OUTRO LADO DO JOGO
Hayton Rocha
Semana passada, fiquei preocupado com o que aconteceu a um velho amigo, bancário aposentado. Em tempos de filtros de realidade e inteligência artificial, qualquer mistério já nasce com cara de fraude. No caso, surgiu na caixa postal dele uma mensagem estranha, sem remetente, como se atravessasse uma fresta entre dois mundos.
Ele mostrou a algumas pessoas. Uma falou em psicografia. Outra disse tratar-se de brincadeira de algum flamenguista decidido a enlouquecê-lo. Eu fui mais pragmático e sugeri apagar aquilo. Poderia ser perigoso.
Ele não me ouviu. Bastaram as primeiras linhas para que voltasse no tempo, atravessando um túnel cavado pela Rádio Globo, pela revista Placar e pelos domingos em preto e branco da antiga televisão brasileira. Havia na mensagem um cheiro remoto de arquibancada, sofá gasto e adolescência.
Dizia assim:
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| Reprodução: Portal LeoDias |
“Meu caro...
Agora, do lado de cá há pouco mais de três anos, consigo rever lances de minha própria passagem por aí e me divirto ao descobrir o quanto você acompanhou minha trajetória.
Revi, por exemplo, aquele gol que marquei em 1976 contra o Botafogo, tido como o mais bonito da história do Maracanã e que acaba de completar meio século. O domínio no peito dentro da área. O lençol no zagueiro antes do voleio indefensável. A bola estufando as redes no minuto final da partida, enquanto a arquibancada explodia como se concreto tivesse pulmões.
Revejo até onde você estava naquele instante: balançando numa rede no terraço da casa de sua namorada, quase sete da noite de um domingo, fingindo prestar atenção no que ela dizia enquanto o rádio transmitia o jogo.
Justamente no mesmo local onde você, quatro anos mais tarde e já pai de duas crianças, me viu matar a saudade e a fome de gols balançando cinco vezes as redes do Corinthians numa goleada pelo Brasileirão em maio de 1980, quando voltei da Espanha após uma curta temporada no Barcelona.
Revi também nosso encontro, trinta e sete anos depois, quando nos conhecemos no Aeroporto JK, em Brasília. Eu voltava de um jogo contra o Flamengo na Arena Mané Garrincha, já como presidente do Vasco. Você aguardava o mesmo voo para o Rio e, por uma dessas distrações de Deus para aliviar a monotonia do universo, acabou sentado justamente ao lado do maior ídolo esportivo da sua vida.
Você tentou aparentar tranquilidade enquanto por dentro um garoto dava cambalhotas emocionais. Falamos de gols, patrocínios, velhas batalhas administrativas. Mas, pouco a pouco, a conversa ganhou intimidade de mesa de boteco, mesmo sem bebida alguma. Recordamos Copas do Mundo, jogos inesquecíveis e injustiças eternas.
Eu ria ao perceber que você trazia à tona detalhes de minha carreira que nem recordava mais. Mas havia certa tristeza naquele riso. Porque chega um momento em que todo atleta descobre a perversidade do tempo: os estádios continuam lotados de memória, mas o corpo já não obedece.
Depois a conversa mergulhou numa praia mais delicada. Falamos de Jurema, minha paixão proibida na juventude. Viúva, seis anos mais velha que eu, rejeitada pela família de um garoto de dezoito anos que ainda nem aprendera a conviver com a fama repentina. E tocamos numa região mais escura da memória: certa vez exagerei em comprimidos tarja preta que ela usava. Não para sumir de vez, claro, mas apenas para desligar o mundo por algumas horas.
Ela que me socorreu a tempo. Aprendi que muita gente, nesses momentos extremos, não deseja propriamente o fim. Quer apenas rebobinar a própria alma.
Depois vieram os cabelos brancos, os gols sem a mesma explosão de antes, a política, os netos e a lenta invasão do tempo que começa pelos joelhos e termina ocupando a cabeça.
Só agora, meu caro, percebo o quanto você sonhou ser Roberto Dinamite. Revejo daqui o centroavante das tardes de sábado, jogando em praias na maré baixa, campinhos de terra batida e gramados tão miseráveis que a bola quicava feito bicho assustado.
A vida, porém, especialista em deixar pelo caminho jogadores promissores, tratou de empurrá-lo para seu rumo definitivo. Para você vieram a miopia, o emprego cedo demais, o casamento e certa habilidade em fazer acordos com os próprios sonhos.
Seu possível Maracanã acabou transformado em expediente bancário. Se bem que nunca abandonou inteiramente o futebol. Ele continuou quicando dentro de você, como alguns sonhos que envelhecem sem pensar em aposentadoria.
Você não marcou mais de setecentos gols nem fez uma imensa torcida feliz. Ainda assim, marcou muita gente. A mim, inclusive, que lhe sou grato pelo tanto de atenção e carinho que me dedicou enquanto estive por aí...”
Assumo a besteira que fiz ao sugerir que meu amigo apagasse a mensagem. Ele permaneceu algum tempo com os olhos úmidos e a tela acesa diante de si, como se ouvisse a voz do remetente.
Depois comentou comigo que talvez envelhecer seja justamente isso: descobrir que os sonhos não desistem da gente. Apenas aprendem a jogar noutras posições.

Que sonhos não envelhecem
ResponderExcluirDisso tudo eu já sabia
Eu sonhei com futebol
E futebol é magia
Atravessa a nossa vida
De forma alegre ou sofrida
É tristeza ou euforia.
Em tempos de Copa tudo gira em torno do futebol, até sua crônica das quartas-feiras. Nelza Martins
ResponderExcluirBom dia Caro Amigo Parahyba!
ResponderExcluirAgora envergando pomposa barba à la grande Ernest Hemingway e, com o luxuoso testemunho do ídolo Dinamite 🧨-falando de você para você- tomo a ousadia de pedir licença para apelidar a sua memorial crônica futebolística de hoje de: “O Velho e a Bola”.
Fraterno amplexo 🤝
Supimpa, seo Hayton!
ResponderExcluirQue crônica frugal, elegante, prazerosa, alegre, emocionante e digna de profunda reflexão ao mesmo tempo!
Sinceramente, você tem absoluta razão em dizer da emoção que lhe causou a publicação desta pérola. Quem de nós não se sentiria igual nos sentimentos d'alma, brotando uma leveza de leitura e, de certa forma, de história de um ídolo no esporte?!
Aplaudir é pouco, creia! Sentir é necessário!
Ave Palavra!
Futebol é sonho de todo menino brasileiro.
ResponderExcluirTer um ídolo também.
Essa história que você nos conta me parece ser a sua, meu amigo.
De qualquer forma, ela é muito bonita.
Não só a minha, meu amigo, mas a de muita gente. Há quem nunca admita ter sonhado em ser outra pessoa; e há quem não veja mal nenhum nisso.
ExcluirObrigado por sua atenção.
Como sempre,show de bola!!! Seu amigo,Gil Messi.
ExcluirSonhos não envelhecem
ResponderExcluirNão é sobre futebol, essa crônica. É sobre os aromas das lembranças que nos constituíram como pessoa, que vez por outra aparecem em fragmentos de chamas, de acendedores de lampiões neurais, que nos eternizam um bocadinho mais. E nós perfumam. Parabéns. Adorei.
ResponderExcluirExcelente crônica, Hayton. O tempo nos força a ressignificar os sonhos juvenis para seguirmos adiante, seja jogando, escrevendo, viajando ou simplesmente contemplando a vida. Sua crônica capta perfeitamente essa latência dos ideais passados no presente. Mesmo longe do plano original, eles continuam vivos e fortes, impulsionando-nos a reinventar nossos próprios horizontes com criatividade e vigor. Simbora viver, curtir, reviver e fazer com que o "Outro Lado do Jogo" continue vibrante em nossa vida, ecoando muitos gols pela frente.
ResponderExcluirUma crônica leve, impecável e genial! Obrigada, Hayton
ResponderExcluirHayton, leio às quartas-feiras todas as crônicas que você escreve e me delicio com as belezas nelas produzidas. Nesta de hoje confesso que me emocionei. Vascaíno raiz, desde os sete anos de idade e já chegando nos oitenta, talvez seja o maior fã de Roberto Dinamite, meu eterno ídolo. Aquele gol antológico que você descreve, o mais bonito da história do Maracanã, ficou indelevelmente marcado em minha memória. Sou grato por ter conhecido o grande artilheiro quando de sua passagem pela Ilha de Itaparica, aqui na Bahia. Roberto eterno. Parabéns pela brilhante crônica. Paulo Sampaio.
ResponderExcluirQuantos sonhos cabem numa vida? Quantos deles vivemos e quais engavetamos pensando impossíveis? Quantos deles ainda nos fazem suspirar? Um texto que dá muito o que pensar.
ResponderExcluirMuito bom! Sonhos são como ventos na vela de um barco... nos impulsionam. Às vezes mudam de direção, às vezes enfraquecem, retomam sua força e assim seguimos na vida! Do tamanho dos nossos sonhos.
ResponderExcluirCarta pra mim mesmo? Reflexões tardias de um torcedor apaixonado? A bola e o tempo? Memórias encantadas do esporte bretão? Crepúsculo em preto e branco?
ResponderExcluirTudo isso e muito mais!
A crônica que você escreveu emocionado não podia deixar de emocionar a cada um de seus leitores, caro Hayton!
Parabéns pela obra-prima!
Nunca é só sobre futebol, não é meu amigo? Tenho certeza de que hoje acordei mais cedo aquele piá que mora em você e que, há mais de meio século, quase virou centroavante do São Paulo. Acertei?
ExcluirParabéns pela crônica meu amigo, emocionante e maravilhosa !!!
ResponderExcluirIncrível como as memórias mais profundas não se apagam. Sou um daqueles que se encantaram com a explosão de Roberto Dinamite.
ResponderExcluirMemória e sonhos se confundem de um jeito inexplicável. E toda vez que penso em coisas do inconsciente lembro do grande amigo e extraordinário neurocientista Billy Nascimento. Aprendi com ele o quanto o inconsistente comanda nossas escolhas, nossas decisões e atitudes.
Qualquer hora dessas vou especular sobre o que acontece quando a memória começa a falhar. Gilberto Gil, na sua infinita sabedoria, disse recentemente algo sobre o envelhecimento e a perda seletiva de memória, que nos vai “livrando” das memórias que não interessam mais ser lembradas. Tomara que as boas lembranças não se percam nunca.
Um texto impecável capaz de provocar ciúmes em Armando Nogueira, Fernando Sabino e até no Bruxo do Cosme Velho.
ResponderExcluirBom dia caro amigo. Obrigado por mais uma bela crônica! Forte abraço.
ResponderExcluirÉ sua história sim!
ResponderExcluirUm verdadeiro "gol de placa" a crônica de hoje. Felizmente vivemos uma época áurea do futebol, como torcedores e/ou sonhadores, e cada um guarda recordações memoráveis de seus ídolos.
ResponderExcluirFutebol e arte!
ResponderExcluirSuas lembranças fortalecem qualquer memória, em especial os torcedores do Gigante da Colina. Em meados da década de 80, o Vasco fez um amistoso em Jacobina, com a presença do explosivo DINAMITE.
ResponderExcluirA vida é a junção de realidade, vivências, desejos adolescentes e realizações de sonhos, concretizados através de crônicas, livros ou filmes.
Estamos sempre mantendo viva a chama dos sonhos, e isso se torna ainda mais especial em tempos de Copa do Mundo. Continuamos sonhando alto, mesmo sem os grandes craques de outrora. No futebol de hoje, sentimos falta de nomes que marcaram época, como Zito, Garrincha, Pelé e Roberto Dinamite. Esses ídolos permanecem eternamente em nossa memória e em nossos sonhos.
ResponderExcluirHayton, como vascaíno apaixonado que você é, não poderia deixar passar em branco a brilhante crônica de hoje. Parabéns pela genialidade e pela sensibilidade, características tão próprias dos grandes escritores como você.
Não é apenas sobre ser vascaíno apaixonado - embora aí exista um belo pleonasmo -, meu caro Alberto. É também sobre reconhecer que certos ídolos ajudam a moldar, para o resto da vida, até o jeito de ser de seus fãs.
ExcluirE digo isso inclusive como alguém que enxerga Zico, um sujeito admirável e, para mim, o maior jogador da geração de Dinamite, com o mesmo entusiasmo e reverência.
É sempre algo agradável e gostoso ler seus escritos Hayton. Toda semana a ansiedade se avoluma na expectativa do que degustaremos. E que crônica excelente. Obrigado por nos ofertar mais uma preciosidade.
ResponderExcluirRoberto Dinamite e Zico, ao meu ver, faziam uma dupla de ataque perfeita. Pena que só jogaram juntos, e nunca perderam, em alguns jogos pela seleção brasileira. Acredito que se o Telê Santana tivesse escalado o Dinamite no lugar do Serginho, contra a Itália em 1982, a história poderia ter sido diferente. E como é bacana ler sobre a história do Dinamite, bem como, sobre a forma que ele te marcou, não apenas como ídolo, mas, principalmente, como amigo. Parabéns e um forte abraço!!!
ResponderExcluirRapaz, até eu me emocionei. Belíssimo!
ResponderExcluirAmei demais. Sonho e poesia me fizeram voltar à memória, e tive o impulso de procurar na minha caixa de entrada se não fui eu, o amigo merecedor de ter recebido essa missiva. Brilhante e inebriante viagem. 😍👏
ResponderExcluirFaltou o hino do Vasco como trilha sonora, sobreposto por uma narração antológica daquelas de Waldir Amaral, que terminava assim: “… Tem peixe na rede do Flamengo! Roberto, Roberto… indivíduo competente o Dinamite, choveu na horta vascaína!”
ExcluirBela crônica Hayton! Nas peladas que participei sempre fui ruin de bola. Mas em meus sonhos era protagonista dos mais belos gols. Bom rever relatos do craque Roberto Dinamite. Forte abraço.
ResponderExcluirExcelente, caro Hayton. PARABÉNS! Sonhar enriquece a alma. Uma forma de comunicação superior. Um abração. José Luiz.
ResponderExcluirComo VASCAÍNO, emocionei-me ao relembrar fases da vida do meu ídolo e excelente craque ROBERTO DINAMITE. Que DEUS o tenha em PAZ ao seu lado. José Luiz.
ResponderExcluirEspetacular meu Irmão! Além das emoções que aceleram o coração só em lembrar, sutilmente espalhadas em cada entrelinha, vemos aqui figuras de imagem maravilhosas: concreto das arquibancadas com pulmões.... invasão do tempo dos joelhos à cabeça.... Cada dia me convenço mais da sua genialidade no trato com as palavras. Simplesmente obrigado!
ResponderExcluirMuita emoção, amigo Hayton! Uma paixão futebolística explosiva como Dinamite! Gostaria de ter um ídolo assim; de torcer, conhecer, de misturar minha biografia com a dele e, anos após sua morte, lembrar detalhes que parecem ter vida, como se o craque Roberto Dinamite continuasse, ainda hoje, a fazer golaços no Maracanã. Nosso colega e meu amigo pessoal @Nelson Pascoal , quase tão vascaíno fanático quanto você, deve ter ficado em êxtase ao ler a crônica! Dizer que você colocou o coração na ponta da chuteira e nos dedos pra escrever esta história pode parecer lugar comum. Não é.🙌🏻🙌🏻🙌🏻👏🏻👏🏻👏🏻
ResponderExcluirQue lindeza!
ResponderExcluirA história já conhecíamos, mas, contada assim, fica ainda mais bonita, emocionante.
Não há limites para você, meu amigo!
Parabéns!
Os sonhos legítimos da infância, mesmo não percorridos, parecem hoje tão vivos quanto as inúmeras experiências que a Providência Divina nos ofereceu ao longo do caminho. O adulto fez outras coisas, mas aquela criança interior continua sendo um futuro grande jogador. Que crônica tão especial Hayton. PARABÉNS.
ResponderExcluirQue coisa linda, parabéns.
ResponderExcluirLi devagarinho, absorvendo cada passagem da vida do nosso Grande e Eterno Dinamite.Aquele gol eu vi depois, na televisão, no replay. Que pintura… uma verdadeira obra de arte!
ResponderExcluirA crônica é tão vívida e envolvente que me transporta diretamente para a arquibancada naquele instante mágico. Como não se emocionar? Como não gostar?
É muito bom devorar as crônicas do grande Hayton. Cada uma traz um tema diferente e um sabor especial que nos leva a ler cada uma até o fim! Parabéns e salve o inesquecível Roberto Dinamite! (Emilton Rocha)
ResponderExcluirPensei que estivesse falando do meu marido Mirandinha, o melhor jogador que já vi e que deixou de ser um profissional do futebol, optando pelo Banco do Brasil! Bela crônica Hayton!
ResponderExcluirAmigo, não entendo “lhufas” de futebol… sua crônica me tocou fundo… e não estou falando de futebol! 🌻
ResponderExcluirQue texto forte, Hayton! Lembra Nelson Rodrigues descrevendo futebol como tragédia humana, embora com menos ironia: "A arquibancada explodia como se concreto tivesse pulmões." Imagem extraordinária e que dá uma visão completa da torcida do Vasco explodindo de alegria no Maracanã, após o gol de placa do Dinamite.
ResponderExcluirAcho que por essa época, final dos anos 70, trabalhávamos no SETOP da Centro Maceió e ainda me lembro com que alegria você chegava no setor, após cada vitória do Vasco e, principalmente, da sua admiração por Roberto Dinamite e eu, também vascaíno doente, do tempo de Ademir Menezes, Danilo e Bellini, ficava muito feliz em ver tudo aquilo.
Mais uma linda e atual👏🏻👏🏻 crônica .PARABÉNS ,HAYTON !
ResponderExcluirNão sou vascaína, mas gosto demais de futebol. Mas gosto mais ainda da arte da escrita que conta histórias, descreve lugares, pessoas e emoções dessas pessoas. E Hayton faz isso com alma!
ResponderExcluirQue linda carta!
E ainda falam que tudo acaba com a morte. Não, não acaba. As histórias belas de vida, como a de Roberto Dinamite, se eternizam pela arte poética da escrita.
Parabéns, Hayton, pela crônica tocante de hoje!
Vida longa ao Vasco, ao futebol verdadeiro e aos magos da escrita.
Muito boa a sua crônica de hoje, relembrando episódios de sua vida e expressando a sua admiração pelo grande craque Bob Dinamite!
ResponderExcluirAbração
Quando a narrativa retrata o próprio autor como protagonista, em descontraída conversa com um grande ídolo de sua adolescência, a crônica assume fortes contornos de elevada criatividade. Uma verdadeira obra de arte literária. Parabéns!!!
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