quarta-feira, 2 de março de 2022

Cabeças desocupadas

Meu vizinho outro dia apareceu na piscina do prédio com uma conversa esquisita que me deixou preocupado. Ele não é médico, mas é daqueles que adoram ler bula de remédios recém-lançados para encher o saco do farmacêutico da esquina, criticando o peso dos interesses econômicos na saúde pública. Coisa de cabeça desocupada.

 

Falava ele da natureza humana, que o homem (leia-se: a pessoa do sexo masculino, enquanto essa classificação fizer algum sentido) desde criança tem uma certa sensação de imortalidade. Passa boa parte da vida livre dos transtornos que a mulher sofre, o que o faz mais relaxado com a própria saúde. Com o tempo, porém, percebe que a coisa não é tão simples como ele imagina e passa a dar mais valor aos cuidados médicos preventivos.

 

O que mais mete medo no homem – prosseguia – são os problemas com a próstata, as disfunções sexuais e a decadência física, ressalvando que isso também mexe com a cabeça da mulher. Para meu vizinho, a mulher pauta a vida em função da beleza e o homem, da força e da virilidade. E quando surgem os primeiros sinais de fadiga do material corpóreo – fenômeno natural até no campo da Física –, ele constata que tem prazo de validade. 

 

Ao me ver atento ao que pregava, engoliu corda e passou a discorrer com fartura de detalhes sobre seus achados literários. Para ele, dos grandes temores do homem, o pior é o crescimento benigno da próstata, que ocorre praticamente com todos (até com os gorilas), exceto com os natimortos e os mentirosos. 

 

Após os 40 anos – enfatizava ele, já assumindo um certo tom pedagógico –, a danada da glândula aumenta de tamanho e pressiona o canal da uretra. Isso faz com que o sujeito comece a urinar várias vezes ao dia, a perder o foco numa reunião se estiver distante do banheiro e a levantar-se de madrugada uma ou duas vezes, comprometendo o sono e o humor no café da manhã. 

 

Mas garantiu que esse crescimento benigno é quase inevitável. Todos vão ter, se bem que apenas um terço acusará sintomas mais significativos, capazes de exigir suporte médico. Nesse caso, assegurou que existem remédios que desobstruem parcialmente a uretra e permitem urinar e viver melhor. E que só 5% dos homens necessitam de cirurgia para desobstruir a uretra. 

 

Ainda segundo meu vizinho desocupado e estudioso, o problema não tem origem claramente definida. Surge por conta de um desequilíbrio hormonal no homem maduro, quando as células do órgão se multiplicam desordenadamente. E não tem como prevenir, só remediar.

 

No final, praticamente nos obrigou – eu e meia dúzia de moradores do prédio, que prestava atenção ao relato – a rever os testamentos e procurar saber o custo de um jazigo, quando arrematou convicto: “todo homem que chegar aos 99 anos vai ter câncer de próstata”. 

 

Metade dos que estavam na mesa foi procurar o que fazer noutro lugar. A outra metade, encharcada de cerveja e caldinho de peixe, preferiu assistir pela TV da guarita da portaria aos requebros da inesquecível Clara Nunes, entoando “Morena de Angola”, em videoclipe de 40 anos atrás. 

 

Muitos ainda relutam em ir ao médico fazer exame de próstata e só vão quando a mulher os empurra. Conheço um médico, aliás, que me contou que até nisso o papel delas na vida dos homens é decisivo. Para o doutor, “quem tolerou bem 20 ou 25 anos e superou as encrencas da vida conjugal é um casal sólido e a mulher possui um senso de preservação da família bem mais firme que o do homem...” 

 


E complementou: “sempre falo a meus pacientes da existência de dois tratamentos: um que prolonga a existência dele, mas pode causar alguma desordem sexual. Outro, que cura menos, mas preserva mais. E quase todo homem balança antes de optar. A mulher nunca hesita. Prefere o que assegura um pouco mais de vida ao maridão, apesar do risco de sacrificar o mais barato dos prazeres. Nunca vi uma aconselhar o tratamento que dê menos chance de sobrevivência, desde que ele se mantenha duro na queda. Ela prefere preservar algo mais grandioso que construiu com ele…”

 

Pois bem. Se você quer saber por que a conversa com meu vizinho me deixou preocupado, sobretudo depois que a juntei com aquilo que havia me contado o tal médico, devo confessar que este texto é puramente ficcional. Esses personagens não existem.   

 

Ou talvez existam. Já não estou tão certo. Dúvida também é coisa de cabeça desocupada que não tem nada mais sério a fazer do que se deitar numa rede limpinha e cheirosa vendo o sol se pôr, sem pressa alguma de chegar aos 99 anos. 

30 comentários:

  1. Na era das "narrativas" sou tentado a acreditar que o cientista de beira de piscina tem tanta razão quanto o médico. Boa quaresma, vamos aos 100 anos?

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  2. Qualquer semelhança com o que acontece com a maioria de nós pode não ser mera coincidência, exceto a aula médica. Vamos nos cuidar e rumo ao centenário.

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  3. Pra contar a conversa de um curioso o articulista estudou pra dedéu!
    Texto irreprochável (que língua a nossa, como disse certa vez Janio Quadros)
    Abraço do Antônio Sobrinho

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  4. Ou aos 120, como Deus prometeu à Moisés!

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  5. Ficcional ou não, o texto demonstra a relevância da prevenção. Vamos que vamos…

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  6. Essas figuras existem sim, estão sempre dispostas a indicar remédios ou o contato de bons médicos para um tratamento. O médico da charge deve ter sido inspirado no Dr. Fragomeni, quem não o conheceu na Cassi, muito parecido...hehehe. Abs

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    1. A ilustração é de Umor, excepcional cartunista, cantor e compositor baiano, além de bancário aposentado. Só ele pode esclarecer qual a fonte de inspiração.

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    2. rsrsrsrs...na verdade, a fonte de inspiração parte da aflição que toma conta das cabeças de quem tem um "fragomeni" protagonizando essa "ameaça"...kkkk

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  7. pior que ele tem razão, em parte. Sera?

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  8. Doença da próstata é assunto muito sério. Eu mesmo atualmente estou me submetendo à quimioterapia e hormonioterapia para tentar conter a recidiva de um câncer que enca tratado com radioterapia e hormonioterapia há 09 anos atrás. A prevenção ajuda muito.

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    1. Seu depoimento, meu caro Alcione, é da maior relevância para acordar os incautos. Obrigado por compartilhar!

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  9. Muito bem tio! Texto muito informativo e importante, através de uma leitura descontraída. Parabéns aos homens que se cuidam.

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  10. Espero ter inspirado um bocadinho o escriba, com meu livro “Câncer, eu? Memórias alegres de um medo profundo”. Com todo o bom humor possível, conto as peripécias de quem foi “surpreendido” com um câncer de próstata - que todos nós sabemos que poderemos ter, mas agimos como se só acontecesse com os outros.
    Tem gente que acha que sua masculinidade está reduzida a receber ou não o toque retal de um médico, em ambiente hospitalar, que dura poucos segundos. Perguntinha inevitável: que masculinidade é essa?
    Detalhes importantes: eu estou curado graças à prevenção. E sem querer fazer alarde, uns 10 amigos que leram o livro e tomaram coragem de fazer exames preventivos também conseguiram debelar suas doenças porque as descobriram no início.
    Vamos rir de nós mesmos e viver mais, com qualidade?

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    1. Claro que seu livro, meu caro Riede, serve-me de inspiração permanente. Ninguém nunca abordou o tema como você: com profundidade, mas sem perder a leveza jamais. Por isso, desde que foi lançado em 2020 que sempre que surge oportunidade sugiro a amigos a sua leitura.

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    2. Obrigado pela força, amigo! Abraço

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  11. Esse vizinho sabe das coisas. É um excelente conselheiro. Vamos cuidar pra passar dos 99 e rumo aos 120.

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  12. Bom Dia, caro amigo Hayton...
    Sua crônica, desta vez, mexeu com boa parte de seus fiéis leitores. Esse assunto assusta e, algumas vezes, apavora o homem e, por vezes, abala a harmonia familiar...
    Nessas ocasiões, o grupamento de seres do "sexo forte" torna-se frágil como manteiga só sol...
    Continuemos, pois, cuidando e preservando nossa saúde.
    Forte abraço.

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  13. Especialistas de beira de piscina a parte, seu texto dá “um toque” a todos, sem trocadilho (ou com, quem sabe!).

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  14. Se o seu texto é puramente ficcional ou não, se existem ou não os personagens, não importa: a leitura é leve, agradável e estimula a gente aos cuidados preventivos. Eu mesmo, do alto dos meus quase 81 anos, sigo as prevenções querendo chegar aos 99 - quiçá aos preconizados 120!
    Conheço parentes, amigos e vizinhos - não ficcionais - que costumam "receitar" este ou aquele remédio para esta ou aquela doença, afirmando que o próprio (ou alguém conhecido) colheu bons resultados! rsrsrs
    Muito boas as inspiradas ilustrações do meu caro Umor!
    Abraços,
    Abbehusen

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  15. Muito oportuna essa abordagem. Os “caras” se escondem atrás do “machismo” fugindo da temida “dedada”.
    Há cerca de 15/16 anos fiz prostatectomia radical, e me sinto em condições de chegar aos 99 anos, com saúde, entretanto, sem o mesmo vigor, a mesma virilidade de um “atleta sexual” de 20/25 anos.
    O mais importante de tudo é que estou vivo e me sinto “vivo”.

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  16. Élzio Cardoso Prado2 de março de 2022 12:42

    Falayton, meu amigo antigo e colega. Desculpe não ter falado com você e não ter comentado sobre seus escritos. Estou com problemas de visão e, também, com muitos problemas familiares para resolver. Sobre seu escrio que lí hoje, vou dizer que já passei e estou passando por essa situação que os homens passam, referente à próstata, depois dos 50 anos de idade. Em 1996, fiz cirurgia de próstata. Vc Eu ia completar em março de 1996, 61 anos de idade. Em fevereiro fiz cirurgia de próstata. Minha próstata estava muito grande, pesando 120mg. Meu médico não arrancou toda a próstata. Deixou a raiz. Ele me disse que, se eu estivesse vivo depois de 10, teria que fazer outra cirurgia, porque a próstata ia continuar crescendo. Mas, até agora não foi preciso fazer outra cirurgia, porque a próstata continuou crescendo muito lentamente, porque ele me receitou uma medicação muito boa que controla o crescimento. Até hoje eu contínuo sendo atendido por ele, duas vezes por ano.

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  17. Os humanos são os únicos seres que têm polegar direito opositor e telencéfalo altamente desenvolvido. Alguns, supondo-se de uma classe superior, se julgam "imorríves", "imbroxáveis", "incomíveis". Os macacos, ao contrário dos humanos, não têm telencéfalo desenvolvido, nem polegar direito opositor. Mas, ao contrário daqueles - ô raça! -, não broxam e, se têm câncer de próstata, nunca ouvi falar.
    .
    A inveja não é sentimento nobre. Mas, neste momento, tenho inveja. Dos macacos!
    .
    Cuidem bem da próstata de ocês. Uma dedada pelo menos uma vez por ano não mata ninguém.

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  18. Ainda bem que esse texto e os personagens são ficcionais. Já estava ficando preocupado. Kkkk

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  19. Rumo aos 100 anos bem vividos! Avante!

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  20. Mesmo sendo uma ficção, o velho ditado funciona aqui: de médico e de louco... mas todo cuidado é pouco. Há quem queira viver e os que arriscam pra ver no que dá.

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  21. Hahahahahaha
    Surpreendente, leve, provocativo, oportuno.
    Muito bom!

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  22. Como costumo dizer, não há tema - de parto a atracação de navio - sobre o qual você não discorra com proficiência.
    Agora passeia por uma área mais que sensível ao homem, afinal o exame não é só doloroso, mas também humilhante para aqueles que se consideram absolutamente invulneráveis - vou ficar aqui só de espectador.
    Sendo ou não pescador, o cara sofre - e uso a referência por lembrar de duas tiradas geniais suas em uma crônica de seu novo livro. Ali você diz que quem tem e quem não tem PIRARUCU, tem medo. Aconselho a leitura.
    Grande abraço.

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  23. Excelente texto - perdoe-me pelo pleonasmo. Acho conveniente consultar, também, o Médico dos Médicos: Dr. Jesus Cristo. Ele continua operando milagres. Graças a Deus!

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  24. Comentário de Roberto Ferreira da Silva.

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  25. Assina: Roberto Ferreira da Silva

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