Terto ter uma alma tão pura e pueril por toda à vida, a ponto de trocar Palmares por União dos Palmares.

    ResponderExcluir
  17. Sempre bom ter conhecimento desses personagens que, ainda que anônimos para nós muitos deles, tiveram um passado rico em vivência. Em relação ao Fausto Nilo, é um grande artesão de muitas artes. Há cerca de 5 anos atrás esteve presente na Flimar (Festa Literária de Marechal), juntamente com Fagner, e tivemos o privilégio de ouvir durante uma bela tarde de sexta-feira diversas de suas narrativas.

    ResponderExcluir
  18. Mais um presente recebo de ti. Obrigado Hayton por me fazer companhia durante esse duro período que atravessamos. Trouxe-me um alento num dia tão triste pela partida de Paulo Gustavo.
    Rir e ler serão sempre atos de resistência.

    ResponderExcluir
  19. Mais um quadro pintado. Verdadeira obra de arte. Parabéns meu amigo.

    ResponderExcluir
  20. Eu gosto de pescar algumas preciosidades que caem como gotas de pérolas no texto. Quer algo mais poético e lúdico de dizer "morreu" do que "Tonho Tertulino não quis acordar numa manhã de agosto de 2005"? É por essas e outras que leio um Hayton, assim como leio um Drummond. Obrigado pelo presente.

    ResponderExcluir
  21. Que delícia de história!
    Sempre com personagens muito ricos, cada qual com seu valor.
    Belos resgates!

    ResponderExcluir
  22. Fernando Miranda5 de maio de 2021 16:27

    Mais uma bela crônica que retrata em detalhes a riqueza da simplicidade. Parabéns.

    ResponderExcluir
  23. Haylton, quando pensamos que já lemos a melhor de suas crônicas, você nos presenteia com uma preciosa pérola como esta!

    Maravilhosa, encantou-me...me fez encontrar e reviver parte da minha vida...uma grande parte da minha vida...e das mais importantes, mais bela, mais saudosa!

    Que emoção vivi ao ler sua crônica...sentimento único, daqueles que afaga e aquece nossos corações!

    Eu e meus irmãos tivemos a Benção de ter como pai, o nosso amado e inesquecivel pai, uma alma tão nobre, generosa, iluminada como a do Seu Tonho. Vi nos passos e atitudes do Seu Tonho a imagem do meu pai.

    Quantos momentos únicos e preciosos revividos! Obrigada por este presente ímpar!

    ResponderExcluir
  24. José Maria Paula Rodrigues5 de maio de 2021 18:11

    Amigo ainda desconhecido tem adorado as suas preciosas crônicas sou sogro do Sérgio Freire moro no Quintas do Sol

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, José Maria. Há mais de ano estou fora de meu “Quintas do Sol”, escondendo-me do coronavírus aqui em Maceió. Mas, devidamente vacinado, logo estarei por aí e espero que possamos conversar um pouco, inclusive sobre meu caríssimo amigo Serginho Freire. Abração!

      Excluir
  25. Bela história! Fiz viagem ao passado ... 👏👏👏
    Abs

    ResponderExcluir
  26. Suas histórias sempre nos fazem voltar no tempo. Adoro lê-las.

    ResponderExcluir
  27. Ôxi! que história saborosa! Quantos personagens interessantes! Outro primor de texto!

    ResponderExcluir
  28. Agostinho Torres da Rocha Filho6 de maio de 2021 16:33

    Como diria Allan kardec, a pureza do coração é inseparável da simplicidade e da humildade. Não tive a honra de conhecer dona Raimunda, dona Hilda ou o seu filho Fausto Nilo, mas convivi alguns anos com o seu Terto. Como beberam água do mesmo pote... O autor brinda seus leitores com um texto poético sobre pessoas simples e humildes de seu convívio, que se tornaram exemplos de vida. Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  29. Parabéns pela riqueza de detalhes nesta bela crônica!

    ResponderExcluir
  30. Parabéns pela riqueza de detalhes nesta bela crônica!

    ResponderExcluir
  31. Pense num cabra pra lembrar e narrar histórias de forma lúdica e fácil de entendermos o contexto!!!
    A brisa de Maceió e a distância do teatro corporativo deve está aguçando ainda mais o poder criativo e as lembranças desse alagoano por adoção.

    ResponderExcluir
  32. Mais uma pérola fina de sua lavra, só que essa merecia mais requinte de apresentação, não era pra ser postada assim como mais uma, deveria ser lançada com foguetório, tapete vermelho e banda de música. Afinal, o personagem inspirador é ninguém menos que o insuperável, genial e imortal Fausto Nilo, um cara que só produziu obras-primas.
    Você fica então com essa dívida.
    Adalberto Prates - músico de escol, pra quem não sabe, por isso amigo de Armandinho - revela uma detalhe curioso e histórico, aí acima sobre uma das geniais criações de Fausto Nilo.

    ResponderExcluir
  33. Hayton, parabéns pelo belo texto! Tão bem produzido, encaixado que nos leva:é realidade ou criação da mente privilegiada do escritor? Pergunto mais: o escritor encaixa-se nesse tabuleiro, digo, nessa cadeia familiar? São as dúvidas que o belo texto desperta. Parabéns!

    ResponderExcluir