quarta-feira, 4 de novembro de 2020

E aí, Neguinho, sumido, hein?!

Na coleção O Mundo da Criança que havia na estante de livros lá de casa, minha irmã e eu, aos dez e nove anos de idade, um dia descobrimos e ficamos impressionados com uma lenda afro-cristã cuja origem remonta ao fim do século XIX. Foi muito popular entre os abolicionistas gaúchos que lutaram pelo fim do vexame da escravidão numa terra de dimensões continentais.

Dizia-se que um fazendeiro cruel com seus escravos e peões mandou que um menino negro vigiasse no pasto alguns cavalos que acabara de comprar. De tardezinha, faltava um animal. O patrão então pegou um chicote e deu uma surra tão dura na criança que feriu feio suas costas. E arrematou aos gritos: "Vai ter que achar o cavalo agora ou vai ver o que acontece!". 


Negrinho do Pastoreio


O menino então saiu à procura do animal. Algum tempo depois, encontrou-o num pasto nativo, laçou-o, mas a corda arrebentou e o bicho desapareceu de novo no meio da escuridão. De volta à fazenda, o dono, mais truculento que antes, bateu de novo na criança e a amarrou sobre um formigueiro. Quando amanheceu, ela estava gelada, com os olhos opacos, inerte. 

Mas, de repente, lá estava de pé, com a pele lisinha feito louça, sem as marcas das chibatadas que sofrera no dia anterior. À sua direita, a Virgem Maria; à esquerda, o cavalo fujão. O fazendeiro ajoelha-se arrependido, o menino se faz de mouco, beija a mão da santa e vai-se embora. 


Daquele dia em diante, andarilhos, bêbados, loucos espalharam pela região terem visto passar uma tropa de potros tocada por um moleque num cavalo de pelo castanho, crinas pretas e longas. Diziam que, se alguém perdesse alguma coisa, à noite o menino a encontrava, mas só devolvia a quem lhe trouxesse uma vela acesa, cuja luz levaria ao altar da santa que o livrara da escravidão. Nascia a lenda do Negrinho do Pastoreio.

Pois bem. Toda vez que perdíamos algum brinquedo, livro, caderno ou lápis, tanto minha irmã quanto eu acendíamos uma vela sobre a mesa da sala de jantar e implorávamos pela ajuda do Negrinho. E, verdade seja dita, ele nunca vacilou conosco, apesar da distância que separava o Sertão paraibano e o Pampa gaúcho dos anos 1960.

 

Havia, certamente, alguma influência daquilo que nosso pai escutava em sua radiola Teleunião, na voz de uma gauchinha arengueira que encantou uma das plateias mais exigentes do mundo  primeira brasileira a pisar no palco do Teatro Olympia de Paris – com a obra-prima de Edu Lobo e Guarnieri, ligada à história dos escravos e seus descendentes entre nós:

“Upa neguinho na estrada

Upa pra lá e pra cá

Vixi, que coisa mais linda

Upa neguinho começando a andar

Começando a andar, começando a andar

E já começa a apanhar...”

 

Não posso falar por minha irmã, mas, por mim, com o esfriar da inocência, fui deixando de lado aquelas promessas ingênuas e passei a aceitar melhor o dualismo da vida com seus planaltos e planícies, sua gaveta de achados e perdidos, depois que aprendi a mais básica das lições: uns dias chove; noutros, bate o sol.

 

Perdi muita coisa de lá para cá. Claro que não me refiro ao sumiço de amigos passageiros, à partida dos filhos da mesa em que almoçávamos ou à fita de chegada de uma corrida de obstáculos profissionais de mais de quatro décadas. Chega uma hora em que a gente se dá conta de que sofrer com o inevitável é mais uma perda: de tempo.  

 

Se aqui na terra ainda estivessem jogando futebol como antes. Mas não vejo novos pelés, tostões, rivellinos, zicos, falcões, reinaldos, romários ou ronaldos. Também já não ouço muito samba nem rock’n’roll. Onde em se plantando tudo dava, já não brotam mudas de chicos, claras, elises, paulinhos, rauls, ritas, tons ou vinícius.  

 

A coisa aqui está feia! É muita erva daninha infestando jardins, quintais, florestas e pantanais, inclusive algumas urtigas com suas togas encardidas e amarrotadas. Só o Negrinho do Pastoreio na causa! 

 

Mas não posso nem quero abusar da paciência de meu velho e caro amigo. Ele deve andar pelo pescoço com tantos pedidos. Daqui a pouco vão faltar velas até nas bodegas de ponta de rua desta terra de frustrações continentais.

42 comentários:

  1. Que texto maravilhoso! Uma introdução brilhante e com uma adaptação final fantástica.

    ResponderExcluir
  2. Texto espetacular! De uma sutileza...
    Abração, Hayton
    Zezito

    ResponderExcluir
  3. Conclusão a que chego é que na vida mais perdemos que achamos. E isso nem o Neguinho do Pastoreio resolve. Mas a busca continua.

    ResponderExcluir
  4. A quem interessar possa: A irmã supracitada sou eu! A coleção MUNDO da criança nos acompanhou na infância e adolescência. 15 volumes maravilhosos, iniciavam com pequenos poemas, contos internacionais, o volume 7 denominado " A Natureza" é por aí vai... tinha orientações psicológicas, trabalhos manuais, exercicios físicos, práticas e educacionais...perfeita!
    Quanto à Lenda, aí vai a oração que fazíamos (creio que o cronista não lembrava mais! Rsrsrsrs) Quem sabe ainda vai servir para algum leitor mais romântico?
    " Negrinho do Pastoreio,
    acendo essa vela pra ti.
    E peço que me entregues,
    a querência que perdi ".

    SENSACIONAL!! ( Nem sabia que lembrava disso!!)


    Ô saudade da minha inocência!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De fato, já não lembrava dos termos precisos da oração, com tintas gaúchas marcantes. Fiquei comovido. Tô ficando velho.
      Hayton

      Excluir
    2. Com uma reza dessas não há o que não se ache.

      Excluir
  5. Está lenda nos é ensinada na infância lá na minha terra. Que texto primoroso.

    ResponderExcluir
  6. Integração da lenda à realidade da pureza da criança à dureza do adulto é o que carrega essa crônica. Parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. é verdade. Outro dia discutia está questão das "tradições" educacionais de bater em criança pra educar e dizia que nunca precisei disso, até porque penso ser uma relação muito desigual. A crônica traz isso embutido p reflexão. Se uns tapas educacionais não tiram pedaço me parece que arranham o coração. Comigo foi assim...

      Excluir
  7. Hoje o cronista foi demais! 👏👏👏Realmente “quantas coisas estamos perdendo, só Neguinho do Pastoreio na causa!”
    Já li duas vezes e vou ler de novo.

    ResponderExcluir
  8. Meu Amigo, além de mais um belo texto, a expressão da situação atual. Muita reza, muito esforço na causa. Que a fé em dias melhores seja mantida: "Amanhã a de ser outro dia......".

    ResponderExcluir
  9. Estamos perdendo tanto que o Negrinho do Pasroreio não vai dar conta.
    Excelente texto, mais uma pérola para compor o cenário de nossa quarta feira.

    ResponderExcluir
  10. Belas referências ao futebol, música e crenças! Me permita, eu citaria tb o fabuloso Garrincha, que estaria próximo espiritualmente ao personagem principal: upa neguinho! O texto é mais um "doce de leite"... rsrsrs. Parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não citei, Didi, porque não tive o privilégio de ver Garrincha no esplendor da forma física, como vi os mencionados. Vi apenas lances esporádicos, descontextualizados da partida como um todo.
      Mas você tem razão ao lembrar, segundo relatos, o mais macunaímico jogador de futebol da história.

      Excluir
  11. Não posso ser ingrato com o Negrinho: ele achou um novo cronista e textos como esse de hoje!! Os tempos são sombrios, mas entendo que temos que fazer como o autor: procurar sempre nossa melhor versão possível!
    Hoje li um texto de um cronista português que dizia: “Não quero intimidades comigo mesmo.” De minha parte, se tiver dentro de mim ideias como as que levaram o Hayton a escrever a crônica de hoje, quero é muita intimidade comigo mesmo!

    ResponderExcluir
  12. Poxa, que maravilha!
    Bela história, com uma pitada de cultura!

    ResponderExcluir
  13. Não sobrou palavras pra comentar...
    Só elogios!

    ResponderExcluir
  14. Mais uma crônica construída com grande beleza e que remexe nas reminiscências de muitos, acredito, como a mim o fez, pois ouvi tantas vezes de minha mãe, na sua pureza de crença, para que eu recorresse ao Negrinho do Pastoreio, quando lhe dizia ter perdido alguma coisa. A crônica fez um efeito diferente em mim, porque não trouxe o que eu havia perdido, mas devolveu-me boas lembranças que estavam adormecidas.Bravo!

    ResponderExcluir
  15. Se não funcionar com o Neguinho, pode-se tentar com São Longuinho.

    ResponderExcluir
  16. EXELENTE!!! A busca continua, pois existem muitos amiguinhos pelas estradas da nossa cultura. Maravilha de texto irmão!

    ResponderExcluir
  17. Permita-me começar meu comentário com esta tuapérola: "Chega uma hora em que a gente se dá conta de que sofrer com o inevitável é mais uma perda: de tempo." Está é uma das maiores sabedorias da vida, e ela se chama acolhimento com serenidade. É o tempo que percebemos que algumas coisas são para levarem um perdido mesmo, e que talvez nossa melhor porção seja aquela que renasceu dos pedaços de alma que na peleja da vida foram se perdendo.

    ResponderExcluir
  18. Hayton, parabéns, hoje você realmente se superou.

    ResponderExcluir
  19. Jóias da infância que contribuem para moldar as personalidades adultas!!! Excelente crônica.

    ResponderExcluir
  20. Cara, esse texto pode frequentar a melhor coletânea de textos filosóficos que se possa reunir.
    Cada dia acho mais imperdoável o BB, que roubou por tanto tempo à literatura tal talento.
    Hoje bebo um vinho em sua homenagem, refletindo sobre essa pérola.

    ResponderExcluir
  21. Agostinho Torres da Rocha Filho4 de novembro de 2020 14:49

    Espetáculo de texto!!! Uma verdadeira lição de como transformar uma simples e ingênua lembrança da infância numa obra de arte literária. Parabéns, irmão!!!

    ResponderExcluir
  22. Tudo já foi dito sobre o texto, as lembranças, a criatividade, o que cada nova crônica sua é capaz de despertar nos leitores que semanalmente se deliciam com sua esplêndida, rica e diversificada produção literária semanal.
    De sorte que apenas restou parabenizá-lo, prezado Hayton. Então lá vai: Parabéns !
    Nasser.

    ResponderExcluir
  23. Quando li Negrinho do Pastoreio, ainda em criança, disse, de mim pra mim mesmo, "Gaúcho é cruel. Não vou pra'queles lados, não ". Ao longo da vida descobri que se trata de uma gente simples e trabalhadora que, sem o Negrinho do Pastoreio também perdeu muita coisa. A turma do Bonfim, as gurias que estavam "tri a fim", a galera do Beira Rio, o Fogaça e o Falcão.

    O Texto lindo que faz a gente viajar no tempo...

    ResponderExcluir
  24. Na rica infância do meu bairro pobre, não havia a figura do Negrinho do Pastoreio para se socorrer das perdas, mas sim reprimendas para sermos mais cuidadosos com os bens materiais. A figura de Nossa Senhora a proteger a criança indefesa das garras do algoz escravocrata ameniza a história. O meu temor é que, assim como fizeram com Monteiro Lobato, o patrulhamento ideológico e racista queira também censurar tão lindo conto. O Agostinho sintetizou com brilhantismo a excelência do texto.

    ResponderExcluir
  25. Amigo, a singeleza desse texto contrasta com o peso emocional que ele carrega. Você consegue viajar no tempo de uma forma tão leve quanto expressiva. Maravilha de crônica...

    ResponderExcluir
  26. Bela e intrigante reflexão, meu Amigo. Somos ainda iniciantes, nessa difícil arte de lidarmos com nossas perdas. Creio que, mesmo sabedores de sermos venturosamente abraçados pelas coisas boas que aconteceram em muito maior número que as ruins, em nossas vidas, ainda assim, não temos o mesmo sentimento de plenitude da Felicidade, que tínhamos outrora. Atribuo isso, às perdas que acumulamos ao longo de nossas jornadas. Também dessa deliciosa sintonia com o imaginário, a que, com a sensibilidade que marca sua escrita, você se referiu, nessa bela Crônica. Talvez precisemos de mais sonho, e menos realidade. Quem sabe nos encontremos novamente com o Negrinho do Pastoreio...

    ResponderExcluir
  27. Esse Negrinho é danado... encontra até tempo pra ser lembrado. Cresci com essa lenda. Era só pedir que ele atendia. Às vezes minha mãe me fazia rezar e pedir e, quando eu ia dormir, ela colocava o meu pedido onde ele deveria aparecer... quanto tempo imaginei pedir coisas e coisas. Espetacular crônica, meu amigo. Mais uma. abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. “...Às vezes minha mãe me fazia rezar e pedir e, quando eu ia dormir, ela colocava o meu pedido onde ele deveria aparecer...” Não é apenas mãe quem faz isso, meu caro Mazine. É santa!

      Excluir
  28. Hayton, você tem repertório para falar sobre todas as coisas que que nos alegram, atormentam, enriquecem, incomodam e acomodam. Parabéns meu amigo!

    ResponderExcluir
  29. Tenho inveja de não ter tido uma biblioteca assim na infância.
    O Pasquim me trazia o que precisava na adolescência. Música, poesia, filosofia, cartum, humor, vida underground, hippie, literatura.
    Lembro que, às segundas, quando chegava nas bancas o Pasquim, corria pra comprar e me pegava rolando pelo chão de tanto rir. Não era tanto política mas humor satírico e genuíno. Se tem alguma coisa que perdi de verdade foi isso. Mas depois dos sessenta, a memória pode nos trazer o que perdemos e é isso que você está fazendo! Continue!
    Não temos mais Pasquim!!!

    ResponderExcluir
  30. Maravilha de texto! Lá em casa também tinha essa coleção "O Mundo da Criança". Li e reli textos que ficaram na minha memória para sempre. Na minha adolescência li e colecionei fascículos de "Conhecer", da Abril Cultural. Posteriormente, o tablóide "Pasquim", cuja atriz Leila Diniz era a musa. Ainda tenho o compacto que veio encartado no jornal, com a música "Coqueiro Verde". Tudo isso fazia parte de um verdadeiro mundo encantado, que sumiu, que virou Pó...

    ResponderExcluir
  31. A essa altura da vida eu não conhecia a história por trás no "neguinho do pastoreio". Maneira fantástica de descobrir.

    ResponderExcluir
  32. Eu fiquei lendo e “ouvindo” as músicas parafraseadas. Depois parei pra pensar que talvez seja a crônica que foi criada para acompanhar o rolar de um disco do melhor de Elis. Na vitrola ou na mente, o que é a vida senão uma coleção particular de retratos e canções ?

    ResponderExcluir
  33. A lenda do Negrinho do Pastoreio passa pela vida da maioria das crianças gaúchas e comigo não foi diferente. É uma história triste, que traz belas lembranças à piazada gaúcha, bem como à meninada de outros pagos. Belíssimo conto.

    ResponderExcluir
  34. Hayton! Ajudando na recuperação de memórias impagáveis de nosso tempo.

    ResponderExcluir