quinta-feira, 4 de abril de 2019

E se essa história fosse outra?

Outro dia o presidente do Banco do Brasil requentou em forno microondas o debate sobre privatização ao declarar que se isso acontecer a empresa se tornará mais eficiente, embora reconheça que o tema não está na agenda do atual governo. Foi o bastante para reaparecer na mídia e nas redes sociais discussões acaloradas, cada lado com suas verdades inflexíveis. 

 

A declaração me fez refletir sobre os graves problemas na educação pública brasileira, onde ainda existem crianças no 6º ano do ensino fundamental que não sabem ler nem escrever. Esse fato, inclusive, para mim reflete a atual estrutura educacional do país, caracterizada por um círculo vicioso que começa em baixa remuneração, passa por despreparo de professores e diretores, instalações precárias, evasão escolar, até omissão de pais na educação de seus filhos, como se essa tarefa fosse exclusivamente da escola.

 

Sem desmerecer o papel do banco na história do desenvolvimento econômico nacional, pode-se indagar: e se D. João VI, depois de algumas garrafas de vinho na noite anterior ao dia 12 de outubro de 1808, decretasse a abertura do que chamarei EducaBrasil S/A, empresa fictícia de economia mista que passo a detalhar mais adiante, em alternativa à criação do banco?

 

Claro que era importante a abertura de um banco para atender às demandas iniciais de uma economia incipiente, mas já existiam banqueiros europeus que enxergavam boas perspectivas de negócios com a chegada no Brasil da família real. E duvido que esses banqueiros falissem por conta dos elevados saques realizados quando do retorno de D. João VI a Portugal, como aconteceu com a instituição duas décadas depois, em 1829. 

 

E se durante os últimos dois séculos todos os recursos públicos e privados investidos no banco (humanos, materiais e tecnológicos) fossem direcionados para a educação, de primeiro e segundo graus, em “agências” de ensino-aprendizagem estruturadas do Oiapoque ao Chuí?

 

E se os professores, bedéis e diretores dessas agências fossem capacitados não para distribuir crédito rural subsidiado na abertura de fronteiras agrícolas  um dos motivos da brutal concentração de renda neste país , mas sim para discutir no meio rural coisas como: manejo de águas e solos, controle de pragas, diferença entre plantar para vender e vender para plantar?

 

E se outros colaboradores fossem treinados não para abrir contas correntes ou fazer pagamentos e recebimentos, mas sim para disseminar no meio urbano coisas como: mapeamento de ameaças e oportunidades de negócio, gestão de recursos escassos, redução de desperdícios, diferença entre causa e consequência de problemas econômico-financeiros?

 

E se a proposta didático-pedagógica da EducaBrasil S/A incorporasse algumas ideias de Frei Betto abordadas em seu artigo A escola de meus sonhos? Para ele, na escola ideal não haverá temas tabus. “Todas as situações-limites da vida devem ser tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade... o texto dentro do contexto: a matemática busca exemplos na corrupção... o português, ...nos textos de jornais; a geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a física, nas corridas da Fórmula 1 e pesquisas do telescópio Hubble; a química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a história, na violência de policiais a cidadãos, para mostrar os antecedentes na relação colonizadores-índios, senhores-escravos...”

 

Com esse caldo de cultura devidamente encorpado ao longo de dois séculos por colaboradores fiéis, certamente a EducaBrasil S/A teria contribuído bem mais que um banco para alçar o país a degraus mais elevados de desenvolvimento socioeconômico. 


Colaboradores fiéis não só por conta da missão de educar gerando cidadania e resultados tangíveis para a sociedade, de receber por isso bons salários e benefícios, mas principalmente porque acionistas e empregados, juntos, haveriam de estruturar um grande fundo de pensão, aposentadoria e saúde, que seria percebido como o maior fator de atração e retenção de pessoas na empresa.

 

E se alguém cogitasse privatizar a EducaBrasil S/A, a própria sociedade estaria madura e preparada para dizer se vinha sendo bem servida, ou não. Afinal, como disse Deng Xiaoping (1904  1997), líder político que fez da China o país de maior crescimento econômico do planeta, “não importa se o gato é preto ou branco, desde que pegue os ratos”.


32 comentários:

  1. Bom Dia!
    Que realidade constatada, essencial, necessária. Empresa imprescindível no passado, presente e futuro. EducaBrasil S A. Seria motivo de orgulho, Patrimônio; portanto defendida por pela Sociedade, principalmente por sua capacidade de gerar riqueza, equilíbrio Social. Solução do maior gargalo existente em nossa Sociedade: Educação!
    PARABÉNS pelo texto e reflexão.

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  2. Seria diferente. Ao meu juízo de valor o BB sempre produziu bons frutos, o problema é o que foi feito da produção.

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    1. Sem dúvida, Ademar. Problema é que historicamente bancos são associados à usura, agiotagem. Já escolas são associadas àquilo que nos diferencia dos animais irracionais: a capacidade de pensar no futuro.

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  3. Se os recursos destinandos a Educação fossem aplicados, de forma correta ao longo da historia, estaríamos em outro estágio social e econômico. A questão não é falta de recursos, mas tão somente seriedade e compromisso social em sua aplicação.

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  4. Meu Amigo Hayton, Independente do Governo, sempre carecemos de vontade política para darmos um bom direcionamento para a educação. Quanto ao BB, me entristece o processo de desmonte da Empresa. Não ficarei surpreso se começar a apresentar resultados pífios ou até mesmo prejuízo para justificar sua ineficiência e uma possível privatização. Estou na torcida para que os atuais estatutários consigam abortar esta possibilidade/desejo do Presidente. Parabéns pela provocação. Excelente texto.

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    1. Liga... a rigor, já nem me preocupo se fica como está ou não. Preocupa é saber o que a sociedade pensa a respeito. A gente só deixa de usar um tênis quando já não serve mais.

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  5. Eu me lembro quando o falecido Betinho disse que o Brasil precisava entender e usar a estrutura de distribuição do Banco do Brasil para Educação e Saúde. A visão exemplificada figurativamente em seu texto é precisa e genial ao mostrar o que essa Rede poderia ter se tornado.
    Ao longo da história, pôde-se contar a História da Microeconomia Brasileira pela ordem dos prefixos das agências. O que acontecia em Manaus para ser a dois? Por que Santos era a 4?
    Decidimos, porém, limitar essa Rede a focar em distribuir soluções financeiras que, hoje, com a digitalização, nem a requer mais.
    Daí que outro fecho poderia ser: “se for só pra caçar ratos, não preciso cuidar do gato até ele ter tempo pra se aposentar.” (Contém ironia)

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  6. Posso até imaginar quem anonimamente fez este comentário pertinente, vertendo ironia pelas dobras do pescoço. Rsrs

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    1. Com exceção das dobras do pescoço, você é excelente em imaginar.

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    2. Sei que dois dedos de pescoço entre o cabeção e o tórax não deve ser considerado um grande pescoço. Foi só força de expressão rsrsrs

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  7. Instigante, intrigante e utópico o seu texto, Hayton. Merece de minha parte e de todos que compõem o seu seleto grupo de leitores reflexões que exigiriam um acurado estudo sociológico e econômico que não cabe aqui e, confesso, está além de minha capacidade.

    E se...

    Minha maior experiência à frente de operações de crédito se deu na Agência Centro de Maceió, na década de 70, numa época em que o dinheiro estava sobrando no mundo e o capital volátil era direcionado para países emergentes como o Brasil. Se os investimentos tivessem sido realizados corretamente e sem desvios o Brasil estaria entre as cinco grandes economias do mundo, a exemplo da China. Sobraria dinheiro para a educação, para a Educa Brasil S/A.

    Parabéns! Sua crônica, singular, atingiu todos os objetivos.

    Um abraço do Orlando

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    1. Tive o privilégio de conviver com você nesse tempo, por trás do balcão do terceiro andar da Rua do Livramento, 120, tentando fazer estudos de operação sob sua liderança. Aprendi bastante, meu amigo. E trago comigo o que consegui reter.

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Um sonho absurdo, terrivelmente absurdo, prenhe de detalhes que revelam a experiência profissional e a maturidade biológica do autor, atravessando a atmosfera da ficção para nos fazer acreditar que as coisas poderiam ser diferentes, que a vida não tem um único sentido. Inverter a fundação de uma instituição financeira estatal e vislumbrar na história o que poderia ter acontecido se D. João VI tivesse criado “agências” de educação em vez de agências bancárias deixa mais clara a ordem das prioridades neste mundo de meu Rei, daqui e de além-mar. Parabéns. (Érico Abreu)

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    1. Bem dizia Millor, meu amigo: “livre pensar é só pensar”. Não custa nada e estimula a meia dúzia de neurônios ainda disponíveis.

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  10. Não há tempo em que se possa prescindir da educação, mas agora é muito difícil concluir qual teria sido a melhor opção à época. O Banco, durante muito tempo foi a mola mestre do desenvolvimento em vários setores. Não poderia também ter sido na áreas da educação e do conhecimento. O problema não está no caminho, mas sim nos desvios. Parabéns.

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    1. Concordo com você, como o “se” não existe, pode ser difícil concluir agora sobre qual teria sido a melhor opção. Mas a hipótese com que trabalhei pelo menos nos permitiu refletir a respeito. Obrigado!

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  11. Se o aloprado D. João tivesse a extraordinária ideia do EducaBrasil certamente este país seria outro. Desenvolvido se alcança com educação, bancos é consequência.
    Mas enquanto isso, o Vélez projeta o Brasil pra trás.
    Ótima reflexão. Parabéns.

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  12. Hayton, mais uma crônica muito boa, parabéns. Vamos torcer para o BB continuar ajudando no desenvolvimento do Brasil. Poderíamos estar em uma situação muito melhor se os últimos governos tivessem priorizado a Educaçao. Imagine se 20% dos recursos desviados pela corrupção ou desperdiçados em projetos/obras que não geraram retorno ao País, fossem aplicados na Educaçao? O mesmo raciocínio vale pra Saúde. Abraços,
    Marcos Tadeu

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  13. Parabéns, amigo. Sua crônica é uma história que critica e que mostram uma realidade que seria bem diferente, mas que de qualquer maneira o BB se fez e se faz importante nas sua ações voltadas para as comunidades de acordo com as suas carências e potencialidades e isso replica na seriedade e no valor de sua existência. esse presidente falou por falar, para ocupar um espeço e se achar sabido. Mas ele vai aprender com nosso BB que sempre teve a maior turma de executivos maiores que esses ministros que não sabem, nem foram educados e preparados para seu cargos. Marcos Maia

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  14. Hayton, meu caro. Achei genial a sua ideia, criando essa metáfora institucional ampliada para demonstrar como uma instituição secular se constrói a partir da definição de prioridades e pela capacitação e valorização dos seus recursos humanos. Nota 10, com louvor. Abraço.

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  15. Obrigado, mestre Érico. Acho que a grande ameaça que paira sobre qualquer grande instituição secular, com larga folha de serviços prestados à sociedade, é apequenar-se e passar a fazer as mesmas coisas que outras mais jovens e flexíveis. Ou se reinventa e continua sendo protagonista cada vez mais na história da nação ou se torna dispensável. Mais dia, menos dia, será tragada pelo monstro da indiferença das pessoas, facilitando a absorção pelos grupos de interesse de plantão pelo mundo afora.

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  16. Este comentário foi removido pelo autor.

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  17. O povo ainda é o dono do Banco, sendo responsável por sua cor (branco ou preto). Não pode ser esquecido a importância do Bancão como grande balizador financeiro, fomentador e gerador de recursos para o orçamento da União. Não acredito que o Brasil precise de mais um banco voltado à usura

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  18. Ah Brasil, tão lindo e tão triste de gestores e políticos que fossem amantes dessa Terra de Santa Cruz. Educa Brasil, educa.

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  19. Nesses moldes, a criação do projeto Educar poderia trazer resultados espetaculares, no entanto, não creio que uma coisa precisase eliminar a outra, independente dos desmandos o BB tem cumprido centenariamente sua função pública com bastante eficiência.

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