quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Não ia dar certo, entende?

Na live “Pelé, 80 anos” apresentada outro dia pelo site UOL Esporte em homenagem ao aniversário do Rei do Futebol, o jornalista Cláudio Arreguy contou uma história deliciosa de como o mundo esportivo quase foi vítima do acaso e engrossaria o caldo das coisas que poderiam ter sido e não foram. 

 

Dizia ele que Dr. Prata, médico e pai do escritor Mário Prata, sugeriu a Dondinho, o pai de Pelé, que convencesse o filho a prestar concurso para o Banco do Brasil. “Futebol não dá futuro a ninguém! Bota o rapaz no Banco do Brasil que lá ele tem futuro garantido”. 

 


Apesar de a sugestão partir do único e respeitável médico da Bauru na metade da década de 1950, prevaleceu o saber popular: “Se conselho fosse bom...”. Note-se que, naquele tempo, não se imaginava que mais de meio século depois haveria “médico” aconselhando cloroquina para combater uma gripezinha sazonal. 

Posso até não discutir o estrago que o conselho do Dr. Prata a Dondinho, se acatado, causaria ao futebol mundial, mas me atrevo a imaginar o que teria acontecido ao cidadão Edson Arantes do Nascimento se tivesse obedecido a eventual orientação paterna. 


Com a bola que ele andava jogando, logo seria transferido para uma grande metrópole, passando a integrar o time de futebol de salão da AABB. E nos primeiros anos de banco não seria tão difícil obter uma licença especial para disputar jogos pela extinta CBD. Quem sabe até um publicitário condicionaria a liberação do atleta à exposição da marca da empresa na camisa canarinho, como ocorreria mais tarde envolvendo a CBV (vôlei), a partir das Olimpíadas 92, em Barcelona.  


Edson, porém, sabendo que a ação cruel do tempo sobre seus músculos e ossos uma hora decretaria o fim da carreira futebolística, cuidaria de preservar suas relações internas, admitindo até que alguns chefes dessem pitacos sobre sua conduta extra-banco. A empresa sempre teve seus sabichões das segundas-feiras que transitavam de teorias de Einstein sobre a interação entre espaço, tempo e gravidade, aos estudos sobre os múltiplos orgasmos de uma abelha-rainha.  

 

Por azar ou grande atuação de goleiros que jogavam contra a seleção brasileira, Edson deixaria de marcar alguns gols que certamente seriam incluídos entre os mais bonitos de sua jornada. Gols que não aconteceram, mas ficaram para sempre na memória dos amantes do esporte. 

Aos 29 anos e no auge de sua forma física, o funcionário do BB cedido à CBD viria a ser o grande protagonista brasileiro na Copa 1970, um autêntico “Nélson Mandela” a liderar a seleção na conquista de seu terceiro Mundial, que garantiu a posse em definitivo da taça Jules Rimet, roubada e derretida 13 anos depois, sinal claro de como o país cuida de sua história.

Na época, três goleiros passariam a ser conhecidos no mundo inteiro justamente por se envolverem – dois deles como coadjuvantes e o outro dividindo o papel de protagonista – em lances espetaculares de Edson, reconhecido mais tarde como o “Atleta do Século”.

Viktor, da antiga Tcheco-Eslováquia, quase levou um gol em um chute de Edson do campo de defesa brasileiro. O goleiro bem que tentou, mas não conseguiu fazer a defesa, e a bola passaria a poucos centímetros do ângulo de sua trave esquerda. Na manhã seguinte, imagino, um chefe de serviço qualquer ligaria para Edson: “Negão, vê se capricha na próxima e melhora o rendimento, tá legal?”

Mazurkiewicz, do Uruguai, tomou humilhante "drible da vaca" – também conhecido como “meia-lua”, “arrodeio” – na entrada da grande área. Mesmo desequilibrado, Edson ainda chutou cruzado, rente ao pé da trave direita, iludindo inclusive o zagueiro que tentava fazer a cobertura. Após a partida, creio, um gerente qualquer ligaria: “Você não tinha nada que enfeitar! Poderia ter feito o gol de fora da área, cobrindo o goleiro com uma cavadinha, sem frescura!”

Banks, da Inglaterra, por sua vez, defendeu uma cabeçada quase perfeita, interceptando em pleno ar uma bola que quicou antes, após um salto espetacular de Edson entre os zagueirões branquelos. Certamente um diretor qualquer do banco não perderia a oportunidade de cutucar o funcionário cedido: “Vacilou. Se tivesse cabeceado no contrapé do goleiro, no canto esquerdo, faria o gol...”

 

Logo depois Edson retomaria sua carreira bancária pressionado de tudo quanto era jeito – normas e rotinas de serviço desconhecidas, metas de vendas de produtos, avaliação de desempenho, colegas invejosos de suas tarefas extra-banco etc. Acabaria mais desorientado do que o goleiro italiano Albertosi, vítima de seu último gol em Copas do Mundo, na goleada de 4 a 1. 

De repente, Edson já não sorriria largo, leve, para os clientes. Nem veria graça num trabalho cheio de manuais de procedimentos. Teria medo de demonstrar insegurança ao prestar esclarecimentos e, quem sabe, suscitar dúvida em seu chefe imediato quanto à aptidão para a carreira. O que diriam Dondinho e Celeste se o filhão perdesse o emprego com futuro garantido de que falava o Dr. Prata?

 

Mas daria tudo certo. Se bem que Edson, que nunca vira motivos para denunciar os excessos da ditadura militar ou a existência de racismo no país, logo perceberia que metade da população brasileira é parda, mas isso nunca se refletiu nos quadros da empresa, circunstância que piora quando se fala da ocupação dos chamados cargos de confiança.

 

Hoje, oitentão, aposentado, Edson talvez refletisse sobre algumas questões para as quais não encontrou resposta no emprego com futuro garantido: por que nunca viu um presidente negro em tantos anos de carreira na empresa? E vice-presidente negro, por que só um em mais de dois séculos de história? 


Quem sabe até se perguntasse: e se ele, Edson, tivesse nascido em Dois Riachos, Sertão alagoano, fosse mulher, mestiça de caboclo com indígena, e se chamasse Marta, a história teria sido diferente? "Não ia dar certo, entende?", talvez dissesse.

44 comentários:

  1. Segure o trocadilho:
    Pelé, com o futebol que jogava, jamais iria para o banco do Brasil, exceto por contusão. Sempre seria titular! Homenagem oportuna ao rei do futebol. Parabéns!

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  2. Cada um tem o seu destino o seu chamado e Pele foi um deles . O futebol do Brasil ganhou com sua presença e o povo agradece .

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  3. De todas as homenagens deste mês ao Rei, essa realmente foi a mais interessante... uma mistura de novela do horário nobre e da realidade vivida pelo eterno Rei do futebol.

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  4. Que narrativa deliciosa e magnética

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  5. Talvez, Dr. Prata tivesse razão ,pois da geração de Pelé, só ele conseguiu sucesso financeiro, graças ao COSMOS. Garrincha, Didi, Zito, Vavá , etc., não tiveram a mesma sorte.

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  6. Os deuses do futebol não permitiriam a desvantagem dessa troca de posições. A lógica venceu o "pitaco". Viva Pelé.

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  7. Ademar Rafael Ferreira

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  8. Excelente. Parabéns! Ainda bem que se seguiu a intuição e não a razão. Escolher tem consequências! Muitas vezes se acerta, outras nem tanto.

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  9. ANTONIO CARLOS CAMPOS28 de outubro de 2020 06:53

    Já que estamos na esfera das possibilidades, poderíamos hoje estar comentando sobre o maior Presidente negro que o BB já teve; Dr Dico. Ou seja, o Negão.

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  10. Bela crônica, digna da comemoração pelos 80 anos do Rei. Parabéns também pelo enfoque na questão racial no BB.

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  11. Meu Amigo, ótima crônica, tem que ser incluída nas comemorações dos 80 anos do Rei Pelé. Viver é correr risco, a escolha no caso, não foi calculado, Porém de intuição e fe. Parabéns

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  12. Que delícia imaginar essa situação. Acho que o moedor de carne do BB o faria desistir de tudo e montar um negócio em Bauru pra complementar a renda de caiex... são mais de 200 anos de destruição de futuros. Seu texto está cada vez melhor.

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  13. É, faz sentido! Melhor ficar no que daria muito certo.
    O problema dos conselhos é o modelo mental do conselheiro, e não o do aconselhado.
    Ainda bem que não apareceu quem sugerisse a carreira artística!

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    1. De pleno acordo. Pelé cantando seria dose pra mamute com sobrepeso! Melhor não mexer nisso...

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  14. Belíssima viagem! Dizem que no futebol o “se” não joga. Mas no caso do BB, foi uma delícia jogar com o “se” o Negão fosse nosso coleguinha. Estaria brigando até hoje nas causas dos pré-67!
    Perguntinha básica: será que o pai do Mario Prata teria dito: “Meu filho, larga mão dessa mania e faça o concurso pro Banco do Brasil. Ser escritor não dá futuro a ninguém!”

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    1. Bem pensado! Vale ouro uma viagem pela família Prata, inclusive o netinho cronista. Garimpe aí, Serginho!

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    2. Detalhe, Riede: MÁRIO PRATA foi funcionário do BB em São Paulo e, concomitantemente, cursou Economia na USP.

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  15. Excelente crônica! Em relação à inserção de negros nos altos cargos do Banco eu nunca havia me tocado, mas é uma grande verdade. Porque será?

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    1. Imagino que pelos mesmos motivos que grandes mulheres, inclusive nordestinas, também não conseguem chegar lá. Ou não?

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  16. Belíssima homenagem ao aniversariante do mês, à Marta e um presente a todos nós que, teimosamente, continuanos gostando de futebol, apesar de tantas coisas que acontecem, dentro e fora das 4 linhas.

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  17. E ainda, lá pelas tantas ele iria receber o comunicado do funci informando que seria debitado em seu espelho pensão alimentação de uma filha chamada Sandra e que ele deveria investir mais na carreira para compensar a despesa imposta pela justiça.... belíssima crônica

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  18. Este comentário foi removido pelo autor.

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  19. Pelé foi gênio no futebol, sendo diferenciado por sua inteligência. Seria destacado também no BB, nada obstante a escolha comprometer ó protagonismo do Brasil no futebol...

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  20. Belíssima crônica! A marcação dos ditadores-generais foi a mais dura do que os zagueiros que Pelé enfrentou durante toda carreira futebolística. Ou não???

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  21. O Pelé causaria inveja no Wanger, porque seu apelido de infância, gasolina, veio antes do amigo do BB, kkkkkkk. Também teria problemas com a FBB pois quereria cuidar de todas as criancinhas do pais (pelo amor de Deus). Quem sabe, na melhor das hipóteses, estaria a levantar taças para seus supeiores, com risos de soslaio em comemorações cheias de puxa-sacos.
    Enfim, foi melhor termos o nosso gasolina e o Brasil e o mundo terem o Pelé. Foi melhor assim. Adorei a crônica.

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  22. Mais um belo texto, um "gol de placa" literário, criando uma realidade ficcional que o protagonista certamente gostaria de ouvir, como mais um bálsamo para massagear sua feliz decisão.

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  23. Muito legal a crônica e acho que ele fez a escolha correta, provavelmente se estivesse no BB não alcançaria o mesmo sucesso, não seria coroado Rei do Futebol, no máximo seria Gerente de um Posto de Serviço.

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  24. Sem querer ser o anti climax, tenho certeza que se o "rei" tivesse entrado no BB, pelo menos aprenderia com os colegas a assumir as atitudes. Quem sabe aquela filha que morreu sem ver o Pai, teria outro fim

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    1. Pois é... Mas quem nunca cometeu um vacilo imperdoável? Talvez tenha sido a forma que a vida encontrou de nos mostrar que ele, apesar de sobrenatural naquilo que fazia, é mais um ser humano. De carne, osso e imperfeições.

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  25. Dr Hayton,
    Pelé fizera mil gols, muito mais até! Parece que se encaminhara pra faixa dos 1,3 mil (linguagem de economistas rsrsrs)
    Mas você, convenhamos, fizera um milhão de gols com esta crônica frugal, informativa, historicista, e, porquê não dizer prazerosa.
    Muto bem concatenadas as possíveis ações esporte versus empresa. Adorei essa viagem!
    Parabéns
    Antonio Mário
    tonhodopaiaia.org

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  26. Mais uma excelente crônica estilo Hayton: estórias de histórias de vida experiente.

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  27. Parabéns Pelé! Parabéns Hayton juntou Pelé eterno e o eterno Banco do Brasil. Ambos estão na minha memória e no meu coração! Valeu demais!👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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  28. Eu também já ouvi matéria jornalística envolvendo uma história do nosso Rei do Futebol: "Pelos idos de 1956/7, o Botafogo foi jogar em Santos-SP. O Presidente do Santos F.C. ficou encantando com o craque Didi do Botafogo e fez a seguinte proposta: queria o Didi no Santos por uma quantia em dinheiro e um jogador de 16 anos, iniciante, mas que prometia muito. Era o Pelé ainda quase menino! O presidente do Botafogo recusou! É...os deuses do futebol não permitiram Pelé e Garrincha no mesmo time"...pena! rsrsrs

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  29. Mais uma bela Crônica! 👏👏👏👏👏👏👏
    Qto ao Pelé, apesar do bolão que sempre jogou, ainda tenho minhas reservas desde qdo ele deixou de reconhecer e ligar para uma Filha gerada fora do Casamento. Deve ter falecido com tremendo desgosto!

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  30. O mundo não poderia ter ficado sem a arte de Pelé... o banco não merecia tê-lo escondido em seus quadros, tirando o sorriso de inúmeros lábios porque os olhos não queriam acreditar no que viam. Feliz sou por tê-lo visto jogar, era simplesmente espetacular. Pena que o tempo passa...

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  31. Que Pelé foi um artista da bola, não se discute.
    É também forçoso reconhecer que o imponderável sempre deu o ar de sua graça, salvando-o de fracassos monumentais - lembremos da providencial contusão que sofreu logo no começo da Copa de 1966, quando nossa Seleção não passou da primeira fase.
    Triste é que como ser humano não teve uma só atitude, em toda sua vida, que fosse digna de admiração, muito antes pelo contrário - nem precisamos relembrar aqui de algumas marcantes.
    Generosamente, e é perfeitamente compreensível, você preferiu não se ater a tal detalhe em sua bela crônica.
    Faz parte...








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  32. Excelente crônica!!! O futebol mundial foi premiado com a arte do Pelé. Nós, mortais brasileiros, é que sempre esperamos mais dos imortais brasileiros que podem fazer alguma diferença! E ele poderia ter feito... Vamos esperar o próximo!

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  33. Um bonito ensaio e uma bela homenagem, ainda que tenha propiciado o aparecimento de pedras, como se a perfeição humana existisse...

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  34. Essa foi a a mais profunda homenagem ao rei Pelé! E a mais pura! Muito show!

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  35. Não se passa pela mente de ninguém que o famoso Pelé, mais conhecido como o rei do futebol como um funcionário do Banco, porque certamente, teria que ser vocacionado, só se consegue vê-lo como o maior jogador de todos os tempos. Parabéns por mais esta crônica tão bem elaborada. Um abraço

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