MANUAL DO BICHO INDOMÁVEL
Hayton Rocha
Não é natural acordar cedo e sair caminhando apressadamente ou correndo por aí nesta época do ano. Às sete da manhã, o corpo ainda negocia com o lençol e o sol já tosta o cocuruto de quem ousa sair sem boné. Mesmo assim, a criatura calça o tênis, sincroniza o relógio e declara ao espelho do elevador, com entusiasmo discutível: “Hoje vou correr dez quilômetros porque adoro”.
| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
Adora? Desconfie de quem diz gostar de sofrer voluntariamente. Bicho nenhum corre se não for tangido pela fome ou pelo pânico. O resto é invenção de quem já não foge de onça-pintada como seus ancestrais, mas continua acuado por outra coisa. Correr por prazer é invenção recente. Método elegante de não escutar a própria cabeça. Disfarce sofisticado da ansiedade.
Natural seria ficar. Uma voz aveludada, com hálito de café, diria: “Hoje, meu bem, basta caminhar sete mil passos. Fique na cama mais um pouco. O mundo não vai acabar às oito”. Mas não. A criatura vai. Volta esbaforida, orgulhosa das medalhinhas digitais no relógio como se tivesse atravessado o Saara puxando camelos. A tecnologia distribui indulgências eletrônicas: sofreu, logo merece existir.
Em seguida, já pensando no almoço, começa a liturgia. Arroz integral penitente ou espaguete pecador? Tilápia virtuosa ou frango sem pele — tristeza sob a forma de proteína? Carne moída que consola ou picanha que ameaça as coronárias? Mastiga-se com culpa ou com rebeldia.
Há quem sonhe com solução mais prática: três cápsulas por dia para corpo, cabeça e alma. Proteínas, sais minerais, cálcio para os ossos, duas gramas de paciência e uma dose de lembrança da infância feliz. Engolir e seguir. Sem dilemas. Sem a angústia de escolher entre salada e feijoada.
Algo como a criatura plugada no útero, recebendo tudo por um tubo. Sem abrir os olhos, sem opinar, sem manual de instrução. Talvez ali tenha sido nossa última temporada sem ansiedade. Depois do primeiro choro, matricula-se num curso intensivo de escolhas. E decidir cansa mais que correr.
Quem sabe uma inteligência artificial possa recalibrar a fórmula a cada aniversário e avisar: “Atualização concluída. Este organismo permanece válido até os 99 anos”. Depois disso, apenas dores, rangidos e perdas. A morte chegaria por notificação prévia: aceite os termos ou desligue.
Água também viria encapsulada. Nada de garrafinha pendurada como amuleto fitness. Mas, para não abolir de vez o livre-arbítrio bíblico, três taças de vinho por semana. Prova de que ainda não viramos samambaias farmacêuticas alinhadas sob luz artificial.
Dormiríamos seis horas por dia. O resto do tempo seria distribuído em blocos produtivos: leitura útil, música que estimule sinapses, boas conversas, exercício moderado. Claro, e algumas horas pro trabalho — palavra que descende de tripalium, instrumento romano de tortura. A etimologia não falha: trocamos o chicote por login, senha, metas e avaliações de desempenho. Tortura digital também deixa marcas, só que invisíveis.
Tais especulações surgiram numa chamada de vídeo com um velho amigo de Batatais, desses que já não temem pensar alto nem errar em público. Falávamos sobre o que é natural e o que é invenção humana — um cipoal de regras que criamos para fingir racionalidade enquanto administramos nossos medos.
Ele perguntou: “E a monogamia, é natural?”. E sorriu como quem derruba a primeira peça do dominó. “No quintal da minha infância, um galo só reinava sobre uma dúzia delas. Nenhuma galinha exigia exclusividade.”
Ensaiei discurso sobre ética nos relacionamentos, pacto civilizatório como coleira do instinto. Ele atalhou: “E o piercing na língua? Isso também é natural ou é só outra forma de marcar território no próprio corpo?”
O celular vibrou. Ele se despediu e sumiu da tela, deixando a provocação no ar: “O que você diz faz sentido… mas o que eu digo também faz, não?”. Vai ver foi convocado por algo inadiável: o tripalium doméstico.
Fiquei olhando os cadarços dos meus tênis encostados na parede. Pareciam me desafiar. Talvez não corramos por saúde. Talvez corramos para manter o animal ocupado. Porque, se ele fica parado, começa a perguntar.
Pergunta por que trabalhamos tanto. Por que comemos com culpa. Por que amamos sob contrato. Por que precisamos provar desempenho até quando estamos felizes.
Existe dentro de nós um bicho anterior ao aplicativo de passos, à planilha, à terapia de casal.
Se paramos, ele fala. E talvez o problema nunca tenha sido o bicho. O problema sempre foi o manual.
Esse bicho interior vive me cobrando direto por essa contagem diária de passos, dando como "recompensa" doses de culpa quando não é alimentado com o mínimo desejado. Mas, como diria o velho ditado, "nada como um dia após o outro, com uma noite no meio", para voltar a refletirmos, ainda que seja durante as crises de insônia.
ResponderExcluirMuito boa a reflexão, para começarmos a quarta-feira tentando recolher as "cinzas" do que já foi nossa disposição e, tal qual a fênix, fazê-la retornar, mesmo que seja para usar "com moderação".
Correr…caminhar.. saúde…atividade física… manter o equilíbrio físico e mental. Será só isso? Atividade física não é só o corpo atlético, é um processo de desenvolver uma postura de saúde em todos os aspectos e chegar à velhice em condições motoras que não precise de auxílio ao caminhar. Exige cuidados na alimentação, visita médica periódica com a finalidade de se manter lúcido, boas leituras. Uma crônica do equilíbrio mental e físico.
ResponderExcluirEntre o certo e o errado, seguir o manual ou ser livre, trabalhar ou viver, são dilemas que não têm fórmula certa.
ResponderExcluirAcho que vivemos uma transição social, em que temos mais dúvidas que certezas.
Sensacional, Hayton! Nada como uma boa crônica para nos lembrar que bicho nenhum corre sem pânico ou fome. Já gastei muito solado fugindo da própria cabeça enquanto perseguia aquela tal "cápsula da felicidade". Corri por uns 30 anos, mas a coisa ficou séria mesmo quando me desafiei a encarar o frio de Garanhuns, lá em 1999. Naquela época, o ritmo era intenso: trocava de tênis a cada 120 dias, batendo ponto no Parque Euclides dourado, percorrendo longas 10 voltas, de segunda a sexta.
ResponderExcluirMas, no final de semana, o cardápio era sagrado: sarapatel, mão de vaca, chambaril e aquela picanha sorridente! 🤣 Com o tempo, o joelho gritou, o peso subiu e a vida seguiu seu curso. Hoje, o ritmo é outro: caminhada leve, academia e o prazer do vinho, da cerveja e do bode. Sigo o lema: nada de "tristeza sob a forma de proteína".
Como diria Manoel de Barros, o "galo de Batatais tem razão: a gente complica demais o que a natureza já resolveu no quintal".
Simbora mexer o esqueleto e usufruir o melhor de cada ciclo da vida.
Olha, ou te contar uma coisa, este teu texto é de um gênero novo, um realismo fantástico daqueles que precisam virar um manifesto. Amei. Porque tá tudo ficando muito chato. Os patrulheiros do corpo sarado, da alimentação saudável, da vida regrada agora de fazem do Instagram o seu altar de pregações. Nada mais pode. Uma costela de porco com farinha. Precisa de carteira de identidade do porco. Precisa saber se a mandioca foi colhida sem mão de obra infantil na roça. A pessoa acorda e do lado dela tem 10 comprimidos diferentes, pozinhos de todo tipo, pré treinos pra todo tipo de ação. O pecado da gula, da boêmia, vai virando ato de extrema unção. Água tem micro plásticos. Tomar café em copinhos mata. Pressão 12x8 não é boa. Sentar pra jogar baralho ofende a coluna. Vida chata.Povo chato. Quero mesmo é poder desfrutar de uma cabeça de bode. Lá no bar da buchada, no Altiplano em João Pessoa, e pouco me importar sobre a vida do bode, ou a minha. Obrigado, você foi preciso. Porque a virtude está no centro, como bem disse Aristóteles. E, há muito tempo perdemos esse centro, com extremismos políticos, religiosos, físicos, alimentícios, e laborais.
ResponderExcluirAmei, amei, amei... Tenho visto meus filhos embarcarem nessas doidices. Parece que as pessoas mais jovens se não fizerem duas horas de academia, se não tomarem dois litros de água, se não comerem apenas duzentas gramas no almoço, estarão fadadas a não viver 200 anos como acham que podem. Independente do cuidado com o corpo e saúde, o que se vê por trás disso é uma tremenda indústria, da juventude eterna, do corpo perfeito, de uma vida sem sabor, sem doce, sem caju, caipirinha e sal....E sem paixões mundanas, das boas.
ResponderExcluirExcelente crônica.
ResponderExcluirCorrer… pra onde? De que? De quem? Por quê? Pra que? Já reparou que pessoas que fazem muito exercício para manter a forma quando param de se exercitar parece que engordam mais e mais depressa do que quem nunca fez exercícios? Se o corpo não foi feito para ficar parado, uma coisa é certa, pra correr é que não foi, só se for correr de uma fera que a esteja perseguindo. Ou para os braços de um grande Amor. Nelza Martins
Detesto correr! Pronto, falei. Me processe. Kkkk
ResponderExcluirBuenos!
ResponderExcluirHoje “caí da cama”. Sem regra, nem ponto pra assinar, sem horários, inda assim deitei 22h e acordei 5h50, bem mais cedo que nos outros dias.
E pude ler as duas últimas crônicas. Que seguem o caminho natural que o cronista vem trilhando, a tocar nas coisas simples do cotidiano (o espírito da crônica). Valeu.🙏🏻
PS: nos últimos 10 anos, quando começam a falar em carnaval, eu torço logo pra chegar a quarta de cinzas… ufa! Chegou!
Essa travessia de sexta até terça à noite demora uma eternidade. PQP.
Parabéns, Hayton
ResponderExcluirUma texto muito verdadeiro e bastante atual. Eu concordo com o Dr Freud que diz que todo excesso esconde uma falta. E, sem dúvidas, esse exagero de tudo funciona como uma máscara para preencher um vazio emocional, carência ou dor inconsciente. É uma tentativa de silenciar uma angústia.
O equilíbrio sempre é a melhor e mais saudável forma de viver e sempre estará nos meios e não nas pontas, seja dos pés em correr obrigatória e desesperadamente, no garfo em comer absurdamente, ou nos dedos quando nos escondemos atrás de telas, bebidas ou qualquer coisa que nos aprisionem.
Viver exige liberdade e responsabilidade. É preciso ter consciência e presença nas escolhas que se faz, não patrulhamento. Se quer dormir até mais tarde, tomar umas boas taças de vinho, umas brejas geladinhas, uma boa galinha caipira ou uma moqueca de camarão, por que não? Agora, a gente também precisa ter discernimento que o corpo cobra excessos e decidir o que queremos que ele nos permita ter.
Quem pretende viver muito e ter uma vida saudável, com mobilidade, força e disposição para levar esses anos a mais que a ciência tem nos prometido vai precisar fazer algumas limitações ao hedonismo, não tem jeito. Depois dos 60 aparecem aqueles probleminhas na hora de agachar, fazer caminhadas, levantar um peso ou da cadeira, sem falar em problemas neurológicos, os quais eu considero os piores, perder consciência e memória são, para mim, o pior dos martírios...
E viver sem desfrutar de alguns prazeres para mim também não é viver.
Portanto, acredito que nem tudo ao sol e nem tampouco à lua. Vivamos sem abrir mão dos nossos prazeres, mas sem descuidar da saúde.
Sabemos que as caminhadas são saudáveis. Mas a genética e o estilo de vida também alcançam os mesmos resultados. Tem cidadão que labuta a vida toda no cabo de uma enxada, outros na maior parte da vida relaxando no balançar das redes, que nem conhecem o comércio das proteínas sintéticas, mas que superam a expectativa de vida no Brasil. Que encontremos a fórmula ideal e que as nossas missões aqui na terra sejam muito demoradas para serem cumpridas.
ResponderExcluirReflexões profundas, importantes, momentosas, oportunas e pleonásticas!
ResponderExcluirMeu receio é um dia constatar que tudo isso terá sido desnecessário.
Bem, talvez não dê tempo ou eu não perceba.
Agora é hora de apertar o passo! Todo mundo já foi!
Os famosos dez mil passos por dia garantem saúde? Talvez nem seja uma questão de números. O essencial, na verdade, é não ficar parado, manter o corpo em movimento, dar à “máquina” algum tipo de atividade física para que ela não enferruje. Basta seguir o manual com atenção — disciplina e cuidado são as regras para não deixar o bicho solto. Só de vez em quando.
ResponderExcluirComecei o dia (antes da caminhada) dando uma boa risada após ler o seu texto !! Adorei !!
ResponderExcluir"Homo Occupatus", que do Sapiens tem muito pouco. Como não para, não ouve a alma. Longe do natural, mergulha no virtual. O melhor do hom do futuro estará no seu passado.
ResponderExcluirVivo no "modo avião" pressa somente para armar e deitar numa rede. Corrida fora do radar. Controle sobre alimentação viva vivida. Boa quaresma.
ResponderExcluirExcelente, combina com a quarta de cinzas. Tenho certeza q esse seu amigo de Batatais só pensa alto qdo a esposa não esta próxima dele. Concordo com o Rabello, nobre leitor, excelente pessoa e filósofo, td desnecessário. Também concordo com o "Passos", outro leitor, a respeito dos passos. Luis Antonio, de Batatais SP.
ResponderExcluirO segredo de tudo é a moderação. Até água se a gente bebe demais, morre afogado!
ResponderExcluirFiquemos atentos!
Parabéns pelo alerta dessa crônica.
Excelente, Hayton. Compartilhando c a humanidade!
ResponderExcluirRicardo Guimaraes
ResponderExcluirTem gente capaz de abrir mão de prazeres que julga essenciais pra construir um estereótipo triste e entediado, mas dentro de “regras” e “padrões” construídos por terceiros, interessados muitas vezes apenas em ganhos comerciais. Haja terapia!
ResponderExcluirMas também não vamos entrar naquela de que o cágado é lento, não faz nada e vive 200 anos! Detesto correr (só atrás da bola e de ferrenhos marcadores no jogo de futebol), mas uma caminhada me faz muito bem. 50/60 minutos em ritimo normal sem aclives ou declives.
ResponderExcluirA caminhada é um daqueles hábitos simples que parecem pequenos no dia a dia, mas enormes no saldo da vida. Ela não exige palco, nem equipamentos caros, nem coragem heróica: basta constância. Caminhar areja a cabeça, organiza os pensamentos, melhora o humor, fortalece o coração e ainda dá ao corpo o recado mais importante de todos: “estamos em movimento, então seguimos vivos”.
ResponderExcluirMas, convenhamos: também não precisa sair por aí feito um guepardo desesperado… afinal, se correr fosse mesmo o grande segredo da longevidade, tartaruga não vivia mais de 100 anos.
Exelente crônica!!! É a sociedade do cansaço, vivi correndo.
ResponderExcluirCaro
ResponderExcluirHayton.
Você tocou no nervo dessa nossa mania moderna de querer transformar tudo em planilha, até o cansaço.
O “entusiasmo discutível" na frente do espelho do elevador é um retrato cuspido de todos nós.
A gente corre, conta passo e escolhe a comida como se estivesse batendo ponto no RH da própria vida.
Na verdade o corpo quer sombra e água fresca, mas o manual que a gente inventou não nos deixa em paz.
Com efeito, não corremos por saúde, corremos para fugir das perguntas que o silêncio faz.
Excelente refiexao, forte abraço.
Abração!
Vc caprichou na crônica provocando nossos sentimentos sobre essa correria mental que nos consome nos dias atuais.
ResponderExcluirMuito bom, Hayton. Como sempre
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