UM PRIVILÉGIO REAL
Hayton Rocha
Há homens que atravessam a História. E há os raríssimos que fazem a própria História levantar-se para aplaudi-los.
Ele pertencia a essa segunda espécie. Não era apenas jogador de futebol. Foi um desses acontecimentos improváveis que lembram ao mundo que a genialidade brota em qualquer lugar. Quando surgiu, ainda menino, parecia invenção literária de Nelson Rodrigues. Mas existia. Corria, driblava, saltava e vencia.
Começa mais uma Copa do Mundo. Com ela, acorda aquela mistura de cautela e fé que cochila dentro do torcedor brasileiro. O que pendura bandeira na janela, faz promessa, mas assiste aos jogos como quem ainda é apaixonado, porém aprendeu a desconfiar do que vem aí.
Talvez porque, desde que ele deixou os estádios, o futebol brasileiro nunca mais tenha parecido completamente seguro de si. Perdemos mais que um craque. Perdemos uma certa sensação de que, diante do impossível, sempre haveria alguém capaz de inventar uma saída.
Conheci muita gente na vida. Bispos, empresários, governadores, ministros cercados de vaidades e outros pecados. Nenhum possuía aquela aura invisível que orbitava em torno dele. Se entrava num ambiente sem anunciar presença, aos poucos as conversas baixavam de tom e até o ar parecia reorganizar objetos e pessoas.
Foi assim numa manhã de junho de 2013, no Morumbi, em São Paulo, durante o lançamento da exposição Brasil... um país, um mundo. Lembro-me do zumzum respeitoso, daquela agitação típica dos lugares onde alguém maior que a própria ocasião acaba de chegar.
Entrou sem coroa, com a naturalidade dos que já não precisam provar nada a ninguém. E o mais impressionante foi perceber que sua grandeza não vinha da arrogância. Havia gravidade e leveza convivendo sem conflito, como acontece apenas com raríssimos seres humanos.
Naquela manhã, aproveitei alguns minutos do privilégio improvável de estar a seu lado para lhe contar uma antiga frustração de meu pai e minha: não o vimos jogar em Maceió, na inauguração do Estádio Rei Pelé, em 1970. O dinheiro dos ingressos faria falta na feira da semana seguinte.
Ele ouviu e sorriu. E por alguns segundos fiquei olhando aquela cena improvável: o homem mais famoso do planeta ouvindo minha história com a atenção de um vizinho de porta.
Não parecia gesto ensaiado. Havia interesse naquele olhar. Como se compreendesse que milhões de pessoas carregavam pequenas lembranças ligadas à sua existência: um gol ouvido no rádio, uma velha fotografia da revista Placar, uma pelada na chuva, fogos explodindo numa rua qualquer.
Já não precisava entrar em campo para continuar habitando a memória coletiva do mundo.
Alguns meses depois, nos reencontramos em Brasília, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. E aconteceu uma dessas cenas que a mente guarda em câmera lenta. Como se fôssemos velhos conhecidos, trouxe para mim uma camisa autografada.
Às vezes me pergunto quantas pessoas o abordavam diariamente, quantas histórias escutava, quantos rostos atravessavam sua rotina. Ainda assim, de algum modo, lembrara daquele breve encontro.
Guardo a camisa com cuidado quase litúrgico porque ela não é apenas um objeto esportivo. É a relíquia de um instante raro de gentileza de alguém cujos feitos jamais conseguiram explicar por inteiro.
Mas hoje já não são os gols antigos que mais me emocionam. Revi recentemente, num documentário sobre sua vida, imagens de um gigante atropelado pelo tempo, caminhando devagar, apoiado em andador. Em seguida aparecia o garoto de dezessete anos correndo pelos gramados da Suécia como quem brincava no recreio do grupo escolar.
Há algo profundamente humano e doloroso nesse contraste. O corpo entrega os pontos devagarinho. A memória, não.
Quem sabe por isso sua morte, logo após a Copa de 2022, tenha provocado em mim uma tristeza difícil de explicar. Não apenas porque partia o maior jogador que vi. Mas porque desaparecia uma das últimas figuras capazes de unir, por alguns instantes, um país acostumado a discordar de tudo.
Sei que, daqui a pouco, quando soar o apito de largada do Brasil na Copa de 2026, vou lembrar daquele gol contra a Suécia, em 1958: o chapéu no zagueiro, o toque suave por baixo do goleiro e o menino correndo para os braços do mundo. Ou da cabeçada na final de 1970, quando pareceu desafiar a gravidade para abrir o caminho do tricampeonato.
Durante pouco mais de uma década o mundo pareceu caber dentro de uma bola. Descobriu-se que futebol podia ser arte. E às vezes penso que meu verdadeiro privilégio não foi apertar sua mão.
Foi ter nascido na mesma época em que ele esteve entre nós.

Excelente e emocionante, Mestre Hayton. Seu texto foi muito sensível ao lembrar a grandeza de Pelé, transformando a admiração pelo jogador em pura poesia. Você destacou o Rei, sem esquecer de como ele era simples no dia a dia. É a crônica perfeita para iniciar mais uma Copa do Mundo, mostrando que o futebol bonito é, acima de tudo, feito de humanidade.
ResponderExcluirOs monstros sagrados são bem maiores na nossa imaginação, meu caro Oceano. De perto, é como se a vida volta e meia lembrasse: “tu és mortal!”
ExcluirO peso da história que justifica uma edição extraordinária da crônica semanal... que os espíritos dessas lendas inspirem a atual geração em campo... precisando...
ResponderExcluirExcelente , bela lembrança! Que ele nos ajude, de onde estiver, logo mais contra Marrocos.
ResponderExcluirPelé meu conterrâneo ilustre! Meu pai jogou com Dondinho, pai do Pelé e dizia que o pai era melhor do que o REI
ResponderExcluirShow!!👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻 Pelé, muito obrigado! Que privilégio ser seu contemporâneo e vê-lo desfilar um talento insuperável.
ResponderExcluirO nosso mais profundo muito obrigado, Pelé.
Beto Barretto
Excelente crônica, como sempre. Não sou aficcionada por futebol, não torço por time nenhum, mas aquela copa de 70 uniu a garotada na sala lá de casa com silêncios, gritos e muito amendoim cozido. Nelza Martins
ResponderExcluirComo é bom ser agraciado. O destino provocou o encontro com quem nunca perdeu a majestade. A crônica é um gol de letra na arte de transformar momentos em uma eterna emoção.
ResponderExcluirComentar o quê, pelo amor de Deus?!🙏🙏🙏
ResponderExcluirApenas aplaudir é o que basta! Privilégio que poucos tiveram, neste país e neste mundão de meu Deus👏👏👏👏👏
Só o vi jogar, ao vivo, uma vez. Foi na antiga Fonte Nova, em partida pelo Campeonato Nacional, Vitória x Santos. Naquele jogo o Vitória vencera pelo placar de 2 x1 Tenho guardado o ingresso ao estádio, que fiz datilografar no seu verso a escalação dos dois times de futebol.
Você é alé de um felizardo, um escritor que nos proporciona alegrias como esta!
#vumboraBrasil, Pelé merece todo seu esforço em campo e fora dele⚽⚽⚽🏆🏆🏆🏆🏆🏆🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷
Obrigado, Hayton! Ótimo texto!
ResponderExcluirEle escreve crônicas como Ele jogava. Com leveza, com poesia, com profundidade. Ele e ele fizeram e fazem de seu ofício uma arte, encantando o público. Firula, só na hora certa e com propósito claro.
ResponderExcluirEle era chamado de Ele quando o mundo todo já o conhecia. Já ele, é capaz de escrever um texto inteiro sem precisar pronunciar o nome d’Ele.
Ele já está há vitória, enquanto ele é capaz de deixar escorrer gratuitamente para seus leitores um título que, na polissemia de uma só palavra, une aquilo que é verdadeiro e palpável com aquEle que é majestade.
O clima ajuda, Riede. Enquanto a bola não rola, todo devaneio é permitido. Vai que…
ExcluirO corretor me traiu. O último parágrafo era pra ser:
Excluir“ Ele já está na história porque nos deu muitos títulos, enquanto ele é capaz de deixar escorrer gratuitamente para seus leitores um título que, na polissemia de uma só palavra, une aquilo que é verdadeiro e palpável com aquEle que é majestade.”
Texto excelente.Apenas merecendo uma pequena retificação.Em 1970 fomos tricampeões.Bicampeões fomos em 1962.José Severino do Carmo-Caruaru
ExcluirDois mestres em suas artes. Pelé jogando (sem comentários) e o cronista relatando ( sem comentários) ……
ResponderExcluirPelé foi e será o Rei do futebol. Hoje os jogadores só pensam em aparecer
ResponderExcluirDaquelas memórias que são relíquias incomparáveis. Bela história pra esquentar o clima do Brasil na copa, pra quem gosta de futebol, como eu.
ResponderExcluirBeleza de crônica. Boas lembranças de um futebol que não existe mais. Hoje, tenho a impressão, os jogadores estão mais preocupados com o cabeleireiro que com o massagista!
ResponderExcluirAbração. Gradim
ResponderExcluirQue honra, Hayton! Conhecer o Rei do Futebol e ainda receber uma camisa autografada por ele foi, sem dúvida, um momento inesquecível, um verdadeiro gol de placa na vida. Ao compartilhar essa experiência tão especial conosco, leitores, justamente em um ano de Copa do Mundo, você nos faz acreditar que a esperança pode ser renovada e que grandes emoções continuam capazes de inspirar e unir as pessoas. Parabéns por mais uma crônica enriquecedora e cheia de significado.
ResponderExcluirCom esse belo pontapé do escritor quem sabe a seleção brasileira consiga um pouco da pegada do rei e chegar ao título?
ResponderExcluirNão custa sonhar...
Bom texto, brilhante como as jogadas de Pelé que emocionam aqueles que admiram o futebol. Durante a leitura me veio a mente a lembrança de quando estive na Vila Belmiro, visitei o museu e pisei no solo sagrado como se fosse disputar uma partida de futebol.
ResponderExcluirMeu Deus, que maravilha... a memória do Pelé, de fato, merecia uma crônica, tão boa. E você, meu amigo soube honrar o privilégio dos poucos e tão marcantes encontros com o REI.
ResponderExcluirAcho tão especial termos vividos nos mesmos tempos de alguns idolos e, dentre esses, Pelé é unanimidade. Não há brasileiro que não o reconheça o melhor do mundo, aquele que significava alegria e orgulho em vestir uma camisa amarela e se exibir como brasileiro, ser do país do rei, do maior, do invencível, do imbatível.
Sinto muita falta de ver e nas novas gerações esse orgulho, o peito inflado por pertencer a este time. Dá dó. Eles não têm noção do quanto era bom torcer com o coração explodindo em esperança e fé pela vitória.
Grata a você por ter nos privilegiado com o compartilhamento da sua história. Me sinto orgulhosa por tabela.
Simplesmente sensacional!
ResponderExcluirComo sempre, mas diferente.
Uma justa homenagem, saborosa de ser lida. Mas, o que me pegou e deixou meu cérebro "ruminando" foi a frase "O corpo entrega os pontos devagarinho. A memória, não."
ResponderExcluirHistória emocionante.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEmoção sem fim!!!
ResponderExcluirEita, Hayton! Você não dorme no ponto. No dia em que o Brasil inicia sua caminhada rumo ao tão sonhado hexa, você nos brinda com essa joia de crônica e relembra seus dois encontros com o Rei: privilégio para poucos, sobretudo se considerarmos que Pelé o presenteou com uma camisa 10 autografada, relíquia que certamente permanece guardada a sete chaves.
ResponderExcluirEu tive, por duas vezes, o privilégio de ver Pelé jogar. A primeira vez foi aquela que você, infelizmente, não foi: na inauguração do Rei Pelé; a segunda, em 1975, em Campinas, quando enfrentou o Guarani Futebol Clube pelo Campeonato Paulista.
Da Copa do Mundo de 1970, assistida pela televisão, o lance que mais ficou gravado em minha memória foi aquele em que Gérson faz um daqueles lançamentos de mais de "setenta" metros, e Pelé, cercado por zagueiros adversários, domina a gorduchinha no peito com a naturalidade dos gênios e, num só movimento, emenda para o gol. Foi um daqueles momentos que ajudam a explicar por que ele se tornou eterno.
Que essa excelente crônica extra dessa semana, relembrando um tema que é paixão nacional, seja um prenúncio positivo para o início de mais uma jornada da seleção, rumo ao sonhado hexa.
ResponderExcluirEmbora eu não cultive mais a paixão que tinha pelo esporte, quando da minha juventude, espero que possamos assistir a bons jogos. E se for com vitórias do Brasil, melhor.
Onde o rei Pelé estiver, com a nobreza que lhe foi reservada, agradecerá esse texto onde cada palavra representa um bole gol. Parabéns e sucesso.
ResponderExcluirPrezado Hayton, que crônica brilhante! Falar bonito de nosso monstro sagrado maior!
ResponderExcluirQue beleza!
Adorei! Inveja boa do privilégio do seu contato e da camisa autografada. Delícia de texto. Diniz.
ResponderExcluirVocê foi um privilegiado de conhecer esse gênio pessoalmente, Hayton.
ResponderExcluirMais uma crônica excelente. Já procurei várias palavras para falar sobre Pelé, mas o que? Você falou tudo de forma maestral.
ResponderExcluirVi aquele documentário e pensei: a morte não respeita ninguém. Me marcou também, diria quase igual, ver o nosso Dinamite num corredor de hospital caminhando com dificuldade. Pensei: Ele também é humano? Até ali achava que não era. Que vida louca!!!
Abraço
Justa e oportuna homenagem ao maior jogador de futebol de todos os tempos. De fato, é um privilégio real para o autor ter conhecido o Rei Pelé no exercício de sua atividade laboral e dEle recebido uma camisa autografada do Santos. Parabéns!!!
ResponderExcluirCaro Hayton.
ResponderExcluirDesta vez você narrou um encontro marcante, invejado por muitos de nos. A simplicidade do relato aludindo ao Morumbi, ao sorriso, à camisa autografada, constitui uma como prova de que a grandeza de Pelé não necessitava de espetáculo para se mostrar; bastava a presença e atenção. Esse detalhe considero muito importante, porque o privilégio não foi apenas tocar uma lenda, mas ser visto e ouvido por ela.
A cena em que o Rei escuta a frustração sobre o ingresso revela o que há de mais humano no mito. Muitos poderiam orgulhar-se apenas de ter estado na mesma sala. Poucos tiveram, como você, a sorte de conseguir uma conversa, de compartilhar de uma lembrança e de sair com a certeza de que aquilo importava para o outro. É esse caráter de reciprocidade, tão raro nas grandes figuras públicas, o que torna o encontro verdadeiramente privilegiado.
Trata-se de uma homenagem, um reconhecimento sem adulação, reverência sem exagero, saudade sem pieguice. O contraste entre as imagens do atleta invencível e o homem envelhecido foi muito digno, pois tratou o tema com ternura, não com morbidez. Essa humanização não diminui o mito, antes, aproxima o de todos nós e explica por que sua partida fez tanto.
Com efeito, considerar que o maior privilégio foi ter nascido na mesma época em que Pelé viveu, é uma verdade inquestionável, porquanto também me considero privilegiado por isso. Parabéns por esta oportuna e magnífica crônica.
Crônica, como sempre, sensível e muito tocante!
ResponderExcluirUm registro da história de sucesso e humildade de um maravilhoso craque da bola escrito por um craque das letras, descrevendo e provocando emoções.
Nunca nos esqueçamos: Pelé disse "love, love, love"
ResponderExcluirA facilidade com que você escreve amigo é algo invejável. Até quem não liga para futebol, como eu, não pode deixar passar em branco sem comentar essa beleza de crônica. Parabéns sempre!
ResponderExcluirAntes de tudo, tenho que fazer um registro de algo que talvez tenha passado despercebido dos outros comentaristas que, como eu, quase se estupefaram com o brilhantismo insuperável da crônica.
ResponderExcluirO detalhe a que me refiro é sua expressão - ministros cercados de vaidades e outros pecados. Realmente, a definição é antológica, marcante, insuperável e inesquecível.
Não posso deixar de registrar também, a definitiva afirmação do Riede, realmente, você é o Pelé da crônica.
Não acredito em vida espiritual, mas, se houver, o Rei deve estar lá correndo, vibrando e divulgando aos vizinhos sua peça.
Como digo sempre, você, pra ser perfeito e imortal, só falta torcer pra o Flamengo...(não consegui evitar a sacanagem...rsrsrs)
Que privilégio viver na mesma época do Rei do Futebol, que vc tão bem retrata nessa crônica singular, pois ambos são inigualáveis em suas artes.
ResponderExcluirParabéns por essa crônica em homenagem ao nosso maior craque do futebol mundial.
ResponderExcluirTive o privilégio de conhecê-lo e vê-lo jogar. Não era gente, era uma obra de arte. Que pena que passou. Sempre me lembro dele pois passo com frequência no trevo de Três Corações onde está a estátua em sua homenagem.
ResponderExcluirNoooossa meu amigo, que honra, que golaço ⚽️ 🙌
ResponderExcluirGilton Della Cella
ResponderExcluirAssisti recentemente à minissérie "A Saga do Tri", na Netflix. Ali, percebi que o futebol com Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino e tantos outros craques foi um presente inesquecível para os amantes do futebol. Nunca vi Pelé ao vivo, mas aquele gol de cabeça na final contra a Itália na final da copa de 1970 foi a sua imagem mais marcante que levo da sua existência. Pelé foi e sempre será a marca do fitebol arte. Hoje, a arte no futebol a gente só vê nos cabelos desenhados dos jogadores, porque futebol mesmo é coisa do passado.
ResponderExcluirHayton viveu o sonho de poucos brasileiros em ter uma camisa autografada do rei. Guarde com muito carinho, pois isso não tem preço.