Sim, existem histórias tão surreais que parece que são inventadas. Como a de Manezinho, um menino cabeçudo, dentuço, míope, cerca de 12 anos de idade, que apareceu no começo do ano passado, sem documentos, vagando pelas ruas do Pontal da Barra, no entorno da lagoa Mundaú, na capital alagoana.
Meses depois, sofreria uma cirurgia para ressecção de um tumor cerebral. E o vidro da porta da sala cirúrgica ficou repleto de curiosos, todos querendo vê-lo falar enquanto era operado. Muitos, inclusive, diante do que ouviam, achavam que o caso se agravava com o correr dos minutos.
“Eu sou minha imaginação e meu lápis – dizia ele em voz alta no leito cirúrgico, ora mirando os médicos, ora a plateia sob espanto –. “Quando o lápis acerta um erro, ele percebe e grita por uma borracha... Desaprender oito horas por dia ensina os princípios... Minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo da estrada. Gosto do desvio...”
Orientado pelo neurocirurgião, o menino matraqueva sem parar durante o procedimento, para garantir que nenhuma área do cérebro fosse afetada. “Tenho um senso apurado de irresponsabilidades… Só não desejo cair em sensatez. Não quero a boa razão das coisas. Quero o feitiço das palavras...” – declamava.
A certa altura, lhe perguntaram se recordava de seu local de origem. Ele repetiu o que vinha dizendo desde que apareceu: “Não me lembro. Sei que passava o dia ali quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei... Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular tão pequena que coubesse na ponta de meu lápis. As coisas que não existem são as mais bonitas...” – pontuava.
Ilustração: ChatGPT |
Dois meses mais tarde, veio a segunda convulsão, que também não foi investigada. Em julho, ocorreu a terceira, da qual o menino não lembrava nada do que houve antes. Conversavam em casa, após o almoço. Ele se levantou para pegar café no fogão e acordou no hospital, internado para exames, pois caiu e ficou um tempão desmaiado. Ela o livrou de bater a cabeça no chão.
No hospital, decidiram fazer uma ressonância, que revelou um tumor na região do cérebro que controla a linguagem. “Quando o doutor disse que precisaria ser operado, fiquei preocupada – disse “Tia” Stella – Só procurei saber se afetaria a voz de Manezinho. Daí a ideia do procedimento em que ele pudesse ficar acordado...”
Resolvi checar a história que me contaram e o próprio cirurgião revelou que era impossível não aplaudir o moleque ao final de cada “esquisitice” dita, ainda que incompreensível para alguns. Precisou solicitar que falasse com menos empolgação, pois mesmo com a cabeça fixa, a mesa cirúrgica se mexia com a intensidade da voz. E não parava: “Queria que a minha voz tivesse o formato de canto... Só uso a palavra para compor meus silêncios.”
O médico disse ainda que o menino recebeu anestesia e ficou desacordado apenas na primeira parte do procedimento para a neuronavegação com um computador que auxilia na localização do foco, na incisão e na abertura do crânio. Na sequência, a sedação foi reduzida e ele acordou, passando a responder a perguntas e executar algumas ações, como ler, escrever e falar.
Descobri que a técnica cirúrgica empregada com o paciente acordado existe há algumas décadas nos grandes centros e objetiva diminuir sequelas neurológicas, comprometimento funcional e agravos dos casos.
Durante a cirurgia, os pacientes são testados em atividades básicas como responder perguntas ou correlacionar figuras. Em alguns casos, é possível fazer o mapeamento antes da cirurgia, por meio de ressonância magnética, delimitando as regiões do cérebro relacionadas à fala ou às funções motoras, como também as fibras que conectam essas áreas.
No final da cirurgia, “Tia” Stella quis saber se Manezinho sentira medo. Ele balançou a cabeça negativamente e completou: “As folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes... Não preciso do fim para chegar. Do lugar onde estou já fui embora...”
Já era madrugada quando ele sumiu como que por encanto da UTI, para perplexidade inclusive de “Tia” Stella. Ela suspirou ao encontrar um pedacinho de papel sobre uma almofada, olhando para a janela, de onde se via, na penumbra, um pé de manga "carregado": “Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina... Aonde eu não estou, as palavras me acham.”
Ah, chegou a hora de dizer que esta é uma daquelas histórias inventadas, mas cem por cento verdadeiras. Azar de quem não crê! Eu só duvido de mim mesmo.
Nota: Texto inspirado na obra do poeta mato-grossense Manoel de Barros (1916 – 2014), autor, dentre outros, de O livro das ignorãças (1993), Livro sobre nada (1996) e O fazedor de amanhecer (2001).
Eu acredito e concordo azar de quem não crê. Surreal ou não , apreciamos as belas frases.
ResponderExcluir“Queria que a minha voz tivesse o formato de canto... Só uso a palavra para compor meus silêncios.”
Confesso que até duas décadas atrás eu pouco sabia de Manoel Wenceslau Leite Barros, nascido em Cuiabá, Mato Grosso, em 19 de dezembro de 1916. Depois descobri que passou a infância numa fazenda no Pantanal.
ExcluirJá na adolescência, mudou-se para Campo Grande, onde estudou num Colégio Interno. Formou-se em Direito no Rio de Janeiro.
Embora desde pequeno escrevesse poemas, só em 1937 ele publicou sua primeira obra: Poemas concebidos sem pecado.
Chegou a morar em outros países: Bolívia, Peru e Nova York. Ao retornar conheceu sua futura esposa, Stella. Casaram-se em 1947 e com ela teve três filhos: Pedro, João e Marta.
Manoel de Barros faleceu em Campo Grande, dia 13 de novembro de 2014, aos 97 anos.
As mentes privilegias transitam várias rotas ao mesmo tempo. Com fé e sorte nunca perderemos o rumo.
ResponderExcluirPoderia imaginar a possível reencarnação do poeta em Mariana ou Brumadinho, em Minas Gerais, cenário de outras tragédias recentes. Optei pela lagoa Mundaú, em Maceió, você bem sabe o motivo.
ExcluirPerfeito
ExcluirMeu amigo! Eu creio em cada palavra! Muito grata
Uma crônica que vou ler e reler algumas vezes. Um enredo daqueles que cabem numa boa poesia.
ResponderExcluirE aí vem a inteligência artificial pra desenhar a figura criada no imaginário do autor, pra revirar de vez minha cabeça entre o real e o imaginário.
Bela viagem, nobre amigo Hayton!
Excelente, Hayton. Textos que aguçam a curiosidade, envolve de forma poética para uma suave leitura; além de trazer informações sobre técnicas inovadoras sobre procedimentos cirúrgicos envolvendo a neurociência.
ResponderExcluirÉ uma verdadeira aula literária. Parabéns.
Abraço fraterno.
Oceano
Um poeta brilhante. Não o conhecia nem na versão original e nem na reencarnada em Mundaú e realmente, como diz o médico, impossível não aplaudir o moleque ao final de cada “esquisitice” dita. Dedé
ResponderExcluirEntão Dedé, gostei de suas palavras. Também não conhecia a versão... Acreditar ou não é o que menos importa, mas, o parar para refletir cada passagem da crônica, faz de nós um bom pensador.
ExcluirEssa deu um nó no meu juízo! Se crônica é conceituada como um “relato do dia a dia”e “se todo boato tem um fundo de verdade”, onde está o limite entre uma e outro nesta crônica? É para acreditar de onde até aonde? Mas, devo admitir : o texto me prendeu do começo ao fim.Nelza Martins
ResponderExcluirQue bom que prendeu a sua atenção do começo ao fim, Nelza. Se vale uma dica, o documentário "Só dez por cento é mentira", disponível na plataforma Netflix, oferece um mergulho interessante na vida e na obra de Manoel de Barros. Revê-lo me motivou a escrever este texto.
ExcluirUma viagem nas palavras
ResponderExcluirBelas imagens
É o que lavras.
Acabei de ler mais um texto de sua autoria. Como sempre tenho dito, a a variedade de abordagens surpreende. Desta vez sobre um pivete desamparado. Surpreendeu a essência apresentada. Parabéns!
ResponderExcluirEsse desvio, mas não só ele, citado na crônica, pode ser o rumo para o ano que inicia. Valeu, Hayton.
ResponderExcluirGradim.
Belíssima crônica e que mais uma vez nos faz refletir sobre a vida. Porque a vida nada mais é que um sopro. Sopro de Deus pra vir, sopro do tempo pra ir. Deixe que os ventos a levem, seu trabalho e só torná-la inesquecível. É um capítulo com começo, meio e fim todos os dias. Hoje a gente está aqui, amanhã só quem sabe é Deus. Faça o melhor, seja o melhor, deixe o melhor na hora do adeus. A cada manhã uma nova oportunidade de saber que pra ser eterno, basta viver um bom dia de cada vez, pois o que fica pra saudade, é quem a gente era, o amor que a gente deu e o que a gente fez.
ResponderExcluirCaramba... Que bela viagem pelas palavras do silêncio...
ResponderExcluirA "pitada crônica" ficou clara quando definiu o lugar. Nem todos compreenderão o sentido da questão, ou melhor, da lagoa...
De que servem Cem palavras, quando uma crônica me leva a uma reflexão?
ResponderExcluir... (Sem palavras)
Esta pode ser considerada uma "mentira boa", no conceito do saudoso Ariano Suassuna.
ResponderExcluirAplausos!!!
Esplêndido !!!!
ResponderExcluirHayton, como dizemos lá em Alagoas, eu estou besta! Depois desta crônica singular de hoje, terei que refazer seu perfil dentro de minha cabeça. Conheci Manoel de Barros há alguns anos e, ao fazermos contato com seu estilo, imediatamente o reconhecemos. Tinha certeza de que havia uma conexão mediúnica com o pequeno protagonista. Agora tenho certeza de que Manoel de Barros marcou profundamente certo cronista. Parabéns pela lindeza deste escrito, onde o abstrato e o concreto se fundem cheios de poesia.
ResponderExcluirA crônica é uma pintura tecida por palavras. Mistura no mínimo Impressionismo, Expressionismo, Realismo, Arte Abstrata e Simbolismo!
ResponderExcluirViaja junto quem ousa e não se prende a quadradinhos!
Um escândalo de apetitosa!
Esse texto, muito bem elaborado, ficou um pouco acima da minha compreensão, caro Hayton.
ResponderExcluirSe fosse na escola eu pediria para a professora explicar.
Obrigado por me fazer pensar “fora da caixa”.
Esquisitice ou não, o texto nos prende desde o começo. Ainda estou com a cabeça fervendo, com esse texto escandalosamente cativante!
ResponderExcluirDois mil e vinte e quatro só começou e as crônicas das quartas-feiras já mostram o vigor com que virão. Primeiro na "Aonde iremos?" aguçou nossas reflexões e agora esta de hoje, baseada no excelente poeta mato-grossense Manoel de Barros, para fazer-nos dar um mergulho no encantamento das palavras e frases.
ResponderExcluirJá assisti o documentário da Netflix citado diversas vezes e tenho o exemplar "Poesia Completa" de Manoel de Barros, onde vira-e-mexe estou folheando-o.
Se estivesse vivo, lesse a crônica de hoje, e fosse perguntado se era verdade ou ilusão, certamente responderia: "Poeta não tem compromisso com a verdade, senão que talvez com a verossimilhança, quem descreve não é dono do assunto, quem inventa é ".
Salve Manoel de Barros. Bravo Hayton, por inspirar-se no poeta da palavra, para esta linda crônica.
Sensacional!
ResponderExcluirBela inspiração, linda homenagem!
Como nos invejam as coisas simples!
Primor de texto!
ResponderExcluirManezinho só faltou dizer:
"Não preciso que me digam
De que lado nasce o Sol
Porque bate lá meu coração".
Poesia, ficção e realidade se encontraram. Todas na medida certa. Excelente. E ainda o convite para conhecer Manoel de Barros e sua obra. Convite aceito!!!
ResponderExcluirCom certeza é fato. E o poeta destila palavras com belo sentido. Manobra pensamentos que nos fazem pensar, refletir na profundidade de suas divagações poéticas, cuja métrica frouxa não perturba a essência um tanto o quanto filosófica das ideias externa das.
ResponderExcluirA fé move montanhas, o ser humano é o detentor de suas histórias, da capacidade de criar, imaginar a vida que quer ter e dar.
ResponderExcluirVamos que vamooooos
Eu acredito! Inclusive ele possou por cá, estava sorridente e sereno, quando perguntaram para onde ele ia, ele respondeu: "As folhas secas já não contam hoje/ com a beleza ou atração alguma/Segue o destino em total silêncio/ de tal roteiro, que na mente eu tinha.
ResponderExcluirO anônimo aqui é Ticiano Dantas Félix.
Mais uma oportunidade para ficarmos espantados, além de agradecidos, por compartilhar conosco da sua imaginação. Excelente!
ResponderExcluirO anônimo acima sou eu. Coisas de gente idosa que fica brigando com a tecnologia, mas não desiste.
ResponderExcluirAh se não existisse a filosofia! Que seriam dos devaneios... as palavras seriam pregadas e jamais cairiam.
ResponderExcluirGostei muito!
ResponderExcluirTambem gostei muito!
ResponderExcluirMuito bom. Fantasia é combustível para felicidade, sonhos, amor, e por aí vai. Quem fala ou escreve com a alma, está sempre de mãos dadas com a Fantasia. Alguns que não conseguem sonhar, a confundem com loucura. Mas sabemos que estão errados. Esse ano começou valioso como sempre, com essas deliciosas publicações. Por fim, lembro de uma frase dita por Raul Seixas: "eu prefiro ser um louco em um mundo onde os normais constroem bombas".
ResponderExcluirCaro valioso e inspirador Amigo, receba o meu abraço acompanhado dos desejos de que a Fantasia continue a lhe iluminar os caminhos.
Mário Nelson.
Uauuu!! Esse menino é um poeta capeta sofrido e inteligente. Parabéns Hayton pela construção de tantas sacadas, à primeira vista desconexas, mas inteligentes e que fazem sentido. Aliás, cada frase daria assunto para um ótimo livro.
ResponderExcluirDepois de ler vi que tinha muita sorte: eu cri!! Você me fez buscar no arquivo das boas lembranças um livro que meu filho ganhou quando tinha 8 anos: "O Livro das Palavras" de Ricardo Azevedo. Ele cuida de um dicionario vaidoso que viaja descobrindo o mundo e a si mesmo espantado por, ao final, saber que sabia muito pouco. O melhor: descobriu que poderia aprender muito mais sendo curioso, corajoso e humilde. Parabéns Hayton, e obrigada por tantas lições. Marina.
ResponderExcluirÉ, não há mesmo limite pra sua criatividade e capacidade de manipular palavras.
ResponderExcluirConfesso que fiquei até estupefato com essa crônica, você mais uma vez extrapola.
Ontem sua orelha deve ter ardido um pouco. Numa reunião da AFABB-BA, bati um longo papo com nossa querida Perpétua, imagine aí qual o assunto principal da conversa...
Demorei a ler desta vez, mas saboreei cada momento dessa viagem rica e linda da sua imaginação! Obrigada 🙏🏼
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