quarta-feira, 16 de março de 2022

Choro e ranger de dentes

Do jeito que as coisas andam, em breve assistiremos  em bares, telas e lares, a animais supostamente racionais se atacando a mordidas, entre grunhidos e rosnados. Isso, óbvio, caso prevaleça o bom senso: não se opte por algo mais natural aos seres humanos como o emprego de armas (brancas ou de fogo) para aplainar diferenças de opinião, inclusive entre membros de uma mesma família.

 


Não será novidade para quem, como nós, vimos o
ex-atleta corintiano Emerson Sheik quase arrancar um pedaço da mão do argentino Matías Caruzzo, do Boca Juniors, na final da Copa Libertadores de 2012, no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Ou o zagueiro italiano Giorgio Chiellini, sentado no gramado da arena das Dunas, em Natal, urrando de dor com o ombro cravejado pelos dentes do centroavante uruguaio Luis Suárez, na fase de grupos da Copa do Mundo de 2014. Ou, mais remotamente, o ex-pugilista norte-americano Evander Holyfield, em 1997, na arena MGM, em Las Vegas, nos Estados Unidos, espumando de raiva ao ser abocanhado por Mike Tyson, que lhe rasgou um pedaço da orelha e cuspiu no chão, o que só aumentou a dor da ofensa. 


Nos três episódios, um detalhe em comum me chamou a atenção: nenhum dos canibais utilizou um pedaço de fio dental ou um palito para limpeza da arcada dentária, higiene mínima antes da próxima investida. Nem mesmo aquela escovinha básica com as cerdas desgastadas e nojentas.

 

Mordeduras humanas são mais frequentes do que se imagina. Andei lendo sobre o assunto e descobri que ocupam a 3ª posição entre as dentadas de mamíferos mais comuns, atrás apenas das ocorrências envolvendo cães e gatos. Os bichos (inclusive o da Receita Federal que nos morde sem dó todo santo mês), entre latidos e miados, têm a seu favor o fato de não possuírem repertório de palavras e gestos para aparar as arestas numa discussão. Desconfio, aliás, de que Lobão (não o cantor e compositor de “Me chama”, mas um poodle que havia lá em casa) se fazia de surdo só para não ter que me trazer jornais, revistas ou água.

 

Em crianças, ao que apurei, os estragos causados pelas dentadas são mais corriqueiros nos braços e nas mãos, no tronco ou no rosto. Já em adultos e adolescentes, nos membros superiores, principalmente quando do revide a murros ou tapas contra a boca. 

 

Em adultos, cerca de 15% das lesões por mordidas curiosamente acontecem durante as estripulias sexuais. Os experts não deixam claro quais seriam as partes mais afetadas nem se isso estaria ligado à fúria ou ao prazer dos envolvidos. Se bem que, tirante aquelas pessoas que nunca experimentaram da fruta ou não sabem do que estou falando, todos fazem ideia de como essas coisas acontecem.

 

Descobri que os molares do ser humano podem apertar mais de 100 kgf (quilograma-força). Superam inclusive o orangotango, mas ficam atrás do chimpanzé e do gorila, por exemplo. Não são as mordidas mais perigosas e temidas do reino animal, porém são capazes de causar lesões graves e amputações em dedos, nariz, lábios, orelhas e até órgãos genitais, onde a pele é mais fina e sensível, por supuesto

 

Pior que a boca do agressor abriga uma vasta comunidade microbiana, com muitas bactérias que se fixam na mucosa, na língua, na gengiva e nos próprios dentes, entre as quais Staphylococcus, Streptococcus pneumoniae, Treponema pallidum, etc. A depender da “pegada”, quando algum desses micro-organismos cai na corrente sanguínea da vítima, é aí que o bicho pega. Literalmente.

 

Pois bem. Se a mordida do ser humano, que possui 32 dentes (mais que cão ou gato), produzir mais que um rasgo superficial, atingindo articulações e tendões, há risco de causar graves problemas, como hepatite, sífilis, tétano ou tuberculose. O bafo-de-onça aqui é o de menos! 


Podem argumentar que estou sendo exagerado, paranóico, mas, insisto, do jeito que as coisas andam... A língua, por mais afiada que seja, corta bem menos que os dentes. E a forma como certos homens públicos (e seus seguidores) se olham ou se referem aos adversários me leva a crer que estamos prestes a assistir a milhares de mordidas furiosas, com direito a choro e ranger de dentes na fornalha eleitoral que vem aí.


O ser humano é tido como animal racional porque reflete e possui o dom da fala. É criado solto, sem coleira nem focinheira. Mesmo assim, vira e mexe morde o seu semelhante. E é mordendo que ele acaba revelando o animal que é. 

 


25 comentários:

  1. Tenho o sentimento que esta previsão de "mordidas à vista" tem a mesma probabilidade de ocorrer quanto os aumentos de combustíveis e derivados. Vamos nos prevenir.

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    1. Pois é… Vai ver já tem marqueteiro trabalhando com a hipótese de distribuir coleiras e focinheiras com a logomarca das chapas para proteção de imagem perante o eleitorado!

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  2. Mordidas não faltarão nesse ano eleitoral.

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  3. Na próxima eleição vai haver choros e ranger de dentes, meu caro Hayton.

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  4. Tema instigante, Hayton!
    Nós, que nos intitulamos Sapiens, a cada dia nos superamos na arte de praticar irracionalidades!
    Uma das causas é que cada um de nós só enxerga essas atitudes nos outros …

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    1. Verdade, Riede. Agora que as máscaras estão caindo é que veremos quem é quem, inclusive com a faca entre os caninos e os molares.

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  5. Isto é uma constatação, ilação ou profecia? A coisa anda meio sinistra mesmo. Tendo a ficar mais com o espelho que reflete sem refletir e mostra a verdade. Como a ciência diz que tudo tende a voltar às origens, irracionalidade à vista.

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    1. As contradições nunca foram tantas. Diferente do espelho, que reflete mais não fala, tem muita gente falando sem refletir por todos os lados, disposta ao tudo ou nada.

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  6. A língua, por mais afiada que seja, pode até cortar menos que os dentes, mas não é necessário esperar a fornalha eleitoral para assistir às mordidas furiosas. Na seara política já assistimos, há tempo e diariamente, mordidas verborrágicas de lado a lado sem direito a choro nem vela. E não é só na fornalha eleitoral não. Em nosso próprio meio assistimos e vemos discussões, ofensas e revides, de parte a parte, dos que não aceitam pontos de vista contrários, que ferem tanto quanto. E como se diz, a palavra, a exemplo da seta e da bala, depois de atirada só tem retorno com outra de maior intensidade e, de preferência, sem ranger de dentes. Que mundo cão esse dos nossos dias!

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    1. Você tem razão, Emídio. Essa história de “olho por olho, dente por dente” ainda nos fará uma nação de cegos e banguelas.

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    2. Dizia um sábio amigo meu: "A língua é um órgão sexual que os antigos, por ignorância, usavam somente para falar.

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    3. Verdade pura e crua essa situação. Muitas vezes pensamos em cancelar certos contatos para deixar de levar mordidas que doem na alma de tanto odio destilado pela lingua. Assistimos isso muito em grupos comuns.

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  7. Caro Hayton, Bom Dia...
    Há alguns anos (ou muitos) que somos soterrados por exageros e mentiras eleitoreiras. E há os que acreditam que isso é democracia... Pior, ainda, são as toneladas de leis que não são respeitadas, por terem sido produzidas para agradar ou favorecer um grupo minoritário, na maioria das vezes. Então, quando o bom-senso é deixado de lado, resta-nos, de fato, o "choro e o ranger de dentes" e sentar quietinho num canto e deixar a "vontade" passar, sem que isso caracterize omissão...

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  8. Essa crônica peculiar me fez lemrar daquela música de Don & Ravel, em que num trecho da composição diz: "Animais, animais, nós os homens somos todos meio animais irracionais.
    Levantamos, guerreamos e deitamos e rezamos antes.
    A vida é um sonho e nada mais. oh! cantem atrás.

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  9. As mordidas já acontecem. Haja curativo!

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  10. Muito bom. Neste ano eleitoral, as línguas serão mais perigosas do que as dentaduras.

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  11. Se isso é presenciar um fato histórico, posso dizer: Estava na Arena das Dunas no dia da tal mordida. E cheguei a uma conclusão singela. O melhor lugar para assistir a um jogo de futebol é no sofá de casa. Só tomei conhecimento do ocorrido quando a noite, em casa, assisti o noticiário televisivo.

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  12. Independentemente do tema abordado, o "leriado" usado por Hayton é muito bacana.

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  13. É… Prefiro pagar para não ver.
    Ainda bem que “Jesus não tem dentes, no país dos banguelas” (Titãs)

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  14. Análise mais do que precisa, também oportuníssima, em função do momento que estamos vivendo em nossa Pindorama.
    Aliás, há tempos venho dizendo que nunca o maniqueísmo se manifestou de forma tão contundente, em nenhum lugar, como aqui ocorre hoje - os petistas e bolsonaristas poderiam reivindicar o título de pós-doutorado na matéria, em qualquer universidade que porventura exista.
    Pra não deixar de falar em amenidades, mais que genial sua cutucada - "tirante aquelas pessoas que nunca experimentaram da fruta ou não sabem do que estou falando". Até quem possa nunca ter experimentado ficou com vontade de fazê-lo.

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  15. Amigo Hayton.
    Nestes tempos bicudos, os únicos animais que não mordem são os pássaros, porque bicam e os políticos, porque mentem.
    Um abraço

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  16. Nesse ano de eleição presidencial precisaremos de muita placa miorrelaxante para prevenção de fraturas dentárias e desordens na ATM, causadas por bruxismo/estresse, além das mordidas. 😬😬😆😆

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  17. Verdade, meu Amigo. Essa abordagem, confesso, não me veio em nenhum momento à cabeça. São estatísticas bem interessantes. Quando pensamos que a evolução pressupõe o abandono de certos hábitos de que se fazia uso nos primórdios, eis que alguns os resgatam, como é o caso dessas mordidas, muitas delas praticadas por "famosos" em situação de conflito...

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