quarta-feira, 9 de junho de 2021

O preço do sossego

Talvez o maior obstáculo que encarei em minha carreira tenha sido administrar uma pequena agência bancária na avenida Durval de Góes Monteiro, no bairro do Tabuleiro dos Martins, principal via de acesso e saída da capital alagoana.


Depois de minha primeira passagem pela Bahia, no início dos anos 90, voltava a Alagoas. A agência era instalada em local bastante visado pela bandidagem por conta do volume circulante de dinheiro numa área em acelerada expansão econômica. Além das facilidades de escape pela rodovia BR-101. 

 

Os bancos, há três décadas, não dispunham de sistemas de capturas de imagens, câmeras de visão noturna, reconhecimento facial e sensores que identificam situações incomuns, como alterações abruptas na temperatura do ambiente. 

  

A Segurança Pública estadual, sabedora de que a maioria dos assaltos acontecia na abertura ou no fechamento das agências, estabelecera uma ronda ostensiva no principal corredor de entrada e saída de Maceió. 

 

Quatro policiais a bordo de uma viatura equipada com rádio e sirene, das 9 às 17 h, cobriam os 12 km entre a antiga rotatória da Polícia Rodoviária Federal e a praça do Centenário, no bairro do Farol.  

 

Ainda assim, o medo era grande porque nunca consegui memorizar o segredo do cofre da tesouraria. Nem faria sentido, claro, anotá-lo em pedaço de papel para consulta quando eventualmente fosse necessário. 


Isso me roubava a paz de espírito para trabalhar, além de algo que não tinha preço: a esperança de ver meus filhos crescerem e, um dia, os netos chegarem. O desassossego nos rouba inclusive os sonhos.

 


Se ocorresse um assalto, dificilmente os bandidos acreditariam que o gerente desconhecia o segredo do cofre. Uma coronhada, na melhor das hipóteses, 
estragaria de vez o que restava de meus miolos em agonia. 


Pior que os iniciantes no antigo ofício de roubar eram mais perigosos que os profissionais cascudos. Temendo perder a liberdade ou ser engolidos pelos "concorrentes de mercado", abusavam de crack e maconha antes do serviço. Um espirro poderia resultar em disparos contra inocentes. 

 

Vi, no entanto, que os policiais que faziam a ronda diária e vinham confirmar conosco se estava tudo sob controle, portavam, à moda “Rambo”, coletes à prova de balas, fuzis, pistolas, cassetetes, baionetas e óculos de sol

 

Mas não conseguiam esconder os sinais de quem não tomava um café-da-manhã reforçado, digno de quem saía cedo pro trabalho sem a menor convicção de que jantaria mais tarde. 

 

O egoísmo, pelo menos em relação a outros bancos e comerciantes das redondezas, acabou falando mais alto. Antes que nos acontecesse o pior, chamei no canto para uma conversa aquele que parecia líder dos demais policiais e propus uma troca bem objetiva: 

— Tá vendo aquela padaria ali na esquina? 

— Tô. 

— A partir de agora ela vai preparar lanche para vocês duas vezes ao dia. De manhã e de tarde. 

— Como assim? 

— Se vocês pararem o Gol aqui na frente, no canteiro central, todo dia às 9h45 e às 15h45 (minutos antes da abertura e do fechamento da agência), cada um vai receber um pão na chapa com queijo, presunto, ovos, tomates e um copo de leite com café. 

— Começa quando? — quis saber o policial, denotando que topara o acordo proposto.

— Hoje mesmo. Mas tem uma coisa: será servido aqui na cantina. Vem uma dupla e a outra fica na viatura lá fora. Depois, trocam de lugar. 

 

Funcionou com a precisão de um Rolex durante alguns meses. Sossego não tem preço. Tem custo, irrisório certas horas.  

 

Um dia, porém, uma quadrilha aos gritos invadiu a agência, ameaçando de morte meio mundo de gente. Eu estava fora, viajando havia dois meses, em missão na cidade-sede da empresa. O lanche fora suspenso por determinação superior, por contenção de despesas ou falta de amparo regulamentar para a sua contabilização. 

 

Soube depois que o chefão da quadrilha arrastou o meu substituto até a tesouraria, sob a mira de uma pistola. Aberto o cofre, só faltou usar detergente e álcool em gel para a limpeza ser completa. Nem moedinhas sobraram.

 

Se estivesse no recinto, não estaria aqui contando o caso, 30 anos depois. Os marginais não engoliriam o argumento de que a memória tende a ser seletiva e só guarda o que lhe convém. Decorar segredo de cofre nunca foi importante para mim. 

 

A parafernália eletrônica disponível nos dias de hoje, se inibe os bandidos menos organizados, ainda não é suficiente para barrar o "cangaço" moderno que volta e meia inferniza cidades e populações em todas as regiões brasileiras.

 

Noto, contudo, que quadrilhas mais sofisticadas têm preferido ações menos cinematográficas, via crimes cibernéticos ou, muito em moda ultimamente, via custeio "complementar" de campanhas políticas, "por fora" do fundão partidário. A reciprocidade compensa.

 

Aliás, é discutível essa história de que o crime não compensa. Isso diz respeito apenas aos que foram descobertos. Nada fala sobre os que nunca foram esclarecidos, seja por ignorância, negligência, má-fé ou conveniência política de interessados.

 

Que os bandidos que circulam por aí, inclusive aqueles que se disfarçam de xerifes acima do bem e do mal, nem tentem me roubar o sossego e a esperança de ver meus netos crescerem num planeta mais arejado, feito de ideias, compaixão e tolerância. O desassossego passou. 

34 comentários:

  1. Muito bom. Tivemos vários exemplos em Pernambuco. Graças à Deus tudo terminou bem, inclusive na sua Gestão. O crime nunca compensa. É a justiça que é lentíssima para se manifestar. Abraços

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  2. Prezado Hayton, ainda hoje ao ler esses relatos sinto embrulho no estômago. Não tive a mesma sorte que você: sofri três assaltos. Cada um mais grave que o outro. E o que é pior: envolvendo a família também. As marcas não se apagam, mas a gente segue tentando diminuindo seus efeitos. Parece-nos que as vítimas pagam o preço mais caro em todas as circunstâncias. A única diferença é que uns pagam mais ainda. Ossos do ofício.

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    1. Faço ideia de sua sua dor, meu caro João. Se toco no tema é porque, bem ou mal, sobrevivemos e aqui estamos contando histórias de uma violência que parece não ter fim, ainda que sob novas formas de nos roubar a paz.

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  3. Hayton, presenciei uma cena dessas em 1989quando trabalhei em Alagoa Grande PB. Só que foi na agência da Caixa que ficava em frente da nossa. Mesmo como expectador o mesmo o pesadelo foi o mesmo pois sabíamos que poderia ter sido conosco.

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  4. Oi, Hayton. Prazer visitar seu blog.Essa interessante história, que, está bastante atualizada hoje com as apreensões causadas a gerentes de todo tipo pelo país afora, tem um revelação importante: o crime, às vezes e muitas vezes,compensa para milhares de ladrões, de todas as castas e perfis. Uma contestação aterradora...




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    1. Pela “caligrafia”, sei que se trata de você, grande Epaminondas. Obrigado!

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  5. Como sempre, boa é bastante atual a narrativa, esse medo que lhe tirava o sono ,Deus lhe poupou por merecimento.
    “Funcionou com a precisão de um Rolex durante alguns meses. Sossego não tem preço. Tem custo, irrisório certas horas.”
    Um valor tão pequeno diante da importância do resultado, vai um desconhecedor da realidade e corta, por está fora das instruções.

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  6. Pois é, eu tive o desprazer de ser sequestrado duas vezes na mesma agência em Padre Bernardo-Go.
    Sobrevivi.
    Abração
    Zezito

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  7. Muito boas essas histórias de quem passou pelo Banco. Hoje em dia um dos custos mais altos dos bancos é com segurança, principalmente na prevenção de cibercrimes. Enquanto isso, lá nos executivos e legislativos país afora, com a conivência e troca de pães na chapa do judiciário, continua compensando roubar.

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    1. Por aí, Marcão.

      Um amigo meu, que preferiu se manter no anonimato, lembrou-me hoje cedo que a rapinagem política acaba sendo a mãe de toda a violência com a qual convivemos.

      Para ele, não há crime por aqui que não passe pela estrutura sócio-política, do tráfico à milícia, da precariedade total do setor público à opulência privada, da desgraça coletiva às mansões repletas de luxo e requinte, dos rincões de analfabetos aos shoppings de letrados e lojas de fachada.

      No topo dessa miséria, segundo afirma, tem sempre alguém de terno e gravata falando em nome e pelo bem do povo, com a chancela de alguns guardiões da justiça.


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  8. ANTONIO CARLOS CAMPOS9 de junho de 2021 07:30

    Nossos 3 Poderes estão aí pra provar que o crime compensa. E praticam o crime perfeito; mesmo quando são descobertos, julgados e condenados, desafiam a todos: não tem prova!
    Gerência da Tabuleiro era estágio obrigatório para os Altos Executivos. Depois criaram um MBA.

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  9. “O desassossego nos rouba inclusive os sonhos.“
    Talvez o maior mal que todos os crimes provoquem, sejam os assaltos em agências que crescem às vésperas de campanhas políticas, ou os atuais agentes que usam os assaltos como política. Grande história. Dedé Dwight

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    1. Tu pinças um breve arroubo poético que me escapou para fazer de teu comentário um tiro certeiro bem no alvo. Valeu, Dedé!

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  10. Como leitor assíduo mais uma vez ganhei o dia com essa peça literária sobre um assunto que conheci em demasia, passei por três assaltos no mesmo ano e mesma agência. Fica a lição: Formar alianças estratégicas custa pouco, quando o botão da inteligência é acionado.

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    1. Outro “mutilado de guerra”. Ninguém faz ideia do tamanho deste exército. Nem da extensão das sequelas.

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  11. Cada bancário tem uma história para contar. Tb passei por um susto desse mas terminou tudo bem

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  12. Nos meus últimos anos como administradora vivi essa angústia. Duas agências das quais fui gerente foram assaltadas , Shoping Barra(num horário de atendimento estendido até 22hs) eu não estava mais, e a São Pedro,(assalto frustrado) eu estava chegando na agência antes das 8 hs. Carlos Cesar foi quem viveu esse momento terrível.

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  13. Gracas a Deus nunca passei tal perrengue, mas o medo sempre me rondava. Triste reconhecer que muitos crimes compessam. Bela crônica.

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  14. Não passei por essa experiência mas esse tema é do cotidiano. As formas sofisticadas de assalto ao povo estão aos nossos olhos, todos os dias! Muito oportuno para a nossa reflexão!

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  15. Qual o bancário não tinha esse receio de assaltos e sequestros? Felizmente dei sorte, permaneci “virgem”, sorte essa que alguns colegas não tiveram.
    Passado o susto, restam alguns “causos” hilários dos acontecimentos/assaltos.

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  16. Bilhões sendo desviados que poderiam ser aplicados em saúde, educação etc. imaginem as falcatruas que não foram descobertas. É uma “ponta do iceberg”? E os meliantes estão cada vez mais se sofisticando nesta “arte” de roubar a olhos vistos.

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  17. De fato, Hayton, para quem, como nós, serviu na frente da batalha, fica difícil não ter histórias para contar. Às vezes trágicas até. Melhor, como você disse, comemorarmos a vida. O dia a dia em agência, mesmo sendo prazeroso, carregava um peso muito grande. Ademais, nós, gestores,nos sentíamos responsáveis por todas as almas que estavam na nossa dependência. A violência não poupa ninguém. Demos graças, então, por estarmos aqui contando esses causos.
    Roberto Rodrigues

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  18. Pior de tudo é ser assaltado na agência, levantar as mãos rapidamente e o bandido gritar:
    - Baixa essa mão, imbecil ! Você deve estar vendo muito filme na tv. Na vida real, assaltado tem que ficar com mão abaixada pra não chamar atenção!

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  19. Você é o Hayton ? Pra mim você é o Falaytom ! Tá lembrado de mim ? Eu o conhecí quando você era menor aprendiz no Banco do Brasil. Parabéns pelo seu sucesso.

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  20. Pootz!
    Escapou de uma enrascada, hein?!
    Mas sempre se rende uma bela história!

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  21. Boa crônica prá nos lembrar momentos difíceis que muito de nós passamos. Lembro colega que não conseguia colocar a senha no cofre de tanto tremer as mãos e por pouco não levou um tiro! Mas tamos vivos e lendo boas escritas!!! tiberio

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  22. Durante as três décadas em que trabalhei na empresa ouvi muitos relatos de colegas que passaram por essa amarga experiência. Feliz daqueles que mantiveram o equilíbrio na ocasião e hoje guardam apenas nas memórias as marcas já cicatrizadas.

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  23. Lembrei-me do tempo que botava um 38 na cintura e subia no jipe do Miringaba para levar o malote abarrotado de dinheiro de União para a agência de Maceió, ainda em Jaraguá. Durante nove anos - 1964 a 1973 - fiz isso sem sequer tomar um susto.

    O Brancildes de Lima, recentemente falecido, contava que levava o dinheiro de trem e, quando chegava a estação central de Maceió, os motoristas de táxi ali estacionados gritavam: "lá vem o pessoal do Banco do Brasil com o dinheiro" e disputavam para levar o malote até Jaraguá.

    Parabéns, Hayton, por mais um ensaio para nossa reflexão. É como você diz: o crime compensa.
    E recompensa, acrescento eu. Basta ver as manchetes para o
    "ímprobo" relator da CPI.

    Sinal dos tempos!

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  24. Meu caro amigo, a crônica está perfeita e sempre com aquela linguagem leve e clara, que nos faz viajar pelos caminhos da memória.
    O que é ruim nisso tudo é constatar que esse assunto se tornou lugar comum, com métodos mais sofisticados e outros nem tanto. O bombardeio de agências acontece a cada dia e cada vez mais os senhores governantes nada, ou quase nada, fazem. No meu tempo de BB, fazíamos as famosas "viagens de numerário" entre as agências de Jacobina e Feira de Santana (BA), sem nunca ter ocorrido qualquer tentativa de roubo, apesar da escancarada forma de carregar o automóvel que nos levava ao destino, feita na porta da agência com quase toda a população local sabendo do que se tratava. Lamentavelmente, desse tempo, guardo uma trágica recordação: fui vítima de um grave acidente na estrada, de volta pra casa, por inabilidade do motorista. Isso me deu de presente várias fraturas, uma cirurgia, vários dias hospitalizado e a clareza da irresponsabilidade de nossos patrões, à época, quando nos usavam como transportadores de muito dinheiro de forma ilegal, não tenho a menor dúvida. Não sinto saudades daquele tempo.
    Parabéns pelo trabalho e por sua habilidade na administração das situações.

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  25. Agora o crime se mordenizou ransomware acontecendo ate nos EUA

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  26. Pelo menos algo em comum: agência que eu era gerente foi assaltada e eu estava ministrando um curso em Brasília. Pior é ver que células do dilacerado voltaram pelo comércio da cidade e nada foi descoberto... mas o crime evoluiu. Hoje não precisam correr risco de morte, o virtual está mais fácil. Basta especialização. Pior que até nisso.

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  27. Somos muitos com boas e más lembranças do nosso tempo de BB. Mas, pelo menos, naqueles casos sabíamos quem era "mocinho" ou "bandido". Hoje tá tudo junto e misturado! Nem sabemos pra quem podemos dar um pão com leite que não esteja com a quadrilha.

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  28. Agostinho Torres da Rocha Filho12 de junho de 2021 09:17

    Nos meus 35 anos de atividade bancária, jamais testemunhei algum assalto a banco, mas conheço casos emblemáticos que colegas que vivenciaram essa traumática experiência e ainda carregam consigo profundas sequelas. O relato apresentado apenas corrobora o meu entendimento de que, em relação à segurança patrimonial, nossas instituições financeiras sempre negligenciaram, à medida que optaram por priorizar medidas reativas de combate ao crime, em detrimento das ações preventivas.

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  29. Essa idéia do lanche é fantástica e funciona até hj. O comerciante dono da padaria próximo de casa, fazia está mesma prática e durante o período que foi servido o lanche, não houve assaltos no comércio da redondeza, aliás esses comerciantes que "bancavam" o lanche. Após seu falecimento, seus filhos abortaram tal conduta e até que eu saiba a padaria já foi assaltada duas vezes em menos de dois meses.

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