quarta-feira, 19 de maio de 2021

Quem diria, hein?!

Era mais um encaixe em minha agenda naquela tarde de quinta-feira, a pedido de uma vizinha lá do bloco onde moro, em Brasília:

– Doutor Nélson, posso mandar entrar a próxima? – quis saber a assistente.

– Por favor...


Mônica, 50 anos, 170 cm e 60 kg – ainda poderosa, mesmo insegura disso , queixava-se de certo mal-estar, um desconforto no peito. Casada com Eduardo, 47, amigo meu desde que aqui cheguei, vindo do Rio.


Conversamos. Soube que é fluente em inglês e alemão, gosta de música (Caetano, Rita Lee), pintura (Van Gogh) e literatura (Bandeira, Drummond, Sartre). Tem também uma queda por magia e meditação. 


Eduardo é diplomata de carreira vinculado ao Itamaraty, desses que vivem em missões especiais no exterior. Viajara duas semanas antes para a China – há muito, a maior compradora e investidora direta no Brasil – e ficaria fora por dois meses.

  

Voltando à consulta, avaliei frequência, ritmo cardíaco, e não percebi batimentos irregulares. Chequei pressão arterial, auscultei coração e o trajeto das carótidas à procura de sopros. Nada. Revi os laudos de alguns exames que ela trouxera. Tudo em ordem. 

 

Orientei-a apenas quanto a atividades físicas e repouso. Ela mal conseguiu disfarçar a decepção:

– Não seria o caso de ressonância, doutor? – sugeriu, dando a entender que já "ouvira" o Google.

– Não precisa. Isso passa.

– Mas doutor, minha respiração anda acelerada. Estou suando frio sem motivo algum. As pernas tremem...

– Vai passar... 


Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração, como questionava um trovador solitário, nos anos 80, entre blocos e botecos do Planalto Central?  


Às dez da noite, após a sopa sem graça dos recém-descasados, eu folheava uma revista qualquer, recostado numa rede, quando me veio à mente minha vizinha, decepcionada com a consulta que me fizera. E mergulhei fundo em abstrações e conjecturas. 


Inspirada, quem sabe, numa página de Simone de Beauvoir sobre sua paixão por Sartre, naquela noite Mônica ligaria para a emergência e diria do calorão que estava sentindo: “Fogo! Fogo!”.  

 

Corpo de Bombeiros então deslocaria viaturas para o prédio onde morávamos, supondo escapamento acidental de gás ou fio desencapado em chamas. 


Os mais ágeis chegariam com suas mangueiras em punho: “Onde? Onde?” Ela, próxima à portaria, estaria sentada, sozinha, com uma taça de Terroir Chardonnay na mão à inútil espera do sono. E apontaria para o próprio peito: “bem aqui!” 


Seus filhos gêmeos, enquanto isso, notívagos desde a pré-adolescência, curtiam cantos e encantos, bares e pubs de uma cidade iluminada e seca, ainda sem sinais de pandemia no horizonte. 

 

Às onze da noite, ela me contaria, pelo celular, que chegou a ser ameaçada de indiciamento por conta do trote. E aproveitaria para evidenciar sua frustração comigo: "doutor Nélson Falcão Rodrigues Neto, não estou me sentindo nada bem. Me ajude. Preciso de um tarja preta”


É claro que aguçaria os ouvidos, como acontece toda vez que me chamam pelo nome completo. "Dê um pulinho aqui, no 606" – diria eu, em sinal de boa vontade e cuidado. 

 

Apesar do adiantado da hora, não me negaria a socorrê-la. Mas o que pensaria o porteiro se a visse batendo em minha porta quase à meia noite, sabendo que seu marido viajara e que os filhos só chegariam em casa às quatro da madrugada?

 

Para evitar mal-entendido, eu teria que dar um jeito de cobrir a câmera do hall dos elevadores com fita isolante ou esparadrapo. Mas como faria isso sem ser visto? Não seria prudente contar com a distração do porteiro, a cochilar na guarita ao som do último telejornal.

 

Pouco depois, lá estaria ela diante de mim. Eu buscaria no Spotify o melhor do Legião Urbana e, do meu jeito, tentaria convencê-la a evitar o ansiolítico:

– Tá bonita neste hobby de chambre, hein?

– Você acha? 

– Ele ligou?

– Ainda não.

– Tá mais calma, agora? 

– Mais ou menos.

 Precisa mesmo do Rivotril?

– Doutor  diria ela, sorrindo à Mona Lisa , vai me ajudar ou tá querendo outra coisa? 

  


Ah, se meu avô fosse vivo, se visse e ouvisse isso! Teria aqui mote perfeito para mais uma de suas obras. Escritor, dramaturgo e cronista de costumes, diria que tudo não passara de um enorme mal-entendido. Talvez arrematasse reafirmando que "os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas".
 

Confesso que me sentiria o pior dos cafajestes se me aproveitasse da fragilidade dela naquele momento e colocasse em risco não só a minha reputação, como a amizade com o seu marido. Seria muita sem-vergonhice de minha parte. 


"A vida como ela é", diria meu avô, a esfregar as mãos enrugadas e sábias. E quem ousaria dizer que ele não tinha razão?


 


 

27 comentários:

  1. Em tempos de pandemia e telemedicina o médico da "família" também pode salvar vidas, "um loco".

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  2. Que maravilhoso mergulho imaginativo e distópico na futuralização de personagens tão marcantes de nossas histórias. Peguei as referências com muito prazer. Dedé.

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    1. Tive sorte. O Anjo Pornográfico não tem nenhum neto com o nome de meu personagem para questionar os “fatos”. A ficção agradece.

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  3. ANTONIO CARLOS CAMPOS19 de maio de 2021 07:20

    Na roça se combate fogo com ... fogo.

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  4. Que beleza,tempo diverso este, que produz grandes imaginações. Vamos que Vamos!!@

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  5. Uma bela "rodrigadiana" para mediarmos a semana e relembrarmos os contos marcantes do saudoso Nelson, grande tricolor das Laranjeiras. Certamente ele aprovaria de pronto e sem ressalvas!!!

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  6. O pai do Dr. Nelson deveria ser fã do extraordinário meio campista colorado e da seleção e também do grande lateral esquerdo...

    Mais uma deliciosa crônica. Parabéns!

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  7. Muito boa essa continuidade de Eduardo e Mônica. Beleza de crônica Hayton!

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  8. Muito divertida a crônica. Parece coisa de "caso especial", da TV. O nosso escritor tem a imaginação típica dos que sabem lidar com o imaginário popular. Parabéns.

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  9. Só falta um conceituado produtor de filmes ler essa belíssima crônica e o filme começa de imediato a ser produzido... parabéns!

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  10. Perfeita a crônica. A vida é assim. Onde há um vazio, a probabilidade de entrar fogo é muito grande. Pior quando queima a alma.

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  11. Hayton, muito me impressiona sua criatividade, admiro-o cada vez mais em saber que dessa inesgotável fonte de saber, a cada quarta feira nos presenteia com tão excentrs crônicas. E o melhor, é que viajamos no tempo e imaginamos seus personagens, cada um único e interessante. Mais uma vez parabéns. Estou divulgando seus links para várias amigas e amigos daqui do Maranhão, para aqueles que gostam de um bom texto. Mais uma vez, obrigada por mais esse presente. Um abraço

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  12. Que ótima inspiração!
    Enredo à altura do “homenageado”, que faz muita falta.
    Senti-me revisitando aquele mestre.

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  13. Essa alma rodriguiana evoca uma legião de fantasias urbanas! Russos e americanos hão de entender!!!
    Parabéns!

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  14. Muito bom, Hayton. Bom de ler. Vontade de que a história não acabasse. Quer coisa melhor para um texto?

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  15. Que maravilha! Nelson deve estar feliz! Muito feliz! Saudações Rodrigueanas!

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  16. Só dá pra dizer: Que delícia de texto. O sorriso à Mona-Lisa é impagável.

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  17. Meu amigo que é médium espírita me contou que Nelson Rodrigues lhe visitou. Com a crônica, impressa, à mão, bradava irritado: "Olha a sacanagem que esse cara fez comigo. Reconheço que é uma homenagem, mas não escapei da gozação de sua pena mortal. Só não vou voltar à Terra pra dar um esculacho nele porque o texto é brilhante, melhor do que eu faria. E por fim, ele é vascaíno, já está pagando seus pecados"...
    Pois é, o Nelson se vingou...

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  18. Hayton, nessa você voou para a
    companhia dos grandes cronistas à Nelson Rodrigues.

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  19. São incríveis “as coisas feitas pelo coração”, assim como essa crônica! Parabéns!

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  20. Incrível, Hayton! Que tal um próximo capítulo, para vermos se nosso amigo continua resistindo? Sua crônica seria perfeita para compor a série "as brasileiras". Genial, parabéns!

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  21. Agostinho Torres da Rocha Filho23 de maio de 2021 11:52

    Um bom texto é sempre recomendado para combater o stress, a ansiedade, a depressão e outros males da vida moderna que assombram o ser humano, especialmente em tempos de isolamento social. Um texto dessa envergadura, no entanto, é capaz de curar até aids. Que Deus ilumine sua mente fértil, para que possamos desfrutar de muitas outras obras de arte semelhante. Parabéns!!!

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  22. Bonitinha, mas ordinária parece ser essa vizinha do Dr. Nelson.
    Parabéns pela imaginativa crônica, Hayton!

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  23. Incrível como a forma com que escreves nos transporta pelo tempo. Mais uma crônica show de bola, Hayton!

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