quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

De queixo caído…

Apesar do clima de casa-de-mãe-joana reinante entre nós, quem parece nunca perder dinheiro são os bancos. Lembram o joão-teimoso, aquele boneco de borracha ou plástico com base abaulada onde se concentra a maior parte de seu peso, o que o leva de volta à posição vertical a cada tentativa de derrubá-lo. Aplica-se também ao líder político da predileção de cada um.

 

Problemas como conexão remota “fora do ar”, cartões de crédito não solicitados, juros abusivos, tarifas exorbitantes, portas discriminatórias etc., ainda tiram os clientes do sério. Mesmo assim, não dá para comparar o sistema bancário clássico ao universo da agiotagem e seu repertório de perversidades. 

 

Digo isso porque, depois de mais de 40 anos lidando com atividades financeiras, eu seria capaz de jurar que tinha visto tudo. E só agora, aposentado, fiquei sabendo de um caso que deixa qualquer pessoa de queixo caído. 

 


Li no Correio Braziliense, semana passada, que nos primeiros dias do ano tramitou pela Suprema Corte espanhola um processo que repercutiu nos quatro cantos do mundo (a prova cabal e definitiva de que o mundo é plano! Só não vê quem não quer!) pelo seu caráter, no mínimo, insólito: validou-se o pedido de uma mulher que pagou uma dívida com seu ex-cunhado mediante a prática de sexo oral. 

 

A esta altura da vida, já calejado pelo desenrolar dos costumes, não tenho o direito de me escandalizar com nada, mas esse caso me levou a refletir: os preços realmente estão pela hora da morte! A seguir nessa marcha, aonde vai dar a humanidade?

 

O valor total da dívida era de quase R$ 100 mil e a Justiça já tinha admitido o pagamento na forma desejada pelo cidadão, desde que houvesse consenso entre ele e a ex-cunhada. Isso dito da boca pra fora (sem trocadilho, por favor!), óbvio.


Depois, entretanto, ela recorreu de novo à Justiça, após a suspensão do inusitado pagamento de prestações. O credor teria exigido que o resto fosse pago em moeda corrente. 

 

Ilustração: Umor 

Como a mulher nunca procurou as autoridades para denunciar o homem por coerção sexual ou coisa do gênero, a Justiça concluiu que os atos foram consensuais entre as partes envolvidas e arbitrou que a dívida estava extinta, ainda que não houvesse um recibo com firma reconhecida, dando plena, rasa e irrevogável quitação. Isso após a mulher esclarecer que só prestara queixa porque recebeu uma ligação do ex-cunhado cobrando o restante.

 

Para mim não ficou totalmente claro quem fazia o quê, como, quando e onde. Na minha falta de malícia, enxerguei apenas o quanto e o porquê. 

 

Pode-se indagar, portanto: e se as posições de credor e devedora estivessem invertidas – em todos os sentidos, se é que me faço entender! –, será que a notícia teria se espalhado com tanto estardalhaço, ou o barulho tem a ver com os torpes sentimentos de aversão, repulsa e desprezo pelas mulheres e pelos valores femininos, no contexto da misoginia enraizada entre os trogloditas? 

 

Pensei rabiscar breve crônica sobre a ocorrência. Já tinha até escolhido o título, numa alusão ao mais antigo recinto de transações bancárias (a plataforma de pagamentos e recebimentos): “Na boca do caixa”. Desisti para não criar constrangimentos em alguns leitores e leitoras mais sensíveis, nem ferir o decoro literário que me imponho para preservar a castidade de quem ainda se interessa pelos meus textos.

 

E não pretendia mais tocar no assunto, porém começaram a martelar em minha cabeça algumas sentenças inesquecíveis da obra do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, pela atualidade com que já abordava, ainda na metade do século passado, os mistérios insondáveis das relações humanas:

"Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam." 

 “Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava.”

“O que dá ao ser humano um mínimo de unidade interior é a soma de suas obsessões.”

“Hoje, é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.” 

“O dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.” 

 

Agora me pego mergulhado em conjecturas sobre como seria o manual de procedimentos desse tipo de negócio num banco tradicional. Quem seria o responsável pela avaliação da capacidade de pagamento, antes da formalização do contrato? Que tipo de checklist seria elaborado pela área de controles internos para avaliar a qualidade da operação pactuada? E o roteiro de auditoria estabelecido para checar a aderência da transação com as regras normativas? E como as autoridades monetárias classificariam esse tipo de negócio, caso seja dispensado documento formal e fique tudo na base do boca-a-boca ou do fio do bigode? Seria considerado um empréstimo de liquidez garantida ou a fundo perdido? Sei não...

 

É duro admitir que a mercantilização do corpo ainda esteja acontecendo no planeta em que vivemos, onde o dinheiro, pelo visto, não só continua falando alto, como também fazendo muita gente calar a boca. Literalmente, inclusive.

 

Como qualquer pessoa – exceto as quase perfeitas, que nunca as encontrei, mas devem existir –, penso que o ser humano talvez ainda tenha uma chance de dar certo. Noutra galáxia, quem sabe, devidamente reciclado. Feito lixo.

27 comentários:

  1. Eita.Trabalhei 30 anos num banco e nunca vi esse tipo de pagamento.Serå que tô ficando velha?

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  2. Se você tem dúvida quanto ao fato, dê uma espiada aqui: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2022/01/4975988-justica-espanhola-validou-sexo-oral-como-forma-de-pagamento-de-divida.html

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  3. Rachando de rir. Adorei a viagem literária pelo inusitado de nós mesmos, pelos nossos porões. Na música Vaca Profana tem um a frase genial: " De perto, ninguém é normal.". Já nos ensinamentos bíblicos, Jesus desafiou quem não tinha seus podres a lançar a primeira pedra. Fiquei aqui matutando as cenas prévias da negociação do empréstimo. O estabelecimento das regras do negócio, e os mecanismos de mitigação dos riscos. Amigo Hayton, um cronista espetacular captura as cenas da realidade que lhe ocorre e com elas tece histórias. Tu é um deles. Fiquei um tempo meditando sobre inúmeras práticas que fazemos e que saem do lugar comum. Ontem, li sobre uma senhora que após o marido falecer, insistiu para que a linha de metrô não tirasse os áudios dele, que anunciavam as estações. E, todos os dias, ela ia se encontrar com ele, fazendo um passeio de metrô. Adoro histórias como a que eternizou. Sem entrar no mérito do negócio, focando apenas no arranjo humano ali estabelecido, cresço em respeito à diversidade humana. A mesma que paga dívidas com sexo, ou que se acalma ouvindo o defunto anunciar as estações.

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  4. É..., acredito que o ser humano está passando por um momento peculiar, pra dizer pouco, e seu caminho, pelo andar da carruagem o vai levando cada vez mais para os bordéis nas bordas dessa terra plana. Sacanagem isso aí, hein, kkkkkkk. Sem trocadilhos por favor, kkkkk.

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  5. Pois é!!! Novos tempos, novas e inusitadas formas de pagamento. Rsrsrsrsrs.

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  6. Onde existam seres humanos envolvidos, a possibilidade de nos surpreendermos é garantida. Na contramão de sua esperança registrada no último parágrafo, acho que a humanidade é uma criação da natureza que realmente não deu certo. Podemos até ter faíscas de expectativas, mas, como diria o poeta, de perto ninguém é normal.

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  7. Acho que estamos caminhando a passos largos para o abismo de uma das faces planas deste mundo. E o texto retrata com excelência essa visão de que de perto "ninguém é normal". Vc está se superando a cada semana.

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  8. Na parte encoberta do mundo financeira esse tipo de pagamento existe. Em virtude de atuarmos na parte visível ficamos surpresos. Cunhado atual e problema, ex é problema elevado a quarta potência.

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  9. No tempo bancário fui adepto e continuo sendo dos POP-Procedimento Operacional Padrão e do conhecimento empírico. O POP para uniformizar os procedimentos, com cada parafuso no seu lugar, no seu exato buraco. O conhecimento empírico aliando a prática à teoria. Fiz muitos POPs no banco. Infelizmente, nos setores por onde passei esse tipo de serviço, tão bem tratado na crônica, não estava dentre minhas responsabilidades. Gostaria ter participado da elaboração do checklist para tais tipos de operações. Acho que com 69 passos o POP ficaria perfeito. Não sei se iria passar pela conformidade de auditoria.

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  10. E acima de tudo, fica mais uma contribuição Espanhola para a educação sexual do Mundo. Sabia que você não ia deixar essa passar. Hahahahahahaha
    Dedé Dwight

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  11. Realmente está tudo muito estranho - outro fato que chamou atenção foi de uma garota que fez um vídeo ao lado do corpo de sua mãe que tinha acabado de falecer.

    Marcos Tadeu

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  12. Bom Dia, caro amigo Hayton.
    De fato, o inusitado nem sempre é o que poderíamos esperar...
    Mas, tanto no ambiente, como no tal "balcão", algumas "transações" são surpreendentes...
    Mas, depois de algunmas situações de que tomamos conhecimento, em tempos nem tão pretéritos, tudo é possível...
    Forte abraço.

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  13. Se ninguém é normal, eu sou ninguém ..., e quero um acerto com minhas devedoras! Kkk!

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  14. Kkkkkkkkkkk
    Realmente, não dá para ficar boquiaberto com mais nada!

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  15. Bela crônica! Hoje nos espantamos com o pagamento de dívidas em sexo oral! Outrora achávamos normal os pais “venderem” as filhas em definitivo (não era um simples aluguel) em casamentos arranjados. Ou então era o nosso querido Banco do Brasil que se sentia no direito (e no dever) de posicionar-se contra a abolição dos escravos porque perderia garantias dadas em operações de crédito.
    Mas seguimos achando que agora é que é o fim dos tempos! Rsrs

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  16. Já passou da hora das autoridades monetárias regulamentarem tão usual meio de pagamento. Evitariam conflitos desnecessários nos tribunais.

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  17. Vixiii... se a moda pega kkkk... Coisa horrorosa, como diria o Agildo Ribeiro!!!!

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  18. Boa tarde Caro Amigo Hayton!

    Crônica perfeita. Não só contemporânea, como atualíssima. Flagra o assunto, ainda com as pegadas digitais intactas.
    Leitor atento, comecei a montar uma financeira para explorar esse nicho de mercado. Indelével, porém, foi a minha decepção, ao descobrir que, ninguém mais, ninguém menos, que o ex-presidente americano 🇺🇸, Bill Clinton, alcunhado em terras brasileiras, Bio Pinto, desde os tempos de maior mandatário mundial, havia registrado a atividade, com robusta comprovação descrita e publicada por vasta maioria da imprensa mundial, e, com apresentação da sua primeira cliente, senhorita Monica Lawinsky, também alcunhada nesta terra Pindorama, de Mônica Chupinsky. Situação, que fez o indigitado ex-presidente e agora causídico, de exigir que, não apenas a minha pessoa, porém, qualquer empreendedor que se abestalhe a empreender no ramo, seja obrigado a lhe pagar royalty.
    Um verdadeiro despautério, convenha-se….
    .
    Fraterno e saudoso amplexo!!!

    Sebastião Cunha
    Feira de Santana-BA

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  19. 😂😂😂 se a moda pega aqui no Brasil, não sei como o BACEN vai controlar o excesso de liquidez, Selic elevada não resolve!!
    Abraço,
    Fábio Sobral

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  20. Parece, pelo relato, que o acordo foi tão bem cumprido que, ao final, a justiça espanhola concedeu desconto e declarou antecipadamente a quitação da dívida. É de se admirar a criatividade dos envolvidos kkkk.

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  21. Que suas crônicas têm ficado cada vez melhores ninguém duvida mais. O que me chama a atenção é que os comentários são espetaculares. As crônicas têm inspirado a audiência de um jeito que não tem como deixar de lê-los. Um não vive sem o outro. Tornaram-se leituras obrigatórias ... Fantástico!

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  22. Vivemos mesmo em um mundo dinâmico e disruptivo, no qual tudo acontece, sobretudo o inesperado. 😄
    Ótima crônica, com a rica visão da intermediação financeira bancária.

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  23. Difícil de comentar... mas trocar juros por juras, esquisito. Mas a auditoria teria de fazer uma métrica e recomendar que, ao avaliar a capacidade de pagamento, a prestação não não chegasse ao limite de sufocar o pagante.

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  24. Uma certeza se apossa de mim, é que nenhum articulista, daqui ou de alhures será capaz de abordar tema dessa magnitude, tão emblemático, com a leveza, quase romantismo como você o fez, até parece que já "transitou" na área.
    Hoje tenho convicção pra afirmar, de parto a atracação de navio, ninguém "escorregue", pois se o fato chegar a seu conhecimento você o inscreverá em quadros onde estão narradas em crônicas as mais marcantes façanhas da humanidade, e isto para sempre.
    Imperdoável o Banco do Brasil, não canso de repetir, por nos roubar por tanto tempo tão talentoso escriba.
    Abraço forte...

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    1. Sim, meu exagerado e generoso leitor, já “transitei em julgado”, mas como juiz, que fique bem claro! Tive que arbitrar, sem correr riscos, um conflito entre quatro litigantes armados até os dentes. Não é mole não, viu?!

      No caso espanhol, ainda me pergunto o porquê de o ex-cunhado haver desistido de receber as prestações vincendas sem recorrer a instâncias superiores. Seria impotência do credor ou se cansou do “modus operandi” e quer da devedora outro meio de pagamento mais ortodoxo?

      Só alguém com sua maturidade, um venerável passado na casca do alho nas frigideiras da vida, para responder com segurança a um inocente como seu amigo aqui!

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  25. Parabéns meu amigo, como excelente cronista, pega um assunto do cotidiano e coloca o seu olhar.
    Excelente!

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