quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Donas do amanhã

Gostei da notícia de que um pé de pequi, que dá frutos há mais de 10 anos, foi deixado no meio da rua recém-asfaltada pela prefeitura de Araguaína, no estado do Tocantins. Crianças ficaram apreensivas com a possibilidade de a árvore, tida como “de estimação”, ser derrubada na execução do serviço. A prefeitura reconheceu o clamor popular e que o pequizeiro não trará prejuízos ao trânsito. Uma ilha de concreto será instalada ao redor, além de sinalização no local.

 


Tirante eventual exploração político-marqueteira, é elogiável o incentivo à preservação ambiental, fruto do carinho de uma comunidade para com seu querido pequizeiro. E isso me faz recordar dois casos que já estavam devidamente arquivados no gavetão de minha memória.

 

Lembrei-me de uma velha estaca de madeira fincada próximo à linha lateral imaginária de um campinho de futebol que serviu de cenário para alguns rachas de minha infância. Fazia-se de surda e nunca ninguém conseguiu convencê-la a mudar de lugar para não atrapalhar os meninos. É verdade que nenhum de nós esbarrou na estaca, tampouco dela sofreu uma rasteira ou coisa parecida. Era como se fosse um árbitro sem apito, sem aborrecer os dois times nem interferir no resultado dos rachas.  

 

Recordei também de uma medida na mesma linha da adotada pela prefeitura de Araguaína, porém de amplitude mais abrangente. Há pouco mais de 20 anos estive numa cidadezinha de oito mil habitantes encravada no Alto Sertão do Pajeú, a 300 km da capital pernambucana, chamada Tuparetama. Além do clima ameno a 500 metros de altitude, vi que defronte de quase todas as casas havia uma árvore, algumas ainda bem pequenas. Procurei saber do prefeito como o município conseguia arborizar as ruas e qual o custo daquela iniciativa, certamente onerosa para o modesto cofre da prefeitura. Respondeu-me, sorrindo, que em cada casa havia uma criança que fora sensibilizada a cuidar de “sua” planta em troca de uma ajuda simbólica – algo equivalente a 10% de um salário mínimo –, desde aguar pela manhã e à tarde, passando pela arranca de ervas daninhas, uso de estrume, até cerca de proteção, se necessário.

 

Percebi ainda que não existiam muros com pichações e fotografias, comuns sobretudo em campanhas eleitorais. Em lugar de propagandas políticas com imagens e letreiros de gosto duvidoso, foram pintados nas paredes caiadas versos de poetas populares.

 

Nada muito rebuscado. Poemas simples, enxutos e intensos, extraídos da alma de uma gente humilde, como aquele em que Manoel Xudu relatou:

Mamãe me dava papa,

Me deu leite, me deu bolo,

Ela que me deu consolo,

Me deu carinho, garapa.

Mamãe que me deu um tapa,

Mas depois se arrependeu.

Beijou aonde bateu,

Desmanchou a inchação.

Quem perdeu mãe tem razão

De chorar, porque perdeu.

 

Ou como rabiscou João Furiba, não se sabe se inspirado numa galinha, numa cabra, numa novilha ou numa donzela, digamos assim:

Eu também estou tristonho

Porque perdi minha bela.

Eu quisera arrumar outra

Pra botar no lugar dela.

Nem precisa ser bonita

Basta ser igual a ela.

 

Fui-me embora no fim da tarde e nunca mais voltei à cidade. Agora me pego pensando sobre o destino daquelas crianças sertanejas da segunda metade dos anos 1990, tocadas desde cedo pelo amor ao meio ambiente e à poesia. Por que essas comunidades representam ponto fora da curva e viram notícia com aquilo que deveria ser regra natural, como aprender a ler, escrever e contar?

 

No começo deste ano, numa histórica reunião ministerial, um certo cidadão alertava os demais participantes sobre o que considerava ser uma oportunidade trazida pela pandemia da Covid-19. Para ele, o governo deveria aproveitar o momento em que o foco da sociedade e da mídia estava voltado para o novo coronavírus e mudar regras que poderiam ser questionadas na Justiça. Seria a hora, segundo ele, de fazer uma “baciada” de mudanças nas normas ligadas a proteção ambiental. Também nas suas palavras, hora de “passar a boiada”.

 

Resolvi checar a origem do sujeito e descobri o óbvio: não nasceu em Araguaína nem em Tuparetama. Talvez nunca tenha semeado uma planta ou cometido um poema. Se dedicasse um quarto de hora à leitura de Manoel de Barros, quem sabe descobriria que a importância de determinadas coisas não se mede com fita métrica, balanças nem barômetros, mas pelo encantamento que produzem nas donas do amanhã (as crianças de hoje), para quem plantas e poesias continuarão sendo indispensáveis. Certas criaturas, não. Podem ser trocadas até de “baciada”.

45 comentários:

  1. São esses pontos fora da curva que mais nos marcam positivamente, pela beleza de sua essência, principalmente nos dias de hoje, onde o culto de sentimentos negativos se alastra tal qual pólvora (com licença do uso da palavra, recentemente motivo de chacota).

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  2. Ler seus escritos me faz viajar no tempo, meu amigo. Me lembrei de quando, muito pequeno, ganhei na escola uma carteira de "guarda florestal mirim", com foto e tudo. Passava horas ao lado do jardim perto de casa torcendo pra algum desavisado arrancar uma flor só pra eu poder exercer minha autoridade.

    E muitos foram os rachas em campinhos imaginarios, onde os vários obstáculos, naturais ou não, delimitavam o raio da brincadeira, devendo ser devidamente driblados para não arrancarmos a tampa do dedão.

    A crônica inteira está à altura de seu autor, mas o último parágrafo foi meu preferido. Fechou com chave de ouro.

    Forte abraço!

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  3. Amigo Hayton, mais uma pintura. Cronica de muita qualidade, trazendo em seu conteúdo uma excelente reflexão. Exaltando o lado Bom, importante, merecedor de carinho, a Vida que traz bons exemplos, atitudes dignas de serem vistas e copiadas.

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  4. Não tem limites a criatividade dos alquimistas dos fatos ao transformá-los em crônicas. Transitam do Pajeú (Tupatetama) ao Araguaia (Araguaína) na moto náutica do pensamento.

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    1. Não conheço ninguém que saiba mais de Nordeste, em especial das coisas do Pajeú, do que você, meu amigo. Sabe muito bem, portanto, do que estou falando.

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  5. Excelente texto. Adorei as poesias.
    Abraço
    Zezito

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  6. Amigo, excelente crônica, pra ler várias vezes, situações importantes foram registradas: a árvore de estimação; as lembranças que ficaram de pontos marcantes; a boa ideia da arborização em uma cidade pequena; o passar boiada do ministro do meio ambiente que está lá para destruí-lo; e enfim com chave de ouro: a importância de determinadas coisas não se mede com fita métrica, nem balança..., 👏👏👏

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  7. Se o Brasil se descobrisse, deixasse a síndrome de vira lata, fosse apoiado por todas as esferas e níveis de governo, teríamos um país genuíno e único no planeta. O povo é bom. São as traças que atrapalham e carcomem o tecido social que temos de melhor. Se o pequizeiro foi preservado e os muros encantados, foi pelo povo bom. Já a boiada, passando, arrasa a alma das gentes. Gostei de sua reflexão. Show de beleza, simplicidade e realidade.

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  8. Infelizmente os bons exemplos que tivemos no passado, que certamente são vários espalhados nesse país, estão se perdendo por ambição e oportunismos.

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  9. Mais uma crônica que me levou "de volta pro passado"... lembrei de qdo no primário, no dia da árvore, fui escolhido para plantar uma muda, em cerimônia com a presença de todos do grupo escolar e claro, passei a ser o sentinela daquela muda. Pra minha satisfação algum tempo atrás voltei ao grupo para uma visita, com meus familiares e aquela muda cresceu e virou uma grande e maravilhosa árvore.

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  10. Um artesão das palavras comete coisas assim: descobre que havia uma árvore no meio do caminho. E que isso revira gavetas metafóricas do sertão das ideias pra nos oferecer uma baciada de ternura e amor à natureza.
    Que a gente continue sendo premiado com textos que nem precisam ser bonitos, mas que sejam iguais a este!

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    1. O artesão das palavras aqui é o que acaba de tecer um comentário poético como este, uma colcha de sentimentos.

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  11. Muito bom fazer uma leitura amena dessa natureza logo pela manhã.deitado na rede na varanda observei que a craibeira, árvore frondosa, defronte a minha casa, está totalmente florida como já estivesse anunciando o Natal.
    Parabéns mais uma vez.

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    1. Pela caligrafia, pela varanda e pela craibeira, deu para perceber que é você, meu caro Bob Fernandes, o autor do comentário, mesmo sem a sua assinatura. Valeu!

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  12. Comentário de Wilson Pedreira em mensagem trocada comigo sobre a crônica:

    "Muito bom, uma crônica tipo receita. As nossas cidades deveriam exercitar essas culturas. As árvores, além do sombreamento, produziriam frutos e espaços culturais propocionariam os exercícios intelectuais."

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    1. Que bom, Silas, que ao compartilhar o texto entre seus contatos, consigamos expandir a ideia e, quem sabe, estimular outras pequenas e grandes iniciativas pelo país afora.

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    2. Mais uma bela descrição, nos faz acreditar na vitória da preservação e no repúdio aos atos insanos de dirigentes que não pensam assim.

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  13. Excelente texto. Parabéns!! Voltei ao passado, lembrando de mim mesmo.

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  14. Como sempre, mais uma pérola para embelezar o nosso dia.

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  15. Beleza pura!
    Começar o dia assim com esse texto é como aquele pequizeiro no meio da rua!
    Nos enche de doçura e esperança!
    Muito Grato!

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  16. A mais perfeita tradução da Crônica! Uma história pretensamente banal, contada com maestria, de forma deliciosa.

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  17. Hayton, esta está imbatível p um cabra com minha cabeça. Começa lindamente e termina com um lindo recado.

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  18. Sempre um dos meus melhores momentos da semana, trazidos pela prosa cheia de lirismo de meu “amigo” Hayton. 🙌

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    1. Sua generosidade dispensa “aspas”, meu cronista amigo. Abração!

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  19. Muito bom! Não aguentei: fui pesquisar no Google - Tuparetama. Vi um filme em que há árvores diante das casas. Só que todas podadas em quadrado ou redondo por algum esteticista desavisado. Se alguém quiser ver: https://www.youtube.com/watch?v=zo2IyGYQ_3k

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  20. Você tem pouco de Manoel de Barros, Mário Quintana, Drummond, Bilac e também de Nelson Rodrigues...rsrsrs

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    1. Confesso que não leio Bilac. Os demais, leio tanto quanto posso. Isso acaba influenciando o jeito de me expressar. “Convivência” pega até boca torta, como se diz por aqui.

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  21. Estive no campinho de futebol, e até cumprimentei a estaca. Plantei uma muda de saudade na calçada, e me vi tocando afetos, em forma de regas. Escrevi na parede da lateral da igreja uma poesia também: "O amor é uma gota, que goteja dentro nós, de tanto que se nos molha, desfaz todos os nós". Depois fui passear pelo parente famoso, um Barro de poesia, e senti as iluminuras das lamparinas do sertão, adentrar meu ser e florar lembranças. De um tempo que precisamos voltar a crer, e sair, de toda nossa ressignacao e defender a árvore que nos resta, à frente da futura rua de nossa casa comum. Obrigado pela maravilhosa viagem e reflexão que nos possibilitou.

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  22. Não bastasse o brilho da redação, você aínda encontra sempre um tema que nos sensibiliza fortemente.
    Entusiasmado assumido com os prodígios da MÃE-NATUREZA, não posso deixar de me sensibilizar com os exemplos de Araguaína e Tuparetama.
    Não me surpreenderia se um alucinado aí, querendo agradar a figuras tão em voga pedisse a interdição do atual gestor público da primeira.
    Afinal, há coisas que só acontecem em Pindorama...

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  23. Acho, mesmo com alguma discordância da conclusão, que o liame -- pequizeiro, árvores de Tuperatama, baciada -- foi perfeito, digno dos melhores comentaristas da Folha de São Paulo ou Estadão.

    Você, como ninguém, sabe introduzir lembranças remotas, poemas simples e filosóficas letras musicais para abrandar
    histórias que em outras mãos tornar-se-iam ásperas.

    Em Donas do amanhã, você me fez relembrar os campinhos de futebol das peladas de outrora, como o de Coqueiro Seco -- um ladeirão cheio de tiriricas e urtigas; ou o do Guardiano, com uma jaqueira centenária no meio do campo; ou ainda, o do Colégio Diocesano de Maceió, em que tabelávamos com as mangueiras. Bons tempos!

    Valeu, Hayton!

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  24. Belíssimo texto Hayton!
    Essas viagens que você faz, com maestria, dos pequizeros às salas de reuniões onde decisões importantes são tomadas, afetando a vida de todas as árvores do planeta, são perfeitas. A esperança não pode morrer mas é necessário lembrar que todos fomos "donas do amanhã" um dia.

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  25. São essas lembranças que nos fazem admirar como é prodigiosa nossa memória, principalmente para coisas que nos foram caras!!!

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  26. Lembro que quando estudei no colégio Diocesano, na antiga rua do Macena, hoje secretaria da agricultura, havia um campo de futebol, pontilhado de pés de oiti. Jogávamos, pisando e trombando, em troncos de pés de oiti, mas nunca passou em nossa mente, cortá-los. Inesquecível!

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  27. Agostinho Torres da Rocha Filho28 de novembro de 2020 08:42

    O texto retrata com rara propriedade dois aspectos contraditórios da natureza humana: a necessária preocupação com a preservação do meio ambiente, disciplina que integra a grade curricular do ensino fundamental brasileiro, e o absoluto descaso das autoridades governamentais desse mesmo país com o futuro do planeta. O meio ambiente refere-se ao conjunto de fatores físicos, biológicos e químicos que cerca os seres vivos, influenciando-os e sendo por eles influenciados. Sua conservação, portanto, é uma questão de sobrevivência da espécie e deve ser objeto reflexão e debate social. Parabéns, irmão!!! A crônica nos induz a fazer uma profunda reflexão sobre o tema.

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  28. "Baciada" me lembra tratar pessoas como gado. Grande perda de tempo, de oportunidades e de vergonha...É sintomático a fartura de sensibilidade, dos "roçados" de sonhos, que existem em pequenas comunidades, muitas delas, "encastroadas" no Sertão - que é do tamanho do mundo - quase sempre repleta de personagens que, certamente, foram colocados lá, pelo Criador, quando, em verdade, são Anjos disfarçados.

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  29. "Baciada" me lembra tratar pessoas como gado. Grande perda de tempo, de oportunidades e de vergonha...É sintomático a fartura de sensibilidade, dos "roçados" de sonhos, que existem em pequenas comunidades, muitas delas, "encastroadas" no Sertão - que é do tamanho do mundo - quase sempre repleta de personagens que, certamente, foram colocados lá, pelo Criador, quando, em verdade, são Anjos disfarçados.

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  30. Excelente crônica! Fique a refletir sobre duas coisas: ações poderosas às vezes ou na maioria das vezes são simples e o porque de eu ter lido tão pouca poesia ao longo da vida (acabei de comprar o livro sobre nada).

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  31. Sou do Pajeú e tive a honra de trabalhar em Tuparetama. Um povo que merece respeito, principalmente pelo grande amor que tem a sua terra. É admirável.

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  32. No meu tempo de criança, ainda no início do ensino primário, a professora nos ensinava cantar e idolatrar uma árvore. No dia da árvore, 21 de setembro, cada um de nós plantava uma cantando uma música que dizia que ou flores ou frutos ou sombra dará... esse amor que se cria, e não se aprende, já não é difundido mais. Como muitos são amantes do caos, apostam para ver no que dá. Uma pena. Sobre o pé de pequi, felizmente é proibido derrubar. Há incentivo financeiro para protegê-lo.

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  33. Viajar no tempo lendo seus textos impecáveis é bom demais. Quando criança, no Nordeste, eu e amigos íamos sempre pegar pequis a uma distância de algumas léguas, para depois comer ou cru ou cozido. Suas narrativas são como uma cápsula do tempo. Parabéns!

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  34. Excelente crônica! Deixou seus leitores com saudades de tempos felizes e mais parece uma poesia.

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  35. Excelente crônica! Deixou seus leitores com saudades de tempos felizes e mais parece uma poesia.

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  36. Eu lembrei dos bons tempos da minha infância, fui á Carangola, na imaginação, e voltei pra SP onde vivo hoje! Mais um belo texto... 👏👏👏👏👏

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  37. Boa noite, grande Hayton. Amo plantas, sejam elas robustas árvores, ou uma simples plantinha de vaso; aliás, amo a natureza no seu estado original. Como seria maravilhoso se toda família cultivasse esse belo hábito de preservação da natureza! Eu cresci vendo minha mãe cuidando de plantas e de hortas, mas sempre manteve aquela pequena árvore de frente do nosso casarão! no nosso estado do Maranhão, principalmente nas cidades interioranas, ainda hoje é costume se plantar uma árvore na frente de casa. Quem de nós quando crianças não gostávamos de subir em arvores? Como sempre suas crônicas nos remetem aos bons tempos de infância! Obrigada Hayto, por nos fazer viajar pelo tempo.

    Um abraço

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