O BANCO DE TRÁS DO FIM DO MUNDO
Hayton Rocha
No começo do mês, alguém que se acha dono do mundo resolveu brincar de motorista do fim dos tempos. Postou numa rede social, como quem assovia “Over the Rainbow”, que uma civilização inteira morreria naquela noite, para nunca mais ser ressuscitada.
A ameaça pairou sobre a Terra por alguns dias como nuvem de tempestade, só que, em vez de chuva e vento, prometia destroços, fumaça e radioatividade contaminando a atmosfera.
Bem verdade que somos uma espécie que sempre flertou com a própria extinção. Que todo dia aprimora bombas, drones e mísseis, mas não consegue organizar uma fila decente para socorrer quem precisa de água, comida e teto nos escombros do próprio Planeta.
Somos também a única espécie que inventa a Internet, envia sondas a Marte e passa o jantar discutindo em família se vacina funciona ou se Ancelotti deve levar Neymar à Copa.
A arte de morrer com dignidade, porém, continua sem tutorial no YouTube. Sabe-se apenas que nada nesta vida é certo, exceto a linha de chegada e o desconto na fonte do imposto de renda. E que há três tipos de morte: a cardíaca, a cerebral e a perda do celular desbloqueado.
Na mesma semana do ultimato do dono do mundo, um velório no estado de Veracruz, no México, terminou em confusão. Duas mulheres descobriram, diante do caixão aberto, que amavam o mesmo homem.
Uma delas se aproximou para uma despedida mais emocionada. A outra estranhou o excesso de intimidade. Em segundos, a cerimônia virou uma espécie de UFC sentimental, com gritos, empurrões, puxões de cabelo e tapas de fazer o morto cogitar um retorno temporário.
Pensei na ressureição do falecido por alguns minutos só para pedir um pouco de compostura. Se desconfiasse de que seria velado naquele clima, certamente teria preferido a cremação. No mínimo, seria mais calorosa.
Morrer, de fato, parece aborrecido. Algo entre a dor no terceiro molar na gengiva inflamada e o atendimento de seguradora no domingo à noite.
O ideal é não ter participação ativa na morte antes da hora. Mas ninguém sabe quando é a hora. Embora haja quem diga que fulano morreu prematuramente, como se existisse um balcão no Purgatório encarregado de distribuir horários e formulários.
Salvador Dalí dizia ter uma longa amizade com a morte. Quando ela chegasse, mandaria sentar-se, relaxar e ofereceria uma taça de champanhe. Não sei se cumpriu a promessa. A morte não costuma ser muito dada a esses afagos preliminares.
Sabe-se pouco sobre ela. As mensagens no WhatsApp somem, talvez o primeiro sinal concreto. Cabelos e unhas de quem suspira pela última vez continuam crescendo por algum tempo. Para quem pretende adiá-la um pouco mais, respirar segue indispensável. Parar continua sendo um erro grave de planejamento.
Ainda assim, há suplícios piores: fila no Detran com o sistema fora do ar, cancelar TV a cabo ou ter que escutar alguém tentando nos convencer a mudar de time, de religião, de ideologia ou de carro. Pode ser, inclusive, a forma mais dolorosa e lenta de extinção. Em alguma medida, tudo isso constitui uma espécie de ensaio geral para a inevitável das despedidas.
Confesso que não me sinto preparado para morrer. Não concebo um futuro sem mim. Acho uma falta de consideração o mundo continuar existindo sem ouvir minha opinião.
Nascer já foi traumático. Cheguei chorando, nu e cercado de gente dizendo que eu era até gordinho, mas feio. O fim da estrada pode ser pacífico. A travessia, nem sempre. Volta e meia é confusa, repleta de decepções e sobressaltos.
Dizem que, quando alguém está morrendo, vê toda a própria vida passar diante dos olhos. Será? Deve ser a melhor maratona de séries já produzida, embora não existam críticas disponíveis sobre o assunto na web.
Mas, se algum lunático apertar o botão, lançar o primeiro míssil e transformar a Terra numa grande churrasqueira radioativa, espero morrer como o motorista que adormece ao volante de um pau de arara: sem perceber direito o tamanho da tragédia. Não gritando, apavorado, como os passageiros espremidos nos bancos de trás da carroceria.
Porque sempre há um rezando, outro chorando, outro culpando o governo, outro responsabilizando a oposição e outro perguntando se ainda dá tempo de saltar e seguir a pé.
Desde o começo, aliás, quase sempre estivemos todos no banco de trás do fim do mundo.

Amei a ideia da cremação “mais calorosa”… e como é quente
ResponderExcluirQue crônica sensacional.
ResponderExcluirMuito humor, figuras de linguagem e uma forma genial de tratar assuntos tão sérios da atualidade.
Demais.
Concordo plenamente
ExcluirCrônica sensacional!
ExcluirEu, quando partir dessa pra melhor, não quero estar nem aí, kkkkk.
ResponderExcluirMuito legal essa crônica. Diz-se que há na Web sinopses bem detalhadas da colcha de retalhos que foi a vida terrena de alguém: são EQM's bem interessantes.
Muito reflexiva essa crônica. Traz a realidade do valor de viver e a profundidade no sentido da morte. Parabéns mais uma vez pelo despertar. Um bom dia.
ResponderExcluirWalmir figueiredo
A terra de nunca existe, é habitada por um "nada" que se julga o "tudo". Belo texto caro amigo.
ResponderExcluirComo sempre, u'a crônica pra chamar de sua, caro Hayton!
ResponderExcluirSomos todos passageiros desta "nave" chamada de terra, numa viagem frenética e sem mostrar na sua "bandeira" frontal o nome do destino ou, ao menos, a numeração da linha daquele trajeto. E viajamos de várias maneiras sim, alguns "no banco de trás", outros confortavelmente nos primeiros assentos e alguns mais em pé, aos empurrões ou aplicando os chamados roça-roça despudorado antes da existência de câmeras filmadoras de alta definição, como sói ocorrer com aquelas que mostraram a "nave" que estamos viajando pela nave oficial da última viagem exploratória da lua, não a dos namorados, mas a lua real, o planeta que se encarrega de iluminar as noites.
Como dizia um velho amigo, prefeito eleito por dois mandatos para governar minha urbi, no século passado, no frigir dos ovos, estejamos sentados onde estivermos, em pé ou aos empurrões, neste transporte da vida, a nenhum humano é dado o direito - e ouso bradar, o poder - da escolha do momento da finitude desta viagem que nos fora proporcionada por um Ser maior que todos nós, os viajantes nesta "nave" por Ele criada e diuturnamente cuidada a Seu modo.
Rompantes desta ordem não trazem qualquer alento ou conforto às mazelas que a "nave" terra tem vivido, pelo contrário, assusta alguns e desmoralizam outros, os aflitos.
Viajemos, afinal aqui chegamos para isso; cheguemos aonde tivermos que chegar!
É sempre bom lê-lo nas madrugadas das quartas-feiras.
No penúltimo parágrafo, onde se lê "aflitos" leia-se "afoitos"
ExcluirFrancamente? Depois da minha morte não quero nem choro nem vela. Podem me jogar em qualquer buraco, não estou nem aí!
Excluir"Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro..." e isso me basta.
ResponderExcluir.
Morrer, por si só, é um desperdício, uma tragédia. Chegada a hora em que o cara anuncia a tua vez e diz: meu amigo larga de ser besta, "...a vida é muito curta e não há tempo para intrigas e futricas..." não tem negociações, não tem cartas na manga, nada. Vem, entra. Acabou!
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Para alguns poderá até indicar que a porta do céu é aquela. Para outros, o inferno te espera. A porta é outra. Suponho que seja assim.
O pretenso delegado geral do mundo imagina ser ele quem tem o arbítrio de dizer quem morre, quem fica, em que porta entrará. Deixa ele. O inferno te espera, provavelmente dirá o sujeito que lhe dará as boas vindas. E aquela cabeleira alaranjada, meio cenoura, meio abóbora, chamuscará até virar cinzas.
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O quase delegado geral do mundo descobrirá que não tem poderes sequer para demitir o porteiro.
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Ainda bem.
Parabéns Hayton.
ResponderExcluirBela crônica.
FANTÁSTICA a sua crônica ,HAYTON
ResponderExcluirToda quarta-feira você nos traz uma bela surpresa, Mestre Hayton.
ResponderExcluirA humanidade habita um caos constante, onde muitos vivem com a "emoção na flor da pele" e totalmente desgovernados. Apesar de todo o nosso avanço tecnológico, permanecemos emocionalmente imaturos — incapazes, por vezes, de conviver em paz sequer em um almoço de família. Enquanto nos preocupamos com banalidades como Wi-Fi e impostos, o medo moderno já não é a morte, mas o vexame digital ou a burocracia do fim. Isso sugere que, talvez, o apocalipse seja algo lento, confuso e mal organizado, mais parecido com uma repartição pública do que com um evento grandioso.
Em 1977, Raul Seixas lançou "O Dia em que a Terra Parou", criticando o conformismo social. De certa forma, o mundo parou diante das declarações do "Topete de Ouro", onde tudo parecia possível.
Assim segue a humanidade: assistindo de camarote às loucuras que emanam de mentes doentias, das redes sociais e do inconsciente coletivo. Sigamos em frente, vivendo sem medo de ser feliz, afinal, sobre o que nos aguarda após a vida, "Deve ser a melhor maratona de séries já produzida, embora não existam críticas disponíveis sobre o assunto na web".
O pior que esta "besta" se acha o dono do mundo, tem seguidores e influencia outros energúmenos, inclusive aqui na nossa amada pátria. Será que se o falecido ressuscitasse seria o juiz da luta, teria o arrependimento do retorno, ou convidaria as duas para outra dimensão, e continuarem no inferno astral? Elas aceitariam a ousada proposta?
ResponderExcluirHayton, sua metáfora do "pau de arara" é um desfecho perfeito.
ResponderExcluirEla nos coloca no nosso devido lugar: não somos os pilotos do destino, somos passageiros apinhados na carroceria da história.
Sua preferência pelo sono do motorista em vez do pânico dos passageiros é o desejo de quem já entendeu que a consciência, às vezes, é um fardo pesado demais.
Então, enquanto o motorista não dorme, ainda dá tempo de rir do próprio susto.
Boa crônica!
ResponderExcluirVamos pedir a Deus que nos proteja do "dono do mundo", pois não pretendo ir para o andar de cima tão cedo, ainda mais movido a energia atômica.
Sensacional !
ResponderExcluirPobre dos que a morte leva sem ter lido suas crônicas! Parabéns por esta, pelas que foram premiadas na FLIP e por todas as outras crônicas maravilhosas, meu amigo.
ResponderExcluirMuito boa meu amigo, não conhecia essa sua veia humorística. Essa do pau de arara foi muito real pra mim, viajei 13 dias naqueles bancos duros. As duas mulheres brigando sobre o caixão pelo mesmo homem foi hilária, já tinha visto brigas por herança. Sabe que curti o pensamento do Dali, achei que só eu era louco, mas serviria pra ele um bom copo da cachaça Matuta, fabricada na cidade de Areias, PB.
ResponderExcluirEnfim. Parabéns mesmo
Abraço
Muito boa. 👏🏼👏🏼👏🏼.
ResponderExcluirEu não conhecia essa frase do Salvador Dali.
A morte ficou olhando Salvador d’ali…
Vixe, não é bom nem brincar com a cuja. Que Ariano chamava de Caetana…🥸
Muito ímpar sua maneira de vislumbrar a morte, onde somos meros passageiros. E em tempos em que a insanidade prevalece como sendo "normal'. Parabéns por mais uma crônica singular.
ResponderExcluirNão devemos assumir um papel ativo diante da morte, nem da nossa nem da de qualquer outra vida. O fim precisa seguir seu curso natural, ainda que, de alguma forma, nossa participação esteja presente ao longo do caminho.
ResponderExcluirO mais importante é saber viver o intervalo entre o começo e o fim, fazendo escolhas conscientes entre o bem e o mal, entre o amor e o ódio. Sem a pretensão de controlar tudo, muito menos de decidir o desfecho do mundo.
Hayton, como sempre, sua crônica chega como um presente nas quartas-feiras e das quartas-feiras
Estou cada vez mais convicto de que a idolatria a vulgo semideuses tem a ver com a dificuldade de ler. Domingo andando pela praia, observando pessoas, levei um susto: entre centenas, milhares de veranistas encontrei uma pessoa lendo um livro.
ResponderExcluirNa infância chorava quando minha mente me lembrava que um dia os pais teriam que morrer.
Hoje, graças a leitura, sinto até uma certa paz, quando deparo com textos que tratam de nossa passagem.
Parabéns Hayton por compartilhar sua genialidade
Excelente.
ResponderExcluirO tema Morte nem sempre é fácil de encarar, principalmente se tratar da nossa, embora seja a única coisa certa na vida. Sua crônica, com humor leve, que nos cobra muita risada, só se equipara a As Intermitências da Morte, de Saramago. E, como disse minha filha. “Que a morte me encontre viva”, Nelza Martins
ResponderExcluir...Excelente! Tempos incertos e difíceis.,
ResponderExcluirDe ironia em ironia, me diverti muito com a leitura.
ResponderExcluirSergio Freire
A ansiedade sempre acaba de uma forma boa. A espera pela suas crônicas é sempre motivo de expectativa pelo tamanho do presente literário que vamos receber. E sempre elas são maravilhosas, criativas, de mote atual e instigante. Muito obrigado por mais essa preciosidade literário.
ResponderExcluirEmbora tratando de um tema que, como que por autodefesa, nos distanciamos, a crônica soube abordá-lo muito eficazmente, incluindo suavidade, esperança e até comicidade. E como diria meu compositor favorito, Belchior, "...cuidemos da vida, se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço, sem ter visto a vida...". Mas, como ela é inevitável, entra Paulo Diniz, cantando "...eu vou na ida, indo, que o temor desperta, cuidar da minha vida, que a morte é certa". Bravo por mais uma abordagem brilhante.
ResponderExcluirÓtima crônica. Na vida tudo é passageiro, exceto o motorista e o cobrador!
ResponderExcluirAbração, Gradim.
Quem acordou no dia
ResponderExcluirAdormeceu na noite
Sorriu cada alegria sua
Quem andou pela rua
Atravessou a ponte
Pediu bênção à dindinha lua
Não teme a sua sorte
Abraça a sua morte
Como a uma linda ninfa nua"
Gilberto Gil
Crônica muito bem humorada, mas admito que ri de nervoso.
ResponderExcluirMuito boa, Hayton!!!
ResponderExcluirTeremos outra oportunidade, principalmente um indivíduo como eu, cheio de defeitos com muitos erros a corrigir. Parabéns Mestre!!!
ResponderExcluirBela crônica. Na minha idade sou convidado mais para velórios q batizados. Já tenho até uma conta corrente com o guardador de carros e a florista do cemitério. O q mais me estanha é o espetáculo do velório. Pessoas q não se viam, não se falavam, se endividam para vir. No de domingo passado tinha um padre q disse q o morto ja estava ao lado de Deus, um pastor q disse q vamos nos encontrar novamente e um espírita q disse q voltaríamos para novas experiências. Faltou uma votação tipo BBB. Enfim, saímos dali e a vida continuou. Eu, o pastor, o padre, o espírita e a família da falecida fomos almoçar.
ResponderExcluirPois é, Lula , o espírito de Aldir Blanc bem que poderia aparecer entre nós e relançar uma de suas obras primas com um pequeno ajuste perfunctório (como diria os causídicos de antanho):
Excluir“Tá lá o corpo estendido no caixão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém
O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso pra vereador
Veio o camelô vender
Anel, cordão, perfume barato
Baiana pra fazer
Pastel e um bom churrasco de gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então
'Tá lá o corpo estendido no caixão…”
Rapaz, que crônica boa, você consegue falar de coisa pesada com uma leveza e um humor que fazem a gente rir e pensar ao mesmo tempo. Fiquei com aquela sensação de que, no fundo, a gente tá mesmo tudo meio perdido nesse banco de trás, tentando entender o caminho enquanto o mundo segue, e às vezes parece que ninguém tá realmente no volante. Muito massa, de verdade.
ResponderExcluirMuito bom ler o Hayton “brincando” com a morte individual e o fim do mundo, com leveza e profundidade.
ResponderExcluirAos que quiserem se aprofundar sobre a possibilidade de uma morte bela (ou kalotanásia), recomendo os vídeos e textos de Ana Claudia Quintana Arantes, inclusive o livro “A morte é um dia que vale a pena viver”.
Quanto à minha futura lápide, ainda tô em dúvida. Mas não acho ruim: “Aqui, jazz; pagode é no outro túmulo”; ou “Era da Vivo, mas fiz portabilidade”.
Espetacular essa Crônica, como, aliás, todas que o Hayton escreve. Antológica!!
ResponderExcluir"O ideal é não ter participação ativa na morte antes da hora. Mas ninguém sabe quando é a hora. Embora haja quem diga que fulano morreu prematuramente, como existisse um balcão no Purgatório encarregado de distribuir horários e formulários."
ResponderExcluirNa minha idade, nem de brincadeira, ouso falar da morte. Da própria. Morte! Melhor esquecê-la: é coisa dos outros. Aí vem você, Hayton, e dá uma sacudidela dessas, combinando reflexão filosófica e humor crítico, revelando uma visão cética sobre a pretensão humana de dar sentido e ordem ao que, por natureza, escapa qualquer controle.
Você tá demais! Que texto forte carregado de metáforas satíricas que humaniza o além de maneira burocrática, quase caricatural.
Parabéns! Mais uma vez você subiu o sarrafo.
Sensacional! 👏🏾👏🏾👏🏾
ResponderExcluirDo tipo que a gente lê e pensa: - “isso eu gostaria de ter escrito!”.
Ou textão… morrer.. morremos todos os dias, aos poucos, basta está vivo, essas nuances descritas no texto é a realidade do dia a dia, ninguém quer morrer, se tiver de ser que seja mesmo sem aviso. Abraços.
ResponderExcluirO laranjão está quase desacreditado nas suas ameaças, mas é bom não confiar muito, as previsões podem falhar, e gente pode não ser ouvido a tempo.
ResponderExcluirParabéns pela excelente crônica e aos bons comentários também.
Esse negócio de morte é danado...
ResponderExcluirO brilhante Guimarães Rosa disse em seu precioso Grande sertão: Veredas - "Viver é muito perigoso".
Certamente mais do que morrer.
Raulzito também pincelou essa dicotomia entre sermos loucos e normais: "prefiro ser um louco em um mundo onde os normais constroem bombas".
às vezes sinto que a raça humana caminha para a extinção.
- É muito pior do que morrer...
envelhecemos e perdemos o medo de morrer, apesar de ganharmos um outra infinidade de medos, o que parece meio doido...
Melhor pensar como Millõr Fernandes: "Eu não tenho medo de morrer; Não quero é morrer".
Crônica danada de boa.
abração!!!
Mário Nelson.
Boa, Hayton! Nem vou falar no maluco do Norte, que pensa que é Thanos, dos " Guardiões da Galáxia"; não vou gastar vela com defunto ruim. 😇😁 Por outro lado, confesso que não me aguentei quando li essa parte da crônica: "...certamente teria preferido a cremação. No mínimo, seria mais calorosa." Pensando bem, não é má idéia. Em vez de descer pra terra fria e úmida, o cidadão sobe aos céus em forma de fumaça; as cinzas podem ser espalhadas ao vento, em alto mar, numa montanha! É meio tétrico, mas é poético. Dust to dust.
ResponderExcluirComeça-se lendo a crônica com aquele susto básico — não pelo fim do mundo anunciado, mas pela tranquilidade quase poética com que o arauto do apocalipse solta a notícia, como quem recomenda um cafezinho. É o tipo do sujeito que, se pudesse, marcaria o Armagedom para depois da novela, só para não perder audiência.
ResponderExcluirAí me veio à lembrança o velho ditado: “cão que muito ladra não morde”. E, convenhamos, tem gente latindo em surround, com eco e tudo nas redes sociais.
No fundo, o que mais assusta nem é o fim do mundo — é a criatividade ociosa de quem resolve anunciá-lo com hora marcada, como se fosse entrega de encomenda.
A crônica acerta em cheio ao cutucar essa nossa estranha vocação para dar palco ao absurdo. A gente se aflige com o fim da civilização, mas esquece de resolver o começo do mês, as contas a pagar, o preenchimento da declaração do imposto de renda e a paciência vencida.
Preocupamo-nos com o lado oculto da lua e negligenciamos os pequenos impactos diários, esses sim, de órbita certa.
E já que o assunto é suplício, ouso sugerir uma atualização no catálogo dos tormentos eternos: receber a ficha de número dois milhões, novecentos e noventa e nove milésimos na fila do INSS, para obter um benefício. Isso, sim, é um ensaio geral respeitável para a eternidade — lento, metódico e com requintes de crueldade burocrática. Se não for o fim do mundo, é pelo menos o fim da esperança com senha na mão.
No mais, morrer deve ser mesmo um evento pouco recomendável — faltam avaliações positivas e ninguém voltou para dar depoimento no Reclame Aqui da eternidade.
Portanto, meu caro Hayyon, enquanto o apocalipse não chega (e, pelo histórico, vive se atrasando), vamos nos acomodando por aqui mesmo, no banco de trás do fim do mundo, observando o espetáculo… e torcendo para que, ao menos, tenha intervalo para um café.
Amigo, verdades “inconvenientes”… todos morreremos em algum momento… Vc traduziu c maestria uma de minhas inquietações nessa passagem por aqui: somos capazes de tantos feitos extraordinários e, tbm, capazes de tantas atrocidades e debates sem sentido algum… Vc expressa de forma quase poética essa minha inquietação: “Somos também a única espécie que inventa a Internet, envia sondas a Marte e passa o jantar discutindo em família se vacina funciona ou se Ancelotti deve levar Neymar à Copa”.
ResponderExcluirNem mesmo os espiritualistas - aqueles que se dedicam ao estudo da doutrina espírita e tratam a reencarnação como um processo natural - conseguem explicar com absoluta propriedade as nuances entre a vida e a morte. Aliás, que seja do meu conhecimento, somente o Agostinho Carrara conseguiu enganar a própria morte e mandá-la de volta desacompanhada, num dos melhores episódios da série "A Grande Família." Como diria o filósofo Gradim, "NA VIDA TUDO É PASSAGEIRO, EXCETO O MOTORISTA E O COBRADOR." Parabéns pelo criativo texto.
ResponderExcluirEle estava querendo ser logo enterrado, antes que aparecesse mais duas
ResponderExcluirPor incrível que pareça, convivo muito bem com ela, ou melhor, com uma expectativa sem pressa por ela. Afinal, ela me deu uma trégua, em 2012, quando me deu uma segunda chance, depois de uma pancreatite. Essa prorrogação já dura quatorze anos.
ResponderExcluirEntão, quando ela chegar, minha despedida será "calorosa" e as cinzas serão depositadas nas raízes de alguma árvore. E ficarão ali, contemplando as estrelas, até serem levadas para dentro da terra, de preferência por uma bela e abundante chuva.
Cada vez me convenço mais de que nenhuma usina nuclear produz mais energia que essa sua mente incansável.
ResponderExcluirSobre esta obra de hoje, nem vou falar muito, vou me associar a Isamusa, pois realmente, a coisa de a cremação ser mais calorosa, é mais que inusitado.
Enfim, você não existe, é criação da tal IA.