quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Almas virtuais

Toda pessoa morre duas vezes. A primeira quando é sepultada (ou cremada) e a segunda quando seu nome é mencionado pela última vez. Poucas ficam na memória por séculos, como Cristo, da Vinci, Joana d’Arc, Beethoven, Newton, Darwin ou Madre Teresa de Calcutá. A maioria não resiste nem mesmo na lembrança de seus descendentes. Minto se disser que recordo o nome completo de minhas bisavós.


Na
 série de ficção científica Black Mirror, lançada há 10 anos, uma viúva faz contato com a versão virtual de seu falecido marido através de um serviço revolucionário. A aproximação começa com mensagens de texto, já que o sistema fora alimentado por uma base de dados (chats, e-mails, imagens, redes sociais etc.) sobre o comportamento do casal em suas interações enquanto ele ainda era vivo.

A partir de áudios e vídeos, o serviço consegue reproduzir vozes e a permitir entre eles o contato por celular (o "espelho negro"). Mais que isso, cria um andróide à semelhança do falecido que é capaz de interagir com a viúva em quase todos os sentidos, se é que me faço entender. 

Confesso que ultimamente ando tendo problemas em separar realidade de ficção, mas, no começo deste ano, me disseram que uma inspirada nordestina chamada Jurema, criada à base de tareco, macaxeira e mariola, hoje neuropsicóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), resolveu oferecer à humanidade um serviço bem parecido com o da série Black Mirror.  

Caboclinha de fibra, Jurema teria procurado um colega especialista em inteligência artificial da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, para discutirem a viabilidade de seu projetoDepois de uma boa troca de argumentos, ela passou a desenvolver uma startup no Vale do Silício, no Norte da Califórnia. 

O objetivo é mapear a personalidade de uma pessoa falecida e transferir os achados para um computador, por meio de um software que simula as ações humanas repetidas de forma padronizada. O sistema deverá levar cerca de seis meses para levantar o histórico de alguém – informações do dia a dia, momentos marcantes, vacilos, memórias, manias e saberes –, da mais remota infância até o último suspiro. 

Da análise desses dados, a ferramenta vai conseguir o que se busca: o contato póstumo da melhor qualidade. Para Jurema, o resultado mesmo só virá daqui a quatro ou cinco anos, porque será preciso recriar a voz, a imagem e o jeitão de fazer escolhas da pessoa falecida nos seus mais sórdidos e  inconfessáveis detalhes. 

Enquanto trabalha a startup para chegar nesse estágio, a ilustre brasileirinha acredita que o primeiro protótipo, com lançamento a um grupo restrito de indivíduos previsto para o ano que vem, será capaz de gerar livros e filmes biográficos de 100 usuários que estão testando a novidade. 

Se tudo transcorrer dentro do esperado, a partir daí qualquer ser humano – não só ricos e poderosos como Steve Jobs, Angela Merkel, Oprah Winfrey ou Bill Gates – poderá legar uma biografia confiável, sem a interferência do dedo encardido do próprio ou de seus familiares. 

Isso vai permitir escalar o conhecimento de pessoas das mais diferentes áreas e realidades, desde, por exemplo, uma PhD vinculada à Harvard Medical School a uma professora de ensino fundamental no interior alagoano, que nunca se tornou famosa, mas que tem a contribuir com suas percepções e narrativas para melhoria do mundo.

É óbvio que nossa heroína tupiniquim sabe que grandes invenções, daquelas capazes de transformar a vida humana sobre a Terra, podem trazer fama e grana para inventores e algum futuro dentro de sua área de atuação. Ocorre que nem sempre o mundo muda para melhor. As alterações climáticas e as desigualdades sociais são evidências disso.   

Se hoje o termo “Nobel” é ligado ao prêmio que reconhece indiscutíveis avanços para os seres humanos, sua origem veio do sentimento de culpa que tomou conta de Alfred Nobel, depois que ficou rico por ter inventado a dinamite, em 1867. Tanto que, chamado de “mercador da guerra” por enriquecer com os conflitos entre homens e nações, deixou boa parte de seus bens para criar o instituto e o prêmio com seu nome.

Meu temor é que o genial invento da caboclinha Jurema dê sobrevida a algumas criaturas nefastas que rastejam por aí – para as quais, sem dúvida, morrer uma única vez é mais que suficiente – e isso impeça meus netos, enfim, de desfrutarem do país do futuro que me prometeram no tempo em que eu ainda morria de medo de almas na hora de dormir.

31 comentários:

  1. Se a inventora precisar de um cobaia estou às ordens. Quando eu "me chamar de saudade", como escreveu o poeta, ficaria feliz em ser lembrado. Morrer é "paia" como falou uma sobrinha que se foi precocimente, ser esquecido é muito pior.
    Ademar Rafael Ferreira

    ResponderExcluir
  2. Realmente a morte física não é o fim , e muitos podem morrer antes ou depois , é a morte do esquecimento. No meu interior costumam dizer, “ fulano morreu, ninguém fala mais nele”, principalmente com os políticos. Tomara que a inventora tenha sucesso e consiga deixar as personalidades gravadas, principalmente as boas.

    ResponderExcluir
  3. ANTONIO CARLOS CAMPOS21 de outubro de 2020 06:33

    Sou daqueles que acham que a vida é uma só e que a morte encerra definitivamente o ciclo de cada um. Não creio em vida após a morte. Acredito, sim, no anseio de perpetuação do ser humano. Mas isso não altera o fato em si, dos mortos se extinguirem. Com o tempo não haverá sequer lembrança. Essa é a beleza da vida.

    ResponderExcluir
  4. Acredito na vida após a morte e acredito na ciência! Se Deus permite descobertas como essa da nossa ilustre, e que muito nos orgulha, neuropsicóloga, Ele sabe o que faz. Algo de bom virá!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, Marina, ando misturando muito ficção e realidade. Por enquanto, a caboclinha Jurema só existe em minha cabeça. Mas vai que ela aparece pro jantar, não é mesmo?

      Excluir
  5. Parando pra pensar um pouco, bem que essa/esse Jurema me parecia família ... 😇😇

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nasser, meu caro, não é a Cabocla Jurema, entidade das mais conhecidas e queridas do Ritual de Umbanda, evocada tanto por indígenas, como por seguidores dos cultos afro-brasileiros e dos praticantes da Umbanda.
      Jurema é um "preparado líquido" à base de elementos de uma "árvore sagrada" para os índios. Esse preparado originário de práticas indígenas muito antigas, de uso medicinal ou místico, externo e interno, utilizado como bebida sagrada ou "vinho da Jurema", é parte fundamental numa cerimônia liderada por pajés, xamãs, curandeiros, rezadeiras, pais-de-santo e mestres juremeiros que preparam, bebem e dão a beber a seus iniciados.
      A caboclinha Jurema aqui é outra, bem mais “high-tech”...

      Excluir
  6. Eu prefiro guardar as lembranças, não permitindo cair no esquecimento.

    ResponderExcluir
  7. Agora passo a acreditar em alma... a que todo mundo diz que tem eu não acredito não. Pelo menos alguém terá a oportunidade de conhecer seus antepassados e ver o que praticaram: se o bem ou o mal. Tomara que sirva para muita gente repensar a vida. Mas será algo espetacular. Afinal a alma tinha direito de existir...

    ResponderExcluir
  8. Hahahahaha
    Que viagem! Prefiro apostar no insucesso da iniciativa, que não me trará maiores “beneficiamentos”, mas, se é Jurema, tá arriscado a dar certo!

    ResponderExcluir
  9. S E N S A C I O N A L !!!
    Será que ainda tem uma vaguinha pra este humilde candidato testar a ferramenta? Estou certo que será sucesso em todo o planeta. Desde já me candidato a ser um dos que vão experimentar fazer a própria biografia sem a minha interferência. Adorei. E aí? Posso testar?

    ResponderExcluir
  10. Amei o texto!!! Desconhecia esta série de ficção científica, e cada vez mais as mentes privilegiadas vão atrás de concretizar o irreal, como se algo já estivesse hibernando na mente coletiva e alguém *resolve* implementar. Excelente, diferente, a busca incansável do ser humano pela continuidade de estar presente, mesmo de forma "virtual criada". PARABÉNS

    ResponderExcluir
  11. "Jurema:de volta para o futuro". Que viagem, meu caro amigo. Vc também está participando do Projeto 5G na Lua,para os próximos anos? Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  12. Vou me empenhar para que alguns personagens nefastos morram só uma vez e definitivamente! A Jurema há de me ajudar na façanha!!! Não está sendo difícil no cenário atual, separar o joio do trigo! Espero desfrutar do trigo, na próxima encarnação!!!

    ResponderExcluir
  13. A sua imaginação está cada dia mais fértil.

    ResponderExcluir
  14. Show de crônica, amigo Hayton. E quanto legado este nordeste sofrido deixa por ai, além de Jurema.

    ResponderExcluir
  15. Bela viagem, meu amigo! Cada vez mais possível de ser feita. Infelizmente, não vejo como evitar a “perpetuação” de figuras nefastas que a gente tem conhecido.
    No meu livro sobre a experiência que tive com câncer (que está na gráfica), não pude deixar de falar da morte. Usei uma citação do livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, da médica Ana Claudia Quintana Arantes:
    “Não morremos somente no dia da nossa morte. Morremos a cada dia que vivemos, conscientes ou não de estarmos vivos. Mas morremos mais depressa a cada dia que vivemos privados dessa consciência.” E ela acrescenta: “Morreremos antes da morte quando nos abandonarmos. Morreremos depois da morte quando nos esquecerem.”

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sérgio Riede, eu sou prima do grande cronista Hayton, sou também escritora, em 2018 publiquei meu primeiro livro, inclusive o primo tem um exemplar e alguns de seus manos; e sou daqui de São Luis (MA), depois que seu livro sair da gráfica, gostaria de adquirir um exemplar. Depois podemos combinar, se você concordar, ok? Mesmo não o conhecendo, um abraço Lêda Tôrres

      Excluir
  16. Por enquanto vamos guardando fotos e vídeos que farão nossos descendentes recordar de nós, com ou sem saudade... Mas não se surpreenda se muito em breve o bicho-homem venha criar uma máquina que armazene dados inimagináveis para nós, hoje!! Já vi projeções holográficas que enganariam a muitos, simulando a volta de um ente querido. Muitos charlatões fariam a festa!!

    ResponderExcluir
  17. Prefiro igualmente guardar as boas lembranças!
    Abs

    ResponderExcluir
  18. Excelente crônica! Pense numa imaginação fértil. Só não gosto quando se fala em morte. Pense num vidinha boa que não gostaria de perder.

    ResponderExcluir
  19. E o NOBEL de medicina vai para ...Jurema.
    Sonhar não custa nada!

    ResponderExcluir
  20. Muito bom, mas fiquei preocupado. A tecnologia, a cada momento vem substituindo algumas práticas, que nos anos 60, faziam a alegria das turmas de amigos e amigas. Dentre elas, destaco a velha prática que necessitava apenas de alguns participantes, uns mais crédulos que outros, algumas papeletas individualizadas com números e as letras do alfabeto e de um bom copo, que bailava suavemente sobre a mesa a cada pergunta formulada em direção ao além. Mas, vamos em frente, é a vida pós tecnologia avançada.

    ResponderExcluir
  21. Excelente reflexão. A eterna luta da humanidade pelo apego, de onde se origina toda a dor, segundo Buda. A tendência de memórias reais crescerá como uma estante de microfilmes. Até não existir mais.

    ResponderExcluir
  22. Falar sobre a beleza, leveza de seus textos é chover no molhado, você sempre consegue se superar, o que, aparentemente parece impossível.
    Agora, fico aqui a matutar, nem sua prodigiosa imaginação nem a mais avançada e revolucionária evolução tecnológica conseguiria apagar, sequer esconder, algumas tão marcantes características de certos personagens de nossa cena quotidiana.
    Estou certo que há um tipo de gente que só se encontra em Pindorama.

    ResponderExcluir
  23. "Certo de que..."

    ResponderExcluir
  24. Viva a sua melhor versão, hoje!!!

    ResponderExcluir
  25. Agostinho Torres da Rocha Filho22 de outubro de 2020 16:19

    Confesso que fiquei preocupado com a forma um tanto depressiva como o autor relata suas experiências cotidianas, em MEMÓRIAS DE MEU CÁRCERE. Também pudera!!! Num país onde o presidente coloca suas convicções pessoais acima da ciência, onde o titular da pasta de saúde é um general, onde integrantes dos três poderes se locupletam com a pandemia e os encarcerados são pessoas de bem... Resta-nos o consolo de constatar que o presente texto - um misto de ficção científica e sobrenatural - é fruto de uma mente privilegiada e extremamente criativa que, mesmo pressionada pelo isolamento social, viaja rumo ao desconhecido e nos faz passageiros dessa aventura.

    ResponderExcluir
  26. Amigo Hayton. Impressionante como você conseguiu sintetizar a vida eterna que fica entre nós daqueles que amamos! E a forma como a tecnologia de realidade virtual poderá ressuscitar também aqueles que podem ajudar melhorar a vida do todo. Uma forma também de inspirar-nos a viver abertamente com ética para que no futuro nossa imagem virtual seja aquela que desejamos ser revelada sem filtros para o todo.
    Ou, para muitos citados que rastejam até hoje, seja possível desligar a parte do mal, causado para a humanidade. Que Fique na memória somente o que constrói. Isso está nas mãos da nossa capacidade tecnológica.
    Se não foi possível mudar o comportamento de Hitler, por exemplo, durante a sua vida, que seja possível agora na ferramenta virtual. Uma esperança de transformar o Mal em bem. Um resgate possível da consciência planetária, influenciado pelo bem e pelo mal.
    Que dessa forma, o exemplo e sonho do mestre de Nazareth de mudar a lei, do “dente por dente olho por olho”, para a nova aliança de perdão e “amor”.
    Minha esperança é que o invento de Jurema, permita desligar o “botão” do repertório do mal de todas as consciências e atos errados, presente no comportamento humano. E com isso dar a oportunidade a todos para terem um novo começo, virtual, desintoxicados das maldades praticadas passadas, numa nova era virtual com foco consciência Crística...Desligando o botão virtual inventado por Jurema, um novo tempo, de Paraizo, virtual que transforme e inspire o mundo real das futuras gerações.

    ResponderExcluir
  27. Eu sou daqueles que acreditam na vida depois da morte. Acho mais confiável sermos lembrados pelo que fomos e pelo que fizemos do que pelo que a Ciência tenta nos fazer crer que está registrada a verdadeira história de nossas vidas. Texto irretocável.

    ResponderExcluir
  28. Hayto, fiquei impressionada com o ousado projeto de sua Jurema, parabéns, e fico feliz por ter a oportunidade de saber que um projeto dessa estirpe pode trazer às pessoas que ficaram aqui, as boas memórias dos entes queridos que se foram; tenho certeza de que esse projeto fará um grande sucesso. Quem quer esquecer aqueles que tanto amamos e que pela determinação do nosso Criador, se foram? Eu creio na vida após a morte; porque Jesus Cristo veio aqui morrer por nós e nos prometeu uma via eterna, Ele jamais mentiria. e não preciso de que nenhum de nós acredite ou não. Ela existe, e quem crê, verá a glória desse maior evento que a humanidade já viu. Quem não crê, se cuide, viu? Um abraço e até a próxima excelente crônica, que dispensa mais uma vez nossos elogios.

    ResponderExcluir