junho 20, 2026

Pelé jogou ao lado de Charles


PELÉ JOGOU AO LADO DE CHARLES 

Hayton Rocha

 

Nizan Guanaes costuma dizer que o baiano tenta ser humilde, mas não encontra argumento.

 

Morei duas vezes em Salvador e posso testemunhar que a frase não é caricatural. É só um resumo feliz de um povo que desenvolveu uma relação muito particular com a autoestima. O baiano gosta da Bahia como quem gosta de um filho talentoso: reconhece os defeitos, mas considera todos irrelevantes diante das qualidades. Não se trata exatamente de arrogância. É mais uma espécie de convicção herdada de geração em geração. Depois de conviver algum tempo por lá, a gente percebe que o baiano não acredita morar num estado. A impressão que se tem é que mora numa tese.

 

Talvez por isso a Bahia tenha produzido tantos artistas, escritores, músicos e personagens que parecem maiores do que a própria geografia. Não importa em que parte do mundo estejam. Continuam sendo apresentados como baianos antes de qualquer outra coisa. Primeiro vem a Bahia. O restante da ficha técnica aparece depois.

 

Uma das melhores demonstrações desse fenômeno chegou à minha casa pelas mãos de um dos meus filhos.


Era 31 de outubro de 1990. Naquela tarde, a televisão exibiria um acontecimento marcante: o jogo comemorativo dos cinquenta anos de Pelé. A Seleção Brasileira enfrentaria um combinado do Resto do Mundo no estádio San Siro, em Milão. Do outro lado estariam Van Basten, Hagi, Stoichkov, Roger Milla e outros craques que faziam qualquer amante do futebol procurar uma poltrona confortável diante da televisão.

 

Pelé, já com cinquenta anos, voltaria a vestir a camisa 10 do Brasil. Jogaria apenas parte da partida, mas isso pouco importava. Era o Rei voltando ao gramado.

 


 

Naquele mesmo dia, durante o recreio da Escola Teresa de Lisieux, na Pituba, um colega perguntou ao meu filho:

— Você vai ver o jogo hoje?

— Claro.

O colega então lembrou com a naturalidade de quem informa que fará sol no próximo sábado:

— Pelé vai jogar ao lado de Charles.

 

A frase me chegou mais tarde e alugou um espaço permanente na memória. Reparem na ordem dos fatores. Não era Charles jogando ao lado de Pelé. Era Pelé jogando ao lado de Charles.

 

Para qualquer habitante de um dos trezentos milhões de planetas da Via Láctea que desembarcasse em Salvador naquele dia, a conclusão seria inevitável: Charles devia ser uma espécie de soberano do esporte universal que havia concedido ao rei do futebol a honra de dividir o gramado com ele durante alguns minutos.

 

E, pensando bem, talvez fosse exatamente isso. Naqueles anos, Charles não era apenas o centroavante do Bahia. Era uma dessas figuras que deixam de pertencer ao clube e passam a pertencer à torcida. Havia participado da conquista do título brasileiro de 1988, tornara-se artilheiro do Campeonato Brasileiro em 1990 e carregava a rara condição de ídolo unanimemente aprovado por uma multidão tricolor que nunca foi conhecida pela moderação dos sentimentos.

 

Quando acabou cortado da Seleção às vésperas da Copa América de 1989, a Bahia reagiu como se a injustiça tivesse sido cometida contra um filho querido. Quem conhece os baianos sabe que essa frase não é metáfora.

  

Aqui estava toda a explicação. O mundo inteiro admirava o Rei. Mas, para um menino baiano em 1990, Charles era o sujeito cuja fotografia podia estar na parede do quarto, cujo último gol era discutido no recreio da escola, no Farol da Barra ou na Baixa dos Sapateiros, e cujo nome aparecia em qualquer almoço de domingo.

 


O jogo aconteceu. O combinado internacional venceu por 2 a 1. Pelé entrou como titular e permaneceu em campo cerca de quarenta e dois minutos antes de ser substituído. Charles também jogou.

 

Os registros históricos dirão que Charles teve o privilégio de atuar quarenta e dois minutos ao lado do maior jogador de futebol de todos os tempos.

 

Em tempos de Copa do Mundo, não vou discutir com os registros históricos. Mas toda vez que lembro daquela conversa de recreio na Pituba, sou obrigado a admitir que existe outra versão dos fatos.

 

Na versão contada pelos olhos de um menino baiano, Pelé teve o privilégio de jogar quarenta e dois minutos ao lado de Charles. 

20 comentários:

  1. Ademar Rafael Ferreira20 de junho de 2026 às 08:06

    É assim que os baianos são tratados respeitosamente pelos conterrâneos, valorização sem medo de excessos.

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  2. ROBERTO SANTOS FERNANDES20 de junho de 2026 às 08:13

    Parabéns pelo texto!
    Muito interessante!
    Essa é uma opinião de seu amigo soteropolitano.
    Kkkk

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  3. Parabéns pela crônica. Acho que todo brasileiro é um pouco baiano. O menino estava certo: Pelé teve a honra de jogar ao lado de um baiano. Como paraibano, estou dizendo por aí , que Cunha deu moral a seleção ( PB)

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  4. Pois é! Baiano e "fogo:...

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  5. Mais do que uma crônica sobre futebol, o cronista fala sobre memória, amor e identidade cultural. Com linguagem leve e bem-humorada, contrapõe os "registros históricos" à verdade afetiva, lembrando que a importância das pessoas nem sempre é medida pela fama, mas pelo lugar que ocupam no coração de uma comunidade, de uma nação..

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  6. O Brasil nasceu aqui neste "Estado de Espírito", cultura e acolhimento. Viva a baianidade presente na memória dos que aqui viveram.

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  7. Ótima síntese do justificável orgulho da baianidade! Como todos sabemos, baiano não nasce, estreia!
    Muito generoso o Charles: deixar o Pelé jogar ao seu lado por 42 minutos foi uma dádiva! Agora eternizada na crônica do Hayton!!!

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  8. Pelé é só Rei do mundo, já Charles é "meu Rei".

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  9. Bom dia Amigo Parahyba!
    Os baianos da beira do mar são de tal forma contundentes que cunharam uma máxima só deles: “baiano não nasce. Baiano estreia.”.
    Aliás a maravilhosa crônica de hoje, é retrato fidedigno da nossa baianidade. Seja os da beira mar ou os do cerrado, como o tabaréu que forja este comentário.
    Feliz São João, pra vocês “tudim” 🔥🪗 🔥

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  10. Sempre chamei os nascidos na Bahia pelos seus nomes, enquanto via outras pessoas se referirem a eles simplesmente como “baianos”. Não sabia que esse gentílico pudesse ser recebido como um elogio… rsrsrs.

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  11. Baiano tem que ser estudado pela ciência. A vantagem é que a amostragem pode ser pequena. São todos iguais.

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  12. Amigo,
    Ja escutei que “baiano” não é cidadania, mas um “estado de espírito”! É mais ou menos por aí! Já pensou se Pelé fosse baiano?
    Abs

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  13. Pelé é de uma grandeza que dispensa apresentações. Quem teve o privilégio de passar alguns minutos ao lado do Rei do Futebol carrega essa lembrança para sempre; imagine, então, ter a oportunidade de jogar ao seu lado. Foi um momento inesquecível para Charles, que, acredito, mal deve ter prestado atenção na bola diante de tamanha emoção. Parabéns, Hayton, por mais uma vez registrar verdadeiras pérolas do nosso povo nordestino em suas crônicas.

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  14. Excelente lembrança!!

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  15. Lembro bem do Charles. Era tão goleador quanto Clodoaldo; não o da seleção, mas o terror do Ceará. Realmente Pelé jogar ao lado de Charles foi pra ele um privilégio. O "ele" fica por conta do leitor baiano.

    Adorei a crônica.

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  16. Altamirando Ferreira da Silva20 de junho de 2026 às 12:33

    Aqui na Bahia, estufamos o peito e dizemos: Deus me livre de não ser baiano!!

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  17. À primeira vista, ao ler o título da crônica, falei para meus botões:

    - E o príncipe Charles, agora também rei, jogou futebol?

    À medida que entrei no texto é que entendi que Nizan Guanaes tem razão em seu dito.

    Acredito que a diferença entre o Charles, jogador baiano, e o Pelé é que este, todos lembramos, já aquele, só algumas memórias ufanistas baianas.

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  18. Viva a Bahia! Mas em 2026 Matheus Cunha é meu preferido na seleção. Joga muito esse paraibano.

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  19. Que beleza!
    Futebol é paixão.
    Então vale tudo quando se tem boa intenção.
    Viva o Pelé! Viva o Charles!

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