NEM QUE O BOI ESPIRRE
Hayton Rocha
Nunca botei fé na gramática clássica. Não por culpa dela, mas em razão de minha burrice ancestral combinada com a preguiça de estudar. Sempre tive um pé atrás com palavras que circulam como se verbo e advérbio tivessem sangue azul. Gosto mesmo é da língua viva. A que atravessa gerações feito receita de bolo de vó.
A língua portuguesa falada no Brasil não nasceu em biblioteca. Nasceu em arquibancada, beira de rio, boteco, cozinha, feira livre, fila de padaria e terreiro. Foi sendo costurada às gargalhadas e aos gritos. Por isso sobrevive tão bem. Língua muito certinha acaba morrendo de tédio.
Resolvi cascavilhar a origem de certas expressões populares que escuto desde criança. Descobri que a nossa língua é menos um idioma e mais um cemitério animado de metáforas esquecidas. Cada expressão esconde um cadáver histórico enterrado sob as palavras.
É aí que a cobra vai fumar.
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| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
E o famoso arranca-rabo? Sempre achei que fosse apenas sinônimo de confusão de vizinhança, dessas em que alguém ameaça chamar a polícia enquanto o outro já aparece de peixeira na mão. Descobri que a coisa vem de longe. Dos tempos em que decepar o rabo do cavalo inimigo servia como troféu de guerra.
O mais curioso é que a expressão atravessou o Atlântico para renascer no sertão nordestino. Segundo Câmara Cascudo, cangaceiros arrancavam rabos de cavalos e touros para humilhar coronéis. O orgulho alheio era transformado em troféu do esculacho.
Toda vez que descubro uma dessas histórias imagino o sofrimento de algum gramático mais zeloso. Há gente que não consegue ouvir uma expressão popular sem sacar uma régua para medir desvios.
São os famosos cheios de nove horas. A expressão define o sujeito que transforma qualquer reunião simples num congresso internacional de burocracia. O cidadão não toma café; confere a procedência do pó. Não atravessa a rua; abre processo de deslocamento urbano.
A origem viria do século XIX, quando nove da noite marcava o limite da respeitabilidade urbana. Depois disso, quem estivesse vagando pelas ruas corria o risco de ser confundido com bêbado, ladrão ou poeta, categorias que frequentemente se misturavam.
Esse tipo de criatura costuma despertar antipatia ampla, geral e irrestrita por onde passa. E depois não adianta chorar pitangas.
Ah, as pitangas. Existem teorias para todos os gostos. Uma diz que a expressão nasceu da palavra tupi "pitang", associada à infância. Outra sustenta que a fruta vermelha lembrava lágrimas de sangue. Prefiro imaginar que ninguém sabe ao certo. Mistério também é patrimônio cultural.
Mas aí já são outros quinhentos.
Talvez esta seja uma das expressões mais brasileiras já inventadas. Serve para mudar de assunto, como fazem certos maridos quando a conversa começa a ficar perigosa. Os tais quinhentos podem vir de antigas indenizações pagas por ofensas à nobreza. Aristocrata ofendido custava caro. Pobre ofendido seguia ofendido.
Muitas dessas histórias, aliás, podem ser apenas coisa para inglês ver.
Outra maravilha linguística. No Império, dizia-se que o governo fingia combater o tráfico de escravos apenas para satisfazer a pressão britânica. Fazia teatro. Produzia fumaça para impressionar estrangeiro. Como se sabe, certas tradições nacionais atravessam os séculos com admirável vigor.
Já sair à francesa é ainda mais divertido. Significa ir embora sem se despedir. O detalhe é que, na França, dizem sair à inglesa. Ingleses e franceses passaram séculos terceirizando a falta de educação um para o outro, como vizinhos disputando quem deixou o lixo na porta errada.
E pensar que toda essa confusão verbal desembocou aqui, neste país tropical onde até expressão idiomática pega sotaque.
É isso que mais me encanta no português brasileiro: ele não pede passaporte para ninguém. Mistura boteco com palácio, cangaço com gramática normativa, latim com tupi, sertão com Paris. Faz contrabando de palavras sem medo da alfândega.
No fundo, o idioma falado no Brasil parece com sua gente: contraditório, improvisado e irresistivelmente vivo. Não mora apenas nos livros. Mora na conversa de calçada, no grito do feirante, no rádio de pilha, na reza da benzedeira e no palavrão que escapa depois da topada.
A língua brasileira não caminha. Ginga. Tropeça em palavras indígenas, toma banho de África, fuma charuto com Portugal e termina a noite bebendo café coado numa cozinha sertaneja. Desobedece a regras, inventa atalhos e embaralha tudo.
Vai ver é por isso que o brasileiro nunca precisou falar bonito para sobreviver. Bastou aprender a contar histórias, rir da própria tragédia e seguir adiante.
Nem que a vaca tussa. Ou o boi espirre.
