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| Ilustração: Uilson Morais (Umor) |
SANGUE NO QUINTAL
Hayton Rocha
Dia desses, meu amigo Avelar me convidou para um sábado no Porto Gurgueia, sua chácara em Sobradinho, impondo um pedágio inusitado: eu deveria preparar um guisado de duas galinhas que ele acabara de abater, acompanhado de feijão verde e purê de batatas.
Aceitei a contrapartida, talvez embalado pela bebida que descia goela abaixo nas preliminares com Manoel, Nassib e Rodrigo. No lugar da clássica galinha ao molho pardo, servi uma versão “sem sangue”: vinho tinto e cebola torrada substituíram o ritual da cabidela, emprestando cor e sabor ao molho sem necessidade de qualquer sacrifício vampiresco. Bastou refogar a galinha com alho, cebola picada, pimentão e tomate, cozinhar em água, fritar uma cebola grande até quase virar carvão, misturar vinho e engrossar com farinha de milho. O resultado surpreendeu.
Na boquinha da noite, depois da soneca no alpendre e entre goles de café preto, Avelar quis saber a origem da minha “aversão” ao molho pardo. Expliquei que não havia aversão — apenas experimentara um jeito alternativo de cozinhar. Porém, atiçado pela curiosidade dele, lembrei-me de uma cena que talvez explique tudo.
Voltei a 1968, em União dos Palmares, Zona da Mata alagoana. Revi o menino que cuidava de galinhas como quem cuida de irmãs menores. Até o dia em que a própria mãe, com um punhado de milho e um tititi disfarçado de carinho, atraiu três delas para dentro da cozinha. Libertou as menores e fechou a porta. A gordinha ficou.
Com o pé esquerdo, pisou-lhe as pernas contra o chão. A mão direita empunhava uma faca afiada. Um golpe certeiro no pescoço. A carótida rompida. O sangue jorrando na vasilha. O menino, paralisado, registrou cada detalhe. A ave debatendo-se. O líquido vermelho enchendo o recipiente. A vida escorrendo até o silêncio.
Pior foi perceber que a assassina era sua mãe. A mesma que rezava ajoelhada na Matriz de Santa Maria Madalena, aos domingos, pela salvação das almas — menos das aves do quintal.
O corpo ainda quente foi mergulhado em água fervendo dentro de um caldeirão. As penas arrancadas sem dó. A penugem sapecada na boca do fogão. Depois, cortada em pedaços: asas, coxas, peito, miúdos. Tudo temperado com alho, cominho, pimenta, sal e vinagre. Um preparo que, para o menino, parecia uma tentativa vã de curar ferimentos que já não tinham solução.
– E o sangue? Vai jogar no ralo da pia? – perguntou ele, ainda chocado com a cena.
– Saia daí! Vá brincar no quintal! – decretou a mãe.
No galinheiro, o menino esperava encontrar revolta. Imaginava que as sobreviventes iniciariam uma greve de fome, rejeitando milho e restos de comida em protesto pelo sacrifício da amiga. Mas não. Lá estavam todas conformadas, submissas à rotina miúda: beber água e olhar pro céu, ciscar, tolerar o estupro do galo sem quaisquer preliminares. Para o menino, parecia apenas um gesto de gentileza masculina para protegê-las da chuva e do vento frio à sombra. Não sabia que gentileza nenhuma havia naqueles esporões ameaçando cangotes.
Na mesa, ninguém estranhou o cardápio: “galinha à cabidela”, eufemismo para disfarçar a crueldade dos esfomeados.
– Eu quero uma coxa! – apressou-se a irmã mais velha.
– A titela é minha! – gritou o irmão do meio.
– Quero o coração e a moela! – exigiu outro.
– Pelo visto, só vai sobrar ciscador, grade e sobrecu... – brincou o pai, sentado à cabeceira.
O menino, engasgado com a própria tristeza, não conseguiu achar graça. O mundo ao redor parecia normal: a família de barriga cheia, as demais galinhas vivas indiferentes ao massacre, a mãe satisfeita com seu prato. “Tudo vale a pena se a ração não for pequena”, pareciam cacarejar, mesmo sem nunca ter lido Pessoa.
Um ano antes, em 1967, o menino havia lido que a democracia sangrara no céu do Nordeste com a queda do avião do presidente Castelo Branco. Agora, ele sangrava em silêncio no quintal de União dos Palmares. A ditadura engrossava o caldo tanto na panela de guisado quanto nos porões do regime.
Um mês mais tarde, a peste aviária — “murrinha” — dizimou todo o plantel, pintinhos incluídos. Houve quem dissesse que foi praga rogada pelo menino inconformado. Calúnia, claro. Mas talvez tenha ocorrido uma súplica inocente aos deuses dos quintais: que se fizesse justiça onde a solidariedade falhara, que se calasse para sempre o galinheiro acovardado e cúmplice.
Avelar, ouvindo a história, sentenciou que aquilo só podia ser verdade. Eu, até hoje, não digo que sim nem que não. Mas desconfio de que foi naquela manhã de 1968 que aprendi a detestar a ideia de cozinhar uma criatura no próprio sangue.
Por isso, se tiver que botar novamente uma galinha na panela — faz tempo que não faço isso —, optarei de novo pelo vinho tinto, seco. Um Cabernet Sauvignon, pelo menos, não exige sacrifício: só aquece e consola.
Vem aí...








