TRÊS FITAS
Hayton Rocha
O estrondo da queda — abafado, bruto, feito um armário que tomba — assustou mais do que feriu. Não houve grito, só o baque seco no chão. O corpo pouco acusou: um galo na testa, o andar hesitante pela pancada no quadril. O susto, esse sim, espalhou-se pela casa como cheiro de lavanda que permanece no ar mesmo depois da janela aberta.
O velho, convenhamos, morto de sono às dez da noite, não tinha nada que descer escada de madeira sem meias antiderrapantes. Há imprudências que a maturidade não corrige, apenas disfarça de cansaço. Em minutos, ela, médica, já levava o pai à emergência hospitalar. Ele passaria a madrugada em observação, entre exames, luzes frias e a paciência treinada de plantonistas.
Havia no ar uma incerteza nada metafísica, de ordem prática: atendimento médico no exterior costuma surpreender quem não se escora num seguro redigido na língua de Shakespeare. Não era o caso. Mas as letras miúdas de uma apólice sempre assombram.
Entre o protocolo e a vigília, a filha, ciência à parte, amarrou no pulso do pai três fitas. Fez isso solene, como pacto. Ordenou que não as retirasse em hipótese alguma. Só o suor, o sabonete e o tempo teriam esse direito. Não eram enfeite nem superstição. Eram uma espécie de prontuário íntimo, escrito sem palavras.
Ela crescera entre os cinquenta tons de azul do litoral nordestino. Brincara com conchas e peixinhos em Maceió, Recife e Salvador, desde cedo aprendendo que o mar tanto acolhe quanto devolve. Até que o destino a puxou para Brasília, onde a infância se despede e o futuro começa a cobrar sua parte, sempre adiantado e quase nunca com desconto.
Na Bahia, aprendera que fé se amarra no pulso. Descobrira o Senhor do Bonfim — acordo antigo entre Cristo e Oxalá, entre o sagrado e o profano — e o poder das fitas coloridas, onde cada nó carrega um pedido sussurrado, constrangido. Os dela, ainda pequena, eram diretos: queria voar, fazer mágicas e comer sem engordar. Desejos desmedidos? Talvez. Mas há pedidos tão limpos que a vida escuta com mais atenção, reconhece a voz inocente de alguém no começo da jornada.
Antes disso, ainda em Alagoas, numa manhã na casa de amigos, à beira da piscina, viu sua mãe salvar uma criança do afogamento. Ali, sem discurso e sem plateia, decidiu que um dia também cuidaria de vidas. A medicina começou antes dos livros, no susto e na urgência de quem não aceita perder enquanto houver chance de virar o jogo.
Nunca se soube quando as fitas coloridas da infância se desfizeram. Sumiram como o rumor de uma onda que volta ao mar, sem deixar rastro visível. Mas os três pedidos foram atendidos.
Voou quando se tornou médica — e seguiu voando mais alto. Fez-se mestra e doutora, atravessou a neurologia, a epidemiologia, a ciência da saúde populacional. Agora também ensina, pesquisa, lidera centros de estudo. Descobriu que subir não afasta o chão: apenas amplia a paisagem.
Fez mágicas ao quebrar paradigmas e abrir trilhas na mata fechada. Latina, mulher, raridade não branca em poltrona onde o poder costuma vestir outra pele. Hoje palestra, publica, forma gerações sem jamais confundir mérito com privilégio. E desenha traço a traço o amanhã da medicina como quem cria o futuro antes que ele se torne mera fatalidade.
Quanto ao terceiro pedido, o mais desafiador, aprendeu a alimentar a alma. Mantém o corpo em guarda e o espírito abastecido de compaixão e justiça. Já orientou dezenas de jovens pesquisadores, muitos deles vindos de onde quase ninguém olha. Seu reconhecimento mora menos nos prêmios do que nas pessoas que ficaram de pé depois que cruzaram seu caminho.
Hoje, cinco meses depois da queda naquela noite, o pai andou relendo memórias de sua filha. Ela fala de fé e superação, de envelhecimento saudável, de inteligência artificial a serviço da saúde. Diz que resistir e persistir não são slogans. São verbos a serem conjugados todo dia, mesmo quando bate o cansaço.
E era uma vez um pai — este que vos escreve — que não imaginava aonde ela chegaria. Que, volta e meia, lembra de quando a embalava, cantarolando “Se essa rua fosse minha”.
No máximo, torcia para que a febre cedesse. O resto, o tempo amarrou.
Tal pai, tal filha… “subir não afasta o chão: apenas amplia a paisagem” vida longa e próspera a ambos
ResponderExcluirQuando a ciência "matéria" fica aliada da fé "espírito" e do amor de filha(o) uma queda vira texto de crônica e lembrança boa. Parabéns.
ResponderExcluirBom dia Parahyba - Caro amigo!
ResponderExcluirExcelente. Parabéns para toda a família.
A Doutora, abençoada pelo Senhor do Bonfim da Bahia, além de abençoada foi tocada pela genial genialidade.
Essa está e estará sempre no POHDIUM 🫶👏👏👏👏
Depoimento, carta de amor, crônica brilhante de um pai orgulhoso com justiça e genialidade!
ResponderExcluirParabéns aos pais e à filha! E… vida longa com as fitinhas 💞
É fundamental redobrar os cuidados com quedas, sobretudo quando vamos ficando mais experientes — um verdadeiro contrassenso. Por outro lado, envelhecer tem sua beleza: acompanhar o percurso dos filhos e sentir o orgulho que ele nos traz. Parabéns, Hayton, por nos permitir viajar em suas crônicas e por compartilhar a trajetória de sucesso de sua filha médica. Na fé, o que realmente importa é o caminho, sempre pautado pela escolha do bem e pela sabedoria de distinguir entre o certo e o errado.
ResponderExcluirÉ fundamental redobrar os cuidados com quedas, sobretudo quando vamos ficando mais experientes — um verdadeiro contrassenso. Por outro lado, envelhecer tem sua beleza: acompanhar o percurso dos filhos e sentir o orgulho que ele nos traz. Parabéns, Hayton, por nos permitir viajar em suas crônicas e por compartilhar a trajetória de sucesso de sua filha médica. Na fé, o que realmente importa é o caminho, sempre pautado pela escolha do bem e pela sabedoria de distinguir entre o certo e o errado.
ResponderExcluirTexto escrito com a razão e o coração ! Maravilhoso !
ResponderExcluirBilhante crônica envolvendo amor, família, tradições, espiritualidade e união familiar.
ResponderExcluirO uso simbólico das fitas do Senhor do Bonfim conecta as raízes nordestinas da agora Doutora e Mestra na área médica com seus grandes feitos na neurologia e epidemiologia, com destaque para o grande mérito atrelando sua ascensão em espaços de poder internacionais e que a mesma nunca a afastou da compaixão e da justiça social que aprendeu na infância.
E os sonhos de menina, atrelados à vocação, hoje é motivo de um justo orgulho de pai que passou os ensinamentos de humildade, compaixão, carinho e muito amor, proporcionando os grandes feitos de hoje.
O tempo passa e as nossas pequenas criaturas, hoje gigantes, serão sempre nossas eternas crianças.
Valeu nobre Hayton e parabéns pela belíssima trajetória da filhota. 💓💖💞🎯
Bilhante crônica envolvendo amor, família, tradições, espiritualidade e união familiar.
ResponderExcluirO uso simbólico das fitas do Senhor do Bonfim conecta as raízes nordestinas da agora Doutora e Mestra na área médica com seus grandes feitos na neurologia e epidemiologia, com destaque para o grande mérito atrelando sua ascensão em espaços de poder internacionais e que a mesma nunca a afastou da compaixão e da justiça social que aprendeu na infância.
E os sonhos de menina, atrelados à vocação, hoje é motivo de um justo orgulho de pai que passou os ensinamentos de humildade, compaixão, carinho e muito amor, proporcionando os grandes feitos de hoje.
O tempo passa e as nossas pequenas criaturas, hoje gigantes, serão sempre nossas eternas crianças.
Valeu nobre Hayton e parabéns pela belíssima trajetória da filhota. 💓💖💞🎯
Fitas amarradas, mãos e corações unidos, desejos realizados, exceto um, perverso, oh céus, mas as meias não podem sair dos pés, o voar é elevar mais ainda as memórias e fortalecer o amor.
ResponderExcluirÓtimo texto🙏
Costumo dizer que a vida é um filme sem edição. Não é um álbum de fotografias.
ResponderExcluirDepois de assistir a muitos filmes de suspense, terror, drama, romance, comédia e tudo quanto é gênero, posso afirmar que histórias de Filhas e Filhos que encantam Pais e Mães está no topo das minhas preferências.
Quanto amor envolvido ! Uma declaração dessa é para poucos… Fico, emocionado e num misto de felicidade e orgulho, não canso de me surpreender com essa desenvoltura em meio a geografia dos sentimentos e as palavras que você sabe tecer tão bem ! Transitar neste universo, com essa poética, onde o belo se mistura a sonoridade do bailar dos sentimentos em meio a palavras delicadamente cirúrgicas é um dom que só mesmo o divino nos pode legar, este sem nó no pulso mas com uma dose cavalar de muito amor !!! Abraço amigo ! Mário Edson
ResponderExcluirAdorei o resistir e persistir. É muito inspirador dizer isso pra si mesma. E ao traspor para cá, todos nós nos deixamos tocar por tamanha beleza do vôo da menina das fitas, médica de catiguria.
ResponderExcluirEspetacular! A vida nos agracia com filhos que, vez por outra, julgamos não merecer, mas essas “fitinhas” nos amarraram muito bem. Abração,
ResponderExcluirGradim.
Mais um mergulho no seu mundo íntimo, que nos permite vivenciá-lo, através de um recorte de suas reminiscências, tão bem aqui traçadas, recheadas de cuidados e, principalmente, Amor.
ResponderExcluirE, coincidentemente, a crônica começa com um tombo, tipo de acidente que, infelizmente, foi o estopim que desencadeou ontem no final da trajetória do colega Ulisses Fernandes, após três meses de luta.
Andar com fé eu vou… e a fé não falhou.
ResponderExcluirEssa crônica poderia levar o título de Missão Cumprida, ou ainda, Relato de um Pai Corujão, mas foi muito bem escolhido. E que bom poder contar a trajetória vitoriosa de uma filha! Que Deus a abençoe para seguir nessa profissão árdua que é a Medicona e te dê muitos anos de vida com saúde para acompanhar muitas outras vitórias que ela terá no caminho. Nelza Martins
Lindo texto ,amigo !! Homenagem muito oportuna nos dias atuais !!
ResponderExcluirQue depoimento lindo. Que texto "bem amarrado". Parabéns!
ResponderExcluirDenominaria as três fitas de PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO! É preciso que a gente evite a fragilidade do tempo. Inspiração na situação de uma queda, gerando uma bela reflexão de FÉ, FAMÍLIA, DEVOÇÃO E AMOR NO CORAÇÃO! Saúde para nós e para quem cuida da gente com muita determinação.
ResponderExcluirEm "Três fitas", você, Hayton, constrói uma crônica delicada e profunda sobre memória, fé e cuidado. Através das fitas amarradas no pulso do pai, a filha transforma um momento de fragilidade em um gesto simbólico de proteção e afeto, ligando suas raízes culturais, sua jornada profissional e a relação entre gerações. O texto, ao mesmo tempo íntimo e universal, celebra a resistência cotidiana e o amor que se manifesta nos detalhes mais silenciosos.
ResponderExcluirO resultado é uma crônica de amadurecimento mútuo, em que o amor e o orgulho aparecem entrelaçados, amarrados com a mesma discrição das fitas do Senhor do Bonfim. Parabéns, Hayton!
ResponderExcluirHistória bonita, crônica impecável.
ResponderExcluirO autor fala de si e sua filha, mas também fala de ciência e fé, que devem andar juntas.
Quisera fosse sempre assim no mundo da medicina.
Parabéns de novo, meu amigo escritor.
Que legal Hayton! É muito bom falar de nossas crias! Parabéns!
ResponderExcluirQue bela crônica, depoimentos, tratando de um amor que não precisa de exageros para ser imenso: o amor entre filha e pai, feito de presença, de cuidados, de gestos simples que, no fundo, sustentam uma vida inteira.
ResponderExcluirHá, no texto, uma reciprocidade comovente: o pai que se orgulha da filha como quem vê o mundo dar certo, e a filha que olha para o pai com a gratidão de quem reconhece a raiz do próprio caminho.
O sucesso, aqui, não aparece como vaidade, mas como consequência natural de um vínculo bem construído - um orgulho limpo, digno, que não humilha ninguém, apenas celebra. E talvez seja esse o maior mérito da crônica: mostrar que algumas conquistas não se medem por troféus, mas pelo amor que se mantém de pé, mesmo quando o tempo insiste em passar.
Os sonhos de criança são os mais límpidos e sinceros. Eles fazem a magia acontecer.
ResponderExcluirE os embalos nos braços do protetor… ah… quanto privilégio. Quem dera Deus, por um capricho, os fizessem eternos.
👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏
ResponderExcluirDelícia de texto!
ResponderExcluirAh, essa não dá pra comentar. Só ler com um sorriso contínuo de embevecimento no rosto...
ResponderExcluirEu não só conheço a protagonista, eu a admiro muito e sou testemunha do seu voo na medicina.
ResponderExcluirAmei a crônica. Que linda e merecida homenagem.
Eu só não sabia que ela tinha amarrado três fitas no pulso do pai. A fé sempre fala mais alto. É a confiança no Todo Poderoso que nunca falha.
Quanto a cuidar de vidas e fazer o bem às pessoas, também sou testemunha de que ela aprendeu no seu núcleo familiar com seus pais. Há mais de duas décadas, vejo o pai dela, homem de coração largo cheio de compaixão e justiça, fazer isso com as pessoas que cruzam seu caminho.
Essa família é a minha família do coração. E como sou feliz e grata a Deus por esse presente.
Amo vocês!!!