quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Santo remédio

De cara fechada, sem batom, uma das ascensoristas do templo bancário da Cidade Baixa, onde trabalhavam mais de 500 pessoas, pilotava o seu elevador com a preguiça das segundas-feiras quando Rivaldo meteu a mão no bolso do paletó e lhe ofereceu um punhado de confeitos:
— Pegue, moça, chupe!
— Por quê?
— É um santo remédio. Nunca vi ninguém triste chupando confeitos.

Ele chegara à Bahia em junho de 1992, vindo do Recife. Voltava ao Banco do Brasil depois de um período cedido ao governo de Pernambuco em que ocupou a diretoria de RH do extinto Bandepe. Casado com Bárbara, analista de projetos da Sudene, formavam um casal bem humorado e carinhoso com filhos e amigos.

Na semana anterior, um puxa-saco escolado que havia na área, ao saber de sua origem sergipana e por ser freguês de um restaurante no Dique do Tororó que servia um cabrito guisado com aipim e farofa d'água de comer com os olhos a meio pau, alisava as pontas do bigodão ao indagar: 
— Chefe, você gosta de comer bode?
Rivaldo, que não perdia bola alçada por nada nesse mundo, sorriu e rebateu de primeira:
— Gostar eu gosto, mas é um bicho agoniado pra danar! 

Meses depois, quando soube que eu estava de partida, transferido para a agência Tabuleiro, em Maceió, veio conversar comigo como só ele sabia fazer:
— Por que você vai nos deixar? O que mais tem aqui na Bahia é tabuleiro!

Nos reencontramos no ano seguinte, designados, por 100 dias, para participar do Programa de Melhoria do Atendimento do Distrito FederalComo Bárbara não pôde acompanhá-lo, vi Rivaldo algumas vezes, apesar do conforto do apart-hotel em que se hospedava, queixando-se da saudade de casa. Eu havia alugado um quarto-e-sala no final da Asa Norte, próximo ao restaurante Nosso Mar, onde fiquei com minha mulher e nossa caçula. 

Bárbara viajava de Salvador para Brasília quase todo fim-de-semana. Numa segunda-feira como outra qualquer, ao telefone, ele comentou comigo:
— Minha mulher anda desconfiada de mim.
— É mesmo? O que você está aprontando? 
— Nada do que cê tá pensando, seu sacana! 
— O que seria?
— Ela não acha que sou acionista da Varig. Ela tem certeza!


De volta a Salvador, Rivaldo se aposentaria no começo de 1994 e, logo após doar as gravatas, tornou real uma antiga fantasia: comprar um "brinquedo" para navegar na Baía de Todos-os-santos. E quando, pela primeira vez, saiu do píer num pequeno bote até a embarcação, um amigo que lhe visitava, de Brasília, quis saber:
— Como é que você compra um barco sem saber nadar?
— Peraí, e você, que vive dentro de um avião pra lá e pra cá, por acaso sabe voar? 

Quando, mais adiante, me chamou para conhecer a Queridoca, quase acontece uma tragédia. O destino seria a Ilha dos Frades, nome inspirado no grupo de religiosos que sobreviveu a um naufrágio e encontrou abrigo na ilha que possui exuberante floresta atlântica, com árvores nativas, inclusive pau-brasil. 

Depois de vários goles de cerveja, camarões no alho e óleo e mergulhos em alto-mar, eu voltava à proa quando notei Rivaldo trêmulo, com a voz grave, pastosa:
— Diga nada não... Bárbara vai ficar aperreada...
— O que foi?
— Acho que é derrame — disse, a enxugar o suor da testa — Me leve pro hospital.
— Calma... — preocupei-me, imaginando como socorrê-lo sem que nossas mulheres notassem — O que você tá sentindo?
— A vista embaçou, a mão tá gelada...

Não sou médico, mas, antes de pedir ao barqueiro para voltar ao cais, cuidei de observá-lo com mais atenção e, com a ajuda de todos os santos de plantão nos céus da Bahia, fiz diagnóstico rápido e certeiro, além de propor o adequado tratamento, sem intercorrências:
— Rapaz, você tá com meus óculos e eu tô com os seus!
— Eita! Agora é que você não vai contar nada pra ninguém. Minha mulher vai me interditar...
— Pode deixar! Também não vou cobrar pela consulta.

A “cura” instantânea, sem sequelas nem efeitos colaterais, nos fez olhar com menos indiferença a fartura de céu, sal e sol que tínhamos diante de nós, santo remédio para quase todos os males.

35 comentários:

  1. Outra excelente crônica! Pense num casal de bem com a vida é Rivaldo e Bárbara. Rivaldo é sempre bem humorado, inteligente, humilde e gozador Toda que nos encontrávamos deixava “ o gostinho de quero mais” e saiamos dos seus encontros com nossas almas mais leves.

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  2. Você sempre trazendo boas estórias nas manhãs. Não conheci esse casal, mas você descreveu tão bem que quase os conheci
    Bom dia
    Abraços

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  3. Perfeita. Apenas os alquimistas das palavras fazem o real ser ampliado.

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  4. Lembro como se fosse hoje desse passeio, pois estava nele . O Rivaldo sempre gozador nunca me perdoou eu ter tido um carro BR800, que para ele era um carro de “plástico”. Figuraça!!!

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  5. Está de andar de avião e não saber voar me lembrou Mucini. Fizemos um charter de veleiro p Noronha em 6 amigos. Ao ser chamado de doido por que não sabia nadar ele respondeu: se o barco afundar eu só morro um pouquinho antes.

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  6. A habilidade do autor pra desvendar aos leitores o espírito dos personagens está cada vez mais afiada. Não lembro de conhecer o Rivaldo, mas agora já sei quem é. O “derrame” dos óculos é sensacional!

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  7. Hideraldo Dwight Leitão16 de setembro de 2020 07:18

    Hahahahahaha eu ri alto aqui. Grande Rivaldo.

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  8. Muito Bom, primeiro horário, um texto para sorri. Pense que água produz oculista, cardiologista, e traz depois do medo, a tranquilidade. Eta trem bão.

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  9. Boa demais! Me diverti conhecendo o casal Rivaldo e Bárbara!
    E parabéns pra você, afinal de contas de médico e louco todo mundo tem um pouco!!!!

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  10. Rapaz... Nem queria rir! Mas é o que sempre digo: quando a gente sorri, a vida fica mais leve! Muito boa crônica!

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  11. Taí a quarentena lhe fez bem, despertou o cronista talentoso que estava adormecido, me narrou melhor que o original, naquele Lídia criança dormia em duas cadeiras do bar tranquilamente pra deixar a gente tomando cerveja
    Grande abraço

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    1. Grande Rivaldo! Escondendo-se atrás de um “Cá te espero”? Vou não, meu velho! Pelo menos enquanto a vacina não chega. Daqui a pouco a gente se junta novamente, meu velho amigo!

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  12. Muito bom lermos algo sobre alguém que conhecemos. Rivaldo e Barbara bons amigos. Já tive o prazer de dar um passeio na QUERIDOCA muito bem acompanhada, além dos anfitriões. Saudades desses momentos ímpares.

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  13. Muito bem descritos, personagens e cenários. O conhenci na companhia do nosso amigo José Tarcísio, outro que não perde uma bola levantada, muito espirituoso e, com sua esposa Bárbara, excelentes anfitriões.

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  14. Mais uma espetacular crônica... quando começo a ler fico torcendo para não terminar rápido, pois os textos nos fazem a entrar nas histórias e estórias.

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  15. Causos e casos. Fatos e histórias. Que beleza é a vida, que nos permite vive-la de tantas maneiras mesmo sem saber pilotá-la. É tal qual a Queridoca.

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  16. 😂😂😂😂🤣🤣 Grande Rivaldo! Delícia de conto!!!

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  17. Hahahaha
    Maravilha! “Olhar a meio pau” foi demais 🤣

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  18. Kkkkkkkkkkkk.
    Mais uma crônica feliz para a conta da quarentena.

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  19. Perpétua disse aqui que é muito bom ler algo a respeito de quem se conhece! Acho melhor ainda conhecer alguém por meio de suas crônicas. Obrigado Hayton por este e outros tantos que você me apresentou !

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  20. Tive a oportunidade de trabalhar com Rivaldo, entretanto, sem um convívio mais próximo.

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  21. Parabéns pela sutileza do humor. Cada vez melhor, meu caro amigo.

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  22. Bela crônica Hayton, ainda mais tendo um dos personagens o nosso querido Rivaldo! Bons tempos também do Programa de Melhoria do Atendimento do DF, que se espalhou por todo o País! Até o “Posso Ajudar”, que lançamos (obra daquele colega da Bahia), vejo com muita emoção nas roupas de pessoas nos hospitais, companhia aéreas, etc, etc... pelo Brasil afora! Muito bons tempos... Abs

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  23. Mais uma das suas pérolas, Hayton, a nos brindar.
    Muito boa.

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  24. Quantas pílulas anedóticas do Rivaldo! Não conheci, mas gostei de graça. O bom humor é mesmo um santo remédio!

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  25. Boa crônica. Não sabia das tuas aptidões médicas e também não conhecia esse tipo de doença. Acho que deve ter sido provocada por muitas "mofadas".

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  26. Muito boas... mas a última foi fenomenal... já tive um amigo passando mal, sem saber o que era, depois foi ver que era o celular no silencioso vibrando no bolso da calça... mas tudo tem jeito...rsrs

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  27. Apesar de não conhecer o Rivaldo, foi o texto mais bem escrito que li. Conciso e enxuto! Além de bem humorado!!!

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  28. Diferente de Aguilar, eu não estava no passeio, mas agora, depois dessa leitura, me sinto como se estivesse, tal a fidelidade da descrição. Parabéns por mais este presente. Esta merece entrar para o próximo livro! Pelas tiradas, o personagem parece ser rival do mau-humor, com perdão do trocadilho.

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  29. Agostinho Torres da Rocha Filho18 de setembro de 2020 18:11

    Mais uma ótima crônica!!! Tão suave que nem parece real. Apenas uma observação: da próxima vez, bebam com moderação.

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  30. O autor cada vez nos brinda com uma crônica diferente e que eu não consigo parar de ler até o fim. Excelente! Ah se a Globo o descobre. Daqui sairiam roteiros para especiais ou novelas.

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